Open-access Conhecimento ecológico local sobre a fauna de répteis e lagarto críptico em um Parque urbano na Mata Atlântica

Resumo

Áreas protegidas constituem estratégias importantes de conservação da biodiversidade, mas é um desafio mantê-las, especialmente em áreas urbanas. Em um Parque Urbano na Mata Atlântica, foi investigado o Conhecimento ecológico local (CEL) dos funcionários sobre a fauna de répteis e de espécies de lagartos crípticas de pequeno porte. Foram entrevistados 39 funcionários do Parque. Constatou-se que os funcionários detêm conhecimentos mais específicos sobre a flora local, e reconhecem a importância do Parque para conservação das espécies. Funcionários com maior tempo de trabalho no Parque possuem maior CEL sobre o lagarto críptico e ameaçado de extinção Coleodactylus natalensis. Esse fato, quando adicionado ao tamanho diminuto da espécie, e inexistência de valor cultural e utilitário para os funcionários, é de grande relevância, visto que não é o padrão observado em outros estudos de CEL. Este trabalho também evidencia as ameaças às quais parques urbanos estão submetidos.

Palavras-chave:
Conhecimento local; Parques urbanos; espécies crípticas; etnoherpetologia; conservação

Abstract

Protected areas are important strategies for conserving biodiversity, but maintaining them is a challenge, especially in urban areas. In this study, the local ecological knowledge (LEK) of employees on the fauna of reptiles and small cryptic lizard species in an urban park in the Atlantic Forest was investigated. A total of 39 employees of the park were interviewed. It was found that employees have more specific knowledge about the local flora and recognize the importance of the park for the conservation of species. Employees with longer working time in the park have more LEK on the cryptic and endangered lizard Coleodactylus natalensis. This fact is of great relevance when added to the small size of the species and the lack of cultural and utilitarian value for the employees, since it is not the pattern observed in other LEK studies. This work also highlights the threats to which urban parks are subjected.

Keywords:
Local knowledge; urban parks; cryptic species; ethnoherpetology; conservation

Resumen

Las Áreas Protegidas o Unidades de Conservación son estrategias de preservación, pero mantenerlas es un desafío, especialmente en áreas urbanas. En el Parque Municipal Urbano, con un remanente de Mata Atlántica Norte, se investigó el saber ecológico local (SEL) de los empleados sobre la fauna de reptiles y sobre especies de lagartijas crípticas pequeñas. Se entrevistaron 39 empleados de diferentes sectores del Parque. Entre los resultados se encontró que los empleados tienen un conocimiento más específico sobre la flora local, y reconocen la importancia del parque para la conservación de las especies. Los empleados con más tiempo de trabajo en el parque tienen un SEL más alto en el lagarto críptico y amenazado Coleodactylus natalensis. Este hecho, sumado al pequeño tamaño de la especie, y la falta de valor cultural y utilitario para los empleados, es de gran relevancia, ya que no es el patrón observado en otros estudios de SEL. Este trabajo también destaca las amenazas a las que están sujetos los parques urbanos y destaca las diferencias entre los parques urbanos y los rurales.

Palabras-clave:
Saber local; parques urbanos; especies crípticas; etnoherpetología; conservación

Introdução

A vida na terra está passando pela sexta extinção em massa, e este evento está colocando em risco toda a biodiversidade mundial (CEBALLOS; EHRLICH; RAVEN, 2020). Ações antropogênicas causam perda e fragmentação de habitats, introdução de espécies exóticas, superexploração dos recursos naturais, poluição ambiental e mudanças climáticas, constituindo os principais fatores que geram declínios populacionais e extinções de espécies (GIBBONS et al., 2000; PRIMACK; RODRIGUES, 2001; RODRIGUES, 2005).

Diante desse cenário, a Etnobiologia surge como uma possibilidade de se estudar a biodiversidade inserindo o conhecimento e relações de sociedades humanas nos estudos ecológicos. Embora a Etnobiologia, especificamente a Etnozoologia, sejam áreas promissoras e que vêm crescendo consideravelmente nos últimos anos (SILVANO et al., 2006; BEAUDREAU; LEVIN, 2014; LANA PINTO; CRUZ; SILVÉRIO PIRES, 2015; RAMIRES et al., 2015; REYES-GONZÁLEZ et al., 2020), ainda existe carência de estudos sobre a Etnoherpetologia, subárea da Etnozoologia que se dedica ao estudo da relação de culturas humanas e conhecimento popular sobre a herpetofauna (ALVES et al., 2010). Esse fato limita a elaboração de estratégias de conservação adequadas para várias espécies, considerando que tais estudos são fundamentais dentro da perspectiva conservacionista (ALVES et al., 2010; ALVES; SOUTO, 2011; DIEGUES, 2000; PASSOS et al., 2015).

Conhecer a história natural das espécies, levando em consideração as percepções e os conhecimentos dos atores locais é um primeiro passo dentro das estratégias de conservação. Porém, quando se trata de répteis, em especial aqueles de pequeno tamanho corporal, crípticos e que tendem a ter menos contato e carisma pela população local, implantar essas estratégias se torna mais desafiador (SITAS; BAILLIE; ISAAC, 2009; FRYNTA et al., 2013; MACDONALD et al., 2015; ROLL et al., 2016). Existe uma grande dificuldade para a conservação de espécies de pequeno porte, em decorrência de menor financiamento, atuação em pesquisa e ações de conservação do que espécies maiores e carismáticas, como grandes mamíferos (FISHER, 2011). Quando se trata de espécies de répteis, esses números podem ser bem mais preocupantes (MAREŠOVÁ; FRYNTA, 2008; SITAS; BAILLIE; ISAAC, 2009). Estudos mostram que muitas vezes a disposição de proteger e os recursos alocados para a conservação estão relacionados às atitudes humanas frente ao animal em questão, e não em relação a indicadores da real prioridade de conservação, como o status da red list da IUCN, por exemplo (SITAS; BAILLIE; ISAAC, 2009).

Nesse contexto se encontram alguns lagartos da família Sphaerodactylidae, que são predominantemente diurnos e vivem associados à serrapilheira de habitats florestados (VANZOLINI, 1968; FREIRE, 1999; MORETTI, 2009). Uma das espécies desta família é o geco pigmeu de Natal ou lagarto-de-folhiço, Coleodactylus natalensisFreire, 1999, considerado o menor lagarto da América do Sul, medindo até 24 mm de comprimento rostro-cloacal (FREIRE, 1999). Esta espécie é endêmica da região setentrional da Mata Atlântica brasileira, especificamente de remanescentes florestais do Rio Grande do Norte, e está oficialmente ameaçada de extinção (BRASIL, 2022). Os habitats florestados utilizados por C. natalensis estão bastante fragmentados pela expansão urbana e turismo desordenados. Juntamente a essas ameaças, o pequeno tamanho corporal e coloração críptica da espécie torna ainda mais difícil inserir a população local nas estratégias de conservação (BERTI et al., 2020; ROLL et al., 2016). Os Parques onde essa espécie ocorre estão ilhados dentro de áreas urbanas, portanto, a sua conservação depende diretamente da manutenção destas áreas protegidas e conscientização da população que vive no entorno e/ou trabalha nesses Parques.

Em se tratando de conservação da biodiversidade, é fundamental analisar a história e a forma como as sociedades humanas se relacionaram com o meio ambiente e a biodiversidade local (ALVES; ALBUQUERQUE, 2012). A compreensão desta relação é de grande relevância, uma vez que contribui para a conservação da biodiversidade (GADGIL; BERKES; FOLKE, 1993), de espécies raras (COLDING, 1998), de áreas protegidas (JOHANNES, 1998), de processos ecológicos e uso sustentável de recursos em geral (BERKES; COLDING; FOLKE, 2000; CUNHA, 1999; RAMIRES et al., 2015; SILVANO et al., 2006). Uma ferramenta importante para se trabalhar conservação junto à sociedade é o estudo do conhecimento ecológico local (CEL), que pode ser definido pelo conjunto de conhecimento sobre ecologia e gestão de recursos naturais que uma pessoa adquire ao longo da vida, que pode variar por gênero, idade, nível educacional e frequência de contato com áreas naturais (GADGIL; BERKES; FOLKE, 1993; BERKES; COLDING; FOLKE, 2000;). Constitui um campo do conhecimento científico que tem como objetivo testar a validade ecológica de determinadas formas de manejo dos recursos naturais utilizadas por um grupo cultural em uma determinada área (ALVES; SOUTO, 2015).

Nesse contexto, levando em consideração que C. natalensis é uma espécie ameaçada, endêmica de fragmentos da Mata atlântica, críptica e com pequeno tamanho corporal, utilizá-la como modelo para entender quais os conhecimentos das pessoas sobre espécies de pequeno tamanho corporal, pode fornecer dados de relevância global que embasem estratégias de etnoconservação. No entanto, as pesquisas etnobiológicas atuais estão em sua maioria relacionadas ao ambiente rural, sendo a expressão dos conhecimentos nas populações urbanas ainda pouco conhecida. Neste sentido, a existência de algumas espécies de lagartos adaptadas a ambientes antrópicos ou negativamente impactadas, mas que ainda conseguem permanecer em remanescentes florestais urbanos, como é o caso de C. natalensis, somada à ascendência familiar de parcelas da população urbana, frequentemente relacionadas à zona rural, suporta a ocorrência de concepções particulares sobre lagartos nos centros urbanos (PASSOS et al., 2015).

Desse modo, este trabalho aborda a avaliação do conhecimento ecológico local de funcionários de um Parque urbano sobre a Mata Atlântica, a herpetofauna, e o lagarto críptico de pequeno porte C. natalensis, que constitui espécie-bandeira deste Parque (Lei Municipal N.º 6.438 de 07 de Março de 2014). Especificamente, objetivou-se (1) identificar o conhecimento ecológico local (CEL) dos funcionários sobre a fauna de répteis e importância da existência da área protegida; (2) identificar se o CEL dos funcionários converge com a literatura científica e se há concepções alternativas sobre a herpetofauna local; (3) determinar quais conhecimentos ecológicos esses trabalhadores possuem sobre o lagarto C. natalensis; e (4) avaliar as diferenças no CEL dos entrevistados em função do tempo de trabalho no Parque e ascendência familiar rural ou urbana. Nós hipotetizamos que: (1) os funcionários do Parque o consideram relevante para conservação da biodiversidade e detém CEL sobre a fauna local de répteis; (2) o nível de CEL sobre a fauna de répteis e o ambiente natural do Parque exerce influência sobre o nível de CEL sobre C. natalensis; (3) a ascendência no meio rural contribui para o CEL acerca de fauna e flora do Parque, mesmo este sendo localizado em área urbana; e (4) o tempo de trabalho no Parque está diretamente relacionado aos maiores conhecimentos sobre C. natalensis em virtude de maiores chances de experiências locais com essa espécie ao longo do tempo.

Material e métodos

Área de estudo

Este estudo foi realizado no Parque Municipal Dom Nivaldo Monte (Figura S1), uma Unidade de Conservação (UC) de Proteção Integral da Mata Atlântica setentrional. Compreende uma área de 136,54 hectares, e está inserido na área urbana do município de Natal/RN (“Prefeitura Municipal do Natal”, [s.d.]). Mais conhecido como Parque da Cidade, esta UC foi criada por meio do Decreto Municipal Nº 87.078/2006, na categoria de Unidade de Conservação de Proteção Integral, cujo objetivo é preservar a natureza, admitindo apenas o uso indireto dos seus recursos naturais. O Parque é utilizado pela população local principalmente para atividades recreativas, como caminhadas, passeios ciclísticos e trilhas naturais. No âmbito deste Parque foram realizadas as entrevistas com os funcionários na sede desta UC.

Coleta de dados

A coleta de dados ocorreu nos meses de julho e agosto de 2021 por meio de questionários semiestruturados aplicados com funcionários do Parque sobre os temas: conservação, herpetofauna, e ecologia do lagarto-de-folhiço Coleodactylus natalensis, aqui representando o nosso modelo de espécie críptica de pequeno porte.

Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte sob o número certificado CAAE 46979421.8.0000.5537 e número do Parecer 4.812.599. Seguindo as regras desse Comitê, antes de aplicar o questionário, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) foi apresentado aos funcionários conforme as normas estabelecidas pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde e previamente aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) (CEP/ UFRN nº 227/12).

Os questionários foram aplicados individualmente para evitar indução nas respostas, com duração entre 15 e 30 minutos. Antes da aplicação, explicou-se brevemente a proposta do estudo e foi perguntado se a pessoa gostaria de participar; aqueles que aceitaram assinaram o TCLE, autorizando a utilização dos dados para pesquisa. O questionário foi dividido em 4 partes: (1) perfil dos participantes (idade, ascendência de ambiente rural, tempo de trabalho no parque, gênero, escolaridade, setor de atuação no parque; 10 questões); (2) CEL sobre o ambiente natural e conservação do Parque (6 questões); (3) CEL sobre a fauna de répteis local (5 questões); e (4) CEL sobre o lagarto C. natalensis (11 questões).

Durante a parte 3 do questionário, foram mostradas oito fotos de animais que ocorrem na região (Figura S2): tatu-peba (Euphractus sexcinctus), jabuti-piranga (Chelonoidis carbonaria), jiboia (Boa constrictor), minhoca (Annelida), perereca-do-chaco (Boana raniceps), lagartixa (Tropidurus hispidus), embuá/piolho-de-cobra (Diplopoda), e cobra-cipó (Chironius flavolineatus). Foi solicitado aos funcionários que identificassem quais desses animais eles classificavam como répteis. Em seguida, ainda na parte 3 do questionário, foram apresentadas aos participantes fotos de cinco espécies de lagartos que ocorrem na área do Parque (Figura S3): Vanzosaura multiscutata, Brasiliscincus heathi, Hemidactylus mabouia, Salvator merianae e Coleodactylus natalensis; após apresentação das imagens, foi perguntado se, dentre esses lagartos, eles sabiam identificar quem era o lagarto-de-folhiço (C. natalensis). Para os participantes que não souberam identificar ou que identificaram erroneamente, a entrevista foi encerrada; já para aqueles que identificaram C. natalensis corretamente, o questionário prosseguiu para a parte 4, com perguntas específicas sobre aspectos ecológicos dessa espécie, incluindo biologia reprodutiva, uso de habitat, período de atividade, dieta e termorregulação.

Análise dos dados

Para a análise qualitativa do CEL, foi elaborado um “quadro de cognição comparada”, contendo as informações providas pelos entrevistados (respostas mais frequentes) sobre a conservação do Parque, sobre os répteis, e sobre C. natalensis especificamente, e as convergências e divergências com a literatura científica (COSTA NETO; SANTOS FITA; VARGAS CLAVIJO, 2009). Quando a informação fornecida pelo participante sobre C. natalensis não foi encontrada na bibliografia científica para esta espécie, foi levado em consideração o que havia disponível para o gênero Coleodactylus, e quando não encontrado para este gênero foi levado em consideração as informações gerais para lagartos gecos (Gekkota) de serrapilheira, em razão da proximidade filogenética e semelhanças ecológicas entre as espécies desse grupo (KLUGE, 1995).

Para a análise quantitativa dos dados, primeiramente organizou-se uma tabela com escores (pontuação) elaborados pelos autores para as respostas obtidas (Tabela S1). Os participantes que obtiveram pontuação máxima, ou seja, acertaram todas as respostas, atingiram 10 pontos. A mesma metodologia foi utilizada para as informações sobre atributos ecológicos de Coleodactylus natalensis (Tabela S2); as perguntas especificas sobre o lagarto-de-folhiço foram realizadas somente com os participantes que identificaram adequadamente a espécie por fotografia.

Com essa pontuação feita para cada um dos informantes, testes t de amostras independentes foram realizados para verificar se havia influência do tempo de trabalho no Parque (maior ou menor que 5 anos) e da ascendência do informante (urbana ou rural) sobre os escores de CEL quanto ao ambiente natural do Parque e os répteis. Um teste t independente também foi aplicado para comparar esses escores de CEL entre os entrevistados que reconheceram e os que não reconheceram a espécie C. natalensis dentre as imagens de lagartos apresentadas.

Adicionalmente, o teste Chi-quadrado foi aplicado para avaliar se o tempo de trabalho no Parque e a ascendência do informante influenciaram no reconhecimento de C. natalensis. Para as pessoas que reconheceram C. natalensis, uma análise de correlação de Spearman foi realizada para testar se havia relação entre os escores de CEL sobre o ambiente natural do Parque e os répteis, e os escores de CEL sobre a espécie C. natalensis.

Todas as análises estatísticas foram realizadas usando o software SPSS Statistics 20.0 (IBM) para Windows (α = 0,05). Todas as variáveis foram testadas quanto à normalidade e homoscedasticidade das variâncias antes de realizar testes paramétricos.

Resultados

Um total de 39 funcionários do Parque da Cidade foram entrevistados entre julho e agosto de 2021 (27 do sexo masculino e 12 do sexo feminino), com idade entre 24 e 63 anos. Do total de entrevistados, onze trabalhavam no setor de manejo ambiental - SMA (28,2%), onze no centro de educação ambiental - CEA (28,2%), dez no grupo de ação ambiental - GAAM (25,6%), 4 funcionários assistentes de serviços gerais - ASG (10,3%) e 3 funcionários do setor Administrativo - ADM (7,7%). Essa amostra de participantes representa cerca de 90% do total de funcionários destes setores do Parque. Dentre estes, 71% declararam morar no município de Natal durante toda a vida, contudo 53,8% tinham ascendência até 2º grau (pais ou avós) no meio rural. Além disso, 53,8% possuem ensino superior completo, mas apenas 7,7% com formação na área ambiental. Um total de 61,5% dos funcionários trabalha no parque há 5 anos ou mais (alguns desde a sua inauguração, no ano de 2008), enquanto 38,5% dos trabalhadores trabalham no parque há menos de 5 anos. Também foi perguntado quais animais eles mais viam no Parque, e 73.7% afirmaram que as aves constituem o grupo mais avistado; 26,3% afirmaram que os répteis são mais avistados.

Conhecimento ecológico local sobre o ambiente natural e conservação do Parque

Todos os participantes consideraram a existência do Parque como “muito importante” para a conservação da fauna e flora locais. Quanto à vegetação e bioma predominantes no Parque, a maioria respondeu corretamente que a Mata Atlântica é o bioma predominante, mas também foi citado por eles restingas, vegetação arbustiva densa ou espaçada, tabuleiro costeiro, floresta semidecidual arbustiva, capim dunar, e floresta estacional, que são tipos de vegetação associadas à Mata atlântica. Apenas duas pessoas indicaram erroneamente o bioma principal do parque como sendo Cerrado ou Caatinga.

Quando foi pedido aos participantes para classificar, numa escala de 0 a 10, o quanto as espécies da fauna e flora local teriam a possibilidade de sobreviver sem a existência do Parque após 10 anos, todos responderam que sem esta área protegida haveria interrupção da sobrevivência e permanência das espécies no local do Parque com o passar dos anos. A justificativa principal citada pelos entrevistados para o “desaparecimento” rápido da biodiversidade local foi a especulação imobiliária, posto que o Parque está localizado em uma área urbana da cidade de Natal, e recentemente alguns condomínios residenciais vêm sendo construídos em seu entorno.

Conhecimento ecológico local sobre os répteis

A partir das respostas dos participantes, foram selecionadas frases recorrentes sobre répteis (Tabela 1), para avaliar se haveria congruência entre estas e a literatura científica. A maior parte dos participantes (79%) afirmou não ter medo de répteis, contudo 38,4% afirmaram que répteis ou alguns répteis podem transmitir doenças, uma das concepções alternativas errôneas encontradas. Adicionalmente, 25,6% do total de participantes informou erroneamente que todos os répteis são peçonhentos.

Tabela 1
Quadro de cognição comparada sobre o CEL de répteis, elaborada a partir de entrevistas com funcionários do Parque Municipal Dom Nivaldo Monte, realizadas em julho e agosto de 2021.

Conhecimento ecológico local sobre o lagarto Coleodactylus natalensis

Quando foram apresentadas as cinco imagens de lagartos aos participantes, 22 (56,4%) identificaram corretamente a espécie Coleodactylus natalensis. Para os que identificaram corretamente, continuamos o questionário perguntando características ecológicas especificas sobre o lagarto-de-folhiço, tais como, habitat, reprodução, período reprodutivo, quantidade de ovos por postura, horário de maior atividade, e alimentação, cujas principais e mais recorrentes respostas estão na Tabela 2.

Tabela 2
Quadro de cognição comparada sobre a ecologia de Coleodactylus natalensis obtido através de entrevistas com funcionários do Parque Municipal Dom Nivaldo Monte, realizadas em julho e agosto de 2021.

Determinantes do conhecimento ecológico local

Informantes com ascendência rural e urbana não diferiram nos escores de CEL sobre o ambiente natural e conservação do Parque e sobre os répteis (t = -0,589, gl = 37, p = 0,560); o tempo de trabalho no Parque (maior ou menor que 5 anos) também não influenciou nestes escores (t = 0,010, gl = 37, 0,992; Tabela 3).

Tabela 3
Valores médios (± 1 DP) dos escores de conhecimento ecológico local sobre o ambiente natural do Parque e sobre os répteis (amostra total), e sobre a espécie de lagarto Coleodactylus natalensis (amostra de pessoas que reconheceram a espécie), ambos por tipo de ascendência (rural x urbana) e tempo de trabalho no Parque.

O nível de CEL sobre o ambiente natural e conservação do Parque e sobre os répteis exerceu uma influência sobre a eficiência de reconhecimento de Coleodactylus natalensis: pessoas que reconheceram C. natalensis dentre as imagens de animais apresentadas obtiveram um escore de CEL (6,59 ± 2,11) significativamente superior ao escore obtido pelas pessoas que não reconheceram a espécie dentre as imagens apresentadas (4,94 ± 2,33; t = 2,315, gl = 37, p = 0,026; Figura 1)

Figura 1
Valores médios (± 1 DP) dos escores de conhecimento ecológico local sobre o ambiente natural do Parque e os répteis entre as pessoas que reconheceram e as que não reconheceram a espécie Coleodactylus natalensis dentre as imagens de lagartos apresentadas.

O tempo de trabalho no Parque influenciou no reconhecimento de C. natalensis (Qui-quadrado, X2 = 12,773, gl = 1, p < 0,001; Tabela 4), porém a ascendência das pessoas (urbana x rural) não exerceu influência significativa no reconhecimento da espécie (Qui-quadrado, X2 = 2,837, gl = 1, p = 0,092; Tabela 4).

Para as pessoas que reconheceram C. natalensis, não houve uma correlação entre os escores de CEL sobre o ambiente natural e conservação do Parque e os répteis, e os escores de CEL sobre C. natalensis (rs = 0,010, p = 0,964; Figura S1). Também não houve influência da ascendência das pessoas (rural ou urbana; t = 0,180, gl = 20, p = 0,859), nem do tempo de trabalho no Parque (menos ou mais que 5 anos; t = 1,637, gl = 20, p = 0,117) sobre os escores de CEL em relação a C. natalensis.

Tabela 4
Números absolutos e percentuais de pessoas que reconheceram Coleodactylus natalensis, nas diferentes categorias relacionadas ao tempo de trabalho no Parque e tipo de ascendência (rural ou urbana).

Discussão

A maioria dos funcionários do Parque Municipal Dom Nivaldo Monte demonstrou possuir conhecimentos específicos sobre o bioma local, fato que corrobora estudos anteriores que mostram que o conhecimento local e percepção de funcionários de Parques tendem a convergir com o conhecimento científico, devido ao convívio constante com a área e com pesquisadores (DIEGUES, 2000; SILVA; CÂNDIDO; FREIRE, 2009; KNAPP et al., 2014).

É também relevante destacar que todos os funcionários, independentemente da idade, formação e tempo de trabalho no Parque estudado, possuem a consciência sobre a necessidade da existência desta área protegida para a conservação da biodiversidade e identificam que haveria perdas imediatas de biodiversidade em virtude da especulação imobiliária sobre essa área, que ocasionaria na perda de hábitats. Esse tipo de ameaça é muito comum em áreas protegidas localizadas em espaços urbanos, diferentemente de áreas protegidas localizadas em áreas rurais, que estão mais sujeitas a ameaças por caça de subsistência, mineração e extração ilegal de madeira, dentre outras (SHAFER, 2012). Constata-se, portanto, que áreas protegidas em áreas urbanas e rurais estão sujeitas a ameaças, embora distintas (VERGARA-RIOS et al., 2021).

No que se refere à fauna local, os participantes apontaram os répteis como sendo o segundo táxon de vertebrados mais visto no Parque. No geral, o conhecimento dos informantes sobre os répteis foi congruente com a literatura científica. A maioria das respostas fornecidas sobre características dos répteis foram comportamentais (e.g. forma de locomoção, modo de forrageio) ou fisiológicas (e.g. termorregulação e temperatura do corpo), embora seja observado na literatura que a maior parte da identificação de espécies a partir do CEL seja por características morfológicas (BONIFÁCIO; SCHIAVETTI; FREIRE, 2015; RAMIRES et al., 2015; FERREIRA-ARAUJO; MACEDO LOPES; QUEIROZ LIMA, 2021). O tipo de conhecimento comportamental demonstrado pelos informantes do Parque aqui estudado pode ter sido adquirido a partir de observações diárias, contudo as informações fisiológicas possivelmente foram adquiridas durante a formação escolar.

Quanto aos répteis de pequeno porte e crípticos, verificou-se que os entrevistados que atingiram maiores escores de CEL sobre o ambiente natural e conservação do Parque e sobre os répteis tiveram uma eficiência maior em identificar o lagarto-de-folhiço Coleodactylus natalensis. Estes resultados sugerem que o conhecimento do ambiente natural no qual os animais estão inseridos pode proporcionar conhecimentos mais específicos sobre espécies pequenas e crípticas. O conhecimento dos entrevistados sobre C. natalensis deve ser analisado cuidadosamente e de forma valiosa, visto que o sentimento de conservação pode estar associado ao conhecimento sobre os animais, e o discurso e atitudes conservacionistas são geralmente direcionadas para animais bastante visíveis e de grande porte (LORIMER, 2007; FISHER, 2011; ALVES et al., 2012). Assim, considerando que C. natalensis é uma espécie de lagarto de tamanho diminuto, críptica e que não possui valor cultural ou utilitário para os informantes, é de grande relevância os conhecimentos locais identificados, visto que este não é o padrão observado frequentemente nos estudos de conhecimento ecológico local (SILVANO et al., 2006; STOKES, 2007; RAMIRES et al., 2015).

Berti et al. (2020) discutem que, apesar de animais menores terem, em geral, baixo carisma, a menor espécie dentro de cada grupo taxonômico analisado tem valor de carisma muito maior do que o previsto. O modelo de réptil utilizado no estudo de Berti et al. (2020) foi a lagartixa anã das Ilhas Virgens (Sphaerodactylus parthenopion), que é um geco pertencente à mesma família (Sphaerodactylidae) e muito semelhante em forma e tamanho a C. natalensis. Este fato sugere que, apesar do carisma estético ser maior para animais maiores, espécies extremamente pequenas podem evocar reações positivas devido a diferentes mecanismos psicológicos, como o carisma “fofinho” (LORIMER, 2007). É provável que C. natalensis, por ser o menor lagarto da América do Sul e constituir espécie-bandeira das áreas verdes de Natal/RN, que inclui o Parque Municipal Dom Nivaldo Monte (FREIRE et al., 2018), torne-se carismático, cause sentimentos de pertencimento nas pessoas e, portanto, esteja recebendo atenção especial dos funcionários deste Parque. Por fim, sugerimos que essa percepção do lagarto pode ser ampliada para a população local, auxiliando na conservação desta espécie ameaçada.

Para este trabalho, não foi encontrada diferença entre o CEL de pessoas que tinham ascendência no ambiente rural em relação aos de ambiente urbano. Levando em consideração que a zona rural no Rio Grande do Norte majoritariamente não possui Mata Atlântica e que a ocorrência de C. natalensis está restrita à Mata Atlântica (LISBOA; FREIRE, 2012), excluímos a hipótese que ascendência no meio rural pode conceder concepções especificas sobre CEL em áreas protegidas presentes em ambientes urbanos.

É relevante destacar também algumas concepções alternativas detectadas sobre os répteis em geral e sobre o lagarto C. natalensis (Tabela 1, Tabela 2). Muitas vezes o elemento místico pode gerar perspectiva positiva de conservação ou negativa, quando a imagem do animal é temida e odiada por sua associação ao mal, como acontece especialmente a muitas espécies de serpentes (ALVES et al., 2010; COSTA et al., 2021). Em várias culturas, tais visões antagônicas se sobrepõem e resultam tanto em amor, quanto ódio a esses animais. No caso dos funcionários do Parque Municipal Dom Nivaldo Monte, as concepções equivocadas sobre répteis podem vir de uma falha no processo de ensino-aprendizagem, mas também nos mostram que, embora o contato com áreas naturais ofereça algumas informações especificas aos funcionários, não quebram todas as concepções alternativas equivocadas encontradas (PASSOS et al., 2015).

Sobre as concepções alternativas encontradas sobre o Coleodactylus natalensis, já não se pode atribuir ao processo educativo, visto que é um animal pouco conhecido até mesmo por alguns professores locais da área de Biologia. Portanto, aqui atribuímos essa falta de conhecimento específico às dificuldades em visualizar e interagir com esse animal e, portanto, de observação do seu comportamento e atributos morfológicos, o que é um dos maiores desafios para se conservar espécies de pequeno tamanho corporal.

Conclusões

A riqueza de diversidade e de conhecimentos sobre a biodiversidade local demonstrados pelos funcionários do Parque estudado evidenciam que a inserção dos funcionários no cotidiano de área natural protegida possibilita acesso a informações específicas, mesmo sobre répteis, apesar de os encontros com esses animais serem esporádicos.

De forma geral, os conhecimentos demonstrados pelos entrevistados sobre o lagarto-de-folhiço C. natalensis foram coerentes com o atual estado do conhecimento científico sobre esta espécie. A inconsistência sobre conhecimentos específicos pode ser devido a dificuldades em visualizar e interagir com esse animal de tamanho muito reduzido e, portanto, de observação do seu comportamento e atributos morfológicos, o que é um dos maiores desafios para conservar espécies de pequeno porte.

A hipótese de que ascendência no meio rural pode proporcionar concepções especificas sobre CEL acerca de fauna e flora em áreas protegidas em ambientes urbanos não foi confirmada. Contudo, tempo de trabalho no Parque esteve diretamente relacionado aos maiores conhecimentos sobre o lagarto-de-folhiço.

Por fim, nossos resultados reforçam a importância do Conhecimento Ecológico Local de funcionários de áreas protegidas e o seu relevante papel como parceiros da ciência e da sociedade em prol da conservação da biodiversidade. Ademais, são poucos os trabalhos que investigam o CEL para áreas protegidas em ambientes urbanos, o que torna esse trabalho relevante, por constituir a base para percepção e análise de concepções específicas registradas neste Parque urbano, que diferem de áreas protegidas de meio rural em ameaças biológicas e conhecimento popular local.

Agradecimentos

Este estudo foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), a qual concedeu bolsa de mestrado para H.R.S., bem como bolsa PNPD/pós-doutorado para R.F.D.S; e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de Produtividade em Pesquisa para E.M.X.F. Também somos gratos aos gestores do Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte e todos os funcionários entrevistados por permitir que realizássemos as entrevistas; sem eles esse trabalho não seria possível. Sinceros agradecimentos a O. Furtado e V. Silva por fornecerem algumas das imagens usadas neste trabalho. H.R.S. agradece em especial a sua filha e gostaria de lembrá-la que ela pode realizar todos os seus sonhos e que sua mãe sempre estará presente para ajudar a concretizá-los!

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    24 Abr 2022
  • Aceito
    21 Maio 2024
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ANPPAS - Revista Ambiente e Sociedade Anppas / Revista Ambiente e Sociedade - São Paulo - SP - Brazil
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