Resumo
Objetivo Verificar a prevalência de sintomas de depressão em mulheres e sua associação com as características socioeconômicas, clínicas e comportamentais.
Métodos Os sintomas depressivos foram avaliados pelo instrumento o Beck Depression Inventory (BDI). Os dados foram analisados usando estatística descritiva, tomando as frequências brutas e relativas junto com o intervalo de confiança de 95% (IC95%); nas análises bivariadas foi usado o teste qui-quadrado de Pearson. A regressão de Poisson foi realizada com variância robusta usando as Razões de Prevalência (RPs) bruta e ajustada junto com os intervalos de confiança (IC95%). As análises foram realizadas usando o programa Stata 17.
Resultados As maiores prevalências de sintomas depressivos foram observadas em mulheres com menor escolaridade (RP: 1,59; IC95%: 1,19-2,12), sem religião (RP: 1,47; IC95%: 1,15-1,88), que recebem auxílio do governo (RP: 1,41; IC95%: 1,11-1,80), não praticam exercício físico (RP: 1,47; IC95%: 1,17-1,87), fumantes, (RP: 1,51; IC95%: 1,18-1,94) e com diagnóstico de multimorbidade (RP: 1,60; IC95%: 1,29-1,98).
Conclusão Os dados apontam para a urgência em fortalecer e ampliar os serviços oferecidos nas redes de atenção psicossocial bem como as políticas públicas para responder às demandas e necessidades das mulheres, considerando suas dificuldades no acesso aos serviços.
Descritores:
Depressão; Prevalência; Saúde das mulheres; Fatores de risco
Abstract
Objective To verify the prevalence of depression symptoms in women and their association with socioeconomic, clinical and behavioral characteristics.
Methods Depressive symptoms were assessed using the Beck Depression Inventory (BDI). Data were analyzed using descriptive statistics, taking unadjusted and relative frequencies along with 95% Confidence Intervals (95%CIs). In bivariate analyses, Pearson’s chi-square test was used. Poisson regression was performed with robust variance using unadjusted and adjusted Prevalence Ratios (PRs) along with 95%CIs. Analyses were performed using Stata 17.
Results The highest prevalence of depressive symptoms was observed in women with lower education (PR: 1.59; 95%CI: 1.19-2.12), without religion (PR: 1.47; 95%CI: 1.15-1.88), who receive government aid (PR: 1.41; 95%CI: 1.11-1.80), do not practice physical exercise (PR: 1.47; 95%CI: 1.17-1.87), smokers (PR: 1.51; 95%CI: 1.18-1.94) and with a diagnosis of multimorbidity (PR: 1.60; 95%CI: 1.29-1.98).
Conclusion The data point to the urgency of strengthening and expanding the services offered in psychosocial care networks, as well as public policies to respond to women’s demands and needs, considering their difficulties in accessing services.
Keywords:
Depression; Prevalence; Women’s health; Risk factors
Resumen
Objetivo Verificar la prevalencia de los síntomas de depresión en las mujeres y su relación con las características socioeconómicas, clínicas y conductuales.
Métodos Los síntomas depresivos se evaluaron mediante el instrumento Beck Depression Inventory (BDI). Los datos se analizaron utilizando estadística descriptiva, tomando las frecuencias brutas y relativas junto con el intervalo de confianza del 95 % (IC95 %). En los análisis bivariados se utilizó la prueba ji cuadrado de Pearson. La regresión de Poisson se realizó con varianza robusta utilizando las razones de prevalencia (RP) brutas y ajustadas junto con los intervalos de confianza (IC95 %). Los análisis se realizaron utilizando el programa Stata 17.
Resultados La mayor prevalencia de síntomas depresivos se observó en mujeres con menor nivel educativo (RP: 1,59; IC95%: 1,19-2,12), sin religión (RP: 1,47; IC95%: 1,15-1,88), que reciben ayuda del gobierno (RP: 1,41; IC95%: 1,11-1,80), que no practican ejercicio físico (RP: 1,47; IC95%: 1,17-1,87), fumadoras (RP: 1,51; IC95%: 1,18-1,94) y con diagnóstico de multimorbilidad (RP: 1,60; IC95%: 1,29-1,98).
Conclusión Los datos apuntan a la urgencia de fortalecer y ampliar los servicios ofrecidos en las redes de atención psicosocial, así como las políticas públicas para responder a las demandas y necesidades de las mujeres, teniendo en cuenta sus dificultades para acceder a los servicios.
Descriptores:
Depresión; Prevalencia; Salud de la mujer; Fatores de riesgo
Introdução
Depressão é um dos transtornos psiquiátricos que mais afetam a população globalmente, sendo considerada como o transtorno mais comum junto com os transtornos de ansiedade. Cerca de 300 milhões de pessoas padecem de depressão no mundo e um incremento aproximado de 25% ocorreu durante o primeiro ano da pandemia pelo coronavírus-19.(1)
O Brasil é considerado o país com maior número de casos de depressão na América do Sul, com 11.548.577 (5,8%) de casos registrados na população brasileira.(2) Segundo os dados do Global Burden Disease (GBD) no Brasil (2017), os transtornos depressivos estavam entre as principais causas de incapacidade vivenciada durante anos principalmente entre mulheres.(3) Mulheres apresentam uma prevalência de depressão duas vezes maior que os homens devido aos fatores socioculturais e ambientais permeados pela desigualdade de gênero transmitida historicamente.(4,5)
Quanto à manifestação clínica, os sintomas depressivos são caracterizados principalmente por humor triste e perda de interesse ou prazer. Eles afetam significativamente a capacidade para realizar atividades cotidianas, repercutindo no rendimento laboral, relacionamentos e qualidade de vida.(1) Os sintomas são tais como tristeza, desânimo, fadiga, lentidão, isolamento e ruminação; perdas de interesse, vontade, senso de humor e capacidade de desfrutar; sono irregular, falta de energia, dificuldade para realizar atividades, alimentação e higiene corporal; percepção catastrófica, crenças rígidas, sentimentos de culpa e redução na concentração.(6,7) Os sintomas podem estar inter-relacionados, apresentando retroalimentação e agravamento progressivo na maioria dos casos.(8,9)
Neste cenário, é importante considerar a Política Nacional de Saúde Mental,(10) que representa um marco legal robusto para enfrentar doenças psiquiátricas, bem como a criação dos Centros de Atenção Psicossocial.(11) Neste sentido, a Portaria 2436/2017 incluiu a área de saúde mental na Estratégia de Saúde da Família.(12) Esses procedimentos administrativos contribuem para uma abordagem ampliada, multidisciplinar e holística para melhorar os serviços prestados, distanciando-se do modelo hospitalocêntrico.(13)
Além disso, vale refletir sobre a importância do conhecimento sobre o tema da saúde mental. As capacitações são muito importantes, pois quando os profissionais recebem capacitação, eles estão melhor preparados para o atendimento. Além disso, é fundamental que os treinamentos ultrapassem a oferta de conhecimentos específicos em saúde mental, contribuindo para um cuidado interprofissional, priorizando o diálogo entre saberes e deveres e promovendo assistência integral.(14)Destaca-se a relevância desta pesquisa, considerando o exposto acima e que os estudos sobre a prevalência dos sintomas de depressão em mulheres são poucos. Este é o primeiro estudo transversal de base populacional, que explora os sintomas depressivos e os fatores associados em mulheres que moram na cidade de Vitória (Espírito Santo, ES, Brasil), contribuindo para o conhecimento nas áreas de saúde mental e integral das mulheres. Portanto, o objetivo deste estudo foi verificar a prevalência de sintomas de depressão e sua associação com as características socioeconômicas, clínicas e comportamentais em mulheres.
Métodos
Estudo epidemiológico tipo transversal foi realizado no período de janeiro a maio de 2022. O estudo foi realizado na cidade de Vitória (Espírito Santo, ES) com 1086 mulheres com idade ≥18 anos. O critério de inclusão foi ter um parceiro íntimo atual ou nos últimos 24 meses. As mulheres que não tinham capacidade de compreensão ou comunicação devido a um déficit intelectual ou sensorial, que impossibilitou responder a pesquisa, foram excluídas.
A amostragem foi realizada consultando os setores censitários na cidade de Vitória conforme o censo de 2010 conduzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).(15) O número total de domicílios na área urbana de Vitória (ES) em 2010 (108.515) foi dividido por 100 (número de setores a serem visitados) para calcular o salto sistemático (1.085). A lista de domicílios foi ordenada por nível socioeconômico e o sorteio foi realizado aleatoriamente usando o programa estatístico R até obter o número adequado a cada setor. Foi respeitada a proporcionalidade ao número de residências e mulheres em cada setor.(16) Depois da seleção dos setores censitários, os domicílios foram selecionados aleatoriamente a partir da lista disponibilizada pelo IBGE em sua plataforma online. Para estimar o tamanho da amostra, foi considerada a prevalência de 50% visando maximizar a amostra (nível de confiança: 95%; erro aceitável: 5%). Para estudar a associação dos fatores de risco, foram considerados nível de 95%, poder de 80% e razão expostos/não expostos de 1:1. A esse valor foram somados 10% para possíveis perdas e 30% para fatores de confusão, e a amostra final calculada foi de 1100 mulheres.(16)
A coleta de dados foi realizada em domicílio, de forma individual e em local privativo. Todas entrevistadoras eram do sexo feminino, tendo sido adequadamente treinadas e supervisionadas. Os dados foram coletados usando Tablets, tendo sido gerenciados pela ferramenta eletrônica para captura de dados Research Eletronic Data Capture (REDCap). O estudo piloto ocorreu em dezembro de 2021 (34 entrevistas) cujos dados não foram incluídos na amostra final da pesquisa. A variável dependente do presente estudo está relacionada à sintomatologia depressiva avaliada pelo instrumento Beck Depression Inventory (BDI) desenvolvido por Aaron Beck e colaboradores (1961).(17) O questionário avaliou itens tais como: tristeza, pessimismo, autocrítica, choro, irritabilidade, indecisão, autoestima, preocupação, cansaço ou fadiga, pensamento suicida, falta de energia, perda de prazer e/ou interesse, sentimentos de fracasso e/ou culpa e/ou punição e/ou decepção, e alterações no apetite e/ou sono e/ou peso e/ou interesse sexual.(17)
O Inventário de Depressão de Beck é uma escala tipo Likert formada por 21 itens que pode ser autoadministrada. De acordo com a validação do instrumento, a presença de sintomas depressivos é classificada em mínima (0-11), leve (12-19), moderada (20-35) e grave (36-63).(18) No presente estudo, os itens e suas respectivas classificações de intensidade (leve, moderada e grave) foram inicialmente descritas, sendo depois dicotomizados, classificando os que pontuaram 0-11 como ausência de sintomas depressivos e aqueles com pontuação ≥12 como sintomas depressivos.
As variáveis independentes do estudo foram as seguintes: faixa-etária (18-29; 30-39; 40-49; 50-59 e ≥60 anos); raça ou cor da pele (branca; negra; amarela; parda e indígena); escolaridade da mulher (0-8; 9-11 e ≥12 anos de estudo); renda familiar por tercil (primeiro, tercil mais baixo; segundo e terceiro, tercil mais alto) e classe socioeconômica (avaliado pelo Critério Brasil, Associação Brasileira de Empresas e Pesquisas, ABEP, que estratifica as classes socioeconômicas) A1, B1, B2, C1, D e E. No presente estudo, as classificações (A, B, C e D/E)(19) foram agrupadas em situação conjugal (com e sem companheiro); religião (não; sim); trabalho remunerado (não; sim); número de pessoas no domicílio (0-2; 3-5 e ≥6 pessoas); tem casa própria (não; sim) e auxílio do governo (não; sim). O excesso de peso foi classificado calculando o índice de massa corporal (IMC) em que o peso e a altura foram autorrelatados, considerando as pessoas com IMC ≥25 kg como tendo excesso de peso (não; sim); tabagismo (nunca fumou; já fumou mas parou de fumar); uso de bebidas alcoólicas (não; sim) e atividade física autorrelatada (prática de caminhada, musculação, ginástica, pilates e/ou outros tipos de atividade), sendo dicotomizada (não; sim). A variável multimorbidades foi mensurada a partir do autorrelato de dois ou mais agravos de doença tais como: hipertensão, dislipidemia, diabetes, doenças coronarianas (infarto agudo do miocárdio e/ou angina), acidente vascular cerebral, problemas pulmonares (asma, bronquite, enfisema e/ou doença pulmonar obstrutiva crônica, DPOC), doença crônica no fígado (hepatite, cirrose e/ou outros), artrite e/ou artrose, problemas de visão (glaucoma e/ou catarata) problemas na tireoide (hipo e/ou hipertireoidismo), câncer, epilepsia, Alzheimer, Parkinson, osteoporose, perda da função renal ou depressão. A variável multimorbidades foi dicotomizada em sim/não.
Os dados foram inicialmente analisados pelos itens e classificações sintomatológicas do BDI usando estatística descritiva por frequências absoluta e relativa e seus intervalos de confiança (IC) de 95%. A análise comparativa das classificações sintomatológicas foi depois realizada dicotomicamente usando o teste qui-quadrado (χ2) de Pearson (nível de significância: 5%) e a associação entre as variáveis foi feita usando a Regressão de Poisson com variância robusta pela Razão de Prevalências (RPs) bruta e ajustada, bem como seus respectivos intervalos de confiança (IC95%). Para entrar na análise ajustada, foram considerados os valores de p<0,20 e permanência quando p<0,05. A análise ajustada ocorreu pela entrada no modelo a partir de dois níveis: os dados sociodemográficos foram incluídos no primeiro nível e os dados do primeiro modelo adicionados aos dados comportamentais e clínicos foram incluídos no segundo. Para permanência no modelo final, foi adotado o nível de significância de 5% (p<0,05). A análise estatística foi realizada usando o programa Stata (v. 17.0).
Este estudo fez parte da pesquisa “Violência contra a mulher em Vitória, Espírito Santo: um estudo de base populacional” aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal Espírito Santo (CEP/UFES; Parecer: 4.974.080) e registrada com o Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE: 41628820.6.0000.5060).
Resultados
Quanto aos dados de sintomas depressivos em mulheres residentes na cidade de Vitória (ES, Brasil), 22,8% das entrevistadas relataram ter tido sentimentos de tristeza e 21,2% delas se sentido desanimadas quanto ao futuro. Foi observado que 12,5% delas sentiam que fracassaram mais que pessoas comuns. Cerca de 3 em cada 10 mulheres não sentiam mais prazer nas coisas como antes, sentindo culpa às vezes (25,1%), decepção consigo mesmas (21,3%) e que podiam ser punidas (6,9%). Elas relataram se sentir mais irritadas do que habitualmente (~27%) e se interessar menos pelas pessoas (~24%). Quanto à autoestima, elas relataram sentir que sua aparência está pior do que costumava ser (16,4%), modificações no sono (~26%), e mais cansadas ou fadigadas que habitualmente (~41%). Além disso, elas relataram se sentir mais preocupadas (25%) e ter tido pensamentos suicidas (~5%) (Tabela 1).
As mulheres não apresentavam sintomas depressivos (~76%; IC95%: 73,4-78,5), apresentavam sintomas leves (15,1%; IC95%: 13,1-17,4), moderados (7,9%; IC95%: 6,4-9,7) e graves (~1%; IC95%: 0,5-1,7) (Tabela 2).
Em relação à análise bivariada, a tabela 3 mostra que os sintomas depressivos estavam relacionados às variáveis de escolaridade das mulheres, renda familiar (por tercil) e/ou renda (classificação da ABEP), situação conjugal, religião e auxílio do governo (p<0,05). Quanto às características comportamentais e clínicas, os sintomas depressivos estavam relacionados a tabagismo, atividade física e multimorbidade (p<0,05).
A análise ajustada mostrou que mulheres com menor escolaridade apresentaram quase 60% mais sintomas depressivos (RP: 1,59; IC95%: 1,19-2,12) em comparação aquelas com maior escolaridade. Mulheres sem companheiro tiveram 42% mais frequência de prevalência de sintomas depressivos (RP: 1,42; IC95%: 1,12-1,80) comparadas àquelas com companheiro. Além disso, não ter qualquer religião levou a 1,47 vezes maior prevalência de sintomas depressivos (RP: 1,47; IC95%: 1,15-1,88) e as mulheres que recebiam auxílio do governo tiveram 41% maior prevalência de sintomas depressivos (RP: 1,41; IC95%: 1,11-1,80) (Tabela 4).Quanto às mulheres tabagistas, elas tiveram 51% maior prevalência de sintomas depressivos que as não tabagistas e aquelas que não praticavam atividade física também apresentaram maior prevalência desse agravo (RP: 1,47; IC95%: 1,17-1,87). A presença de algum diagnóstico de multimorbidade mostrou uma prevalência 60% maior de sintomas depressivos comparada àquelas mulheres sem diagnóstico de multimorbidade.
Discussão
Os achados do presente estudo mostraram que as mulheres entrevistadas tinham sintomas depressivos leves (15,1%), moderados (7,9%) e graves (0,9%), destacando-se o relato de sintomas tais como redução do prazer ao realizar as atividades, irritabilidade, falta de interesse pelas pessoas, sentimento de culpa, cansaço, fadiga, preocupação e alterações no sono. Os achados acima se assemelham àqueles de um estudo realizado com mulheres assistidas pela Estratégia Saúde da Família (ESF) em uma cidade de Minas Gerais, apontando que elas tinham sintomas de depressão pelo BDI (~18%) e seus sintomas eram leves (5,0%) e moderados (8,2%).(20)
Sintomas depressivos em mulheres apontam a vulnerabilidade da população, pois elas são mais suscetíveis a tal condição devido a fatores genéticos, alterações hormonais e sobrecarga por desempenharem várias tarefas e por questões sociais.(21)Esses achados são preocupantes pois sintomas depressivos causam sofrimento psíquico que podem interferir nas capacidades funcional e social, bem-estar e qualidade de vida das mulheres.(1)
Em relação às variáveis socioeconômicas estudadas, mulheres com menor escolaridade apresentaram maior prevalência de sintomas depressivos (~60%). Um estudo recente mostrou que o nível de escolaridade é um indicador social de risco para a ocorrência de depressão.(22)Igualmente, um outro estudo conduzido em Minas Gerais (Brasil) envolvendo 1958 mulheres destacou que ter baixa escolaridade e histórico de doença mental são fatores associados à depressão.(23)Os dados indicam que menor escolaridade está frequentemente associada a menores oportunidades laborais, resultando em condições econômicas precárias que podem gerar sintomas depressivos.(24,20)
Igualmente, foi observada maior prevalência de sintomas depressivos entre as mulheres que recebem auxílio do governo, indicando que elas tiveram maior prevalência de sintomas depressivos (41%) comparadas às mulheres que não recebem auxílio. Isso concorda com um estudo que evidenciou prevalência de depressão em mulheres analfabetas, desempregadas e viúvas e/ou separadas, bem como em pessoas de grupos étnicos minoritários e famílias de menor tamanho (1-4 membros).(25) Foi confirmado que fatores socioeconômicos tais como pobreza, dificuldades econômicas e desemprego podem aumentar o risco de desenvolver sintomas depressivos.(26)
Foi confirmada maior prevalência de sinais e sintomas de depressão em mulheres sem companheiros que tiveram maior prevalência de sintomas depressivos (42%). Isso pode ser justificado considerando que a ausência de uma rede de apoio familiar e emocional pode levar a maior vulnerabilidade psicológica, bem como a uma sobrecarga desproporcional de responsabilidades domésticas, compromissos sociais e econômicos para mulheres sem suporte conjugal.(27,28) Além disso, é importante destacar a disparidade e desigualdade de gênero que tornam as mulheres mais vulneráveis ao estresse social, além da feminização da pobreza que leva mulheres a fazer dupla ou tripla jornada de trabalho.(6,29)
Neste estudo, um outro achado foi que a prevalência de sintomas de depressão é maior entre as mulheres que declararam não ter qualquer religião. Isso levou a maior prevalência de sintomas depressivos (47%) pois a religião facilita a busca do sentido da vida; a espiritualidade é considerada parte importante da saúde integral e uma espécie de suporte para enfrentar as dificuldades e problemas.(30,31)
Em relação às variáveis comportamentais da presente pesquisa, foi encontrada maior prevalência de sintomas de depressão entre mulheres tabagistas, que tiveram maior frequência de sintomas depressivos comparadas às não tabagistas (51%). Isto concorda com um estudo que mostrou que o tabagismo é uma das causas do deterioramento da saúde, alterando o funcionamento cerebral e predispondo as doenças neuropsiquiátricas.(32)Neste sentido, maior prevalência de sintomas depressivos foi observada entre mulheres que não praticam atividade física. Um aumento na prevalência de depressão encontrado no Brasil em 2013-2019 foi associado a comportamentos de tabagismo e sedentarismo.(33)Diferentes pesquisas mostraram que há fatores de risco relacionados com comportamentos, hábitos e estilos de vida não saudáveis, má alimentação, inatividade física e sedentarismo bem como consumo e abuso de substâncias psicoativas tais como álcool, cigarro e drogas.(34,35)
Quanto à associação com a presença de multimorbidade (isto é, diagnóstico de dois ou mais problemas de saúde), os achados apontaram prevalência 1,6 vezes maior de sintomas depressivos entre as mulheres que afirmaram ter duas ou mais doenças crônicas. Esse resultado é semelhante ao encontrado na literatura onde foi confirmado que pessoas com doenças têm maiores chances de atingir a manifestação mais grave do quadro depressivo.(36)
A saúde mental é uma desafiadora questão de saúde pública que requer a reconstrução da política de saúde no Brasil, permitindo oferecer também um cuidado adequado para acompanhar os determinantes do adoecimento mental.(37)Novas estratégias de cuidado devem ser implementadas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, envolvendo um cuidado interprofissional contínuo contemplando todos os níveis de assistência com escuta qualificada.(14)
Quanto às limitações do estudo, destacamos o delineamento da pesquisa, pois estudos transversais devem ponderar a possibilidade de causa reversa entre os sintomas depressivos e as variáveis socioeconômicas, clínicas e comportamentais estudadas. Por outro lado, nossos achados concordam com outros estudos. Além disso, recomendamos desenvolver pesquisas futuras de base populacional em diferentes cidades a fim de obter diferentes parâmetros de comparação, bem como estudos de abordagem qualitativa em mulheres com sintomas depressivos para complementar as informações e fortalecer as políticas de saúde mental.
Conclusão
A prevalência de sintomas depressivos leves e a maior prevalência de sintomas depressivos está associada a mulheres com menor escolaridade, sem religião, que recebem auxílio do governo, sedentárias, tabagistas e com multimorbidade. São necessárias políticas públicas abordando nos serviços de saúde as desigualdades de gênero, sobrecarga de trabalho doméstico junto com atividades de cuidados, vulnerabilidades e determinantes sociais que afetam a saúde mental das mulheres. É urgente fortalecer e ampliar os serviços oferecidos nas redes de atenção psicossocial para responder às demandas e necessidades das mulheres, facilitar o acesso aos serviços de Saúde mental no Brasil e o diagnóstico e tratamento dos sintomas de depressão nas mulheres e qualificar os serviços de saúde mental para fornecer um tratamento mais holístico para esse público.
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Disponibilidade dos dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.
Editado por
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Associate Editor:
Thiago da Silva Domingos (https://orcid.org/0000-0002-1421-7468) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
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