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Open-access ESTUDO PSICOMÉTRICO DO INVENTÁRIO DE PERSPECTIVA TEMPORAL (ZTPI) NA EDUCAÇÃO SUPERIOR

Resumo

Estudos da psicologia demonstraram nas últimas décadas que a Perspectiva Temporal tem efeito consciente e voluntário nos comportamentos humanos no tempo presente, por isso, é considerada uma variável importante para compreendê-los. Assim, vislumbram-se caminhos para investigações no campo psicoeducacional, pois, cursar uma graduação representa a busca de uma meta futura e envolve comportamentos que estão organizados a partir da integração dos diferentes tempos, passado, presente e futuro. O objetivo deste estudo foi buscar evidências de validade da estrutura interna dos itens de um do Inventário de Perspectiva de Temporal de Zimbardo e Boyd (2014), visto que, os autores buscaram em seu modelo uma medida multidimensional de orientação do tempo. Participaram deste estudo 676 universitários de diferentes cursos e diversos períodos da graduação. Foram realizadas análises estatísticas descritiva (médias, desvio padrão e índices percentuais), comparativas, correlacional e inferencial (análise fatorial confirmatória). Os resultados da AFC corroboraram em parte com modelo estrutural proposto pelos autores, pois, confirmou quatro das cinco dimensões temporais: Passado Negativo, Presente Hedonista, Presente Fatalista e Tempo Futuro. A dimensão Passado Positivo não se confirmou com a amostra da presente pesquisa, o que indica a necessidade de novos estudos com o modelo na amostra brasileira, visando assim, ampliar as evidências psicométricas do instrumento na Educação Superior.

Palavras-chave:
perspectiva temporal; educação superior; metas.

Abstract

Psychological studies have shown in the last decades that Time Perspective has a conscious and voluntary effect on human behavior in the present time, therefore, it is considered an important variable to understand them. Thus, we envision paths for research in the psychoeducational field, therefore, taking a degree represents the search for a future goal and involves behaviors that are organized from the integration of two different times, past, present and future. The objective of this study was to search for evidence of the validity of the internal structure of two items of a Temporal Perspective Inventory by Zimbardo and Boyd (2014), since the authors sought in their model a multidimensional measure of temporal orientation. 676 university students from different courses and different graduation periods will participate in this study. Descriptive statistical analysis (means, standard deviation and percentage), comparative, correlational and inferential (confirmatory factorial analysis) were performed. The results of the AFC corroborate in part with the structural model proposed by the authors, thus confirming four of the five temporal dimensions: Negative Past, Hedonistic Present, Fatalistic Present and Future Tempo. The positive Passed dimension was not confirmed with the sample of the present research, or that indicates the need for new studies as the model in the Brazilian sample, thus aiming to expand the psychometric evidence of the instrument in Higher Education.

Keywords:
temporal perspective; college education; goals.

Resumen

Los estudios de psicología demuestran en las últimas décadas que la perspectiva temporal es efectiva y consciente y voluntaria de los comportamientos humanos en el tiempo presente, por lo que se considera una variable importante para comprenderlos. Assim, vislumbram-se cami-nhos para investigações no campo psicoeducacional, pois, cursar uma graduação representa a busca de uma meta futura e involucra componentes que están organizados a partir de la integración de dos diferentes tempos, pasado, presente y futuro. El objetivo de este estudio es buscar evidencias de validación de la estructura interna de los elementos de un Inventário de Perspectiva de Temporal de Zimbardo e Boyd (2014), visto que, los autores buscarán en su modelo una medida multidimensional de orientación del tempo. Participan de este estudio 676 universidades de diferentes cursos y diversos períodos de graduación. Se realizaron análisis estadísticos descriptivos (medias, desviación estándar y porcentaje), comparativos, correlacionales e inferenciales (análisis factorial confirmatorio). Los resultados de AFC corroboran en parte con el modelo estructural propuesto por los autores, pois, confirmou quatro das cinco dimensiones temporales: Passado Nega-ivo, Presente Hedonista, Presente Fatalista y Tempo Futuro. A dimensão Passado Positivo não se confirmou com a mostra da presente pesquisa, o que indica a necessidade de novos estudos com o modelo na amostra brasileira, visando asim, ampliar as evidências psicométri-as do instrumento na Educação Superior.

Palabras clave:
perspectiva temporal; educación universitaria; objetivos.

1 INTRODUÇÃO

A Perspectiva Temporal (PT) é uma teoria consolidada no campo da psicologia a partir das premissas cognitivista, e tem sido o foco de diversos estudos internacionais nas últimas décadas (Lens, 1993; Husman, Lens, 1999; Nuttin, 2014; Simons et al., 2004). Zimbardo e Boyd (2014) afirmam que na PT, o tempo presente se trata de uma integração entre os outros: passado e futuro. Assim, eventos que já aconteceram ou que ainda vão acontecer têm influência no comportamento humano no tempo presente.

A necessidade de investigar a PT em suas relações com a Educação Superior surge na pertinência que as metas futuras exercem nesse contexto, que inclusive, se ampliou e democratizou no Brasil nas últimas décadas, tornando-se uma etapa educacional de visibilidade e importância social, cultural e econômica. Segundo Almeida et al., (2012), Santos et al., (2013) e Vargas e Heringer (2017), o ingresso nos cursos de graduação cresceu significativamente no país, justamente pela relevância que esse nível passou a ter na vida dos indivíduos como maneira de desenvolvimento em diferentes aspectos. A democratização do acesso incorporou esferas sociais que não ingressavam na universidade até então (Almeida et al., 2012).

De acordo os dados do censo sobre o Educação Superior no Brasil realizado pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), houve um crescimento acelerado tanto no número de instituições quanto nos de ingressantes nos cursos de graduação nas diferentes instituições que os ofertam. No último censo, realizado tendo como base o ano de 2020, o Brasil totalizou 2.457 IES. Deste total, 2.153 são privadas e 304 públicas. Sobre a oferta de curso totalizaram 41.953 cursos e mais de 8 milhões e 600 mil matrículas (IBGE, 2020).

Estes números resultaram na expansão do acesso da Educação Superior a uma população heterogênea, e ainda, há uma grande parcela da população que no século XX não tinham oportunidade de ingresso no ensino que não é básico, obrigatório e gratuito (Almeida, et al., 2012). Diante do novo contexto, emerge a necessidade de investigações com os universitários, bem como, acerca das variáveis com o compõem. Cursar uma graduação, buscar uma formação profissional em nível superior implica o estabelecimento de metas, seja a curto ou longo prazo, bem como, a realização de objetivos e comportamentos cotidianos e graduais para alcança-los.

A revisão bibliográfica que compôs a contextualização deste estudo evidenciou apenas uma pesquisa brasileira nos últimos 20 anos sobre a PT a partir da teoria Zimbardo e Boyd (2014), a de Leite e Pasqualini (2008). Tal dado impulsionou o estudo considerando as mudanças no contexto do Ensino Superior brasileiro nesse período. Como já mencionado, houve uma expansão nas matrículas, na oferta de cursos, no número crescente de Instituições de Ensino Superior, o que resulta em mudanças culturais e educacionais nesse nível de ensino. Se em 2020 foram cerca de 8 milhões e 600 mil matrículas, em 2008 tinha-se quase 3 milhões a menos (5 milhões e 800 mil). Em 2020 somaram-se quase 42 mil cursos, enquanto em 2008 tinha-se cerca de 25 mil cursos (IBGE, 2009; 2020).

Autores internacionais da área da psicologia e também da psicologia escolar desenvolveram estudos nessa perspectiva, o que contribuiu para se estabelecer um referencial teórico para investigações no cenário brasileiro (Lens, 1993; Husman, Lens, 1999; Simons et al., 2004; Husman; Hilpert; Brem, 2016; Zimbardo; Boyd, 2014).

Sendo assim, este estudo teve como objetivo buscar evidências de validade da estrutura interna dos itens de um do Inventário de Perspectiva de Temporal de Zimbardo e Boyd (2014). A escolha pelo modelo se deu pelo fato de que os autores buscaram em seu modelo uma medida multidimensional de orientação do tempo fundamentada nos percursores da Perspectiva Temporal.

Participaram do estudo 676 universitários de diferentes cursos e diversos períodos da graduação. O instrumento possui 56 itens em sua versão original em escala Likert de 5 pontos. Foram realizadas as análises descritivas, comparativas, correlacional e Análise Fatorial Confirmatória (AFC).

Para alcançar o objetivo proposto, a presente pesquisa foi estruturada da seguinte forma: o primeiro tópico a seguir apresenta o referencial teórico da Perspectiva Temporal. O segundo descreve a metodologia da pesquisa e seus procedimentos, como, participantes e coleta de dados. Em seguida, o quarto tópico apresenta os resultados obtidos das análises estatísticas, seguido do quinto, que traz as discussões dos resultados. E por fim, as considerações finais com implicações psicoeducacionais.

2 PERSPECTIVA TEMPORAL E EDUCAÇÃO SUPERIOR

Husman e Lens (1999) afirmam que a PTF se difere das demais da área da Psicologia na medida em que investiga a percepção e as ações humanas em relação ao futuro, ou seja, o grau e o modo em que o presente na vida de um indivíduo se integra ao seu futuro por meio da motivação. Lens (1993), assim como Lewin, percursor da teoria na década de 1930, define a PTF como sendo a integração do futuro cronológico no momento presente na vida do indivíduo. Desta maneira, consiste na perspectiva ou representação mental em relação a algo mais ou menos distante, porém, não coincide com o tempo real compartilhado por todos. Segundo o autor, engloba necessidades pessoais futuras que estão ligadas ao planejamento de ações no presente.

Para Husman, Hilpert e Brem (2016), a conceituação tradicional do PTF também é entendida como construções psicológicas hierarquicamente organizadas que definem diferenças individuais nas percepções do futuro em diferentes níveis de especificidade. Estes níveis criam uma estrutura variável alinhada que é frequentemente descrita de cima para baixo, do domínio geral ao contexto específico.

Zimbardo e Boyd (2014), estudiosos da PTF que se fundamentam no conceito desenvolvido por Lewin, e compartilha a premissa de que os eventos do passado ou do futuro são reais no atual pensamento cognitivo, influenciando assim, comportamentos do presente. Os autores elaboraram um modelo conceitual próprio de pensar a Perspectiva de Tempo o qual abrange cinco perspectivas temporais: Passado Positivo, Passado Negativo, Presente Hedonista, Presente Fatalista e Futuro.

Nesse modelo, a perspectiva de tempo é considerada fundamental e em funcionamento individual e social. De acordo com Zimbardo e Boyd (2014), trata-se de um processo inconsciente, no qual fluxos contínuos de experiências pessoais e sociais são atribuídos a categorias temporais ou à prazos que auxilia o indivíduo a atribuir coerência e significado a esses eventos. Esses quadros cognitivos podem refletir padrões temporais, cíclicos, eventos repetidos ou lineares únicos e não recorrentes na vida dos indivíduos, eles também são usados na codificação, armazenamento e recuperação de eventos já conhecidos, bem como no processo de construção de expectativas, metas, objetivo e sonhos.

Em relação às dimensões do passado, Zimbardo e Boyd (2014) partem da premissa de que é uma dimensão temporal dominante para determinados sujeitos, de maneira positiva ou negativa, real ou distorcida, mas que afeta na interpretação e na resposta à determinadas demandas que necessitam de tomada de decisão. Portanto, independente da dimensão, há influência no comportamento do tempo presente.

A dimensão passado-negativo reflete uma visão negativa e pessimista em relação ao passado, podendo até ser aversiva. Pode ser caracterizado como consequências traumáticas ou da reconstrução negativa de eventos passados, ou os dois elementos, assim, um sujeito que age de maneira predominante passado-negativa, pode frequentemente reviver decepções, traumas e situações desagradáveis. Já os sujeitos com atitudes passado-positiva, são o oposto. Eles também tendem a reviver e/ou refletir experiências passadas, porém, com sentimentos positivos, envolvendo boas emoções.

A dimensão presente-fatalista, caracteriza-se pela atitude predominantemente despreparada e desesperançada para a vida futura, ou seja, há uma ausência de percepção de que as atitudes do presente acarretam consequências futuras. Normalmente, são sujeitos imediatistas e acreditam estar no controle (Zimbardo; Boyd, 2014). O presente-hedonísta é caracterizado por sujeitos que vivem para o momento e que chegam a assumir riscos e comportamentos hedonistas na busca por prazer. Trata-se de uma dimensão que define a orientação para o prazer do momento, de modo que não há preocupação com consequências.

Por fim, a dimensão Tempo Futuro define-se pela crença nas metas futuras e recompensar e por isso, se associa ao foco no futuro e nas consequências dos comportamentos do tempo presente. Sujeitos orientados por essa dimensão acreditam que seus comportamentos do presente aumentam a probabilidade de uma meta futura a ser alcançada, isso resulta num valor dos objetivos.

Para Zimbardo e Boyd (2014), uma PT ideal é aquela que consegue o equilíbrio entre as orientações temporais - passado, presente e futuro - e que possibilita o sujeito transitar de maneira flexível no tempo nas variadas situações da vida. Este equilíbrio seria uma relação na qual os comportamentos do presente fossem influenciados por metas futuras a curto, médio ou longo prazo, de maneira que o indivíduo compreendesse a relação temporal entre atitudes do hoje para com o amanhã. E que experiências negativas do passado não tivessem tanto impacto no comportamento atual diante de metas futuras.

Para o presente estudo, foi utilizado modelo de PT apresentado neste tópico, visto que, ele se trata da ampliação dos modelos primários e que abrange cinco dimensões de perspectiva temporal. Além da justificativa teórica, a opção se deu devido ao fato de que é um modelo comprovado internacionalmente em suas dimensões, porém, de acordo com uma revisão de literatura preliminar a esta pesquisa, foram encontradas pesquisas nacionais que utilizassem este modelo teórico nos últimos 12 anos.

3 MÉTODO

3.1 Participantes

Para alcançar o objetivo proposto deste estudo, alguns procedimentos metodológicos em relação aos participantes foram empregados. Num primeiro momento, houve a participação de três juízes para a avaliação semântica e de conteúdo dos itens do instrumento. Tratam-se de pesquisadoras do sexo feminino, sendo uma doutora em psicologia da educação e duas doutoras em psicologia. Foram computadas a frequência das respostas que indicaram concordância com as questões apresentadas do Inventário ZTPI, tanto no que diz respeito à validade semântica quanto ao conteúdo.

No segundo momento, houve a aplicação do instrumento com a amostra piloto, composta por estudantes (n=9) do 5º semestre do curso de Pedagogia de uma faculdade privada coparticipante do estudo, sendo todos da mesma turma e do sexo feminino e com idade média de 19,7 com mínima de 19 e máxima de 22 anos.

Por fim, a terceira etapa foi constituída da aplicação com a amostra geral. Participaram 676 universitários de duas instituições de Educação Superior. A média de idade foi de 24,64, sendo a idade mínima 18 e a máxima 61 anos (DP = 7,0). O sexo feminino representou 76,9% (n=520) e o masculino 23,1% (n=156). Os participantes eram matriculados nos cursos de Administração (43,3%), Análise e desenvolvimento de Sistemas (3,0%), Biomedicina (3,7%), Ciências Contábeis (4,1%), Direito (19,5%), Enfermagem (7,7%), Engenharia Civil (2,2%), Nutrição (5,0%), Odontologia (3,1%), Pedagogia (43,3%) e Psicologia (4,9%).

Da amostra total (n=676), 255 estudantes (37,7%) estavam matriculados em cursos ofertados no período matutino, enquanto 421 alunos (62,3%) cursavam o período noturno. Cabe ressaltar que a amostra foi escolhida atendendo ao critério de conveniência, ou seja, por meio do contato que os pesquisadores tinham com as instituições coparticipantes. Assim, totalizou-se n=210 (31,1%,) estudantes da universidade pública e n=466 (68,9%) da instituição particular.

3.2 Instrumento

O instrumento utilizado foi o Questionário ZTPI - Inventário de Perspectiva de Tempo de Zimbardo de Zimbardo e Body (2014). Ele é composto por 56 questões em escala likert de 5 pontos, sendo: (1) Muito falso, (2) Pouco falso, (3) Neutro, (4) Bastante verdadeiro e (5) Muito verdadeiro. Neste instrumento, cinco de perspectivas temporais ou dimensões são consideradas por Boyd e Zimbardo (1999): Passado-negativo, Presente-hedonista, Tempo-futuro, Passado-negativo e Presente-fatalista.

Na versão elaborada por Zimbardo e Boyd (2014) e utilizado neste estudo, a Perspectiva do Tempo Passado-Negativo é composta pelos itens: 4, 5, 16, 22, 27, 33, 34, 36, 50 e 54 (α=0,82). A Perspectiva do Tempo Presente-hedonista pelos itens: 1, 8, 12, 17, 19, 23, 26, 28, 31, 32, 42, 44, 46, 48 e 55 (α=0,79. As questões 6, 9, 10, 13, 18, 21, 24, 30, 40, 43, 45, 51 e 56 (α=0,77) compõem a Perspectiva de Tempo futuro e contemplam itens, como. Já a Perspectiva do Tempo Passado Positivo é composta pelos itens 2, 7, 11, 15, 20, 25, 29, 41 e 49 (α=0,80) e abordam questões de percepções positivas sobre o passado. E para finalizar, a perspectiva do tempo presente-fatalista é determinada pelos itens: 3, 14, 35, 37, 38, 39, 47, 52 e 53 (α=0,74).

A aplicação dos instrumentos ocorreu após a aprovação deste estudo pelo Comitê de Ética em Pesquisa, que atende as exigências da Resolução nº 510/2016 e aos complementos do Conselho Nacional de Saúde, conforme consta no Parecer nº 5.195.616. Todos os participantes responderam somente após a leitura e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e coleta teve duração aproximada de 30 minutos em cada turma.

3.3 Análise dos dados

A análise dos dados da primeira etapa do estudo foi possível a partir da avaliação dos juízes sobre a representatividade dos itens para mensuração da PT. Sendo assim, foram calculados os índices de frequência concernentes à compreensão do participante sobre os itens e os ajustes sugeridos por estes profissionais indicaram algumas mudanças semânticas de itens antes etapa posterior, que foi a aplicação piloto. No estudo piloto, foram consideradas as dúvidas ou observações dos estudantes no momento da coleta. Os resultados dessa etapa serão apresentados no tópico de resultados.

Os dados coletados na última etapa, com a amostra geral (n=676) foram organizados em planilhas e submetidos às estatísticas descritiva (médias, desvio padrão e índices percentuais), comparativas, correlacional (Correlação de Pearson) e inferencial (análise fatorial confirmatória). Os programas utilizados foram o IMB SPSS Statistics for Windows®, JASP for Windows e o software Mplus (versão 7) (Muthén & Muthén, 2012).

Empregou-se a análise fatorial confirmatória (AFC) para o Inventário de Perspectiva de Tempo que são métodos de mensuração para averiguar a adequação das citadas análises para a amostra investigada. Averiguou-se os índices comparativos de ajuste: o Comparative Fit Index (CFI), o Tucker Lewis Index (TLI) e a estatística raiz quadrada média do erro de aproximação, o Root Mean Square Error of Aproximation (RMSEA) (90% de intervalo de confiança).

O RMSEA do instrumento foi mencionado, verificando o erro médio de aproximação populacional em matrizes de covariância. Apresentou-se como valor desejável índices inferiores a 0,05, mas com pontuações aceitáveis até 0,08. Vale observar que os indicadores CFI, TLI e RMSEA são amplamente encontrados em análises fatoriais do tipo confirmatória, com o uso de análise paralela ou do teste de scree plot.

4 RESULTADOS

A fim de seguir à sistematização dos procedimentos metodológicos, este estudo optou pela a apresentação dos resultados obtidos nas etapas mencionadas anteriormente. Nesta etapa, seguiu-se o critério sugerido por Pasquali (2017), cujo valor mínimo deve ser de 80% de concordância entre os juízes para a permanência do item. Observou-se uma concordância com o conteúdo apresentado por Zimbardo e Boyd (2014). Algumas sugestões foram feitas em relação a alguns termos, e todas foram seguidas conforme o Quadro 1.

Quadro 1
Itens do instrumento de mensuração da PTF após as análises de conteúdo e/ou semântica pelos juízes

Em relação ao estudo piloto, os nove participantes não demonstraram dificuldades acerca da compreensão dos itens, contudo, fizeram duas sugestões de adequações semânticas com o intuito de facilitar a compreensão para os próximos participantes. As referidas sugestões estão dispostas no Quadro 2.

Quadro 2
Itens do instrumento de mensuração da PTF após as análises de conteúdo e/ou semântica no estudo piloto

Todas as sugestões foram atendidas, dessa forma, ajustou-se 8,92% da redação do inventário antes da aplicação com n=676. Na etapa seguinte, com o objetivo de testar o modelo fatorial da escala ZTPI, aplicou-se o instrumento ZTPI, respeitando a estrutura estabelecida pelos autores Zimbardo e Boyd (2014) e as alterações sugeridas pelos juízes e estudantes do estudo piloto. Após todos os dados serem organizados em planilhas, foram submetidos à avaliação da medida de adequação da amostra para a realização da análise fatorial confirmatória - AFC. Como referência, foram utilizados os estimadores WLSMV mínimos quadrados ajustados com parametrização delta. A primeira etapa consistiu nas análises iniciais que possibilitam a confirmação a adequação do modelo fatorial proposto na ZTPI por meio da AFC (Análise Fatorial Confirmatória). A segunda etapa apresentou os índices obtidos nas análises descritivas, comparativas e correlacional sobre a PT.

A fim de apontar a magnitude divergente entre as matrizes estimadas e as observadas, a qual possibilita testar probabilidade de ajuste dos dados coletados ao modelo teórico em questão, obteve-se o resultado advindo da razão entre o índice do qui-quadrado (x2) e os graus de liberdade (gl). O valor obtido foi inferior a 3 (2,64; x2= 3894.772; gl = 1473), o que significa um ajuste aceitável do modelo. Neste aspecto, Kline (2015) indicam que índices resultantes da razão x2/gl entre 1 e 3 são considerados desejáveis.

Também foram calculados os índices de ajuste comparativo - o CFI (Comparative Fit Index) e o TLI (Tucker Lewis Index). No CFI foi obtido 0.794 e no TLI 0.785, índices menos expressivos, porém, considerados aceitáveis quando não comparados a outro modelo. Ao calcular o RMSEA, obteve-se um resultado de 0.049, considerado um ajustamento adequado para esta estrutura, pois, segundo Noronha, Pinto e Ottati, (2016), são esperados resultados menores que 0.05 e aceitáveis até 0,08.

A partir dos resultados da AFC, verificou-se o modelo proposto da ZTPI com algumas ressalvas. A estrutura da escala elaborada por Zimbardo e Boyd (2014) continha 56 itens divididos em 5 dimensões: Passado-negativo, Presente-hedonista, Tempo-futuro, Passado-positivo e Presente-fatalista. Após a AFC, quatro dimensões foram confirmadas e 39 itens permaneceram. A dimensão Passado-positivo não se confirmou, pois, todos os itens não alcançaram índices de confiabilidade.

No fator 1, Passado-negativo, todos os itens obtiveram índices de α superiores a 0,300. No fator 2, Presente-hedonísta, os itens 1 (α=0,176), 17 (α=0,290) e 55 (α=0,255) foram descartados devido aos índices baixos dos α, e os itens 48 e 55 não carregaram neste fator. No fator 3, Tempo-futuro, os itens 6, 10, 13, 21, 30, 50, 43 e 45 permaneceram com α = aceitáveis, enquanto os itens 18 (α=0,225) e 51 (α=0,202) foram descartados devido ao α, e o 9 e 56 devido ao α negativo. Por fim, o fator 4, Presente-fatalista, mantiveram-se todos itens 3, 14, 35, 37, 38, 39, 47, 52 e 53 com α acima de 0,300. Portanto, constatou-se a perda de 17 itens do total de 56.

Na Tabela 1, são apresentas as cargas fatoriais dos itens e os coeficientes de alpha de Cronbach de cada dimensão após as análises para os dados coletados com a amostra total (n=676) deste estudo.

Tabela 1
Distribuição dos itens da ZTPI por dimensão e as cargas fatoriais após a AFC

Sendo assim, foi possível comprovar as evidências de validade da estrutura interna dos itens integrantes dos 4 fatores, sendo o primeiro a dimensão Passado-negativo com 10 itens e o α=0,80, a dimensão Presente-hedonísta com 12 itens e α=0,73, o Tempo-futuro com 8 itens e α=0,61, e por fim, a dimensão Presente-fatalista com 9 itens e α=0,68, totalizando 39 itens.

Os itens excluídos foram: todos da dimensão passado positivo (2, 7, 11, 15, 20, 25, 29, 41 e 49), cinco da dimensão Tempo Futuro (9, 18, 24, 51 e 56), dois da dimensão Presente Hedonista (1 e 55) e um da dimensão Passado Negativo (17).

Verificou-se ainda, a partir de análises estatísticas descritivas, índices de frequência, pontuação mínimas e máximas, média e desvio padrão das dimensões emergidas da AFC. Os valores obtidos indicaram que a dimensão Presente Hedonista apresentou a maior média 38,26 (DP= 7,26). Já a dimensão tempo futuro a média foi de 28,83 (DP=4,81). A dimensão Passado Negativo (DP= 7,53) foi obtida uma média de 30,51 e para o Presente Fatalista a média de 22.68 (DP=5,79). Em relação às análises comparativas, aplicou-se o teste t de Student com o objetivo de investigar eventuais diferenças entre a PTF para os estudantes de instituição pública ou particular e sexo feminino e masculino.

A partir dos resultados acima, as pontuações obtidas das análises dos dados coletados junto ao total de universitários revelaram na dimensão de Passado Negativo, a média foi de 30,07 para os universitários da instituição pública e M=30,70 da instituição particular, sendo que para esta dimensão, a mínima foi 11 e a máxima 49. Na dimensão Presente Hedonista, cuja mínima foi 16 e máxima 58 a média foi de 37,12 para universidade pública e 38,77 para a particular. Na dimensão de Tempo Futuro, a pontuação variava entre 8 e 40, e a média foi de 28,78 para a instituição pública e 28,86 para a particular. Na dimensão Presente Fatalista, os resultados indicaram pontuação mínima de 9 e máxima de 45 pontos, sendo a média 22,41 para a instituição pública indicaram pontuações mínima de 0 e máxima de 16 e uma obtida pelos estudantes da instituição pública e 22,81 pelos participantes da instituição particular.

As pontuações das médias da dimensão Presente Hedonista em relação ao sexo dos participantes revelaram média maior para os do sexo feminino 38,39, e M=37,81 para o sexo masculino. Na dimensão tempo futuro, o sexo feminino obteve média de 28,60 e o masculino 29,60. Em relação ao passado negativo, os índices indicam a pontuação média de 30,45 para o sexo feminino e 30,69 para o masculino. Por fim, na última dimensão, a Presente Fatalista, a média para o sexo feminino foi de 22,82 e masculino 22,82. Cabe ressaltar que não houve diferença significativa entre os sexos dos participantes e nem em relação ao vínculo público ou particular.

Também foram obtidos resultados referentes às análises de correlações entre as dimensões estruturantes da ZTPI. Foi aplicada à correlação de Pearson e se adotou os valores: indicados por Pasquali (2017), como sendo coeficientes menores que 0,30 foram considerados de magnitude baixa, entre 0,30 e 0,50 magnitude moderada e as correlações iguais ou superiores a 0,50 foram consideradas de magnitude.

Verificou-se que a dimensão Passado Negativo teve uma correlação moderada e significativa com o presente hedonista (r=0,375), e com o presente fatalista (r=0,419). A dimensão presente hedonista teve uma correlação negativa fraca e significativa com a de tempo futuro (r= -0,147) e uma positiva moderada com o presente fatalista (r=0,473). Já a dimensão tempo futuro evidenciou fraca correlação negativa com o presente fatalista (r= -0,228).

5 DISCUSSÃO

Em relação aos resultados das análises descritivas, comparativas e correlacional, resultados importantes foram obtidos e serão discutidos brevemente. Verificou-se que os participantes possuem uma tendência mais alta para a perspectiva de tempo Presente Hedonísta, M=38,26 e a mais baixa para Presente Fatalista M=22,68. Ou seja, os participantes tendem a agir no presente em busca de prazer e emoções momentâneas, sem preocupação entre o comportamento atual e consequências futuras.

No estudo de Usart e Romero (2014) e de Luyckx et al., (2010), os autores concluíram que a tendência ao presente fatalista é mais comum nos universitários mais jovens. Na presente amostra, foi a dimensão com escore mais baixo. Contudo, a dimensão Presente Hedonista (com escore mais alta), também se trata de uma perspectiva temporal imediatista.

As análises comparativas em relação à instituição ser pública ou particular mostraram que não houve diferenças significativas. No entanto, ao observar as médias, verificou-se uma tendência de índices mais altos para aos universitários da instituição pública na dimensão de passado negativo, enquanto os estudantes da instituição particular tiveram maiores médias nas dimensões presente fatalista, presente hedonista e tempo futuro. Não foram encontrados dados similares ou divergentes na literatura em relação ao tipo de universidade.

Ao comparar a PTF entre sexo feminino e masculino, observou-se que os participantes do sexo masculino tiveram médias mais altas nas dimensões de tempo futuro e passado negativo, enquanto do sexo feminino no presente hedonista e presente fatalista. Os resultados acerca do tempo futuro a partir do vai ao encontro com os dados obtidos por Daura (2017) que desenvolveu uma pesquisa estudantes argentinos de cursos de graduação e pós-graduação e verificou que as mulheres tiveram escores menores na dimensão de futuro em relação aos homens. Contudo, uma divergência em relação a outro resultado da autora é em relação ao Presente Hedonista, pois, em seu estudo, ela identificou que os homens tiveram médias mais altas do que as mulheres nesta dimensão.

Correlações foram encontradas entre as próprias dimensões da PTF. O passado negativo se correlacionou em grau moderado com o presente hedonista e com presente fatalista. Estes dados corroboram com o estudo desenvolvido por Daura (2017) ao passo que obteve o mesmo resultado. Em sua investigação com universitários argentinos, a autora identificou a correlação positiva e significativa entre passado negativo e presente hedonista e fatalista.

Ressalta-se que a dimensão Presente Hedonista tem como característica principal a busca pelo prazer e emoções do momento, a Presente Fatalista consiste na ação de forma despreparada diante das situações da vida cotidiana por achar que está no controle e o Passado Negativo é caracterizado pela percepção negativa sobre vivências anteriores e até aversivas. Portanto, verifica-se que estudantes orientados pelo Passado Negativo podem ter atitudes fatalistas e hedonistas em situações da vida cotidiana, e assim, não relacionando ações do presente com consequências futuras

Para Zimbardo e Boyd (2014) trata-se de orientações contrárias à do tempo futuro, pois, a PT evidencia o equilíbrio, visto que os indivíduos conseguem estabelecer relações entre seus comportamentos do presente e as consequências a longo prazo. Os resultados evidenciaram que a dimensão do presente hedonista se relaciona de maneira negativa, ainda que fraca com o tempo futuro, e a dimensão de tempo futuro se relacionou negativamente em grau fraco e significativo com a dimensão de presente fatalista. Estes resultados vão ao encontro dos dados obtidos nos estudos de Daura (2017) e Luyckx et al., (2010) sobre a correlação negativa entre tempo futuro e presente fatalista e hedonista.

Em relação à avaliação psicométrica do instrumento, no modelo de Zimbardo e Boyd (2014), cinco dimensões eram propostas, Passado Negativo, Passado Positivo, Presente Hedonista, Presente Fatalista, e Tempo Futuro. Com a amostra desta investigação, a dimensão Passado Positivo, de 9 itens, não se confirmou.

Dos 56 itens, 39 permaneceram com um modelo de 4 dimensões. A dimensão Presente Hedonísta com 12 itens e α=0,73, a Tempo-futuro com 8 itens e α=0,61, Passado Negativo permaneceu com 10 itens e o α=0,80, a e Presente-fatalista também manteve 9 itens e α=0,68. A dimensão Passado Positivo teve seus itens com cargas abaixo do mínimo aceitável α=0,30 e ou negativo.

Este resultado não converge com os estudos aqui mencionados que tiveram objetivos similares, sendo assim, duas hipóteses foram consideradas. A primeira delas é a especificidade cultural do contexto brasileiro da Educação Superior, pois, as dimensões foram confirmadas em estudos - em sua grande maioria - internacionais. No Brasil, apenas pesquisa de Leite e Pasquali (2008) foi encontrada, a qual confirmou as dimensões do modelo original.

Dessa forma, sugere-se particularidades dentro da amostra que não estão isoladas do contexto social e econômico no qual está inserida. Do total de participantes, 62,3% cursavam a graduação no período noturno, sendo 68,9% na instituição privada. Apesar de não haver perguntas sobre a conciliação dos estudos com o trabalho, sabese que alguns dos cursos noturnos das instituições em questão também são ofertados no turno matutino, como é caso de Pedagogia e Direito. Portanto, infere-se que muitos participantes podem cursar a graduação a noite devido ao trabalho remunerado durante o dia.

A literatura aponta que apesar da expansão em relação ao acesso, a repetência, a evasão e a dificuldade de permanência na Educação Superior são desafios persistentes que afetam tanto as instituições quanto os estudantes. Segundo Carlotto e Camara (2023), além de fatores socioeconômicos, a insatisfação com a experiência acadêmica é uma das principais razões para o abandono dos cursos. Sendo assim, fatores relacionados à realidade brasileira podem ter interferido na orientação temporal da presente amostra, uma vez que a dimensão passado positivo depende de sentir emoções positivas sobre experiências passadas que foram satisfatórias.

Uma outra hipótese é em relação a limitações semânticas dos próprios itens, considerando que se trata de uma escala internacional. Alguns termos podem ter sido compreendidos de maneira equivocada e que mesmo diante da aplicação do estudo piloto, não foi possível identificar.

Outros 8 itens que foram excluídos pela baixa carga fatorial estavam dispostos no modelo inicial nas dimensões Presente Hedonísta e Tempo Futuro. As dimensões que permaneceram obtiveram os α aceitáveis e com valores próximos aos do modelo de Zimbardo e Boyd (2014), exceto a dimensão Tempo Futuro, que obteve α=0,61 com a amostra deste estudo enquanto no estudo do modelo original o alpha foi de α=0,77.

Este resultado não converge com estudos internacionais e nacionais que tiveram objetivos semelhantes. Usart e Romero (2014) buscaram validar os itens que compõem cada fator da Perspectiva Temporal (PT) e compará-lo a resultados de estudos anteriores. A amostra foi composta 250 universitários espanhóis que cursavam a faculdade online, presencial e mista (híbrida). Neste estudo, os resultados da análise fatorial confirmatória confirmaram 45 itens distribuídos nas 5 dimensões de Zimbardo e Boyd (2014).

No estudo português de Ortuño e Gamboa (2008) com 342 universitários, os autores verificaram consistência interna das 5 categorias do ZTPI através dos Alfas de Cronbach de cada uma delas. Os resultados indicaram índices satisfatórios foram os seguintes: Presente Hedonista = 0.80, Passado Negativo = 0.80, Presente Fatalista = 0.69, Futuro = 0.72 e Passado Positivo 0.64.

Leite e Pasquali (2008), propuseram uma investigação para validar o Inventário ZTPI do no Brasil com 1. 528 universitários. Dos 56 itens da versão original, seis deles não atingiram a carga fatorial mínima de 0,32, sendo eles, o 35, 41, 48, 53, 55, 56. No entanto, mesmo com a exclusão dos itens supracitados, o modelo com 5 dimensões foi confirmado. No entanto, os autores relatam que alguns itens não tiveram carga no componente original, e assim, migraram para outros. A dimensão presente fatalista, por exemplo, foi a que mais sofreu perda de itens no estudo de Leite e Pasquali (2008).

Em contrapartida a estes resultados, os dados do presente estudo confirmaram todos os itens desta dimensão do modelo original. A dimensão Passado Negativo só perdeu um item, o 17 que carregou de forma negativa e originalmente era da dimensão Presente Hedonísta. A dimensão Presente Hedonísta só perdeu dois itens, o 1 e o 55 que ficaram com baixa carga. A dimensão Tempo Futuro foi a dimensão que mais sofreu perda de itens, sendo os: 9, 18, 24, 51 e 56, visto que, obtiveram carga negativa neste fator.

Sendo assim, considera-se que, apesar da dimensão Passado Positivo não ter se confirmado com a amostra desta pesquisa, as 4 dimensões que permaneceram indicam índices de confiabilidade consistentes com a distribuição dos itens feita do modelo original. Tal foto possibilita a inferência de uma não modificação teórica das dimensões estabelecidas por Zimbardo e Boyd (2014), mas sim a necessidade de se investigar melhor com a amostra brasileiro a dimensão que não se confirmou.

Cabe ressaltar que a pesquisa foi desenvolvida em um contexto de expansão do acesso à Educação Superior brasileira. Entretanto, embora este fato tenha sido um marco relevante para o país, o ingresso em uma IES não garante, por si só, a permanência estudantil e o êxito no processo acadêmico de formação (Nascimento; Oliveira; Bzuneck, 2025). A história da Educação Superior no Brasil é marcada por desigualdades advindas desde os primórdios. Sua tardia implementação, em 1920, evidencia resquícios de um percurso histórico advindo da colonização portuguesa, cujos interesses não incluíam a criação de instituições universitárias no território brasileiro num primeiro momento (Do Carmo et al., 2023).

Sendo assim, problemas estruturais foram sendo consolidados ao longo dos anos e ocasionaram diversos desafios ligados ao contexto universitário, como por exemplo, barreiras culturais, fatores socioeconômicos, falhas nas políticas de permanência estudantil, repetência e evasão (Carlotto; Camara, 2023). Um outro fator é a integração universitária, que segundo Almeida et al., (2020) é um processo multifacetado e um desafio para a nova população que chega na Educação Superior e que influencia em todo processo de aprendizagem.

Frente ao exposto, retoma-se que a Perspectiva Temporal de cada indivíduo é construída a partir das suas vivências e dos resultados destas, ou seja, é influenciada por diversos fatores e concomitantemente, influencia os novos comportamentos, o estabelecimento de metas e a manutenção ou modificação de estratégias. Em um contexto complexo, multifacetado e desafiador como a Educação Superior, investigar como a PT tem se manifestado torna-se pertinente e necessário, além de possibilitar o vislumbre dos desafios emergentes para que as IES cumpram seus papeis de formadoras em nível superior.

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste estudo foi buscar evidências de validade da estrutura interna dos itens de um do Inventário de Perspectiva de Temporal de Zimbardo e Boyd (2014), visto que, os autores buscaram em seu modelo uma medida multidimensional de orientação do tempo. Participaram neste estudo 676 estudantes universitários que responderam coletivamente ao Inventário de Perspectiva de Tempo Futuro (ZTPI).

O referido Inventário considera o modelo teórico de Zimbardo e Boyd (2014), o qual defende que os indivíduos se comportam no tempo presente orientados por uma ou mais perspectiva temporal. O modelo considera que a perspectiva de tempo pode ser positiva ou negativa sobre o passado, hedonista ou fatalista sobre o presente, ou ainda, uma perspectiva consistente para o futuro.

Como resultado, obteve-se a não confirmação da dimensão Passado Positivo, o que possibilitou uma discussão sobre possíveis razões para este dado, as quais estão associadas às especificidades culturais, sociais e econômicas não só dos estudantes da amostra, mas da realidade da Educação Superior brasileira como um todo. A literatura mencionada durante o presente estudo aponta para o momento histórico no país em relação à expansão do acesso, do aumento da quantidade de cursos e de matrículas. Assim, ao abranger novas parcelas da população, novos desafios se formam no contexto universitário, exigindo-se adequações nos modelos de investigações.

Acerca do modelo confirmado, ressalta-se os índices confiáveis e consistentes das dimensões que permaneceram, com poucas alterações em relação a cada fator em comparação ao modelo original. Estes resultados indicam a coerência teórica da PT com os itens do instrumento sobre essas categorias confirmadas.

Este estudo apresenta algumas limitações, entre elas o uso do autorrelato, que pode comprometer a confiabilidade das respostas, já que os participantes podem indicar o que gostariam que ocorresse, e não necessariamente o que ocorre. Além disso, o instrumento utilizado foi originalmente desenvolvido em uma amostra americana, com contexto educacional distinto do brasileiro, e apresenta questões amplas que podem ter sido interpretadas com base em diferentes situações da vida cotidiana.

Portanto, sugere-se investigações acerca da construção teórica da dimensão que não foi confirmada (passado positivo) para novos contextos universitários, ou ainda, uma nova aplicação em outro recorte amostral, pois os participantes deste estudo não refletem todo o cenário brasileiro e também expressam limitações em relação a quantidade, diferença numérica entre cursos e entre as instituições, que não foram possíveis de serem exploradas nesta pesquisa.

Espera-se que este estudo contribua para o avanço de novas investigações no campo da Educação Superior, especialmente no que diz respeito aos desafios relacionados à Perspectiva de Tempo Futuro dos universitários no contexto das Instituições de Ensino Superior. Além disso, almeja-se que os resultados aqui apresentados fortaleçam o modelo teórico que reconhece a influência da orientação temporal sobre a vida acadêmica e sobre as estratégias individuais utilizadas pelos estudantes para alcançar suas metas no ambiente universitário que implicarão em resultados futuros.

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.

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  • Section Editor:
    Milena Pavan Serafim
  • Layout Editor:
    Silmara Pereira da Silva Martins

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2023
  • Aceito
    23 Jun 2025
  • Revisado
    15 Jul 2025
  • Corrigido
    21 Dez 2025
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Publicação da Rede de Avaliação Institucional da Educação Superior (RAIES), da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade de Sorocaba (UNISO). Rodovia Raposo Tavares, km. 92,5, CEP 18023-000 Sorocaba - São Paulo, Fone: (55 15) 2101-7016 , Fax : (55 15) 2101-7112 - Sorocaba - SP - Brazil
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