Open-access A CONSTRUÇÃO DE UMA AUTORA: ESCRITA DE SI, HISTÓRIA E POLÍTICA NO JOURNAL OF A VOYAGE TO BRAZIL, DE MARIA GRAHAM1

THE CONSTRUCTION OF AN AUTHOR: SELF-WRITING, HISTORY AND POLITICS IN MARIA GRAHAM’S JOURNAL OF A VOYAGE TO BRAZIL

Resumo

Este artigo tem como objetivo tratar do relato de viagem ao Brasil de Maria Graham, Journal of a voyage to Brazil, publicado em 1824, como uma tentativa da autora de construir um lugar de autoridade como historiadora, analista política e intelectual. No caso de Graham, a visita ao Brasil tem um interesse maior, na medida em que testemunha a formação de uma nova nação independente, como observadora direta e culta, que participa diretamente dessa construção por meio de suas relações com Lorde Cochrane e os imperadores. Por meio da experiência direta e interna ao processo de independência, de uma diminuição dos luso-brasileiros e da colônia britânica no Brasil, Graham supera seus limites de classe e gênero, apresentando-se como uma observadora competente e uma agente cultural e política no processo de independência do Brasil.

Palavras-chave:
Maria Graham; Política; Literatura de Viagem; Viajantes

Abstract

This paper aims to address Maria Graham’s travel report to Brazil, Journal of a voyage to Brazil, published in 1824, as an attempt by the author to build a place of authority as a historian, political analyst and intellectual. In the case of Graham, the visit to Brazil is of greater interest insofar as it witnesses the construction of a new independent nation seen by a direct, educated observer who directly participates in this construction through her relations with Lord Cochrane and the emperors. Through the direct and internal experience of the independence process, of a decrease in Luso-Brazilians and the British colony in Brazil, Graham overcomes her class and gender limits, presenting herself as a competent observer and a cultural and political agent in the process of independency from Brazil.

Keywords:
Maria Graham; Politics; Travel Literature; Travelers

A precariedade da autoria

A literatura de viagem pressupõe duas atividades que se consideraram, pelo menos até princípios do século XX, como eminentemente masculinas: o deslocamento e a escrita. Até o século XIX, poucas mulheres, em comparação aos homens, publicavam seus relatos de viagem, e quando o faziam, utilizavam o recurso do anonimato ou do pseudônimo, algumas vezes masculino. Monicat demonstra que as mulheres devem dar justificativas em seus prefácios para o fato de viajarem e de escreverem, como todos os viajantes devem fazer, mas, “ao contrário das histórias escritas por homens, diretamente relacionadas ao fato de serem mulheres”4.

No prefácio de seu diário ao Brasil, Maria Graham (1785-1842) assume retoricamente a sua modesta contribuição na compreensão do processo de independência: “Talvez a autora tenha superestimado seus poderes, ao tentar registrar o progresso de um evento tão importante”5. No entanto, como viajante, ela pode oferecer algo que compensa a sua condição de mulher:

Quanto aos acontecimentos públicos, tudo o que pode ser novo no Diário é expor em conjunto os fatos que chegaram à Europa um a um e registar a impressão produzida no local por aqueles acontecimentos que poderiam ser vistos sob uma luz muito diferente noutro lugar.

Nem interesse partidário, nem distorção ou ignorância, a autora diz oferecer uma experiência direta e honesta: “Talvez haja ainda muito de natureza pessoal, mas o que é dito é pelo menos honesto; e se a autora tiver que sofrer pessoalmente pela franqueza, o sofrimento será suportado com alegria”6. Há uma afirmação dupla de humildade, de poder oferecer apenas uma visão pessoal e local de acontecimentos históricos e políticos, ao mesmo tempo que essa “pequena” visão pessoal, feminina e doméstica se torna uma vantagem: a honestidade da observação sobre o terreno, isto é, a visão em perspectiva histórica de um processo que, na Europa, só pode ser percebido de maneira fragmentada. “Ela confia que se toda a verdade não for encontrada em suas páginas, não haverá ali nada além da verdade”7. O que pode oferecer uma mulher viajante nos Trópicos no contexto da independência do Brasil? Apenas a verdade do que viu e do que interpretou.

O que pretendo tratar neste artigo é a forma como Maria Graham utiliza a narrativa de viagem para se construir como autora, como detentora de um discurso competente, de uma verdade construída pela experiência e pela reflexão, que abrange da ciência à política, passando pela arte do pitoresco e pela História, a partir de uma recolocação de seu lugar de mulher, o que, teoricamente, lhe impedia ter acesso ao espaço público. Tento compreender como a autora constrói um projeto intelectual e qual é o papel de sua viagem ao Brasil nesse processo. Como observa Sara Mills, a condição anômala da mulher viajante no espaço público produz um relato que revela “os vestígios das lutas discursivas sobre o lugar ‘adequado’ das mulheres”8, uma permanente negociação entre o que pode ou não ser realizado e narrado. Por outro lado, a viagem permite escapar das amarras da domesticidade; ela “proporcionou às mulheres do século XIX uma oportunidade única de se experimentarem como sujeitos históricos”9.

Maria Graham se utiliza de diversos elementos justificatórios, já que, em suas viagens, se deslocou alternadamente ao lado de seu pai George Dundas (1786-1814), oficial da marinha, para a Índia; de seu primeiro marido, Thomas Graham (17??-1822), também oficial, para o Brasil e o Chile; como viúva em sua segunda viagem ao Brasil; e com seu segundo marido, o pintor Augustus Callcott (1779-1844) para a Itália, Alemanha e Áustria. Ela maneja os discursos do patriarcado, como observa Stella Franco em relação a Nísia Floresta (1810-1885), “pretendendo às vezes, inclusive subvertê-los”, num discurso cheio de contradições e paradoxos10. O que se depreende de sua construção narrativa é que Maria Graham procura superar as limitações sociais que o patriarcado lhe impunha sem que, no entanto, essa performance colocasse em questão esses próprios limites. Como outras mulheres e viajantes dessa época, ela assume o discurso patriarcal e até mesmo uma certa misoginia para afastar-se da imagem tradicional da mulher inculta e superficial, à qual ela, ao desprezá-la, se coloca em situação de superioridade, ocupando um lugar que não estava aberto às mulheres: o da autonomia e da opinião.

Miriam Moreira Leite afirmou que as narrativas de viagem escritas por mulheres europeias sobre o Brasil podem ser uma dupla documentação sobre a condição feminina, um testemunho duplo: “as reflexões sobre a sua condição de mulher europeia e as observações sobre a mulher brasileira”11. As suas narrativas ao mesmo tempo permitem conhecer aspectos da vida da mulher brasileira no século XIX, sobretudo porque as viajantes costumam circular mais do que os homens nos ambientes femininos. E permitem, também, conhecer a condição da mulher europeia e suas visões de mundo, que se revelam por meio de suas descrições e interpretações do espaço que visitam e narram em seus textos, na medida em que as descrições das mulheres brasileiras pressupõem para os viajantes, como recorda Moreira Leite, “uma comparação com a situação a que estavam habituados no país de origem”12. Nesse espelho da alteridade, também é possível perceber as representações da viajante sobre o outro, ou esta outra que é a mulher luso-brasileira, assim como a autorrepresentação da mulher europeia, que se opõe a essa outra americana. Seguindo essa premissa, utilizarei a narrativa da viagem de Maria Graham ao Brasil para pensar como a autora, a partir de suas descrições e comparações do mundo luso-brasileiro, tanto das mulheres como dos homens, pode elaborar um discurso performativo que procura desfazer as limitações de seu sexo e de sua condição de mulher. Isso lhe permite construir-se como autora e, por vezes, como agente no mundo da política, aproveitando-se das fímbrias do discurso normativo, patriarcal e colonial para compor-se como uma escritora viável, apesar de sua precária condição de mulher.

Maria Graham nasceu Maria Dundas, em Papcastle, Cumberland, em 1785, filha de um oficial da marinha de origem escocesa, George Dundas, e de uma norte-americana, Ann Thomson. Foi criada na casa de um tio em Richmond, longe de seus pais. Viajou à Índia com seu pai em 1808, quando conheceu o seu futuro marido, o oficial da marinha Thomas Graham. Em 1821, viaja com o marido à América do Sul; na viagem do Brasil ao Chile, o capitão Graham adoece e morre na travessia do cabo Horn, em 8 de abril de 1822. Em Valparaiso, a viúva Graham conhece a Lorde Thomas Cochrane (1775-1860), com quem retorna, em março de 1822, ao Rio de Janeiro. Em 1824, ela publica seus dois relatos de viagem ao Chile e ao Brasil, antes de voltar à corte para ser a preceptora da princesa imperial Maria da Glória (1819-1853), cargo do qual é demitida em 10 de outubro de 1824. Em 1827, casa-se com o pintor Augustus Callcott; em 1835, publica um de seus livros mais conhecidos, uma história da Inglaterra para crianças, Little Arthur’s History of England. Morre em sua casa em Kensington no ano de 1842. Para as inúmeras viagens por várias partes do mundo e para sua atividade profissional como femme de lettres, Graham se utilizou de sua condição de filha e esposa de oficiais, em cujos casos as viagens não se recomendavam, mas se justificavam. Além disso, ela também construiu um espaço de autora e cientista “amadora”, como em suas conhecidas descrições do terremoto do Chile ou seus debates sobre História Natural com o próprio Humboldt, o que permite que se defina como uma viajante filosófica, ou filósofa natural, como o sábio prussiano13.

Maria Graham publicou 15 livros, entre narrativas de viagem, História, arte e botânica, foi tradutora e editora, tendo trabalhado por anos para o editor inglês John Murray II (1778-1843). Nessa casa editorial, foi a responsável, em 1826, pela edição, compilação e redação da narrativa da viagem às Ilhas Sandwich (Havaí), de George Anson Byron (1789-1868) - navegador que era primo do poeta -, intitulada Voyage of the H.M.S. Blonde14. Para Maria Graham, como para muitas mulheres e escritores não profissionais, “a publicação de uma narrativa de viagem - talvez a única incursão na imprensa que podiam fazer na vida - conferiu-lhes, mesmo que apenas por uma tiragem e algumas críticas, o estatuto de comentadoras culturais autorizadas”15. Para uma mulher, a narrativa viática permite ainda o acesso a diversos discursos, dada a permeabilidade a outros tipos de escrita que esse gênero tem. Em seu caso, a publicação de sua primeira viagem, Journal of a residence in India, em 1812, abre o caminho para que ela se torne uma escritora profissional; seria o início do que Nathallie Fontes chama de projeto intelectual de Graham, o de uma “intelectual-em-trânsito”16, ou uma mediadora entre duas culturas17. Para Michelle Medeiros, a reputação que adquire como viajante permite que ela tenha visibilidade e publique seus textos científicos, “evitando o uso de formas de discurso mais masculinas e restritivas”18. Seguindo esse raciocínio, os livros de viagem, pelos quais Graham ficou conhecida até hoje, foram uma entrada no mundo da ciência natural e da História nesse projeto intelectual da autora.

Como observa Regina Akel, os textos de Graham, tanto os livros publicados como os diários inéditos, “são controlados por um narrador complexo que aparece em diferentes formas e falas em uma multiplicidade de vozes, de acordo com o que parecem ser as demandas do texto”19. Seus livros procuram compor a figura de uma autora e a autoridade de uma intelectual, atividades que não eram bem-vistas para as mulheres de sua época, por isso a necessidade de autoafirmação. No caso de sua viagem ao Brasil, ela ainda constrói um lugar de intérprete privilegiada da construção de uma Nação na América do Sul, que não apenas observa a formação da monarquia brasileira, como participa desse processo por suas conexões na Corte e por sua condição de mulher ilustrada, representante de uma nação cuja missão civilizatória incluía a ação de seus cidadãos espalhados pelo mundo e, até mesmo, em algumas ocasiões, das suas cidadãs. É a partir desta personagem, de mulher britânica, ilustrada e ativa politicamente que Maria Graham elabora a sua performatividade, ou seja, “um método de se ajustar, influenciar e se manter relevante nas conversas, situações e processos sociais e políticos que se encontravam em sua frente”20. Esses atos de performatividade servem para justificar a sua ação na vida pública e a sua autoridade como erudita, historiadora e analista. Assim, ela utiliza o gênero da literatura de viagem, como diz Akel, mais “para expor o seu eu narrativo do que falar de povos e lugares exóticos”21. Sobretudo, acredito que utiliza o gênero e a própria viagem para recompor o lugar secundário de mulher no qual a sociedade inglesa exigia que ela se mantivesse, e do qual ela sempre procurou escapar, seja deslocando-se pela Ásia e pela América, seja deambulando pela política.

Diário de uma viagem pela política

Escrito sob a forma de diário, acompanhando cronologicamente os deslocamentos da viajante, o registro é composto de diversas camadas e elementos textuais, como a transcrição de discursos de homens públicos e do príncipe regente, de artigos de jornal, documentos, cartas, informações científicas e históricas. A objetividade e a imediatidade do diário combinam-se com o trabalho de arquivo e consulta à biblioteca pública do Rio de Janeiro, além de suas conexões com alguns poderosos locais. O texto publicado não corresponde, portanto, ao diário escrito no calor do momento, mas a trabalho posterior de edição realizado sobre esse material bruto; não estamos, como recorda Sandra Vasconcellos, diante de uma narrativa pessoal e intimista, como um diário faria supor, mas sim de um projeto, explicitado em seu prefácio, que oferece fontes para a história da independência do Brasil22. Há uma mescla entre fatos do cotidiano, da vida doméstica e das relações sociais, esperados no relato de viagem de uma mulher, com análises e informações políticas que excedem os supostos limites de um diário. Em sua narrativa, Graham provoca uma tensão entre o mundo privado da esposa do capitão - que, na primeira viagem, acompanha o marido e, na segunda estada no Brasil, retorna como viúva em busca de proteção - e o mundo da política e da guerra, dos quais se torna testemunha aparentemente acidental. Esse lugar ambíguo da vanguarda capitalista, reservado às mulheres, é descrito por Mary Louise Pratt como o espaço das exploradoras sociais, que praticam a “investigação social como prática política” 23.

Seu marido é escassamente referido no primeiro diário, sempre chamado de capitão Graham: ela descreve seu matrimônio e a morte do esposo com discrição, uma estratégia na qual procura ser uma observadora que testemunha os fatos a uma certa distância, demonstrando pouco envolvimento emocional24; sobretudo uma observadora que não depende do olhar masculino para interpretar o mundo. Não há em Maria Graham uma pretensão cartográfica de domínio do território visitado - pois, como mulher, não pode apresentar-se como conquistadora -, mas um olhar pitoresco sobre a paisagem, seja ela natural ou cultural, que lhe permite incluir observações científicas sobre a natureza. Sua condição de mulher britânica na América do Sul lhe permite tratar de temas políticos em seu relato, o que não seria possível na Inglaterra, na medida em que, mesmo sendo mulher, representa a nação mais poderosa do mundo e um grande Império. Estando na América, ela traz consigo os valores britânicos e compartilha-os com seus compatriotas homens e com os leitores de seu relato, provocando “uma cumplicidade entre escritor e crítico em que o gênero foi ignorado em favor de um sentimento partilhado de valores nacionais”25.

Em sua introdução histórica, ao tratar da administração do Império independente do Brasil e dos conflitos nas diversas províncias, ela afirma que não pode pretender tratar do caráter da administração, uma vez que “minhas oportunidades de informação eram muito raras; meus hábitos como mulher e estrangeira nunca me levaram a situações em que eu pudesse adquirir o conhecimento necessário”. Se, enquanto mulher, ela não pode ter acesso a todas as informações e analisar politicamente os acontecimentos, a viagem lhe permite, outrossim, “marcar o curso dos acontecimentos e, na medida em que estão ligados entre si, as causas dos efeitos que ocorreram diante dos meus próprios olhos”26. São afirmações contraditórias, nas quais ela reafirma a subalternidade de sua condição de mulher no acesso a informações políticas, ao mesmo tempo que afirma a sua condição privilegiada de observadora de fatos que ela pode explicar enquanto um processo histórico observado em primeira pessoa. Em seu discurso justificatório, ela assume aparentemente a sua impossibilidade de ter acesso à política por ser mulher, mas argumenta que, por meio da experiência da viagem, ela, como testemunha ocular, tem acesso a esse mundo do qual, em outra circunstância, ela não participaria. Mais adiante, visitando Pernambuco, sua primeira parada no Brasil, em um passeio com alguns oficiais da fragata Doris à Ilha dos Coqueiros, ela faz novamente referência ao seu olhar treinado pela experiência da viagem, na medida em que as novidades da paisagem exótica eram novas apenas “aos olhos jovens e pouco viajados, como eram os da maioria do grupo”27. Ela era apenas uma mulher entre homens, em um mundo de homens, mas seus “olhos viajados” eram os mais treinados para compreender o mundo que os cercava, por sua condição de viajante experiente.

O livro está composto por uma introdução que é, como diz a autora, um esboço histórico do Brasil desde a chegada dos europeus. Esse prólogo está baseado, como reconhece a própria Maria Graham, na obra History of Brazil, do poeta laureado Robert Southey (1774-1843), publicada em três volumes entre 1810 e 1819, considerada a primeira História Geral do Brasil. Ela decide iniciar seu relato com um ensaio histórico, demonstrando a sua habilidade intelectual em uma disciplina mais nobre do que o simples diário de viagem feminino28. Além disso, o relato histórico que antecede ao seu diário é um exórdio necessário para explicar o contexto das grandes transformações que o Brasil sofre nesse momento e das quais a autora é uma testemunha direta. “A sua narrativa transcende a ‘mera’ literatura de viagem para se tornar uma testemunha da construção da história”29. A sua história chega até o momento que realmente lhe interessa, a transferência da corte portuguesa ao Brasil, instalando-se no Rio de Janeiro, o que pôs fim ao estatuto colonial do Brasil, e a posterior independência do país liderada pelo príncipe regente Pedro de Bragança (1798-1834) e sua esposa, Maria Leopoldina de Habsburgo (1797-1826).

Seu diário, apesar dos interesses pela natureza, pela paisagem pitoresca, pelas informações científicas e pela descrição da sociedade luso-brasileira, tem como centro a sua experiência como observadora privilegiada da construção do Estado independente do Brasil. Com a corte, chega a imprensa, ainda que sem muita liberdade, mas que serviu para despertar a curiosidade intelectual e o gosto pela leitura dos locais. Para a autora, a união dos locais com os portugueses recém-chegados, por meio de casamentos, tornou a sociedade mais “polida”, ou seja, mais refinada e educada, e as atividades econômicas e científicas puderam crescer30. Os melhoramentos urbanos e sociais promovidos pela transferência da corte ao Rio de Janeiro, a ação ilustrada dos príncipes regentes, assim como a amizade preferencial com os ingleses e seu aspecto “civilizatório”, ou, como diz a autora, “o espírito do tempo”, produziram um “desejo de liberdade, diante, enfim, do que havia de mais contrário ao antigo sistema da Europa continental”31. Maria Graham é consciente de ser testemunha de um processo de mudança histórica importante, da construção de uma Nação, da emergência de ideais de liberdade e da possibilidade de desempenhar um papel político nesse processo que seria impensável em seu Reino Unido natal.

Ela parte da Inglaterra em 31 de julho de 1821, e a descrição de sua travessia traz detalhes sobre a condição da viagem e as etapas pela Ilha da Madeira e pelas Canárias, quando não esconde a sua pouca estima pelo grau de “civilização” de portugueses e espanhóis. A chegada ao Brasil se dá em 22 de setembro, no porto de Recife, quando ela tem o primeiro contato com um mercado de escravos, que lhe causará uma terrível impressão. É quando ela afirma ter resolvido, assim como seus companheiros, “que nada que estivesse em nosso poder poderia ser muito pouco ou muito grande para abolir ou atenuar a escravidão”32. Sua posição está de acordo com a política oficial britânica de combate ao tráfico de escravos e será um dos temas centrais de sua narrativa, embora não esteja isento de ambiguidades e de visões preconceituosas em relação aos negros, como era comum às narrativas de viagem de seus compatriotas desse período - na verdade, a sua repulsa à escravidão se atenua muitíssimo na segunda viagem, quando ela se aproxima da Corte.

Na chegada ao Brasil, em um Pernambuco dominado pela agitação política das vésperas da Independência, em 3 de outubro de 1821, passeando pela cidade do Recife com outros oficiais, seu grupo é abordado por soldados da junta de governo revolucionário, que os leva a uma reunião política. Determinada a observar a paisagem pitoresca e esperar, com o seu primo Glennie, a volta dos homens que haviam ido encontrar-se com os revolucionários, Graham é surpreendida por um “homenzinho esperto falando um francês razoável”, o secretário de governo, que lhe diz que “o governo” desejava a sua companhia33. Ela é apresentada a todos os homens presentes na reunião política que se desenrolava no palácio, sobre as injustiças do governo português com o Brasil, e Pernambuco em particular. A junta de governo queria saber se haveria a possibilidade de reconhecimento pela Inglaterra da independência do Brasil, ou se o país participaria da luta. A junta desse governo provisório lhe devota vários gestos de respeito e cordialidade: ela é chamada para participar da leitura de uma carta, que não seria lida enquanto ela não estivesse presente, e é servida antes de todos no jantar que se segue à reunião, bem como se torna objeto, mais adiante, da preocupação do governador Luís do Rego Barreto (1777-1840) por sua segurança. Com alguma discrição, Graham destaca esses gestos de deferência: como mulher, ela não teria acesso a essas reuniões políticas, mas, como mulher britânica, além de merecer mais atenção, a sua opinião também era levada em conta. Ela pode, nesse contexto convulso politicamente, representar se não o poder de uma potência a qual se deseja convencer para a causa da Independência, ao menos um saber competente por pertencer a uma “civilização” mais desenvolvida.

O pitoresco como política

Sua narrativa intercala acontecimentos políticos com descrições da paisagem pitoresca, como se fosse uma flâneuse distraída com a natureza tropical de Pernambuco enquanto era absorvida ocasionalmente pela política, que irá se revelar uma de suas grandes paixões na viagem ao Brasil. Como observa Nicolle Jordan, Maria Graham, intercala estética e política, tratadas em sua narrativa com a mesma equivalência34. Em 6 de outubro, diante de um posto dos patriotas, ela e seu grupo são acompanhados por um revoltoso que ameaça atirar se eles andassem mais depressa do que ele. Essa lentidão imposta pela vigilância armada

[...] nos deu tempo para apreciar as belezas da primavera brasileira. Plantas exuberantes, com pássaros ainda mais exuberantes pairando sobre elas, flores perfumadas e laranjas e limões maduros, formavam um belo primeiro plano para as belas árvores da floresta que cobriam as planícies e revestiam as encostas dos morros baixos na vizinhança de Pernambuco35.

Como observa Jordan, “Transformando a ameaça do bacamarte do guarda em uma oportunidade de saborear o esplendor botânico da região, Graham realiza nesta passagem sua propensão a transformar momentos de perigo em quadros pitorescos”36, o que, segundo essa autora, serve para contrapor a desordem da insurreição com a paz pitoresca da paisagem, reforçando e celebrando o potencial da liberdade dessa nova nação em formação37. Dessa forma, Graham utiliza um artifício estético de descrição da paisagem como recurso narrativo para tratar da política em feminino, e o pitoresco se transforma numa justificação para interpretar os destinos da revolução no Brasil. O que seria tratar da política em feminino? Como os campos da opinião e da análise política não estão abertos nesse momento às mulheres, Maria Graham utiliza temas que são comuns nas narrativas femininas, como a paisagem e a botânica, usando-os, como recorda Nicolle Jordan, para inserir elementos da política local. Aparentemente, ela trata de jardins e belas paisagens tropicais, mas aproveita para inserir temas “masculinos”, como a guerra ou a política. Como recorda Michelle Medeiros, ela utiliza gêneros considerados mais femininos, como a biografia ou o pitoresco38, para produzir uma narrativa que “divulgou seus interesses e contribuições científicas, cruzando assim as fronteiras em gêneros que tinham fortes restrições de gênero”39. Ao descrever a natureza pitoresca do Brasil, ela, ao mesmo tempo, se insere no debate científico das ciências da natureza e na narrativa histórica e política da construção das nações sul-americanas independentes, tudo sob o manto de uma inofensiva descrição pitoresca da natureza tropical.

Em 19 de outubro, Graham é levada em visita aos amigos portugueses da esposa do cônsul britânico, Miss Pennell. Ali, além de se decepcionar com o aspecto físico das casas das elites portuguesas de Pernambuco, que, “na maior parte, são repugnantemente sujas”, também nota o aspecto deplorável das mulheres e homens portugueses. Sobre as mulheres, afirma que dificilmente se poderia crer que eram senhoras da sociedade.

Como elas não usam nem coletes nem espartilhos, seu corpo torna-se quase indecentemente desmazelado, logo após a primeira juventude; e isso é tanto mais repugnante quanto elas se vestem de modo muito ligeiro, não usam lenços no pescoço e raramente algum vestido com mangas. Depois, nesse clima quente, é desagradável ver algodões escuros e estofos sem nenhuma roupa branca sobre a pele. O cabelo negro, mal penteado e desgrenhado, ou amarrado inconvenientemente, ou ainda pior, en papillote, e a pessoa com a aparência de mal banhada40.

Os homens portugueses, por sua vez, “têm todos uma aparência mesquinha; nenhum parece ter qualquer educação além dos escritórios comerciais, e todo o seu tempo é gasto, creio eu, entre o comércio e o jogo: neste último, as mulheres participam principalmente depois de se casarem”41. Mulheres de aparência repugnante, homens sem nenhuma educação ou interesses elevados, isso ascende a observadora a um lugar de autoridade e destaque, com capacidade de julgamento superior aos locais.

No dia seguinte, relatando a ida à Ópera da cidade, cujo edifício lhe pareceu belo, cômodo e espaçoso, a autora observa que, durante a apresentação do Maomé, de Voltaire, os cavalheiros e damas portugueses “pareciam determinados a esquecer completamente o palco e a rir, comer doces e beber café, como se estivessem em casa”42. Apesar da beleza do teatro, dos cantores razoáveis que acompanhavam os maus atores e da obra de autor europeu, as elites pernambucanas não estavam culturalmente preparadas para desfrutar do espetáculo. Aqui se confirma uma marca de sua narrativa, destacada por Akel: sua hostilidade para com as mulheres, “menosprezando-as por sua falta de beleza em alguns casos, por suas fracas capacidades intelectuais em outros, ou pelo que ela acredita ser privação sexual para algumas e excessos sexuais em outras”43. Mas não apenas as mulheres são menosprezadas, os homens latinos estão muito abaixo dos britânicos, e esses, abaixo de seu amigo e herói, Lorde Cochrane. Nesse processo de emasculação dos homens portugueses e degradação das mulheres em geral, ela se coloca num lugar superior a essas mulheres, por sua feiura, desmazelo e ignorância, mas também ao dos homens, aos quais ela é superior pela sua inteligência, bom gosto e civilidade.

Ao deixar Pernambuco em 14 de outubro de 1821 em direção à Bahia, a autora afirma que tinha a firme convicção de que essa parte do Brasil não pertenceria mais a Portugal, que já não podia mais lutar nem por si, nem por suas colônias, nem mesmo exigir que essas apoiassem a mãe pátria com a imposição de impostos e taxas. Em Pernambuco, uma província de tradição insurgente, a reformadora social vê os laços coloniais sendo desfeitos. Já a impressão da Bahia, mais ligada a Portugal e onde a independência só seria realizada em julho de 1823, é mais negativa: há desconfiança com os estrangeiros, que não podem entrar nos edifícios públicos, e a polícia estava em um estado miserável, com o uso do punhal disseminado e cujos assassinatos chegavam a duas centenas por ano44. É claro que aqui, onde a presença portuguesa é mais evidente, não encontrará talento ou desejo de conhecimento; e entre aqueles que se interessavam pela política, “a maioria é discípula de Voltaire, e superam-no em suas doutrinas em política e igualmente em sua indecência quanto à religião; por isso, para gente moderada que tenha passado pelas Revoluções europeias, os seus discursos são às vezes revoltantes”45. Vemos que não era exatamente leitura ou atividade política revolucionária que faltava à Bahia, mas um projeto de emancipação liberal e “sóbrio”, de influência britânica muito mais que francesa, como a monarquia constitucional de Pedro I.

No Rio de Janeiro, onde desembarca pela primeira vez em 15 de dezembro de 1821, Graham vai se encantar com a beleza incomparável da Baía de Guanabara e com a natureza luxuriante da cidade, vai se indignar com o mercado de escravos do Valongo e vai desprezar as mulheres e os portugueses, mas, sobretudo, vai dar atenção aos acontecimentos políticos que antecedem a independência do Brasil, encantando-se com os patriotas brasileiros, “homens decididos em seus propósitos e determinados a proteger os seus direitos e as suas casas”46. O uso do termo “brasileiros” no diário de Maria Graham reflete a ambiguidade que o conceito tem no contexto da independência: ora se refere aos indígenas: “Anchieta, enquanto ensinava latim aos portugueses e mamalucos, e português aos brasileiros, aprendeu destes últimos a sua própria língua, e compôs para eles uma gramática e um dicionário”47; ora como parte do reino português: “Portanto, enquanto a corte continuasse residindo no Rio de Janeiro, os brasileiros não tinham incentivo para romper com a metrópole”48; e ora aos patriotas em oposição aos leais ao governo português, como no caso dos revolucionários do Recife: “A cerca de duas milhas do último posto avançado de Do Rego, chegamos ao primeiro posto dos patriotas!”49. Em outros momentos, há uma clara oposição entre portugueses e brasileiros: “Além da disposição para a revolução, que sabíamos que existia há muito tempo em todas as partes do Brasil, havia também um ciúme entre portugueses e brasileiros”50. Ao longo do texto, a autora vai identificar os brasileiros como aqueles que se opõem à tirania do colonialismo português e aos súditos do novo governo imperial, estabelecendo uma oposição mais clara entre portugueses, representantes da antiga tirania, e os brasileiros, defensores da liberdade51.

Em 10 de março, ela e o capitão Thomas Graham embarcam em direção ao Chile, quando a tragédia se abate sobre a nossa autora, que fica viúva em meio à travessia do Cabo Horn. Aqui nasce uma nova personagem, a heroína trágica, viúva e solitária, que enfrentará as maledicências daqueles que não veem com bons olhos uma mulher só viajando pelo mundo, mas que se sentirá livre para converter-se em uma analista política com participação ativa, ainda que discreta, nos acontecimentos que estavam mudando as sociedades sul-americanas. Aqui começa o diário da segunda visita ao Brasil, cuja introdução histórica apresenta o processo de independência liderado pelo Príncipe regente, agora Pedro I, imperador e defensor perpétuo do Brasil. Graham desembarca no Rio de Janeiro pela segunda vez em 13 de março de 1823.

A diferença em relação à primeira viagem é que, antes, ela era uma discreta acompanhante e esposa de um representante do Império britânico na América do Sul e, agora, uma viúva em busca de proteção e de um lugar social em uma sociedade nova, recém-fundada, na qual uma mulher respeitável, mas sem nobreza ou fortuna, podia colocar-se se tivesse as devidas conexões dentro da corte. Nesse segundo diário, ela se permite ser mais assertiva em suas opiniões, menos cautelosa ao situar-se intelectualmente em relação aos demais - em geral, inferiores a ela. Sua proteção virá de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de janeiro de 1822 a julho de 1823. Por sua influência, Graham terá acesso ao casal imperial, nascendo daí uma amizade com a imperatriz Maria Leopoldina, que duraria até a sua morte.

Independência pela viagem e pela escritura

Maria Graham percebe, na independência brasileira, uma situação peculiar e rara: um príncipe herdeiro à frente da causa da liberdade de uma antiga colônia e um filho da casa de Bragança, junto a uma filha da casa dos Áustria, liderando a criação desse grande Império na América e provocando “o amor e também a admiração de seus afortunados súditos”52. A monarquia brasileira sempre se apresentou como um elemento civilizatório em meio à anarquia das repúblicas fratricidas da América espanhola. Maria Graham parece compartilhar essa visão, vindo da sua experiência chilena, onde acompanhou de perto os conflitos e a guerra civil para a construção do país, que acabaram provocando a saída de seu herói, Lorde Cochrane, do país. Apesar das guerras que foram necessárias para a unificação de todas as províncias da América portuguesa sob a condução do Império no Rio de Janeiro, a monarquia aparece para Maria Graham como um elemento de unidade. Para ela, esse regime mantinha os laços com a “civilização” - entendida por ela como uma monarquia constitucional e liberal - e com a Europa, por meio de uma forma de governo e uma casa reinante. O outro laço, a escravidão, que Graham sempre criticará, não será nunca identificado por ela com a continuidade monárquica que mantém o cativeiro, ao contrário da maior parte da América espanhola. Isso demonstra a ambivalência de sua apreensão dos escravos e os limites de sua empatia, como recorda Adriana Méndez, ao destacar “sua representação consistente dos escravos como ‘total’ ou ‘absolutamente assujeitados’, consequentemente carentes de agência histórica”53. As independências sul-americanas são, ainda, reimaginadas por ela como um empreendimento britânico e uma dominação benigna do império informal, o que Soledad Caballero define como um romance do império54, do qual ela participa como agente civilizadora e heroína. O Brasil, com sua peculiar experiência imperial, lhe oferece a oportunidade de pertencer a uma corte, fazendo com que a indignação com a escravidão no primeiro diário de sua viagem se desvaneça nessa segunda parte.

Como parte de seu processo de empoderamento literário, seus compatriotas tampouco escapam à sua pena crítica. No Rio de Janeiro, Graham observa, em 27 de dezembro de 1821, que as moças portuguesas e brasileiras são muito superiores às da Bahia, parecendo até pertencerem a uma casta superior, talvez polidas pela presença da corte. Ainda, ela diz não poder afirmar que os homens compartilhem dessas qualidades. Já sobre os ingleses, afirma:

[...] o que posso dizer? São tais como os vemos em casa, em sua classe social; e as damas, são pessoas muito boas sem dúvida, mas precisariam da pena da Srta. Austin [sic.] para torná-las interessantes. No entanto, como parecem não ter pretensões a serem nada além do que são, para mim são bem-humoradas, hospitaleiras e, portanto, agradáveis55.

Interessante e aparente paradoxo apresenta a autora: a corte civiliza, o que será coerente com sua defesa do processo de independência e da construção da monarquia brasileira; portanto, as mulheres do Rio são superiores às da Bahia, demasiado portuguesa, por esse “efeito civilizatório”. Já os ingleses e inglesas não acompanham esse processo, ao contrário, parecem diminuídos na capital do Brasil, mais próximos dos locais, em sua leitura classista, de seus compatriotas. São, sem dúvida, um pouco superiores aos brasileiros e portugueses, mas reproduzem as escassas qualidades trazidas de casa; são, portanto, semelhantes à sua classe social na Inglaterra.

O que afirma a viajante é que esses homens e mulheres desprovidos de atrativo, que apenas a imaginação de Jane Austen (1775-1817) poderia tornar interessantes, são homens e mulheres medianos, de pouca educação, simples comerciantes, tornados uma elite apenas por viverem num país em formação, cujo “processo civilizatório” era ainda incipiente. Se, de um lado, esses britânicos medianos e medíocres necessitam da pena de uma romancista para terem interesse, “Graham tem o compromisso de ‘relatar o que vê’. A viajante não pode romantizar aquelas mulheres porque [...] seu diário pretende ser um retrato fiel dos eventos testemunhados”56. Assim, em sua primeira viagem, o objetivo era proteger esses mercadores britânicos. Para ela, como recorda Caballero, sua missão não era comercial, mas de influência cultural57, tendo pouco ou nenhum interesse por essas personagens secundárias. Sobretudo, esses negociantes são inferiores a ela em educação, inteligência e civilidade. Questionada como intelectual no Reino Unido, como várias resenhas negativas de seus primeiros livros demonstram, apesar de ser uma escritora reconhecida58, ela adquire no Brasil uma distinção e preeminência não apenas sobre os luso-brasileiros, naturalmente inferiores, mas também sobre os homens e mulheres britânicos locais. Assim, a sua observação e análise histórica e política, questionáveis na Europa, se potencializam na América.

A superioridade de sua erudição, inteligência e origem social, além da amizade com a futura imperatriz Maria Leopoldina, justificam o seu interesse pela política e sua atuação em assuntos públicos. Nos diários sul-americanos, produz-se um deslocamento narrativo, segundo Akel, em relação aos anteriores diários de viagem à Índia, por exemplo, de um tom mais neutro para o de uma indefesa heroína em busca de proteção masculina, um narrador que se move “de espectadora a heroína”59. Esse tom de heroína em apuros, que Akel afirma que ela retira da literatura inglesa de finais do século XVIII, é resultado de sua condição de viúva, o que explica também a sua animosidade com seus compatriotas, que não aceitam a sua condição de mulher sozinha num país estrangeiro e com uma suspeita amizade com o almirante Cochrane. Entretanto, creio que, nessa personagem criada como defesa de sua condição de viúva e mulher só, se destaca muito mais o seu caráter de heroína culta do que de dama indefesa. Sua superioridade moral e intelectual a coloca acima do desprezo de seus compatriotas, e a sua efêmera influência na corte confirmou, por algum tempo, essa superioridade.

Na entrada de seu diário de 13 de julho de 1823, no Rio de Janeiro, tratando dos fidalgos portugueses e brasileiros com quem tinha travado conhecimento, afirma que havia muito ciúme entre eles pela maior nobreza dos portugueses em relação aos brasileiros, o que provocava escândalos e maledicências, nos quais as mulheres, por serem as mais ativas nesses falatórios, eram as que mais sofriam. Essa observação prepara a autojustificação que vem a seguir, quando trata de seus compatriotas, ou suas compatriotas, se acreditarmos que eram as principais responsáveis, e vítimas, das maledicências:

Não há muitas visitas formais entre os ingleses, mas toma-se tranquilamente muito chá, e de vez em quando se formam grupos para jantar ao ar livre no tempo frio. Em suma, minhas compatriotas aqui são um grupo discreto e sóbrio de pessoas, com não mais do que uma proporção razoável entre boas e más60.

Nessa segunda viagem, a imersão na vida cotidiana, social e política da Corte será ainda maior. Graham já domina melhor o português, frequenta a Biblioteca Real, onde se informa sobre a História e a sociedade brasileiras e tem mais relações de amizade, apesar das tensões que sua condição de mulher solitária provoca. A animosidade da esposa de Lorde Cochrane, Lady Katherine Barnes (1796-1865), em relação a ela tampouco ajudou a estabelecer laços mais cordiais com a colônia inglesa. Um bom exemplo é descrito em sua entrada de 15 de julho de 1823. No baile que se segue à festa de Nossa Senhora da Glória, oferecido pela Baronesa de Campos em 15 de agosto desse mesmo ano, Maria Graham afirma que havia apenas quatro inglesas presentes, ela, Lady Cochrane, a esposa do cônsul e do comissário para os negócios da escravidão. Um cavalheiro estrangeiro presente observou que, apesar de serem apenas quatro, dificilmente conversavam juntas. “Isso era perfeitamente verdade”, afirma peremptória, e a explicação que dá para esse fato convence pouco: “Eu gosto, quando estou em uma sociedade estrangeira, de falar com estrangeiros; e não acho nem sensato nem civilizado formar círculos com pessoas da minha própria nação nesses casos”61. Ela habilmente justifica seu isolamento social na comunidade inglesa, devolvendo a responsabilidade aos seus compatriotas - eles sim isolados em seu pequeno grupo, cheio de maledicências, sobretudo contra mulheres como ela, enquanto se esforça por integrar-se à sociedade local. Nessa justificativa, a viajante se coloca acima de seus compatriotas por sua capacidade de integração na cultura local. Isso, ao mesmo tempo, a qualifica como autora e intérprete do Brasil. Ela é mais capaz de compreender o processo histórico da independência e ser uma mediadora cultural, educando o Brasil nos valores que ela considera civilizados e informando a Inglaterra sobre a construção desse novo país.

Daí a importância de sua aliança com José Bonifácio, homem mais poderoso do Império, que ela procura em março de 1823, depois do retorno de seu primo Glennie à Inglaterra, deixando-a sozinha. Ela pede a Bonifácio que interceda junto à imperatriz como sua protetora durante sua estada na Corte. Essa narrativa produz uma inferioridade nos ingleses e eleva a erudita e sábia Maria Graham naturalmente acima dos luso-brasileiros, das mulheres inglesas, que seriam suas supostas iguais, e dos homens britânicos, naturalmente superiores a ela na Europa, mas rebaixados na escala social e cultural na comparação com a narradora. É essa superioridade que lhe confere, segundo Akel, o direito de expor suas opiniões, dando à sua persona narrativa “uma espécie de imunidade textual. Afinal, ela não poderia ser suspeita de compartilhar os mesmos vícios e defeitos que detectou e condenou em outros”62. A proteção da imperatriz promove uma aliança de gênero e “classe” que fortalece a sua superioridade: duas mulheres cultas, europeias e educadas que têm a capacidade de civilizar o Brasil pelo exemplo, pelo poder, ainda que informal, de Leopoldina, pelo trabalho pedagógico da preceptora da princesa e por sua análise e aconselhamento político, aproximando a jovem Corte dos valores superiores da Grã-Bretanha que ela defende, e aproximando Maria Graham de uma nobreza que ela não tinha na Europa.

No diário de sua segunda viagem ao Brasil, ela abandona alguns aspectos de sua misoginia corrente para destacar ao menos duas personagens femininas: a imperatriz, que ocupa o lugar central que Lorde Cochrane ocupara no diário do Chile, e Maria Quitéria de Jesus (1792-1853), a mulher soldado que participa das lutas de independência. Não por acaso, duas mulheres que ocupam um lugar de destaque na política e na vida pública desse período, já que, como recorda a autora “o espírito de patriotismo não se limitou aos homens”63. Essas duas personagens funcionam para justificar não apenas a atividade viajante e a escrita de Graham, mas sua extensa crônica e análise dos acontecimentos políticos por trás da emancipação do Brasil, bem como suas narrativas históricas sobre a nossa colonização e o perfil biográfico que ela escreve do imperador. Como ela não deixa de destacar, o patriotismo, a historiografia e a política não são atributos unicamente masculinos.

Em 29 de agosto de 1823, ela é apresentada a Maria Quitéria, a soldado da guerra do Recôncavo. A primeira coisa que lhe chama a atenção é a sua vestimenta militar, um uniforme com um kilt, que ela utilizava para deixar seu traje mais feminino, o que lhe permite alguma ironia com suas origens escocesas: “O que os Gordons e os Mac Donalds diriam sobre isso? O ‘traje da velha Gália’, escolhido como uma vestimenta feminina!”64. Seu pai, fazendeiro, tinha recebido um emissário do Império buscando voluntários. Sem filhos homens, ele ainda assim recebe o representante do imperador, que lhe explica a causa da independência. Encantada, Maria Quitéria é convencida por uma irmã casada, que afirma que, se não tivesse marido e filhos, iria se juntar às tropas do imperador. Assim, ela se alista, vestida com as roupas de seu cunhado. Aqui já são duas mulheres convencidas de sua responsabilidade patriótica, apesar das limitações de seu sexo. Maria Quitéria, por seu heroísmo, é condecorada pelo imperador em pessoa com a Ordem do Cruzeiro e recebe dele o posto de alferes. “Ela é iletrada”, diz Maria Graham, mas inteligente. “Sua compreensão é rápida e suas percepções aguçadas. Acho que, com educação, ela poderia ter sido uma pessoa notável”. Não é masculina nem pode ser acusada de imoralidade, e seu sexo só foi descoberto quando foi procurada por seu pai65.

Maria Graham percebe, com a história de Maria Quitéria, que o processo da independência podia proporcionar lugares incomuns para as mulheres, dada a situação de exceção que a situação política e a guerra implicavam. Uma nação em construção precisava de todos os talentos disponíveis, inclusive das mulheres. Dessa forma, há uma abertura para a participação feminina na vida pública que fascina a viajante, além da necessidade de um saber competente que os estrangeiros mais sábios poderiam dar à jovem nação. Por isso, apesar de impressionada com a história da soldado baiana, ela considera que, apesar de inteligente, como lhe faltava a instrução, ela ainda não era uma pessoa notável. Faltava-lhe o que sobrava na narradora, a erudição e a boa educação, além da coragem de mulher intrépida, vivendo sozinha em país estrangeiro, o que abria as portas, por exemplo, da Biblioteca Real, que lhe reservava um gabinete de trabalho, “uma gentileza e atenção para com uma mulher e uma estrangeira para as quais eu dificilmente estava preparada”66. Heroína, mas no caso da viagem ao Brasil, sem a necessidade de uma proteção masculina. Mais precisamente, buscou uma proteção feminina na figura da imperatriz e um exemplo feminino de coragem e agência política em Maria Quitéria.

Embora Pedro I seja onipresente em sua crônica política da independência, e ela tenha escrito seu perfil histórico, Maria Leopoldina é uma personagem central dessa trama. Se o imperador é a evidente personagem masculina que representa o poder político, Leopoldina é seu contraponto feminino e um dos elos de Graham com a política brasileira. Em 19 de maio de 1823, é recebida pela imperatriz

Ela falou comigo com a maior amabilidade; e disse, da maneira mais lisonjeira, que ela me conhecia há muito tempo pelo nome, e várias outras coisas que pessoas de sua posição podem tornar tão agradáveis pela voz e pelas maneiras; e eu a deixei com a mais agradável das impressões67.

Esse encontro discreto é o princípio da amizade que uniu as duas mulheres, mesmo depois de sua expulsão da corte e seu retorno à Inglaterra. A amizade com a imperatriz, de um lado, enobrece a viajante, erudita, porém, plebeia, que ainda não tinha se tornado Lady Callcott; de outro, era uma via possível de entrada na vida pública, que ela quase adquire ao ser nomeada preceptora da princesa Maria da Glória.

A proximidade com o casal imperial é um escudo contra os conflitos com a comunidade inglesa local, já que lhe confere uma deferência que, em outra circunstância, não receberia. Em 12 de outubro de 1823, aniversário do imperador e de sua coroação, Graham é colocada na tribuna diplomática da Capela Real, destinada, diz ela, aos “estrangeiros respeitáveis”, junto aos cônsules. Depois disso, ao contrário dos cônsules, que se retiram, será recebida pelo imperador no Palácio e participará do cortejo, o que, diz ela, “eu não teria feito isso, estando completamente sozinha, se a maneira graciosa com que Suas Majestades Imperiais me saudaram, tanto na capela quanto depois no corredor que levava aos aposentos reais, não me tivesse induzido a prosseguir”. Aqui, a hábil escritora revela seu talento uma vez mais, utilizando de forma irônica um deslize cometido em demonstração de erudição, ao mesmo tempo que lança um pequeno dardo à esposa de Lorde Cochrane. O imperador anuncia à Lady Cochrane que ela tinha se tornado Marquesa do Maranhão, o que acontece em meio à distração de Maria Graham, que conta o ocorrido citando o Quixote: “sou, às vezes, distraída; mas agora, quando deveria estar mais atenta, senti-me na situação que Sancho Pança descreve com tanto humor, de mandar meu juízo buscar lã e voltar para casa tosquiado”. Por outro lado, a emoção do marquesado de seu amigo Lorde Cochrane faz com que cometa outra gafe:

[...] quando encontrei o Imperador no meio da sala, e sua mão estava estendida em minha direção, e que todos os outros tinham prestado seus cumprimentos e ido para seus lugares, esqueci que estava com minhas luvas, peguei sua mão Imperial com aquelas luvas, e suponho que a beijei com muito ardor, pois vi algumas das Damas sorrirem antes que me pudesse ocorrer qualquer coisa a respeito68.

O deslize, no entanto, não a diminui: primeiro, pela extrema amabilidade de D. Pedro; segundo, pela erudição literária e habilidade de escrita que o incidente permite-lhe demonstrar, utilizando uma personagem cômica como Sancho Pança para rir de si mesma69; e terceiro, porque ela própria decide contar, de forma humorística, a sua falta à imperatriz, demonstrando, assim, o respeito que lhe devotava D. Pedro e a intimidade com Leopoldina.

É justamente nessa festa que a viscondessa do Rio Seco a recomenda como preceptora da princesa imperial70. Na construção da escritora, historiadora, educadora, botânica e viajante filosófica, o testemunho do nascimento de uma nação, da formação de uma corte europeia nos Trópicos e o lugar de destaque que ela ocupa nesse processo são fundamentais para justificar essa personagem erudita, apesar de ser apenas uma mulher. “Testemunha do nascimento de uma nova nação, ela entrelaça sua própria história com a de sua emergente independência”71. O nascimento do Brasil é paralelo ao nascimento da autoridade da sua intérprete e observadora direta, que se legitima como agente histórica e historiadora ao mesmo tempo. Dessa forma, a narrativa reconstrói a fragilidade da situação de Graham como mulher só e estrangeira, vítima dos comentários maldosos de seus conterrâneos, por uma proximidade com o casal imperial, e a deferência que eles lhe devotavam, não pela nobreza e posição, que ela não possuía, mas pela sua erudição e caráter, o que lhe permite uma participação no espaço público e na política do Império. Uma fragilidade que se confirma na maneira abrupta pela qual ela será expulsa da Corte, sem ter cumprido sua função de educar a pequena Maria da Glória, futura Maria II de Portugal. Suas ilusões com uma vida cortesã e respeitabilidade intelectual se desvanecem definitivamente. A autodepreciação, que era apenas um artificio discursivo, se confirma na perda desse lugar que ela havia conquistado.

Uma escrita viável: Maria Graham autora e personagem de si

Se é verdade que Maria Graham está inserida, como recorda Margareth Gonçalves, num processo de constituição da ordem burguesa no Ocidente, que pressupõe “uma noção de individualidade liberta de qualquer forma de constrangimento externo ao sujeito, que conquista, no plano simbólico, o estatuto de senhor absoluto de sua vontade e destino”72, também é verdade que, nessa ordem burguesa, o lugar da autora no momento de sua viagem ao Brasil, como mulher viúva vivendo sozinha num país estrangeiro, é bastante precário, sendo necessário encenar uma série de dispositivos justificatórios em sua narrativa que permitam dar um droit de cité à sua condição anômala. É nas brechas dessa ordem burguesa, na qual “o indivíduo está permanentemente em busca de autenticidade, de uma verdade sobre si”73, que ela procurará uma autenticidade de mulher civilizada nos Trópicos, o que justificava a sua ação política e literária. Ao ser uma mulher peculiar e especial, e ao ter visto o mundo e participado ativamente dos assuntos públicos, ela podia justificar a sua ascensão a um mundo eminentemente masculino, que lhe apaixona: o da política. Jennifer Hayward e Soledad Caballero, na introdução da edição norte-americana de seu diário, ressaltam que “ela é mais astuta e mais envolvida politicamente do que muitos homens escritores de sua época”74. Essa astúcia é justamente a escolha da política como atividade e discurso preferenciais de sua narrativa e experiência brasileiras, colocando-se num lugar teoricamente proibido às mulheres.

Ela utiliza esse novo vínculo entre a subjetividade do indivíduo, sua sinceridade, com a verdade, que define a escrita de si75. Pela sinceridade da experiência pessoal, a viajante pode ter acesso à política e à História por meio de uma verdade intransferível e inseparável do indivíduo, mesmo que seja uma mulher. No caso da literatura de viagem, a escrita de si não se justifica pela importância do vivido ou pela notoriedade do narrador, mas pela importância informativa do espaço e/ou dos acontecimentos narrados pelo viajante. É por ter conhecido lugares que os leitores jamais conhecerão, ou por ter sido testemunha de acontecimentos históricos, como a independência, que a experiência pessoal do viajante se torna destacável; e desde o século XIX, com François-René de Chateaubriand (1768-1848) e a invenção da viagem romântica, as impressões do viajante, agora entendido como escritor, são mais importantes do que a descrição geográfica, pois revelam uma verdade interior e intransferível. Dessa forma, nesse particular relato autobiográfico que é o diário de viagem, a escrita de si feita por uma mulher como Maria Graham tem como um de seus principais objetivos a reivindicação de si, da própria existência e de sua viabilidade como vida narrável, como experiência possível. Por isso a complexidade e a necessidade de uma astúcia narrativa da autora para defender a sua incursão na vida pública, na política e na viagem, sem a proteção de um homem que justifique a pertinência de sua escritura. A viajante promete tratar de temas masculinos, como a política e a História, mas restringindo, aparentemente, essa apreciação às suas impressões pessoais, à sua verdade íntima.

Como observamos anteriormente, há uma expectativa em relação às narrativas de viagem escritas por mulheres que limitam sua experiência ao mundo doméstico e às ninharias do cotidiano e da intimidade, atentas aos costumes e à vida privada. Mary Pratt ressalta que as viajantes europeias procuravam “compor e possuir a si mesmas”, além do trabalho político de reformadoras sociais e praticantes de caridade76. Nesse discurso, segundo a autora, se “mescla a política e o pessoal”77, pois o pessoal, nesse caso, é produtor de verdade. No caso de Graham, há uma tensão constante entre o pessoal, que ela às vezes silencia ou mascara com citações literárias, e o público, que ela revela por meio de alusões à paisagem ou pela intromissão nos assuntos masculinos da política, da guerra ou da vida na corte. Ela própria assume que não está interessada nas pequenezas da vida privada:

Não consigo me interessar pelas pequenas coisas da vida alheia como antes; preciso do forte estímulo do interesse público para despertar minha atenção. Faz muito tempo que não consigo sair para apreciar as belas paisagens daqui, para apreciar os encantos da natureza78.

Mais uma vez, ela relaciona a paisagem à política, que diz respeito à experiência direta e à impressão pessoal na apreensão de um mundo físico e social no Brasil, o que justifica a viabilidade do conhecimento que ela produz em primeira mão sobre o nascimento de uma nação.

Apesar da autodepreciação comum às narrativas femininas, que ela própria utiliza, afirmando não poder dar informações mais precisas sobre a situação do Brasil na iminência de sua independência,

[...] porque nem o meu sexo nem a minha situação me permitiam informar-me mais especialmente sobre os acontecimentos políticos num país onde as publicações periódicas são poucas, recentes e, embora por lei livres, de fato, devido às circunstâncias dos tempos, imperfeitas, temerosas e incertas79,

sabemos que ela constrói seu relato como um discurso competente sobre a história política da jovem nação brasileira em formação. Isso é possível pela autoridade adquirida pela viagem, o que Michelle Medeiros chama de “subjetividade transatlântica”80, tornando-a uma especialista desse mundo visitado. Contribuem para isso a superioridade intelectual da autora profissional, os diversos conhecimentos mobilizados na composição de seu relato, a sua erudição e a inserção nas altas esferas da nobreza, da administração e da política local. Essa subjetividade transatlântica se constrói na experiência concreta da viagem, na observação dos Trópicos e na constituição de uma autora capaz de interpretar o mundo a partir de sua vivência e interioridade. Apesar de ser apenas uma mulher, seu relato ressalta a sua excepcionalidade, inteligência e capacidade de resistência às adversidades, uma performance na qual ela não questiona diretamente o lugar subalterno da mulher, mas elabora uma hierarquização cultural em que tanto os homens e mulheres luso-brasileiros quanto os britânicos vivendo no Brasil são intelectualmente inferiores a ela. Sua régua de comparação é com Maria Leopoldina e Lorde Cochrane, cuja intimidade enobrece-a.

Sua opção pela forma do diário, ou de cartas como em seu livro sobre a Índia, é esperada em uma narrativa feminina, pois “são as únicas formas suficientemente soltas para conter suas narrativas não estruturadas”81; mas seu diário é, na verdade, um texto composto por análise, documentação primária, entrevistas e citações cultas. Um diário parece tratar do cotidiano, da vida privada e da autobiografia, essas “little things of other people’s lives” que ela afirma desprezar. Sara Mills chamou a atenção para o problema de assumir que os textos de viagem femininos “são autobiográficos e são transcrições diretas das vidas das mulheres viajantes”82. Mills pretende recuperar os textos de viagem femininos de um lugar considerado menor, o da escrita de si e dessas pequenas coisas da vida dos outros. Monicat parte dessa ideia para problematizar a distinção que Mills faz entre simples autobiografias e artefatos textuais, ou seja, entre uma descrição mais comezinha dos acontecimentos de uma vida e dos sentimentos de um indivíduo e uma elaboração mais complexa, literária, da experiência vivida na viagem. Para Monicat, “autobiografias não podem ser senão artefatos textuais”83. Sidonie Smith e Julia Watson vão de encontro à interpretação de Monicat ao afirmarem que as autobiografias, embora contenham fatos, “não são histórias factuais sobre um determinado tempo, pessoa ou evento. Em vez disso, oferecem uma ‘verdade’ subjetiva em vez de ‘fatos’”84, e essa verdade própria e pessoal, se não toda a verdade, é oferecida por Maria Graham em seu prefácio. As suas narrativas de viagem podem ser entendidas, então, como artefatos autobiográficos, o que significa dizer que seu relato não é nem idêntico à sua vida, nem uma construção intelectual sem relação com o referente, pois, como recorda Angela de Castro Gomes, “a escrita de si é, ao mesmo tempo, constitutiva da identidade de seu autor e do texto, que se criam, simultaneamente, através dessa modalidade de ‘produção do eu’”85.

Seus diários sul-americanos representam, para Carl Thompson, uma viragem em sua obra, marcada pela incursão no gênero prestigioso da História. Esse autor enfrenta a questão da autobiografia nas narrativas viáticas de Maria Graham, seguindo e ampliando a leitura de Sara Mills. Para ele, há um problema em compreender as narrativas de viagem femininas da era romântica como textos autobiográficos, “life writing”, o que pode limitar a compreensão de aspectos importantes desses textos. No caso de Graham, mesmo em aspectos mais pessoais ou literários, seu livro está sustentado por “um forte compromisso com a função tradicional da escrita de viagens como um importante ‘gênero de conhecimento’”, um conhecimento que é historiográfico, etnográfico e político86. Se seus relatos tratam de seus sentimentos, de sua interioridade, neles, “o eu é constantemente mostrado numa circulação social, envolvido no que Graham frequentemente apelida de ‘conversa racional’ e constantemente moldado pelas suas interações com os outros, com a sociedade e a cultura, e com a história”87. Isso reflete, para Thompson, a influência da Ilustração Escocesa, que enfatiza o conhecimento das sociedades a partir da totalidade e da interrelação de diferentes esferas. Portanto, mais do que uma escrita de si, de caráter burguês e autocentrada, ou a elaboração de uma persona literária, como ocorre com Chateaubriand, a obra de Maria Graham teria levado a literatura de viagem na direção da historiografia e da análise social. Para o autor, ela teria sido a primeira mulher a construir uma carreira baseada no papel de uma escritora de viagem, o que consolidou a sua reputação como viajante até ser reconhecida como autora infantil de um dos mais conhecidos livros de história do século XIX. A viagem permitiu-lhe tratar de temas científicos, políticos e históricos, que, de outra forma, estariam vedados a ela, “como alguém que estava muito longe de ser um ‘amador’, no sentido moderno e depreciativo do termo”88.

Thompson chama a atenção para um aspecto negligenciado do diário de Maria Graham, o seu caráter historiográfico, não apenas na introdução histórica, muitas vezes considerada apenas uma cópia de Southey, mas nos inúmeros documentos utilizados ao longo do diário, como notícias de jornal, cartas, entrevistas, discursos e documentos. Não há dúvida das pretensões intelectuais elevadas da autora e sua capacidade como historiadora, ainda que muitas vezes ela tenha que utilizar a sua autoridade como viajante para divulgar a sua obra “científica” ou “histórica”, usando “gêneros literários menos prestigiosos e de menor autoridade, o que lhe permitiu cruzar suavemente as fronteiras de gênero”89. Ela também incluía aspectos do cotidiano e da experiência vivida, mais esperáveis para a escrita de uma mulher, para construir e legitimar o seu discurso histórico90.

No entanto, podemos pensar também a construção autobiográfica de sua narrativa como parte dessa pretensão erudita de Maria Graham. Ao depreciar os homens luso-brasileiros como ignorantes e incultos, ao desprezar as mulheres locais e as inglesas por sua ignorância e frivolidade e ao não reconhecer qualidades nos homens britânicos além da cupidez e da cobiça, ela recoloca a sua inferioridade como mulher, situando-se em um lugar de autoridade. Sua história pessoal, sua inteligência e erudição, sua capacidade de tecer redes de sociabilidade, suas interações sociais e as impressões pessoais que derivam dessa história pessoal a qualificam para compreender a história do Brasil. Ela constrói a sua narrativa como uma fonte de informações históricas sobre a construção do Brasil, ao mesmo tempo que faz uma interpretação histórica desse acontecimento. Ao construir figuras heroicas como Lorde Cochrane, Maria Leopoldina, com os quais ela manteve uma estreita amizade, e Pedro I, com quem manteve uma respeitosa proximidade até o rompimento final, a viúva desamparada se eleva à condição de uma heroína, que sobrevive em meio à adversidade, mas também a um lugar de autoridade intelectual que a viagem e essas relações lhe propiciam. Por isso, Thompson insiste, corretamente, em ressaltar o caráter intelectual da obra de Graham, assim como de suas narrativas de viagem91.

O autor se esforça por situar o gênero da narrativa de viagem para além de sua dimensão autobiográfica, ou da experiência pessoal, um gênero menor, como costuma ser lido hoje; ele seria um espaço de cruzamento de disciplinas científicas e informações históricas e políticas, inserido nos debates intelectuais dessa época. Lady Callcott não teria sido a única mulher intelectual do século XIX a utilizar a narrativa de viagem como parte de sua carreira intelectual, valendo-se do gênero para se tornar intelectual importante em uma variedade de tópicos e disciplinas. Exemplos incluem Anna Jameson (1794-1860), Harriet Martineau (1802-1876), Louisa Stuart Costello (1799-1870) e Julia Pardoe (1806-1862)92. Isso é verdade não tanto porque, no relato de Graham, o histórico e o político sejam mais importantes do que o biográfico, mas porque, ao tratar de si, de sua experiência pessoal, ela submete o biográfico ao seu projeto intelectual. Jacqueline Labbe recorda que, no mercado editorial e na venda de sua produção literária, as escritoras enfrentam um desafio: “A ideia de propriedade, de algo tangível que pudesse ser vendido, comprado e vendido novamente, ia em contra da ideia de que a identidade feminina não tinha propriedade e que os produtos das mulheres não tinham valor de mercado”. Uma mulher que escreve é suspeita, diz Labbe, de não possuir nem intelecto, nem propriedade93. Assim, uma mulher que escreve deve justificar-se, deve provar, por meio de sua biografia e da sua vivência pessoal, que tem as qualidades necessárias para participar desse mundo da escrita. Para uma escritora, a narrativa da própria vida é um elemento justificatório de sua entrada no mundo das letras, daí a importância da literatura de viagem para a entrada no mercado editorial para muitas mulheres, no qual o seu valor de mercado é a experiência pessoal e a observação do mundo. Podemos dizer que tanto a dimensão historiográfica quanto a dimensão autobiográfica de seu texto são artefatos culturais, como ressaltou Monicat. Mas é verdade, como diz Thompson, que o biográfico em Graham está submetido ao que ele chama de circulação social. Como autora, ela revela o pessoal e o autobiográfico, sempre em relação a um contexto e a relações sociais e intelectuais. Mais do que isso, essa dimensão autobiográfica não tem como função desvelar a interioridade de uma vida íntima da escritora, que ela esconde, ou dar forma a seus sentimentos privados por meio da erudição literária, mas construir um lugar de autoridade para uma autora que, por circunstâncias pessoais que lhe permitem estudar, viajar, ser amiga de heróis, libertadores, imperadores, soldados e patriarcas da Independência, é capaz, apesar de ser mulher, de compreender, conhecer e interpretar o mundo da política e a sociedade sul-americana, utilizando a verdade de sua experiência concreta, a capacidade de seu intelecto e a astúcia de eludir os limites de seu sexo.

Fonte

  • GRAHAM, Maria. Journal of a voyage to Brazil and residence there during part of the years 1821, 1822, 1823. Londres: Longman, Hurst, Ress, Orme, Broen, and Green, and John Murray, 1824.

Bibliografia

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  • 1
    Este artigo é resultado de estágio de pesquisa no exterior, realizado na Universitat de Barcelona, com financiamento da Fapesp (Processo nº 2018/23330-0), a quem agradeço.
  • 4
    “[...] à la différence des récits écrits par des hommes, en relation directe avec le fait de qu’elles sont femmes”. Monicat, 1996, p. 64.
  • 5
    “Perhaps the writer has overrated her powers, in attempting to record the progress of so important an event”. Graham, 1824, p. v.
  • 6
    “As to public events, all that can be new in the Journal is the bringing together facts which have reached Europe one by one, and recording the impression produced on the spot by those occurrences which might be viewed in a very different light elsewhere; Perhaps there is even yet too much of a personal nature, but what is said is at least honest; and if the writer should suffer personally by candour, the suffering will be cheerfully borne”. Graham, 1824, p. iii.
  • 7
    “She trusts that if the whole truth is not to be found in her pages, that there will be nothing but the truth”. Graham, 1824, p. v.
  • 8
    “[...] the traces of discursive struggles over the ‘proper’ place of women”. Mills, 1993, p. 107.
  • 9
    “[...] provided nineteenth-century women with a unique opportunity to experience themselves as historical subjects”. Méndez Ródenas, 2014, p. 83.
  • 10
    Franco, 2008, p. 163.
  • 11
    Leite, 1997, p. 28.
  • 12
    Leite, 1997, p. 28.
  • 13
    Keighren, Withers, Bell, 2015, p. 69. Cf. Méndez Ródenas, 2014, p. 48.
  • 14
    Keighren, Withers, Bell, 2015, p. 150.
  • 15
    “[...] the publication of a travel narrative - perhaps the only foray into print they were to make in their life - conferred upon them, if only for one print run and a couple of reviews, the status of authoritative cultural commentator”. Turner, 2010, p. 52.
  • 16
    Fontes, 2025, p. 5.
  • 17
    Vasconcellos, 1997, p. 41.
  • 18
    “[...] avoiding the use of more masculine and restrictive forms of discourse”. Medeiros, 2019, p. 22.
  • 19
    “[...] are controlled by a complex narrator who appears in different guises and speaks in a multiplicity of voices, according to what appear to be the demands of the text”. Akel, 2007, p. 2.
  • 20
    Silva, 2019, p. 91.
  • 21
    “[...] to display her narrative self than to tell about exotic peoples and places”. Akel, 2007, p. 2.
  • 22
    Vasconcellos, 1997, p. 39.
  • 23
    Pratt, 1999, p. 276.
  • 24
    Fortuna, 2022, p. 257.
  • 25
    “[...] a writer-reviewer complicity in which gender was overlooked in favor of a shared sense of national values”. Barbosa López, 2018, p. 67.
  • 26
    “[...] my opportunities of information were too few; my habits as a woman and a foreigner never led me into situations where I could acquire the necessary knowledge; [...] to mark the course of events, and in as far as they are linked with each other, the causes of those effects which took place under my own eyes”. Graham, 1824, p. 59-60.
  • 27
    “[...] to young untravelled eyes, and such were those of most of the party” (Graham, 1824, p. 124).
  • 28
    É preciso lembrar que Graham publicou cinco livros de história: Memoir of the Life of Nicolas Poussin(1820), A Short History of Spain(1828), Little Arthur’s History of England(1835), The Little Bracken-Burners. A Tale; and Little Mary’s Four Saturdays(1841), além de ter traduzido do francês Memoirs of the war of the French in Spain, de Albert Jean Rocca (1816). A sua obra de historiadora ainda espera uma leitura crítica. Sobre as relações entre história e ficção no diário de viagem ao Brasil cf. Neves, 2021.
  • 29
    “Her narrative transcends ‘mere’ travel literature to become a witness to the making of history”. Manthorne, 2020, p. 151.
  • 30
    Graham, 1824, p. 50.
  • 31
    “[...] desire for freedom, to every thing, in short, most contrary to the ancient system of continental Europe”. Graham, 1824, p. 66.
  • 32
    “[...] that nothing in our power should be considered too little, or too great, that can tend to abolish or to alleviate slavery”. Graham, 1824, p. 105.
  • 33
    “[...] smart little man, speaking tolerable French” (Graham, 1824, p. 117-120).
  • 34
    Jordan, 2022, p. 267-268.
  • 35
    “[...] gave us leisure to remark the beauties of a Brazilian spring. Gay plants, with birds still gayer hovering over them, sweet smelling flowers, and ripe oranges and citrons, formed a beautiful fore-ground to the very fine forest-trees that cover the plains, and clothe the sides of the low hills in the neighbourhood of Pernambuco”. Graham, 1824, p. 116.
  • 36
    “Turning the menace of the guard’s blunderbuss into an opportunity to savour the region’s botanical splendour, Graham performs in this passage her penchant for turning moments of danger into picturesque tableaux”. Jordan, 2022, p. 269.
  • 37
    Jordan, 2022, p. 270.
  • 38
    É verdade que a viagem pitoresca não é exclusivamente feminina, como provam a Voyage pittoresque et historique au Brésil (1831-1834), de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), ou diversas obras de Alexander von Humboldt (1769-1859), como Ansichten der Natur (1808) e Vue des Cordillères et monuments des peuples indigènes de l’Amérique (1810). No entanto, o que argumenta Medeiros é que, além dos aspectos privados, pessoais e domésticos, há a possibilidade de as viajantes abrirem o escopo de suas narrativas em descrições pitorescas da paisagem, da sociedade e mesmo uma curiosidade amadora pela botânica, enquanto o pitoresco nas narrativas masculinas inclui a análise política, no caso de Debret, ou a ciência “séria”, no caso de Humboldt. Maria Graham utiliza o pitoresco e a botânica para inserir suas interpretações políticas e sua análise histórica, aproximando-se, assim, das narrativas de viagem masculinas, permitindo-se até mesmo criticar uma autoridade científica como Humboldt.
  • 39
    “[...] disclosed her scientific interests and contributions, thus crossing boundaries into genres that had strong gender restrictions”. Medeiros, 2012, p. 280; Cf. Lacoue-Labarthe, 2011.
  • 40
    “[...] for the most part, are disgustingly dirty; As they wear neither stay nor bodice, the figure becomes almost indecently slovenly, after very early youth; and this is the more disgusting as they are very thinly clad, wear no neck-handkerchiefs, and scarcely any sleeves. Then, in this hot climate, it is unpleasant to see dark cottons and stuffs, without any white linen, near the skin. Hair black, ill combed, and dishevelled, or knotted unbecomingly, or still worse, en papillote, and the whole person having an unwashed appearance”. Graham, 1824, p. 135-136.
  • 41
    “[...] have all a mean look; none appear to have any education beyond counting-house forms, and their whole time is, I believe, spent between trade and gambling: in the latter, the ladies partake largely after they are married”. Graham, 1824, p. 142.
  • 42
    “[...] seemed determined to forget the stage altogether, and to laugh, eat sweetmeats, and drink coffee, as if at home”. Graham, 1824, p. 140.
  • 43
    “[...] belittling them for their lack of beauty in some cases, for their poor intellectual capacities in others, or for what she believes is sexual deprivation for some, and sexual excesses in other”. Akel, 2007, p. 5.
  • 44
    Graham, 1824, p. 140.
  • 45
    “[...] most are disciples of Voltaire, and they outgo his doctrines on politics, and equal his indecency as to religion; hence to sober people who have seen through the European revolutions, their discourses are sometimes disgusting”. Graham, 1824, p. 147.
  • 46
    “[...] men resolute in their purpose, and determined to guard their rights and their homes”. Graham, 1824, p. 184.
  • 47
    “Anchieta, while he taught Latin to the Portuguese and Mamalucos, and Portuguese to the Brazilians, learnt from these last their own tongue, and composed a grammar and dictionary for them”. Graham, 1824, p. 14.
  • 48
    “Therefore, while the court continued to reside at Rio de Janeiro, the Brazilians had no inducement to break with the mother country”. Graham, 1824, p. v.
  • 49
    “About two miles from Do Rego’s last outpost, we carne to the first post of the patriotsl!”. Graham, 1824, p. 115.
  • 50
    “Besides the disposition to revolution, which we were aware had long existed in every part of Brazil, there was, also, a jealousy between the Portuguese and Brazilians”. Graham, 1824, p. 97.
  • 51
    Sobre a forma como Maria Graham identifica os brasileiros em oposição aos portugueses e suas visões da independência do Brasil, cf. Silva, 2015, p. 81-82; Porto, 2017, p. 96 e ss; e Porto, 2020. Meu objetivo neste artigo não é tratar da independência do Brasil a partir do diário de Maria Graham, mas como ela utiliza subterfúgios narrativos para tratar de um tema desaconselhado às mulheres, como a política, no contexto dessa independência.
  • 52
    “[...] the love as well the admiration of their fortunate subjects”. Graham, 1824, p. 219.
  • 53
    “[...] by her consistent depiction of the slaves as ‘whole’ or ‘absolute subjects’, consequently lacking historical agency”. Méndez Ródenas, 2014, p. 155.
  • 54
    Caballero, 2005, p. 113; 117.
  • 55
    “[...] what can I say? They are very like all one sees at home, in their rank of life; and the ladies, very good persons doubtless, would require Miss Austin’s [sic] pen to make them interesting. However, as they appear to make no pretensions to any thing but what they are, to me they are good-humoured, hospitable, and therefore pleasing” (Graham, 1824, p. 166-167).
  • 56
    Matheus, 2019, p. 355.
  • 57
    Caballero, 2005, p. 112.
  • 58
    Keighren, Withers, Bell, 2015, p. 72. Barbosa López, 2018, p. 69-70.
  • 59
    “[...] from spectator to heroine”. Akel, 2007, p. 131. Cf. p. 138.
  • 60
    “There is not much formal visiting among the English, but a good deal of quiet tea-drinking, and now and then parties formed to dine out of doors in the cool weather. In short, my countrywomen here are a discreet sober set of persons, with not more than a reasonable share of good or bad”. Graham, 1824, p. 257-258.
  • 61
    “This was perfectly true; I like, when I am in foreign society, to talk to foreigners; and think it neither wise nor civil to form coteries with those of one’s own nation in such cases” (Graham, 1824, p. 272).
  • 62
    “[...] a sort of textual immunity. After all, she could not be suspected of partaking of the same vices and defects she detected and condemned in others”. Akel, 2007, p. 156.
  • 63
    “[...] the spirit of patriotism had not confined itself to the men”. Graham, 1824, p. 215.
  • 64
    “What would the Gordons and Mac Donalds say to this? The “garb of old Gaul”, chosen as a womanish attire!”. Graham, 1824, p. 292.
  • 65
    “Her understanding is quick, and her perceptions keen. I think, with education she might have been a remarkable person”. Graham, 1824, p. 292-294.
  • 66
    “[...] a kindness and attention to a Woman and a stranger that I was hardly prepared for”. Graham, 1824, p. 301.
  • 67
    “She spoke to me most kindly; and said, in a very flattering way, that she had long known me by name, and several other things that persons in her rank can make so agreeable by voice and manner; and I left her with the most agreeable impressions”. Graham, 1824, p. 249.
  • 68
    “I should not have done, being quite alone, had not the gracious manner in which their Imperial Majesties saluted me, both in the chapel and afterwards in the corridor leading to the royal apartments, induced me to proceed; I am sometimes absent; and now, when I ought to have been most attentive, I felt myself in the situation Sancho Pança so humorously describes, of sending my wits wool-gathering, and coming home shorn myself; [...] that when I found the Emperor in the middle of the room, and that his hand was extended towards me, and that all others had paid their compliments and passed to their places, I forgot I had my glove on, took his Imperial hand with that glove, and I suppose kissed it much in earnest, for I saw some of the Ladies smile before I remembered any thing about it”. Graham, 1824, p. 308.
  • 69
    As narrativas de Graham são repletas de citações literárias, de poetas românticos, sobretudo Byron, Shakespeare, obras de história, filosofia, versículos bíblicos etc. Cf. Akel, 2007, p. 164, Turner, 2010, p. 54 e Thompson, 207, p. 194-195. Segundo Márcia Santos essas citações literárias servem para ilustrar seus sentimentos e emoções. 2014, p. 56.
  • 70
    Graham, 1824, pp. 319-320.
  • 71
    “Witness to the birth of a new nation, she intertwines her own story with that of its emerging independence”. Manthorne, 2020, p. 154.
  • 72
    Gonçalves, 2007, p. 117.
  • 73
    Gonçalves, 2007, p. 119.
  • 74
    “[...] she is more astute and more involved politically than many male writers of her time”. Hayward; Caballero, 2010, posição 370.
  • 75
    Gomes, 2004, p. 13-14.
  • 76
    Pratt, 1999, p. 275.
  • 77
    Pratt, 1999, p. 289.
  • 78
    “[...] I cannot interest myself in the little things of other people’s lives as I used to do; I require the strong stimulus of public interest to rouse my attention. It is long since I have been able to go out among the beautiful scenery here, to enjoy the charms of nature”. Graham, 1824, p. 257.
  • 79
    “[...] because neither my sex nor situation permitted me to inform myself more especially concerning the political events in a country where the periodical publications are few, recent, and though by law free, yet, in fact, owing to the circumstances of the times, imperfect, timorous, and uncertain”. Graham, 1824, p. 76.
  • 80
    Medeiros, 2019, p. 43.
  • 81
    “[...] they are the only forms which are loose enough to contain their unstructured narratives”. Mills, 1993, p. 104.
  • 82
    “[...] are autobiographical, and that they are straightforward transcriptions of the lives of the women travellers”. Mills, 1993, p. 36.
  • 83
    “[...] autobiographies cannot be but textual artefacts”. Monicat, 1994, p. 62.
  • 84
    “[...] they are not factual history about a particular time, person, or event. Rather they offer subjective ‘truth’ rather than ‘facts’”. Smith; Watson, 2001, p. 12.
  • 85
    Gomes, 2004, p. 16.
  • 86
    “[...] a strong commitment to travel writing’s traditional function as an important ‘knowledge genre’”. Thompson, 2017, p. 186.
  • 87
    “[...] self is constantly shown in a social circulation, engaged in what Graham frequently dubs ‘rational conversation’ and constantly shaped by its interactions with others, with society and culture, and with history”. Thompson, 2017, p. 198-199, destaque meu.
  • 88
    “[...] as someone who was very far from being an “amateur”, in the modern, derogatory sense of term”. Thompson, 2016, p. 8.
  • 89
    “[...] less prestigious and authoritative literary genres, which allowed her to smoothly cross gender boundaries”. Medeiros, 2019, p. 39.
  • 90
    Fontes, 2025, p. 106.
  • 91
    Thompson, 2016, p. 15.
  • 92
    Thompson, 2016, p. 14.
  • 93
    “The idea of property, of something tangible that could be sold, bought, and sold again, fought with the idea that female identity was property-less, and that the products of women lacked market value” (Labbe, 2015, p. 166-167).
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    02 Maio 2025
  • Aceito
    03 Set 2025
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