Resumo
Objetivo Avaliar a conformidade no preenchimento de checklist para os rounds multidisciplinares de uma unidade de terapia intensiva (UTI).
Métodos Estudo de método misto, com abordagem quantitativa na primeira etapa e qualitativa na segunda etapa, realizado em uma UTI adulto de um hospital de médio porte na região sul do Brasil. Foram usados os checklists ‘Suspeita para o bem’ e ‘Multidisciplinar para Rounds em UTI’ na coleta de dados quantitativa e um questionário semiestruturado na coleta qualitativa. Os dados quantitativos foram analisados usando o Teste Exato de Fisher e os qualitativos, segundo análise de conteúdo. Foi realizada análise integrada usando a combinação explicada.
Resultados A conformidade geral no preenchimento dos checklists foi determinada nos 1o (94,5%) e 2o (99,6%) períodos investigados. Emergiram duas categorias: Checklist em round multidisciplinar (adesão vs. barreira) e Conformidade com o preenchimento dos itens elencados no checklist. A adesão ao checklist e a alta conformidade com seu preenchimento mostraram que este instrumento contribui para promover a segurança de pacientes críticos.
Conclusão O preenchimento eficaz de checklist em rounds multidisciplinares é uma ferramenta de gestão de cuidado seguro importante nos cenários de assistência intensiva.
Descritores:
Lista de checagem; Unidades de terapia intensiva; Visitas com preceptor; Segurança do paciente; Equipe de assistência ao paciente
Abstract
Objective Assess compliance in completing a checklist for the multidisciplinary rounds of an intensive care unit (ICU).
Methods This mixed-method study, with a quantitative approach (in the first stage) and a qualitative approach (in the second stage), was performed in an adult ICU of a medium-sized hospital in the Southern region of Brazil. The ‘Suspicion for good’ and ‘Multidisciplinary for ICU rounds’ checklists were used in the quantitative collection of data, and a semi-structured questionnaire was used in the qualitative collection. The quantitative data were analyzed using Fisher’s Exact Test, and the qualitative data were analyzed according to content analysis. Integrated analysis was performed using the combination explained above.
Results General compliance in completing the checklists was determined in the 1st(94.5%) and 2nd(99.6%) periods investigated. Two categories emerged: checklist in multidisciplinary round (adherence vs. barrier) and compliance with the completion of the items listed in the checklist. Adherence to the checklist and high compliance in completing it showed that this instrument contributes to promoting the safety of critical patients.
Conclusion The effective completion of checklists in multidisciplinary rounds is an important safe care management tool in intensive care scenarios.
Keywords:
Checklist; Intensive care units; Teaching rounds; Patient safety; Patient care team
Resumen
Objetivo Evaluar el cumplimiento en el llenado de la lista de verificación para las rondas multidisciplinarias de una unidad de terapia intensiva (UTI).
Métodos Estudio de método mixto, con enfoque cuantitativo en la primera etapa y cualitativo en la segunda etapa, realizado en una UTI para adultos de un hospital de mediano tamaño en la región sur de Brasil. Se utilizaron las listas de verificación ‘Sospecha para el bien’ y ‘Multidisciplinar para rondas en la UCI’ en la recopilación de datos cuantitativos y un cuestionario semiestructurado en la recopilación cualitativa. Los datos cuantitativos se analizaron utilizando la prueba exacta de Fisher y los cualitativos, según el análisis de contenido. Se realizó un análisis integrado utilizando la combinación explicada.
Resultados Se determinó el cumplimiento general en el llenado de las listas de verificación en el primer (94,5 %) y segundo (99,6 %) período investigado. Surgieron dos categorías: Lista de verificación en rondas multidisciplinarias (adherencia frente a barrera) y Cumplimiento con el llenado de los ítems enumerados en la lista de verificación. La adhesión a la lista de verificación y el alto cumplimiento en su cumplimentación demostraron que este instrumento contribuye a promover la seguridad de los pacientes críticos.
Conclusión La cumplimentación eficaz de la lista de verificación en rondas multidisciplinares es una herramienta importante para la gestión de la seguridad asistencial en entornos de cuidados intensivos.
Descriptores:
Lista de verificación; Unidades de cuidados intensivos; Rondas de enseñanza; Seguridad del paciente; Grupo de atención al paciente
Introdução
Em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), a vulnerabilidade clínica dos pacientes, as diferentes possibilidades terapêuticas invasivas e as possíveis falhas assistenciais podem interferir nos resultados clínicos. Assim, o uso de métodos assertivos nos cuidados da UTI é essencial para reduzir possíveis eventos adversos e danos evitáveis que comprometem a segurança e a evolução dos pacientes críticos.( 1 )
Entre vários métodos assertivos para as práticas assistenciais em cenários de alta complexidade, o uso de um checklist durante os rounds (rodadas e/ou visitas) multidisciplinares é uma estratégia que assegura os melhores cuidados aos pacientes críticos e aumenta a satisfação no trabalho da equipe multidisciplinar.( 2 ) A literatura ainda confirma que a conformidade no preenchimento da lista de verificação em UTI favorece maior segurança na assistência prestada pela equipe de trabalho.( 1 )
O uso do checklist durante os rounds sistematiza o cuidado prestado pela equipe multidisciplinar para implementar o plano terapêutico ideal para cada paciente. Além disso, a padronização e a dupla checagem da lista de verificação proporcionam segurança à equipe e aos pacientes. Esta estratégia de trabalho multidisciplinar estrutura as diretrizes assistenciais listadas no instrumento, melhora a comunicação entre os profissionais de saúde e permite conferir as metas estabelecidas para o tratamento e evolução do quadro clínico de pacientes críticos.( 1 )
Em rounds multidisciplinares, o uso do checklist ajuda nas práticas baseadas em evidências, de modo que ele reduz o tempo de internação, as taxas de mortalidade em hospital e UTI, reduzindo também eventos adversos (EA), uso de dispositivos invasivos e infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS).( 2 ) Assim, as menores taxas de infecção no trato urinário (ITU) e na corrente sanguínea associada ao cateter (ICSAC), bem como de pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) estão atreladas ao envolvimento de todos profissionais responsáveis pelo cuidado intensivo, à comunicação eficaz da equipe de saúde e ao preenchimento diário e sistemático do checklist durante os rounds .( 3 )
Um estudo foi realizado no Paquistão para avaliar a conformidade com o checklist de Segurança Cirúrgica da Organização Mundial da Saúde (OMS) e explorar as barreiras enfrentadas em sua implementação em um complexo hospitalar, após uma intervenção educacional, ele identificou melhoria de até 66,7% na conformidade nos itens da lista de verificação e constatou que a falta de conscientização e treinamento da equipe foram as principais barreiras à adesão ao instrumento.( 4 )Semelhantemente ao cenário cirúrgico, a estratégia educacional para adesão e implementação de ferramentas tecnológicas no contexto da assistência intensiva aumenta a precisão e a confiabilidade no processo de cuidado seguro pois ela se baseia em normas legais e evidências científicas comprovadas.( 5 )
Em ambientes de alta complexidade como a UTI, é comum a elevada taxa de ocupação de leitos e a sobrecarga de trabalho dos enfermeiros e da equipe de saúde. Estes fatores às vezes resultam em barreiras ao preenchimento adequado do checklist durante os rounds ; na perspectiva dos profissionais da saúde, eles são inúteis e irrelevantes diante de várias atividades e cuidados intensivos aos pacientes críticos.( 6 ) Portanto, são necessários estudos com métodos robustos para elucidar a adesão dos profissionais de saúde ao checklist e ao seu preenchimento eficaz durante os rounds multidisciplinares.
A partir das premissas acima, a questão deste estudo consiste em saber se o preenchimento dos itens do checklist por profissionais de saúde durante os rounds multidisciplinares de uma UTI tem alta conformidade. Para responder a este questionamento, o objetivo foi avaliar a conformidade no preenchimento de checklist para os rounds multidisciplinares de uma UTI.
Métodos
Estudo de método misto foi delineado usando uma abordagem sequencial explanatória (conforme o referencial metodológico de Creswell) e conduzido por uma etapa quantitativa ( QUAN ; de maior peso; etapa 1) conectada à uma etapa qualitativa ( qual ; de menor peso; etapa 2).( 7 ) A pesquisa foi realizada a partir de resultados de uma tese doutoral (intitulada “Visita multidisciplinar diária associada ao uso de checklist em unidade de terapia intensiva: estudo de método misto”). Realizada em uma UTI adulto de um hospital filantrópico de médio porte situado na região Sul do Brasil.( 8 ) O referido setor tem dez leitos sendo considerado como um centro de cuidado clínico e cirúrgico para a cidade e região.
Na etapa 1, foram avaliados dois períodos de investigação: 1º período ( round com uso não sistemático do checklist 1; ‘ Checklist Suspeita para o Bem ’ ; fev-mar de 2019) e 2º período: ( round com uso sistemático do checklist 2; ‘ Checklist Multidisciplinar para Rounds em UTI’; fev-mar de 2021). As expressões ‘não sistemático’ e ‘sistemático’ correspondem respectivamente ao preenchimento do checklist em dias intercalados e diariamente.
Em abril de 2018, foram implantados na UTI em estudo os rounds diários com a equipe multidisciplinar composta por sete profissionais: médicos intensivista (1) e infectologista (1), enfermeiros da UTI (1) e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH; 2) fisioterapeuta (1) e nutricionista (1). Em fevereiro de 2019, o checklist 1 foi instituído durante os rounds, mas seu preenchimento foi realizado em dias intercalados. Em fevereiro de 2021, o checklist 1 foi substituído pelo checklist 2, tendo sido validado por uma das pesquisadoras do presente estudo.( 9 ) A partir desta data, ele foi preenchido diariamente pelo enfermeiro da UTI e/ou médico intensivista.
Os checklists 1 (16 itens) e 2 (12 itens) foram constituídos por intervenção e/ou cuidado, sendo fundamentados nas melhores práticas em saúde. Dessas intervenções, 11 práticas de cuidados foram avaliadas neste estudo sendo comuns a ambos checklists: elevação da cabeceira (30o); analgesia adequada; sedação leve (RASS: -3 a 0); profilaxia de tromboembolia venosa (TEV); profilaxia de úlcera gástrica; nutrição adequada; dias de uso de ventilação mecânica (VM), cateter venoso central (CVC) e sonda vesical de demora (SVD); controle glicêmico e suspensão e/ou ajuste de doses de antimicrobiano.( 9 )
Para ambos períodos de investigação, foram elegíveis todos checklists presentes nos prontuários de pacientes admitidos na UTI, com idade ≥16 anos e internados durante ≥48 h. Foram excluídos prontuários de pacientes com diagnóstico médico confirmado de morte encefálica.
Na etapa 1, a coleta de dados foi realizada no período out-dez de 2022. Para a coleta de dados, a busca foi realizada em um banco de dados (programa Microsoft Excel ®) com informações sobre os checklists (versões 1 e 2) usados na UTI em estudo.( 8 )
Os dados sobre os checklists 1 e 2 foram selecionados e analisados no pacote computacional R ( v . 4.0.2). A descrição dos dados foi realizada em tabelas apresentando números absolutos, porcentagens, média e desvio padrão. As características numéricas e não-numéricas da amostra dos grupos sobre as boas práticas de cuidado foram apresentadas comparando os diferentes períodos de investigação. O Teste Exato de Fisher foi aplicado considerando nível de significância de 5% (α=0,05).
A etapa 2 (estudo misto) foi realizada no período jan-mar de 2023 após análise preliminar dos dados preponderantes na Etapa Quantitativa (QUAN). Nesta etapa, foram analisados os depoimentos de sete profissionais de saúde da UTI em estudo que participaram dos rounds multidisciplinares. Os depoimentos foram armazenados em um arquivo (Google Docs®) sob controle da pesquisadora responsável pelo estudo.
O critério de elegibilidade para participar na etapa 2 consistiu em ser membro efetivo dos rounds multidisciplinares da UTI. Como critério de exclusão, foi considerada a ausência do profissional no período da coleta de dados. Os sete profissionais elegíveis participaram no estudo sem qualquer exclusão, perda ou recusa.
Na etapa 2, os profissionais de saúde participaram na entrevista, sendo utilizado um questionário semiestruturado, elaborado pela pesquisadora, constituído por questões sobre os dados sociodemográficos dos profissionais de saúde e uma questão norteadora: “Fale-me sobre sua visita multidisciplinar e checklist em sua prática clínica”.
As entrevistas foram agendadas conforme a disponibilidade de cada profissional, gravadas em áudio e realizadas individualmente na própria instituição em ambiente privativo (duração média: 35 min). Foram apresentados aos participantes os objetivos do estudo e os aspectos éticos envolvendo pesquisa com seres humanos. Durante a entrevista, foi usado um diário de campo para anotar as observações da pesquisadora.
A partir do corpus adquirido com as narrativas transcritas integralmente no banco de dados, foi aplicada a técnica de análise de conteúdo (modalidade temática), seguindo as etapas de pré-análise, exploração do material, tratamento dos resultados obtidos e interpretação.
A análise integrada dos dados quantitativos e qualitativos foi atingida por conexão. Neste aspecto, as convergências e/ou semelhanças, complementaridades e possíveis divergências entre os dados qualitativos explicaram e aprofundaram a compreensão dos dados quantitativos. Para reforçar a característica mista deste estudo, foi construído o Pillar Integration Process (PIP). Ele é uma matriz de exibição conjunta ( joint display) , que usa um esquema conceitual integrado, ilustrando os resultados quantitativos e qualitativos e inserindo inferências autorais sobre a densidade conjunta dos dados.( 10 )
Todos os preceitos éticos e legais sobre a pesquisa com seres humanos foram atendidos e o estudo foi registrado no Comitê Permanente de Ética em Pesquisas Envolvendo Seres Humanos (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética: 32696720.0.0000.0104 – COPEP; Universidade Estadual de Maringá, UEM; Parecer: 4.660.168).
Resultados
Foram analisados 337 checklists, nos checklists 1 (‘Suspeita para o Bem’; 1º período; itens de intervenção: 1.520; 100%) e 2 (‘Multidisciplinar’; 2º período; itens de intervenção: 3.388; 100%). Uma elevada conformidade geral foi observada no preenchimento dos itens dos checklists nos 1o(94,5%) e 2o (99,6%) períodos investigados ( Tabela 1 ). Os 12 primeiros itens de intervenções e/ou diretrizes presentes nos checklists 1 e 2 são comuns a ambos. Neles, controle de glicemia, profilaxia para TEV, retirada de CVC, VM protetora, antimicrobiano, e nutrição adequada apresentaram um aumento significativo no percentual de conformidades no preenchimento do checklist 2 ( p <0,05). Os itens com menor ocorrência de conformidades no preenchimento foram VM protetora (77,9%) no checklist 1 e teste de respiração espontânea (TRE) (96,7%) no checklist 2. O percentual de conformidade geral aumentou significativamente no checklist 2 ( p =0,0001) ( Tabela 1 ). Nos dois períodos investigados, tanto a adesão ao uso do checklist durante os rounds na UTI como a conformidade no preenchimento dos checklists foram altas. Porém, a conformidade geral foi significativamente maior (99,6%; p =0,0001) durante os rounds com preenchimento diário da lista de verificação.
Na etapa 2 ( qual ), todos membros da equipe multidisciplinar da UTI (sete) que realizaram os rounds no período da tarde participaram no estudo. Os sete profissionais eram enfermeiros (3), médicos (2), fisioterapeuta (1) e nutricionista (1), com idade média de 38 anos; seis profissionais tinham tempo de experiência ≥3 anos na UTI com título de especialistas; cinco eram mulheres e cinco eram casados. Duas categorias emergiram dos depoimentos dos profissionais: C hecklist em round multidisciplinar: adesão vs. barreira; e Conformidade com o preenchimento dos itens elencados no checklist . Os excertos da primeira categoria reforçam que a adesão ao checklist foi elevada pois para os participantes a lista de verificação sistematiza o cuidado multidisciplinar, assegura a boa prática assistencial e reduz os riscos de danos aos pacientes.
O checklist direciona, sistematiza e padroniza a visita multidisciplinar; isso reduziu o tempo dos rounds e possibilitou ampliar a assistência além do modelo médico curativista. (EA6)
O preenchimento do checklist à beira leito é fundamental para a vigilância do profissional médico e de outros profissionais, assegurando uma boa prática médica. (EA7)
O uso de checklist na UTI diminui o risco de dano aos pacientes, e esse foi o principal motivo para implementá-lo em nosso hospital. (EA1)
Apesar da notável adesão ao checklist durante os rounds na UTI, foram sinalizadas barreiras a sua aplicabilidade, tais como intercorrências no plantão, ausência de um gestor no setor, e novos profissionais.
Às vezes uma emergência, uma parada cardiorrespiratória, ou outras intercorrências podem atrasar ou suspender nosso round. (EA2)
[...] a falta de um enfermeiro coordenador na UTI dificulta bastante, porque sobrecarrega o enfermeiro que deve fazer assistência e resolver questões burocráticas. Fica muito corrido preencher o checklist e participar nos rounds todos os dias. (EA1)
A principal barreira é a adesão dos profissionais novos envolvidos, pois há aqueles que não valorizam, não sei se desconhecem a ferramenta ou seus impactos no ambiente da UTI. (EA4)
Quanto à segunda categoria, notamos que a partir dos extratos apresentados, os profissionais de saúde reconheceram que a conformidade no preenchimento dos itens elencados no checklist favorece a atenção redobrada e a revisão dos diferentes cuidados discutidos no round, p.ex., o manejo do antimicrobiano.
Ao avaliar o paciente com a equipe multidisciplinar, já fazemos a leitura dos resultados de exames, sugerimos outros exames, e determinamos qual antibiótico poderá ser iniciado ou descalonado. (EA2)
Os depoimentos sobre as categorias explicam e aprofundam os resultados quantitativos ( Quadro 1 ).
Discussão
O round com uso de checklist contribuiu para maximizar a eficácia da comunicação e da prática do cuidado. Porém, ele pode não apresentar resultados positivos quando os rounds são realizados esporadicamente e sem o necessário envolvimento de todos profissionais responsáveis pelo cuidado intensivo.( 11 ) Quando as visitas multidisciplinares eram realizadas diariamente, foi observada maior adesão à lista de verificação e maior conformidade com o preenchimento dos itens pré-estabelecidos para checagem. Assim, a realização diária desta prática parece ter motivado o uso constante e adequado deste instrumento, favorecendo o trabalho conjunto da equipe de saúde.
Dois itens apresentaram menor ocorrência de conformidades no preenchimento dos checklists 1 (VM protetora) e 2 (TRE). A literatura aponta que ajustes ventilatórios adequados melhoram os desfechos clínicos e diminuem a mortalidade reduzindo o risco de lesão pulmonar causada pela VM.( 8 , 12 )Assim, a precisão do parâmetro estabelecido na VM prevê uma técnica ventilatória conhecida como “protetora”; ela permite ventilar o paciente da forma mais suave possível, evitando complicações pulmonares e favorecendo a função muscular ideal para retornar às funções ventilatórias espontâneas, se atrelada ao manejo do suporte nutricional e da condição hemodinâmica.( 13 )
Frente ao desconforto e à insuficiência respiratória, os fisioterapeutas são os profissionais que identificam a melhor intervenção aos pacientes, acompanhando-os desde a indicação da VM até a possibilidade de desmame por meio do TRE.( 13 ) O depoimento do EA2, que implicitamente sinalizou a importância de conhecer os parâmetros estabelecidos no respirador para tomar uma decisão assertiva, concordou com a literatura. O profissional ainda relatou que o médico intensivista responsável por conduzir as visitas multidisciplinares reconheceu e valorizou a presença do fisioterapeuta e dos demais profissionais de saúde durante os rounds para o melhor cuidado aos pacientes.
A ‘Alta adesão e conformidade no preenchimento dos checklists 1 e 2’ (Tema do Pilar de Integração) e a categoria emergente ‘C hecklist em round multidisciplinar: adesão vs. barreira’ representam a importância de usar checklist em rounds multidisciplinares apesar das adversidades em sua implementação na UTI. Os depoimentos destacaram que o uso de checklists direciona, sistematiza e padroniza as visitas multidisciplinares, reduzindo o tempo médio dos rounds na UTI e assegurando a boa prática médica.
As afirmações acima concordam com um estudo que examinou o impacto de um checklist na qualidade da transição de cuidado aos pacientes no serviço de emergência por médicos residentes.( 14 )O estudo mostrou que a adesão dos profissionais à lista de verificação padronizada reduziu o tempo médio da passagem de plantão e aprimorou a discussão dos itens elencados no instrumento.
No presente estudo, o preenchimento diário dos checklists foi considerado fundamental para a vigilância dos profissionais de saúde, pois isso amplia a assistência além do modelo médico curativista. Os depoimentos revelam que o uso diário de checklists melhora o manejo da dieta, a profilaxia para trombose e o uso de protetor gástrico, além de outros cuidados para a segurança dos pacientes. Mais que isso, as falas apontam que o uso desta ferramenta reduz a taxa de infecção, o tempo de internação, a mortalidade e outros danos evitáveis aos pacientes.
Os resultados supracitados são análogos àqueles de estudos brasileiros e de um estudo desenvolvido em quatro continentes que investigaram o uso de checklist em rounds multidisciplinares em UTIs.( 2 , 3 , 15 ) Os estudos significativamente melhoraram a prática de cuidado seguro e reduziram os danos evitáveis aos pacientes críticos, tais como eventos adversos, tempo de internação e dias de uso de dispositivos invasivos.( 2 , 3 , 12 ) Além disso, pesquisadores afirmaram que as listas de verificação são ferramentas úteis para o cuidado seguro, pois seu uso em serviços de alta complexidade estimula os profissionais a adotar práticas baseadas em evidências.( 2 , 3 ) Essa prática está baseada no cuidado preventivo, visando reprimir o olhar reducionista da assistência curativista, resultando em melhor atendimento aos pacientes.( 3 )
O presente estudo também sinalizou algumas barreiras à adesão ao checklist , tais como a ocorrência de emergências, parada cardiorrespiratória e outras intercorrências que podem atrasar ou suspender os rounds multidisciplinares. Além disso, a falta de um enfermeiro coordenador na UTI é apontada como uma dificuldade devido à sobrecarga dos enfermeiros supervisores e/ou assistenciais que precisam realizar a assistência e lidar com problemas burocráticos. Outras barreiras mencionadas foram a resistência ou desconhecimento de profissionais novos sobre a importância dos checklists e a necessidade de adequar os horários de vários profissionais.
Em UTI, onde o ritmo de trabalho é frequentemente intenso e imprevisível, a implementação de checklists pode ser vista como uma tarefa adicional que consome tempo. Os profissionais de saúde podem sentir que não têm tempo suficiente para preencher adequadamente o checklist durante os rounds multidisciplinares.( 16 , 17 )
A resistência dos profissionais de saúde (incluindo médicos, enfermeiros e outros membros da equipe) pode ser uma barreira importante. Alguns podem se opor à implementação do checklist por considerá-lo uma interferência em suas práticas habituais ou uma adição desnecessária às rotinas existentes. A falta de familiaridade com os benefícios deste instrumento e de conscientização sobre sua eficácia podem impedir sua adoção.( 18 ) Os profissionais de saúde podem desconhecer estudos que mostraram melhorias na segurança dos pacientes e na qualidade do atendimento com o uso de checklists. ( 17 )
É importante destacar que as barreiras supracitadas não são necessariamente intransponíveis. A literatura aponta a necessidade de superar os desafios existentes no ambiente institucional para assegurar a conformidade e adesão ao checklist em rounds multidisciplinares. Estratégias de mudança organizacional, educação continuada e permanente, engajamento dos membros da equipe e liderança ativa podem ajudar a superar essas barreiras e facilitar a implementação bem-sucedida do checklist em UTI.( 19 )
Para reduzir os obstáculos e barreiras mencionadas pelos participantes no estudo à adesão ao checklist nos rounds , estratégias específicas são necessárias (tais como a conscientização de novos integrantes da equipe multidisciplinar para valorizar esta prática, a proposição de horários alternativos em situações de emergência e a contratação de mais profissionais) para atender às demandas de gestão e assistência.
O ‘Aumento significativo na conformidade do preenchimento dos itens do checklist no período 2’ (Tema do Pilar de Integração) e a categoria intitulada ‘Conformidade com o preenchimento dos itens elencados no checklist’ apontam que a adesão aos dois checklists usados na UTI em estudo foi alta. Porém, quando a lista de verificação era preenchida diariamente (em vez de dias intercalados), ocorreu um aumento significativo na conformidade do preenchimento em seis itens seguintes do instrumento: controle de glicemia, profilaxia de TEV, retirada de CVC, VM protetora, antibióticos e nutrição adequada.
Os depoimentos indicam que as diretrizes do checklist discutidas no round fortalecem as condutas dos profissionais. Ao preencher os itens do instrumento, a equipe avalia e monitora as práticas de cuidado seguro. Portanto, é fundamental a participação de todos os membros da equipe multidisciplinar, principalmente os enfermeiros que prestam cuidado ininterrupto para a tomada de decisão e melhoria clínica dos pacientes.
Na perspectiva de conformidade no preenchimento de checklist durante o round multidisciplinar, a literatura afirma que o uso eficaz deste instrumento é uma estratégia de assistência que favorece a prática de cuidados seguros e melhores resultados terapêuticos aos pacientes críticos.( 2 , 20 ) Além disso, pode ser considerado uma prática vital para o cuidado integral, com benefícios para a instituição hospitalar, pois possibilita a recuperação mais rápida dos pacientes, com menores tempo de internação e chance de retorno por complicações futuras.( 3 , 20 )
Este estudo teve limitações, tais como dados obtidos em uma única UTI e inobservância do tempo do profissional e/ou equipe para preencher o checklist durante os rounds multidisciplinares. Além disso, o efeito Hawthorne pode ter alterado os desfechos das variáveis, pois o conhecimento do estudo pela equipe multiprofissional pode ter influenciado a qualidade de seus esforços no preenchimento adequado do instrumento, especialmente no último período de investigação. Para controlar o possível efeito Hawthorne , a pesquisadora responsável observou os instrumentos só depois de sua aplicação nos rounds multidisciplinares.
Reconhecendo que o estudo tem limitações e os dados representam uma realidade local, sugerimos conduzir outros estudos mistos para confirmar os efeitos positivos do preenchimento eficaz dos checklists na assistência intensiva e outros cenários de prática clínica.
Conclusão
Houve adesão e elevada conformidade nos dois checklists usados nos rounds multidisciplinares. Durante o uso dos checklists diários, aumentou significativamente a conformidade no preenchimento dos itens de controle de glicemia, profilaxia de tromboembolia venosa, retirada do cateter venoso central, ventilação mecânica protetora, antibióticos e nutrição adequada. Com a integração dos dados pelo método misto, a adesão ao checklist superou as barreiras da implementação do instrumento. Além disso, a alta conformidade no preenchimento da lista de verificação contribui para manter e monitorar práticas seguras em UTI.
Disponibilidade dos dados
: Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.
Agradecimentos
Apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Editado por
-
Editor Associado:
Alexandre Pazetto Balsanelli ( https://orcid.org/0000-0003-3757-1061 ) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
