Resumo
Objetivo Analisar a relação entre inteligência emocional e liderança coaching desenvolvida por enfermeiros.
Métodos Estudo correlacional, quantitativo e transversal realizado em um hospital quaternário no Brasil, com 94 enfermeiros. Para a coleta, foram utilizados: Versão brasileira do Teste de Autorrelato da Inteligência Emocional de Schutte e Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança. A correlação foi analisada por meio do coeficiente de correlação de Spearman, e o nível de significância adotado foi de 5%.
Resultado O Autorrelato da Inteligência Emocional evidenciou uma inteligência média (133,4 pontos ± 12,3) e a percepção da prática da liderança coaching alcançou média de 87,0 (± 7,4) pontos. Foi obtida correlação significante, positiva e de forte magnitude entre o escore total de Inteligência Emocional e todos os domínios da Liderança Coaching.
Conclusão Os escores totais da Inteligência Emocional possuem forte relação com os domínios da liderança coaching, demonstrando que níveis mais elevados de Inteligência Emocional estão associados a maior capacidade do enfermeiro em se comunicar; dar e receber feedback; dar poder e exercer influência e apoiar a equipe para o alcance de melhores resultados organizacionais.
Descritores:
Inteligência emocional; Liderança; Tutoria; Enfermagem
Abstract
Objective To analyze the relationship between emotional intelligence and leadership coaching developed by nurses.
Methods This correlational, quantitative, and cross-sectional study was conducted in Brazil in a quaternary hospital with 94 nurses. The Brazilian version of Schutte’s Self-Report Test of Emotional Intelligence and the Questionnaire on Nurses’ Self-Perception in the Exercise of Leadership were used for collection. Correlation was analyzed using Spearman’s correlation coefficient; a 5% significance level was adopted.
Result The mean score obtained in the Self-Report of Emotional Intelligence was calculated for intelligence (133.4±12.3) and perception of leadership coaching practice (87.0±7.4). A significant, positive, and strong magnitude correlation was obtained between the total Emotional Intelligence score and all domains of Leadership Coaching.
Conclusion Total Emotional Intelligence scores have a strong relationship with the leadership coaching domains. Higher levels of Emotional Intelligence are associated with a greater ability of nurses to communicate, give, and receive feedback, empower, influence, and support the team to achieve better organizational results.
Keywords:
Emotional intelligence; Leadership; Mentoring; Nursing
Resumen
Objetivo Analizar la relación entre la inteligencia emocional y el liderazgo coaching desarrollado por enfermeros.
Métodos Estudio correlacional, cuantitativo y transversal realizado en un hospital nivel 4 de Brasil, con 94 enfermeros. Para la recopilación de datos se utilizó la versión brasileña del Test de Autoevaluación de Inteligencia Emocional de Schutte y el Cuestionario de Autopercepción del Enfermero en el Ejercicio del Liderazgo. La correlación se analizó mediante el coeficiente de correlación de Spearman, y se adoptó un nivel de significación del 5 %.
Resultado La Autoevaluación de Inteligencia Emocional evidenció una inteligencia promedio (133,4 puntos ± 12,3) y la percepción de la práctica del liderazgo coaching alcanzó un promedio de 87,0 (± 7,4) puntos. Se obtuvo una correlación significativa, positiva y de gran magnitud entre el puntaje total de inteligencia emocional y todas las dimensiones del liderazgo coaching.
Conclusión El puntaje total de inteligencia emocional tiene una fuerte relación con las dimensiones del liderazgo coaching, lo que demuestra que los niveles más altos de inteligencia emocional están asociados a una mayor capacidad de los enfermeros para comunicarse, dar y recibir feedback, empoderar y ejercer influencia, y apoyar al equipo para lograr mejores resultados organizativos.
Descriptores:
Inteligencia emocional; Liderazgo; Tutoría; Enfermería
Introdução
A Inteligência Emocional (IE) pode ser definida como uma competência que envolve perceber, expressar, assimilar, entender e regular as próprias emoções, bem como a de outras pessoas.(1) Outras definições a caracterizam como uma competência que abrange o autocontrole, autoconsciência, atenção e persistência, capacidade de automotivação, consciência social e gerenciamento de relacionamentos, podendo ser utilizada para melhor desempenho profissional.(2)
A IE tem a capacidade de impactar positivamente o ambiente de trabalho e o relacionamento entre enfermeiros.(3) Estudos na Espanha e na Polônia concluíram que aprimorar essa competência proporciona reparo emocional em desafios, prevenindo o estresse e aumentando a satisfação de profissionais e pacientes.(4,5)
É importante destacar que a harmonia no ambiente de trabalho depende de diversos fatores, e uma liderança empática, que compreende as emoções da equipe, é essencial para promover um ambiente que garanta uma assistência segura,(6,7)por isso, para que os líderes exerçam seu papel de influenciador da equipe no alcance dos resultados organizacionais, precisam saber manejar suas próprias emoções e de seus liderados, utilizando elementos chaves da IE para o estabelecimento de relacionamentos colaborativos no ambiente de trabalho.(2,5)
Nesse sentido, alguns modelos de liderança têm se destacado na literatura e na prática da enfermagem, como é o caso da liderança transformacional, carismática, autêntica e coaching com resultados positivos para a saúde dos profissionais, incluindo melhora do sono, satisfação no trabalho e diminuição da exaustão emocional.(8,9) Esses modelos também estão associados a um maior comprometimento organizacional(3)e a uma redução dos níveis de absenteísmo e turnover dos funcionários.(10) Além disso, na perspectiva do paciente, a liderança transformacional e a coaching foram relacionadas a desfechos positivos, contribuindo para uma melhor performance das variáveis avaliadas.(10)
Especialmente na liderança coaching, o líder atua na promoção e estímulo da aprendizagem, fornecendo orientação prática para alcançar metas de desenvolvimento, tanto técnicas como pessoais. Nesse sentido, esse estilo de liderança propulsiona o desenvolvimento de talentos da equipe, por estimular o autoconhecimento e o potencial dos liderados.(11)
Autores demonstraram que a liderança e a IE promovem mudanças na percepção dos profissionais da enfermagem acerca de seu ambiente de trabalho, aumentam a satisfação no trabalho e contribuem para a qualidade do cuidado e segurança do paciente.(12,13) Afirmam, ainda, que apesar de uma formação sólida, mente analítica e ideias inovadoras, um líder não será efetivo se não possuir inteligência emocional.(14) Assim, a excelência na assistência à saúde não depende apenas de ferramentas, conhecimentos e serviços; depende, principalmente, da IE de seus líderes para alcançar a harmonia nas relações interpessoais e atingir as metas e objetivos estabelecidos.(15,16)
Frente ao exposto e considerando que a IE impacta diretamente a maneira como os líderes gerenciam emoções, tomam decisões e motivam suas equipes, compreender essa relação pode fornecer subsídios valiosos para o aprimoramento da formação e do desenvolvimento profissional dos enfermeiros, promovendo uma gestão mais eficiente e humanizada. Além disso, a escassez de estudos que exploram a relação entre esses construtos, especialmente, no contexto pós-pandemia de COVID-19, momento no qual os profissionais foram marcados por intensos processos de reconstrução emocional e organizacional,(17) reforçam ainda mais a relevância deste estudo. Logo, torna-se essencial aprofundar essa investigação, contribuindo para o avanço do conhecimento na área e para a implementação de estratégias de liderança mais eficazes na enfermagem.
Assim, a questão que norteou a elaboração do presente estudo foi: a IE contribui para o desenvolvimento da liderança coaching em enfermeiros? Para responder esse questionamento, o objetivo do presente estudo foi analisar a relação entre inteligência emocional e liderança coaching desenvolvida por enfermeiros.
Métodos
Estudo correlacional, transversal e quantitativo realizado em um hospital público de ensino no Brasil, referência para pacientes de alta complexidade, com 409 leitos e 389 enfermeiros.
Com intuito de verificar a correlação entre os construtos, foi realizado um cálculo amostral no software G*Power 3.1.9.2,(18) determinando uma amostra mínima de 84 participantes. O cálculo seguiu a metodologia para o coeficiente de correlação de Pearson, com poder do teste de 80%, nível de significância de 5% e coeficiente de correlação estimado em 0,30.(19) A amostra foi selecionada por conveniência, incluindo enfermeiros com pelo menos três meses de experiência na instituição. Esse período de 90 dias foi considerado, pois é o tempo mínimo estipulado na maioria das instituições brasileiras para efetivação do colaborador e, consequentemente, maior adaptação aos processos de trabalho da organização, o que colabora para a prática da liderança. Participantes que deixaram itens sem respostas, não foram considerados no cálculo do escore do respectivo domínio dos instrumentos.
A coleta de dados ocorreu de março a junho de 2022, de forma híbrida. Inicialmente, um convite foi enviado aos e-mails institucionais de todos os enfermeiros da instituição, para que a coleta de dados ocorresse de forma online via Google Formulários®. Considerando que apenas 19 (20,2%) responderam os instrumentos, mesmo após dois envios, iniciou-se a coleta presencial, com abordagem direta nas unidades de trabalho. Os interessados receberam o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e os instrumentos, que foram recolhidos na data combinada. Nesta abordagem, mais 82 profissionais foram abordados. Destes, 75 (79,8%) participantes foram incluídos no estudo e sete não devolveram os instrumentos preenchidos. Também foram excluídos do cálculo das dimensões, os participantes que assinalaram a opção de resposta “não se aplica” no instrumento de Liderança Coaching, em decorrência dos escores dos domínios desse instrumento serem calculados a partir da soma das respostas dos itens. Sendo assim, ao considerar os “não se aplica” no cômputo do domínio, a amplitude desse escore poderia ser prejudicada.
Os dados foram coletados a partir de dois instrumentos, cuja utilização foi autorizada pelos autores: Versão brasileira do Teste de Autorrelato da Inteligência Emocional de Schutte (SSEIT) e Questionário de Autopercepção do Enfermeiro no Exercício da Liderança (QUAPEEL).
O SSEIT avalia a IE por meio de 33 itens distribuídos em quatro domínios: Percepção de emoções (dez itens), Manejo das próprias emoções (nove itens), Manejo das emoções dos outros (oito itens) e Utilização das emoções (seis itens).(20) Cada item é avaliado por uma escala Likert com cinco pontos, que varia entre um - “discordo totalmente” e cinco - “concordo totalmente”. Para o cálculo do escore final, deve-se inverter os valores das respostas das questões 5, 28 e 33, e obter a média da soma das respostas dos participantes, que pode variar entre 33 e 165,(20)classificando a IE como alta (≥138), média (111-137) ou baixa (≤110).(20)A versão brasileira do instrumento apresentou coeficientes alfa de Cronbach que variaram entre 0,76 a 0,79 para os domínios e alfa de Cronbach geral de 0,78.(20)Esse instrumento foi escolhido por ser um dos mais utilizados para se avaliar a IE.(21)
O QUAPEEL é subdividido em três partes. Considerando o objetivo do estudo de analisar a relação entre os domínios da IE e da Liderança Coaching, somente a terceira parte do questionário foi utilizada, por avaliar objetiva e quantitativamente a variável dependente do presente estudo.
Dessa forma, foram utilizados os 20 itens que avaliam a autopercepção dos enfermeiros em relação à prática da liderança coaching, que são distribuídos em quatro dimensões: Comunicação (cinco itens); Dar e receber feedback (seis itens); Dar poder e exercer influência (quatro itens) e Apoiar a equipe para o alcance dos resultados organizacionais (cinco itens).(11)
Os itens são avaliados por uma escala tipo Likert, de seis pontos, de modo que varia de um representando “nunca – não percebo a afirmação”, a cinco representando “sempre – percebo todas às vezes a afirmação” e o participante também pode optar pela resposta “não se aplica”, que representa zero. O escore varia de 0 a 100, onde valores mais altos indicam maior percepção da prática de liderança coaching. As respostas “não se aplica” não são consideradas no cálculo da média. Os escores para as subescalas são obtidos pela média da soma das respostas dos participantes. O QUAPEEL foi escolhido por ter sido desenvolvido na cultura brasileira a partir das dimensões do processo de coaching, apresentar evidências de confiabilidade (alfa de Cronbach que variaram entre 0,67 a 0,79 para os domínios e alfa de Cronbach geral de 0,91) e de validade de construto, na medida em que os autores afirmam que na análise confirmatória o modelo proposto encontrava-se bem ajustado.(11)
Os dados foram tabulados no Microsoft Excel for Windows® e analisados no software Statistical Analysis Software® (SAS) versão 9.4. Foram calculadas as frequências absoluta e relativa das variáveis categóricas, além de medidas de posição e dispersão das variáveis contínuas. A normalidade dos dados foi testada e a correlação entre os construtos foi verificada pelo coeficiente de Spearman, classificado como fraco (0,1–0,29), moderado (0,30–0,49) ou forte (≥0,50).(19) O nível de significância adotado foi de 5%.
O estudo foi submetido à avaliação dos responsáveis da instituição e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas nº 5.441.079 com o CAAE – Certificado de Apresentação de Apreciação Ética nº 53158721.7.0000.5404.
Resultados
Participaram do estudo 94 enfermeiros, com média de idade de 40,1 anos (dp=±7,2), tempo de formação de 14,5 anos (dp=±6,3) e tempo de atuação na instituição de 9,2 anos (dp=±7,3). A maior parte atuava nas unidades de internação de adultos (n=46; 48,9%), havendo também enfermeiros participantes do setor de pediatria (n=11; 11,7%), da unidade de emergência (n=9; 9,6%), da Unidade de Terapia Intensiva Adulto (n=7; 7,4%), de ambulatórios de especialidades (n=7; 7,4%), e do setor administrativo (n=4; 4,3%). Dentre os participantes, 51 (54,24%) possuíam especialização e 49 (52,1%) indicaram já ter participado de algum treinamento sobre liderança coaching. Em relação ao cargo, a maioria dos participantes era contratada como enfermeiro assistencial (n=79; 84,0%), seguido de enfermeiros supervisores (n=8, 8,5%), enfermeiros coordenadores (n=6, 6,4%) e diretor (n=1, 1,7%). Com relação ao turno, 29 (30,9%) enfermeiros atuavam no turno da tarde. No que diz respeito à IE percebida, a partir do SSEIT, os enfermeiros apresentaram os escores que podem ser visualizados na tabela 1.
Autorrelato da inteligência emocional de Schutt por enfermeiros atuantes em hospital de referência
Ao analisar as pontuações alcançadas na avaliação global dos itens do instrumento, foi possível classificar a IE dos enfermeiros participantes do estudo como média. Em relação à autopercepção dos enfermeiros sobre a prática da liderança coaching, foram obtidos os resultados apresentados na tabela 2. Ressalta-se que o número de participantes descrito na tabela 2 varia em decorrência da exclusão daqueles que assinalaram a opção de resposta “não se aplica” a pelo menos um dos itens das dimensões avaliadas.
As correlações entre IE e liderança coaching foram apresentadas na tabela 3.
Foi possível observar que, com exceção da relação entre os domínios Comunicação e Utilização das emoções, todos os demais apresentaram correlações positivas e significantes. Ao analisar a relação entre o escore total da escala de IE e os domínios e escore total da escala de liderança, correlações significantes, positivas e de forte magnitude foram encontradas.
Discussão
No âmbito desta investigação, o grupo estudado revelou média de pontuação de 133,44 no SSEIT, correspondendo a 80,87% do escore total possível. Isso sugere nível médio de inteligência emocional. Notavelmente, há possibilidade de aprimoramento, especialmente no domínio de Percepção das Emoções, o qual demonstrou menor pontuação (76,86%) em relação ao escore total potencial desse domínio. Tal achado ganha significado adicional ao se considerar o contexto em que os profissionais haviam recentemente vivenciado: o da pandemia de COVID-19. As consequências de um período marcado por ansiedade e danos à saúde física dos enfermeiros podem ter contribuído para o desenvolvimento de estresse pós-traumático que pode ter influenciado a capacidade dos profissionais em reconhecer e interpretar adequadamente as próprias emoções, bem como a dos outros.(17) Portanto, perceber adequadamente as emoções é uma habilidade essencial na prática da enfermagem e pode ter um impacto positivo na comunicação.
Pesquisadores encontraram resultados semelhantes aos da presente pesquisa em que os enfermeiros apresentaram nível médio de inteligência emocional (126,00), e destacaram que os baixos escores nos domínios da IE podem sugerir desafios nos relacionamentos profissionais e pessoais dos indivíduos.(5) Entretanto, estudiosos evidenciam que a IE pode ser aprimorada à medida que os profissionais são capacitados nessa habilidade.(22) Altos escores de IE podem atenuar a exaustão emocional, resultando em melhor cooperação entre os profissionais e promovendo conforto psicológico nas relações entre enfermeiros, pacientes e família, consequentemente melhorando a qualidade do cuidado.(5)
Com relação à autopercepção dos enfermeiros no exercício da liderança coaching, este estudo encontrou um escore total médio de 87,0 pontos, indicando percepção positiva no uso desta competência. Dentre os elementos examinados, os domínios que mais se destacaram foram Dar e receber feedback e Comunicação, com escores médios de 26,37 e 21,50, respectivamente.
Endossando estes resultados, pesquisas que utilizaram o mesmo modelo de liderança também encontraram elevada autopercepção dos profissionais em seu exercício, e dentre as quatro dimensões estudadas, Dar e receber feedback e Comunicação foram as mais reconhecidas.(7,23) Importante destacar que o feedback tem sido associado a desfechos benéficos na área da saúde, tais como melhoria da cultura de segurança, da qualidade do cuidado e do desenvolvimento de habilidades técnicas, além da redução da exaustão emocional e da intenção de deixar o emprego.(7) De forma similar, a comunicação eficaz colabora para a redução do estresse, a promoção do bem-estar da equipe, a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e aumento da segurança do paciente.(7)
Os resultados desse estudo demonstraram correlações positivas e significantes entre todos os domínios da IE e as dimensões da liderança coaching, com exceção do domínio Utilização das emoções com a dimensão Comunicação.
Uma possível razão para a falta de correlação significante entre Utilização das emoções e a dimensão Comunicação reside no fato de que, na comunicação eficaz, é mais crucial focar na escuta atenta das palavras e das expressões não verbais que transmitem sentimentos e necessidades do outro, do que na busca pela mudança do seu próprio estado emocional. Portanto, compreender as perspectivas do outro e oferecer orientações adequadas às suas necessidades é fundamental para uma comunicação bem sucedida.(24)
A habilidade de manejar suas próprias emoções e as emoções dos liderados, saber ouvir, manter o interesse na continuidade do diálogo e utilizar a comunicação verbal atentando-se à não verbal, são fatores que contribuem para o estabelecimento de relações mais harmônicas no ambiente de trabalho.(11,15)
Os dados obtidos permitiram verificar a importância da relação entre esses construtos, na medida em que quanto maior o nível de IE dos líderes, mais capazes eles são de otimizar a gestão de equipes, pois, por meio de uma interação dinâmica permeada por autoconhecimento, gestão das emoções e comunicação assertiva, a condução do liderado para o alcance de metas, torna-se um processo mais fácil de ser transposto.(16,25)
Ao analisar a relação entre os domínios da IE com as dimensões da liderança coaching, outros autores também encontraram correlações positivas entre IE e comunicação (saber ouvir; manter o interesse dos liderados na manutenção e continuidade do diálogo; utilizar a comunicação verbal e manter atenção à comunicação não verbal; contribuir para a comunicação eficaz nas relações de trabalho com os liderados), pois na medida em que uma pessoa tem desenvolvida sua IE, ela se torna capaz de captar e compreender melhor as informações contidas em um processo de comunicação.(26)
Um estudo sobre a comunicação de más notícias destacou a importância do aprimoramento da competência emocional dos profissionais de saúde para minimizar o impacto de suas próprias emoções ao transmitir diagnósticos e prognósticos, tornando esse momento menos doloroso e traumático para pacientes e familiares. Ao mencionar a relação intrínseca entre a IE dos profissionais e a habilidade de comunicar notícias difíceis, pesquisadores oferecem percepções cruciais que podem informar práticas e abordagens mais sensíveis e eficazes nesse contexto delicado.(27)
Outro achado deste estudo indicou que quanto maior a IE, maior é a capacidade do líder em dar e receber feedback. A percepção e o manejo das próprias emoções e de terceiros, juntamente com a habilidade para reconhecer, valorizar e direcionar seus liderados, bem como o acompanhamento consistente do desempenho, são aspectos intrínsecos a um líder emocionalmente inteligente. Esses atributos são fundamentais para estabelecer uma cultura de feedback construtivo e para promover o crescimento individual e coletivo na equipe liderada. Estudiosos reforçam a ideia de que durante o processo de feedback, a falta de IE pode minar os resultados desejados, isso ocorre devido a falta de empatia e receptividade por parte do liderado.(28) Evidências adicionais respaldam essa perspectiva, pesquisadores encontraram que estudantes de graduação em enfermagem que receberam capacitação sobre IE conseguiram receber de forma positiva, feedback crítico e construtivo que antes não suportavam receber, isso porque aprenderam a gerenciar suas próprias emoções.(29)
Além disso, foi possível perceber que líderes com alta IE exercem maior influência sobre seus liderados ao se conectarem emocionalmente, demonstrando empatia e preocupação genuína com seu bem-estar e desenvolvimento pessoal e profissional. Esse engajamento emocional possibilita a demonstração de empatia e preocupação genuína pelo bem-estar e desenvolvimento pessoal e profissional dos liderados. A criação de um ambiente impregnado de confiança, respeito e fidelidade resulta, por sua vez, no fortalecimento da influência do líder.(30) Ademais, líderes inteligentes emocionalmente valorizam e priorizam o desenvolvimento de seus subordinados, promovendo um ambiente de aprendizagem contínua, compartilhando conhecimento, delegando responsabilidades e oferecendo oportunidades de crescimento. Essas ações fortalecem a relação de poder e influência do líder, pois os liderados reconhecem que o líder está comprometido com seu sucesso e crescimento.(31)
Pesquisa têm mostrado que líderes que possuem IE exercem um impacto positivo tanto no desempenho de seus liderados no ambiente de trabalho quanto em seu comportamento de cidadania organizacional, que inclui ações como ajudar os colegas, oferecer suporte a novos membros da equipe, participar de atividades voluntárias, contribuir com sugestões para aprimoramentos para melhorias e respeitar as regras e normas da organização.(30)
Outrossim, a IE, por favorecer a conexão emocional entre líderes e liderados, faz com que os liderados se sintam mais apoiados pelos seus líderes, pois estes se apresentam disponíveis para ouvi-los e auxiliá-los quando eles enfrentam desafios. Nesse cenário, o líder demonstra empatia e interesse genuíno pelo bem-estar e sucesso da equipe, criando um ambiente de confiança e segurança, onde buscar suporte é encorajado. Esse ambiente, por sua vez, contribui para a motivação e o progresso dos profissionais.(32)
Ao buscar opiniões dos liderados para alterar procedimentos ou propor mudanças operacionais, um líder com IE demonstra que valoriza e respeita a expertise e experiência da equipe. Incluir os liderados no processo de tomada de decisão promove um senso de pertencimento e engajamento, estimulando a motivação e o comprometimento da equipe em alcançar os resultados desejados.(31,33)
Pesquisadores concordam sobre a influência positiva de um líder emocionalmente inteligente na definição das metas individuais para cada membro de sua equipe. Ao envolver os liderados nesse processo, o líder estabelece um senso de propósito compartilhado e alinhamento com os objetivos da equipe e da organização. Ressalta-se que o acompanhamento periódico dos resultados apresentados por cada liderado permite ao líder identificar necessidades de suporte adicional, fornecer feedback construtivo e oferecer recursos para garantir que as metas sejam alcançadas de maneira eficaz.(30,32)
Como limitação do estudo pode-se citar o fato de ter sido realizado em um único hospital e com amostragem por conveniência. Essas abordagens comprometem a heterogeneidade da amostra e a generalização dos resultados para outras populações e centros com diferentes perfis de atendimento. Além disso, as medidas de autoavaliação incluem viés de memória, desejabilidade social e cognição do entendimento, o que pode influenciar a fidedignidade das respostas. Por isso, recomenda-se a realização de novos estudos de caráter multicêntrico e com amostragens probabilísticas, que possam minimizar as limitações descritas.
Este estudo ao evidenciar que o profissional que possui inteligência emocional tende a exercer melhor a liderança coaching, orienta enfermeiros, gestores e pesquisadores na implementação de programas para desenvolver a IE, destacando que líderes com alta IE promovem o compartilhamento de conhecimento, valorizam a equipe e alinham metas aos valores coletivos, criando um ambiente focado na qualidade da assistência ao paciente.
Conclusão
Os escores totais da IE possuem forte relação com os domínios da liderança coaching. Esses achados reforçam a importância da IE no desempenho da liderança dos enfermeiros, evidenciando que níveis mais elevados de IE estão associados a maior capacidade de gerenciar equipes, tomar decisões assertivas e aprimorar a qualidade da assistência ao paciente. Assim, o desenvolvimento da IE pode ser uma estratégia essencial para fortalecer a liderança eficaz e a gestão de recursos na enfermagem, impactando diretamente a segurança e a excelência no cuidado em saúde. Nesse sentido, recomenda-se a implementação de programas de capacitação em IE e liderança no ambiente hospitalar, bem como a inclusão desses temas nos currículos da formação em enfermagem, a fim de melhor preparar os profissionais para lidar com os desafios da prática assistencial e gerencial.
Agradecimentos
Esta pesquisa contou com o auxílio de uma bolsa de iniciação científica concedida pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e Tecnológica (PIBIC), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), no período de setembro de 2021 a agosto de 2022.
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Disponibilidade dos dados:
Os dados da pesquisa estão disponíveis no artigo.
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Editor Associado:
Alexandre Pazetto Balsanelli (https://orcid.org/0000-0003-3757-1061) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
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