Open-access Diagnósticos de enfermagem e definições operacionais à pessoa com dor crônica

Diagnósticos de enfermería y definiciones operacionales para personas con dolor crónico

Resumo

Objetivo  Validar enunciados de diagnósticos de enfermagem e suas definições operacionais do subconjunto terminológico da Classificação Internacional para a Prática da Enfermagem para o cuidado à pessoa com dor crônica na atenção primária à saúde.

Métodos  Pesquisa descritiva, com abordagem quantitativa, com etapa de avaliação de validade por especialistas. Foram elaborados enunciados de Diagnósticos de Enfermagem a partir de um banco de termos. A organização dos enunciados e de suas definições operacionais foi fundamentada na teoria das transições de Meleis. A avaliação de validade foi realizada no início de 2023 por 60 enfermeiros brasileiros e cinco enfermeiros portugueses. Foram considerados validados os enunciados com índice de concordância maior ou igual a 80%.

Resultados  Foram elaborados 152 enunciados de Diagnósticos de Enfermagem e suas respectivas definições operacionais. Após a avaliação de validade pelos especialistas, reavaliação e correções, restaram 144 enunciados validados e oito excluídos.

Conclusão  A validação de 144 enunciados de diagnósticos de enfermagem e suas definições operacionais do subconjunto terminológico à pessoa com dor crônica demonstra a aproximação do conteúdo com a prática dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde e enfermeiros que pesquisam sobre a temática. A construção de Diagnósticos de Enfermagem e suas definições operacionais fortalece a profissão como ciência e permite que enfermeiros consigam contemplar diversas manifestações decorrentes da dor crônica e intervir de forma segura e acurada.

Descritores:
Diagnóstico de enfermagem; Processo de enfermagem; Terminologia padronizada em enfermagem; Estudo de validação; Dor crônica; Atenção primária à saúde

Abstract

Objective  To validate nursing diagnosis statements and their operational definitions from the terminological subset of the International Classification for Nursing Practice for the care of people with chronic pain in Primary Health Care.

Methods  This descriptive research had a quantitative approach with a validity assessment stage by experts. Nursing Diagnoses were developed from a term bank. The organization of both statements and their operational definitions was based on Meleis’ theory of transitions. Their validity was assessed in early 2023 by 60 Brazilian nurses and five Portuguese nurses. Statements with an agreement rate ≥80% were considered validated.

Results  A total of 152 Nursing Diagnosis statements and their respective operational definitions were prepared. After validity assessment, reassessment, and correction by experts, 144 validated statements remained and eight were excluded.

Conclusion  Validation of 144 nursing diagnosis statements and their operational definitions based on the terminological subset of people with chronic pain shows that the practice of Primary Health Care nurses and those who research the topic has proximity with the corresponding content. The construction of Nursing Diagnoses and their operational definitions strengthens nursing as a science, allowing nurses to consider various manifestations resulting from chronic pain and intervene safely and accurately.

Keywords
Nursing diagnosis; Nursing process; Standardized nursing terminology; Validation study; Chronic pain; Primary health care

Resumen

Objetivo  Validar enunciados de diagnósticos de enfermería y sus definiciones operacionales del subconjunto terminológico de la Clasificación Internacional para la Práctica de Enfermería para el cuidado de personas con dolor crónico en la atención primaria de salud.

Métodos  Estudio descriptivo, de enfoque cuantitativo, con etapa de evaluación de validez por especialistas. Se elaboraron enunciados de diagnósticos de enfermería a partir de un banco de términos. La organización de los enunciados y sus definiciones operacionales se basó en la teoría de las transiciones de Meleis. La evaluación de validez fue realizada a comienzos de 2023 por 60 enfermeros brasileños y cinco enfermeros portugueses. Se consideraron validados los enunciados con índice de concordancia mayor o igual a 80 %.

Resultados  Se elaboraron 152 enunciados de diagnósticos de enfermería y sus respectivas definiciones operacionales. Después de la validación por parte de los especialistas, la revaluación y las correcciones, quedaron 144 enunciados validados y ocho excluidos.

Conclusión  La validación de 144 enunciados de diagnósticos de enfermería y sus definiciones operacionales del subconjunto terminológico para personas con dolor crónico demuestra la aproximación del contenido con la práctica de los enfermeros en la atención primaria de salud y enfermeros que investigan sobre la temática. La elaboración de diagnósticos de enfermería y sus definiciones operacionales fortalece la profesión como ciencia y permite que los enfermeros puedan contemplar diversas manifestaciones resultantes del dolor crónico e intervenir de forma segura y precisa.

Descriptores:
Diagnostico de enfermería; Proceso de enfermeira; Terminología normalizada de enfermeira; Estudio de validación; Dolor crónico; Atención primaria de salud

Introdução

O diagnóstico de enfermagem (DE), integrante do Processo de Enfermagem (PE), é um título atribuído a um achado, evento, situação ou condição de saúde.(1,2) Os DEs resultam de uma avaliação inicial em que o enfermeiro coleta dados e identifica fenômenos que serão foco dos cuidados de enfermagem ao indivíduo, família, coletividade ou grupos. É necessário que os DEs se fundamentem por constructos teóricos e sejam registrados por terminologia,(1,2) pois elas demonstram a contribuição da enfermagem nos cuidados em saúde, sendo instrumentos consistentes dos registros.(3)

O Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE) desenvolveu a Classificação Internacional para a Prática da Enfermagem (CIPE®) como uma terminologia para representação da prática de enfermagem no cenário global. Para viabilizar sua utilização, o CIE recomenda a elaboração de subconjuntos terminológicos, que são agrupamentos de diagnósticos, resultados (RE) e intervenções de enfermagem (IE) para prioridades de saúde, especialidades e/ou clientela.(4)

A dor crônica é uma prioridade cuja prevalência, no Brasil, varia entre 23,02% e 76,17% da população geral.(5) Ela é onerosa para os serviços e indivíduos acometidos.(6) Adicionalmente, há sofrimento das pessoas acometidas, gerando repercussões nas dimensões social, emocional, comunitária e espiritual, e nos aspectos da vida diária.(7)

A acurácia dos DEs direciona intervenções singulares, relacionadas às necessidades da pessoa com dor crônica.(8) A natureza multidimensional da dor crônica exige do enfermeiro um conhecimento que possibilite a identificação, além da fisiopatologia, de questões comportamentais, culturais e espirituais para seu enfrentamento.(9)

A identificação de um DE acurado exige clareza do enunciado e uma definição operacional adequada.(10) Subconjuntos terminológicos com definições operacionais potencializam a escolha precisa dos indicadores de um DE.(11) A etapa de construção e avaliação de validade das definições operacionais é sustentada pela teoria de Enfermagem que subsidia o subconjunto. Neste estudo, foi utilizada a teoria das transições de Meleis,(12) pela sua capacidade de estabelecer a busca por mudanças de comportamentos e incorporação de conhecimentos, que refletem positivamente nos processos de enfrentamento e adaptação, auxiliando no alcance de indicadores satisfatórios para o manejo e controle da dor crônica. As transições podem ter condições facilitadoras ou inibidoras do processo de transição saudável, relacionadas a fatores pessoais, sociais e comunitários.(12)

O objetivo deste estudo foi validar o conteúdo de enunciados e definições operacionais de diagnósticos de enfermagem do subconjunto terminológico da CIPE® para o cuidado à pessoa com dor crônica na atenção primária à saúde.

Métodos

Pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, com etapa de avaliação de validade por especialistas. É parte de projeto intitulado “Dor crônica: boas práticas para o cuidado de enfermagem por meio de subconjunto terminológico da CIPE® baseado na teoria das transições”, com pesquisadores de três estados brasileiros (Amazonas, Bahia e Paraná).

Para a elaboração dos enunciados de DEs foi utilizada base empírica resultante de etapas anteriores da pesquisa matriz, composta por 3.483 termos mapeados entre os referentes ao cuidado de enfermagem à pessoa com dor crônica, identificados em literatura, e a CIPE® (2019/2020).

Os termos foram organizados em enunciados de DEs da CIPE® (2019/2020) e os critérios da norma ISO 18104:2014, vigente no momento da execução da etapa e atualizada em 2023.(13) Foram utilizados termos expressos como achados clínicos ou um termo do eixo “foco” e um termo do eixo “julgamento”. Quando pertinente, foram incluídos termos dos eixos “tempo”, “localização” e “cliente”.

As definições operacionais foram elaboradas segundo as etapas de Waltz, Strickland e Lenz:(14) revisão da literatura, mapeamento do significado do conceito e afirmação da definição operacional. Para a revisão utilizaram-se dicionários de língua portuguesa e técnicos da área da saúde, definições dos termos da CIPE®, definições da NANDA-I e definições validadas para os DEs/REs de outros subconjuntos ou terminologias de enfermagem. Quando a definição não foi encontrada nas fontes citadas, foi realizada busca assistemática na literatura científica.

Os resultados da revisão foram organizados em quadros contendo seis colunas: enunciado do DE/RE; definição do dicionário de língua portuguesa, por termo/conceito; definição do dicionário técnico; definição da CIPE®; definições de outros subconjuntos; definições da NANDA-I e/ou validadas em outras terminologias; e a definição operacional elaborada. A definição operacional se deu pelo agrupamento de informações similares e/ou complementares em cada definição identificada e pela análise da pertinência com a teoria de Meleis. Os enunciados e suas definições operacionais foram organizados nas dimensões pessoal, comunitária e social. A dimensão pessoal, por sua extensão e complexidade, foi dividida em quatro subcategorias: significados; atitudes e crenças culturais; status socioeconômico; e preparação e conhecimento para o processo de transição.

Optou-se pelo uso da definição original dos DEs da CIPE®, cuja definição contemplasse os aspectos teóricos e necessários no contexto da dor crônica, sem necessidade de avaliação de validade pelos especialistas.

A avaliação de validade se deu quando o especialista confirmou a pertinência de determinado enunciado no contexto de cuidado às pessoas com dor crônica. Do mesmo modo, a validade das definições operacionais se deu quando o especialista confirmou a pertinência da definição apresentada para o enunciado de DE.

Para a avaliação de validade dos enunciados e suas definições operacionais não há um consenso em relação à quantidade de especialistas, mas há convergência no estabelecimento de critérios mínimos como conhecimento, experiência e capacidade de pensamento crítico sobre o tema.(15) Assim, os especialistas foram selecionados de forma intencional, divididos em três grupos, com critérios de seleção para qualificá-los.

O Grupo 1 foi constituído com 30 enfermeiros brasileiros especialistas em dor, selecionados pela identificação de autoria de artigos sobre dor crônica, por meio de busca na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e portal de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com os descritores “enfermagem” AND “dor crônica”. Para a busca dos autores, foram incluídos artigos em português publicados entre 2013 e 2023, sendo excluídos artigos duplicados e que, apesar dos descritores, não tinham relação com o tema. Esta etapa foi operacionalizada por dois iniciantes científicos do projeto matriz.

A seleção dos especialistas ocorreu a partir da pontuação de critérios adaptados,(16) identificados no currículo Lattes: mestre ou doutor (pontuação 3); publicação na área de DE (pontuação 2); palestrante em eventos relacionados à dor (pontuação 1); e experiência assistencial (pontuação 1). Foram identificados 58 enfermeiros autores, sendo convidados a participar da pesquisa, 30 enfermeiros com maior pontuação.

O Grupo 2 foi formado por 30 enfermeiros da Atenção Primária à Saúde (APS) de um município do estado do Paraná. A seleção de enfermeiros da APS justificou-se pela necessidade de aproximar a pesquisa da prática clínica do enfermeiro. Os participantes foram selecionados por convite, após a indicação da Secretaria Municipal de Saúde. Foram incluídos enfermeiros assistenciais com experiência mínima de dois anos, sendo excluídos aqueles que não atendiam pessoas adultas ou idosas com queixa de dor crônica, em sua rotina semanal.

O Grupo 3 foi formado por cinco enfermeiros atuantes em serviços de atendimento à pessoa com dor crônica em um distrito de Portugal. Justificou-se a seleção de enfermeiros portugueses pelo fato de o País possuir um centro de pesquisa e desenvolvimento da CIPE® acreditado pelo CIE, a CIPE® ser a base da terminologia utilizada nos serviços de saúde portugueses,(17) e de os enfermeiros aplicarem a teoria de Meleis em diversos contextos. Os participantes foram selecionados por convite após a indicação de docentes de uma universidade do Porto, Portugal. Foram incluídos enfermeiros assistenciais com experiência mínima de dois anos que realizam consultas de enfermagem às pessoas adultas ou idosas com queixa de dor crônica na rotina semanal. Pela característica da seleção intencional, não houve critério de exclusão.

A amostra inicial dos três grupos totalizou 65 enfermeiros e a amostra final foi de 23 enfermeiros, sendo: 12 do grupo 1; sete do grupo 2; e quatro do grupo 3.

A coleta de dados ocorreu nos meses de janeiro a março de 2023, por meio de formulário no software Qualtrics Research Suite®, contendo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), informações sobre caracterização dos participantes e três blocos com enunciados de diagnósticos e suas definições operacionais. Foram oferecidas três opções de resposta à pergunta “o enunciado (DE/RE) é pertinente para o fenômeno?” e a pergunta “a definição operacional é pertinente para o DE?”: 1) sim; 2) sim, mas com necessidade de correção/adaptação; 3) não. Caso o especialista assinalasse a opção 2 ou 3 era solicitada justificativa obrigatória, em campo aberto. Os participantes receberam o questionário com links de acesso exclusivos para cada bloco, com sequência distinta de aparição, a fim de facilitar o preenchimento e a adesão à pesquisa. Os enunciados foram analisados por blocos, conforme a quantidade de respostas por grupo de especialistas. Para compor a análise foi estabelecido o mínimo de 30% das questões respondidas por participante.

Os dados foram analisados por porcentagem do índice de concordância (IC), calculado pela divisão entre o número de participantes que concordaram e o número total de participantes, multiplicado por 100. Foram validados os enunciados com IC ≥ a 80% em todos os grupos. Os enunciados com IC entre 70 e 79% passaram por um processo de análise das justificativas, com posterior correção, e os enunciados com IC ≤ a 69% foram excluídos.

Os enunciados com necessidade de correção foram revisados pela equipe de pesquisadores do projeto matriz. Foram incluídas as sugestões pertinentes, suportadas por literatura. As justificativas para não validação de enunciados foram analisadas e suportadas por literatura.

As definições operacionais e as referências utilizadas para sua elaboração estão disponíveis em: https://doi.org/10.5281/zenodo.13293045.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, pelo Parecer 4.333.407 (Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 38762020.7.0000.0020), de outubro/2021; da Secretaria Municipal de Saúde, pelo Parecer 4.683.268 (Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 38762020.7.3001.9587), abril/2021; e da Escola Superior de Enfermagem do Porto, pelo parecer da Ata nº 4, março/2023.

Resultados

Foram elaborados 152 enunciados de DEs e suas definições operacionais, destes, 131 (86,18%) DEs negativos ou de risco e 21 (13,82%) DEs positivos ou de chance (potencial). A dimensão pessoal obteve a maior ocorrência de DEs (84%), seguido pela dimensão comunitária (10%) e pela dimensão social (6%). Na dimensão pessoal, os DEs relacionados a atribuição de significados (76%) e preparação e conhecimento para o processo de transição (17%) obtiveram maior ocorrência. Na tabela 1, estão apresentados os enunciados de DEs, conforme a Teoria das Transições, os ICs dos enunciados e de suas definições operacionais. Inicialmente, foram validados 138 enunciados e definições. Dois enunciados não foram validados: “Vertigem postural (tontura)” e “Orgulho, positivo”. Os especialistas realizaram justificativas de adequação para 12 enunciados de DEs e definições. Destes, cinco foram mantidos após adaptação: “Problema de relacionamento”, “Risco de angústia espiritual”, “Obesidade”, “Sobrepeso” e “Pressão arterial alterada”; seis foram excluídos: “Hostilidade”, “Edema periférico”, “Controle do sintoma”, “Falta de controle do sintoma”, “Ingestão de alimentos, excessiva”, e “Risco de dificuldade com enfrentamento”. O enunciado “Constipação”, mesmo não validado no grupo de enfermeiros portugueses, foi mantido após análise contextual pois, para eles, “obstipação” é o termo preferencial. Ao final, permaneceram 144 enunciados validados (94,73% do total).

Tabela 1
Enunciados dos diagnósticos de enfermagem organizados conforme as dimensões da Teoria das Transições e respectivo Índice de Concordância do enunciado do diagnóstico e de sua definição operacional

A não validade do DE “Vertigem” foi justificada por ser considerado muito abrangente, sem relação direta com a dor crônica. O DE “Orgulho, positivo” foi elencado como ambíguo, pois pode ser interpretado como fenômeno positivo, favorecendo a transição do indivíduo e demonstrando fortalecimento pessoal, ou como negativo, ao ser relacionado à resistência em aderir aos novos comportamentos.

Discussão

O quantitativo de DEs evidencia a amplitude de fenômenos envolvidos nas particularidades da pessoa com dor crônica. Selecionar DEs adequados às pessoas com dor crônica é um desafio. Portanto, as definições operacionais são cruciais, pois representam atributos essenciais para o raciocínio clínico.(18)

A validade dos DEs negativos ou de risco levam à reflexão de que a avaliação do enfermeiro prioriza fenômenos que influenciam negativamente a recuperação da saúde. O resultado analisado revela a condição complexa da dor crônica, entretanto, uma assistência focada exclusivamente nos fatores negativos limitará os facilitadores da transição, como a adesão terapêutica e enfrentamento.

Nos fatores pessoais, as condições facilitadoras ou inibidoras são classificadas conforme sua relação com: o significado atribuído a elas; as atitudes e crenças culturais do indivíduo; o status socioeconômico; e o nível de preparação e conhecimento para enfrentamento do processo de transição.(12) Entre os pilares da Teoria das Transições, destacam-se os DEs das dimensões pessoais e, em menor quantidade, os DEs das dimensões sociais e comunitárias, explicitando a superação do olhar limitado ao indivíduo e à fisiopatologia.

Nos fatores relacionados aos significados das condições da dimensão pessoal, a validade dos DEs e definições operacionais “Medo”, “Raiva”, “Sofrimento” e “Tristeza” demonstra que os especialistas reconhecem a relação direta entre a dor crônica e fenômenos emocionais. Os aspectos emocionais possuem papel importante na maneira como a pessoa interpreta e utiliza recursos próprios para lidar com suas dores,(19) podendo implicar na adesão ao tratamento e interferir na qualidade de vida.

A inclusão de DEs na CIPE® amplia a representação de fenômenos de enfermagem. Os novos enunciados “Desilusão” e “Desmotivação” contemplam aspectos emocionais que permeiam a dor crônica e são inibidores de uma transição saudável, relacionados ao engajamento prejudicado. A falta de expectativas e de motivação aumenta a intensidade da dor, dificulta o alcance de medidas adaptativas e prejudica a autonomia e o manejo da dor.(20)

O DE “Comportamento agressivo” contribui para identificação da sua causa base. O comportamento agressivo pode estar ligado à raiva e frustração, que se relacionam ao manejo inadequado da dor, e pode acrescentar uma postura de não cooperação, procrastinação e falta de comunicação.(21)

Os DEs “Ansiedade” e “Humor deprimido” representam respostas da pessoa com dor. Pesquisa que analisou a prevalência de ansiedade, depressão e transtorno misto de ansiedade e depressão em mulheres com dor pélvica crônica, concluiu que elas são mais ansiosas em comparação com aquelas que não apresentam tais fenômenos.(22)

A capacidade física da pessoa interfere no tratamento da dor crônica. Os DEs “Desconforto”, “Lesão (especificar)”, “Fadiga”, “Risco de intolerância à atividade”, “Mobilidade, prejudicada” e “Equilíbrio prejudicado” demonstram a importância da avaliação das condições físicas associadas à dor crônica, que requerem atenção do enfermeiro.

O DE “Risco de queda” é relevante, pois há prevalência da dor crônica em idosos. Ao identificar o DE, espera-se a redução de incapacidades e prevenção de agudizações.(23)

Quanto às atitudes e crenças do indivíduo, dados objetivos e subjetivos comprovam que indivíduos espiritualizados, com crenças positivas e esperança têm melhoria de sintomas, adesão ao tratamento e desenvolvem estratégias de controle das crises e de manifestações clínicas.(24)

O DE “Baixa autoestima” está relacionado com a opinião sobre si, visão do próprio valor e capacidades, verbalização de crenças e confiança a seu respeito,(2) sendo necessário auxiliar a pessoa para recuperação da autoestima e da percepção de sua história.(25)

Os DEs “Angústia espiritual” e “Conflito de decisão” ressaltam necessidades do indivíduo que não devem ser negligenciadas, que representam subjetividades de difícil identificação. Portanto, suas definições operacionais contribuem para o reconhecimento de seus atributos.

Em relação aos aspectos socioeconômicos da dimensão pessoal, a dor crônica pode ocasionar absenteísmo, incapacidade temporária ou permanente, que acarreta dificuldades financeiras e de acesso ao tratamento. Evidências demonstram que um baixo status socioeconômico está relacionado com o aumento moderado da dor crônica.(26) Portanto, enfermeiros devem perceber a influência das condições econômicas nas condições crônicas e os DEs “Problema financeiro” e “Problema com aquisição de medicação” podem representá-los.

Para o alcance de uma transição saudável é importante uma abordagem sistêmica e integrativa que potencialize medidas eficazes. Os DEs “Aceitação da condição de saúde” e “Autocontrole, eficaz” são indicadores de processos positivos que devem ser reforçados e compartilhados entre profissionais no planejamento terapêutico. Já os DEs “Comportamento de busca de saúde, prejudicado”, “Desmotivação”, “Negação”, “Exaustão do tratamento” e “Falta de conhecimento sobre o regime terapêutico” são objetos para discussão cooperativa com objetivo de (re)alinhar planos assistenciais.

Quanto aos aspectos relacionados à dimensão comunitária, entende-se que pessoas com maior apoio social e comunitário tendem a apresentar chance de passar por um processo de transição satisfatória.(27) Os DEs “Falta de apoio familiar” e “Risco de solidão” indicam que a quantidade e/ou a qualidade de apoio oferecido ao indivíduo estão deficitárias. O déficit pode estar relacionado ao “Estresse do cuidador” ou “Rapport (relação de compreensão mútua), prejudicado”.

Destaca-se o papel da família na vida da pessoa com dor crônica a partir dos enunciados: “Família capaz de participar do planejamento do cuidado”, “Papel familiar, prejudicado” e “Disposição (ou prontidão) para processo familiar, positivo”. Estudo que avaliou o impacto da dor crônica na qualidade de vida concluiu que dentre os temas emergentes estava o da interferência da dor nos relacionamentos e na vida familiar.(28) Isso leva à reflexão de que o planejamento da assistência de enfermagem deve incluir a família no processo de enfrentamento da dor crônica.

Quanto aos condicionantes da transição relacionados à dimensão social, o DE “Vulnerabilidade”, não constante na CIPE®, é um fenômeno relevante. Em conjunto com outros determinantes, a vulnerabilidade pode indicar dificuldade para assumir estratégias de enfrentamento e acarretar uma adaptação ineficaz.(29) A dor crônica tem associação com variáveis sociodemográficas e clínicas que, em conjunto, podem interferir no manejo e controle da dor,(5) sendo prevalente em grupos historicamente vulneráveis, como mulheres e idosos,(5) pessoas com baixa escolaridade e sem atividade laboral.(29)

Em muitos contextos, a dor crônica possui estigma de punição ou castigo, o que pode levar as pessoas a não procurarem acompanhamento em saúde ou não aderirem às medidas de alívio, levando a sentimentos de agonia e sofrimento. Fatores como crenças negativas, desesperança ou catastrofização da dor podem influenciar diretamente o controle da dor crônica e a percepção de incapacidade relacionada à dor.(30)

Por fim, as justificativas dos especialistas para enunciados e definições não validados demonstram detalhamento e comprometimento que implicam na qualidade dos resultados.

A baixa adesão dos especialistas foi limitação, minimizada pela divisão do questionário em blocos. Como etapas futuras, sugere-se a adaptação transcultural dos enunciados e definições operacionais para o português Europeu e a submissão dos conceitos ao CIE.

Conclusão

A validade de 144 enunciados de DEs e as definições operacionais do subconjunto terminológico à pessoa com dor crônica demonstra a aproximação do conteúdo com a prática dos enfermeiros clínicos e pesquisadores. A construção de DEs e suas definições operacionais, guiada por terminologia e sustentada por teoria de enfermagem, fortalece a profissão como ciência e permitirá que enfermeiros contemplem as manifestações complexas da dor crônica e realizem intervenções seguras. O uso da Teoria de Meleis favoreceu a elaboração das definições contemplando as diferentes dimensões afetadas pela dor crônica. Os DEs e as definições operacionais para o cuidado à pessoa com dor crônica têm capacidade para estabelecer um padrão de cuidados, que representam a realidade vivenciada por elas, a ser registrado em sistemas informatizados.

Agradecimentos

Pesquisa fomentada pela Fundação Araucária (SUS2020131000004, CP11/2020 PPSUS Edição 2020/2021); e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (403654/2021-1 chamada CNPq Universal nº 18/2021 – Faixa B).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    20 Ago 2024
  • Aceito
    10 Abr 2025
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