Open-access COMENTÁRIO CRÍTICO - “A GUERRA DA CISPLATINA, 200 ANOS DEPOIS”, POR ANA FREGA, GABRIEL DI MEGLIO E FABRÍCIO PRADO

CRITICAL REVIEW - “THE CISPLATINE WAR, 200 YEARS LATER,” BY ANA FREGA, GABRIEL DI MEGLIO, AND FABRICIO PRADO

Resumo

Este artigo realiza, sob o formato de um “parecer aberto”, uma avaliação crítica das contribuições de Ana Frega, Gabriel Di Meglio e Fabrício Prado ao Fórum “A Guerra da Cisplatina, 200 anos depois”, destacando as particularidades de cada uma e suas intersecções.

Palavras-chave:
Primeiro Reinado; Guerra Cisplatina; Província Cisplatina

Abstract

This article presents, in the format of an “open review,” a critical assessment of the contributions by Ana Frega, Gabriel Di Meglio, and Fabrício Prado to the Forum “The Cisplatine War, 200 Years Later,” highlighting the particularities of each and their intersections.

Key-words:
Brazilian Empire; Cisplatine War; Cisplatine Province

Convidados a participar do Fórum Almanack “A Guerra da Cisplatina, 200 anos depois: problemas históricos e historiográficos”, realizado em 8 de maio de 2025, Ana Frega, Gabriel Di Meglio e Fabrício Prado apresentaram e debateram questões que, tempos depois, resultaram nos três artigos ora publicados pelo mesmo periódico. Nas duas ocasiões complementares, caminharam por três rotas bastante diferentes e que, curiosamente, apenas se cruzaram em breves e pontuais passagens. O que tais artigos, individualmente e em conjunto, nos mostram sobre a fortuna histórica e historiográfica da guerra?

Neste breve comentário, como um parecer aberto dos três artigos, insistiremos no fato de que, em suas diferenças, convergências e eventuais interdições de diálogo recíproco, todos eles compõem um valioso repositório acadêmico para avaliações acerca do presente historiográfico do tema que lhes é comum, bem como para projeções acerca do futuro que tal tema pode conhecer.

O artigo de Frega investe na caracterização profunda, detalhada e amplamente baseada em fontes (menos enfaticamente, também em bibliografia), de um problema subjacente à guerra de 1825-1828 em todos os seus quadrantes, que implicou diretamente em sua configuração, desenvolvimento e desfecho: as ideias e ações em torno do conceito de soberania. Conceito largamente encontrado em todo o mundo ibero-americano das primeiras décadas do século XIX, portador de características próprias no espaço rioplatense - o qual, diríamos, à época, englobava também, de muitas maneiras, o Brasil - em ricas e conflitivas dinâmicas, soberania se posicionava na fronteira entre velhas e novas morfologias e semânticas de uma grande quantidade de vocábulos políticos que, nas últimas duas décadas, tiveram sua história amplamente esquadrinhada pelos pesquisadores do Proyecto Iberconceptos, coordenado por Javier Fernández Sebastián, e do qual Frega (assim como Di Meglio) foi uma ativa colaboradora. Nesta mais recente contribuição ao tema, Frega nos traz uma sólida articulação entre níveis mais e menos diretamente linguísticos da realidade rioplatense, de modo a concluir que, nela, soberania performava e interagia com tendências gerais que tornavam a antiga Banda Oriental (em suas múltiplas designações e fases de existência) um espaço profundamente interconectado em relações de reciprocidade com o antigo Vice Reino do Rio da Prata e com a América Portuguesa (a partir de 1822, Império do Brasil).

A leitura de tal artigo deverá provocar estímulos dos mais diversos. Um deles pode ser o de pensar qual o papel de uma guerra na mobilização, transformação e até eventual criação de um conceito, tal como o de soberania, vocacionado a estabelecer limites e possibilidades para o próprio enfrentamento armado e seus múltiplos significados sociais. Nesse ponto, a história ibero-americana do século XIX se mostra prenhe de exemplos não apenas úteis à reflexão, mas também de realidades criadoras e pioneiras, não raro, ignoradas ou menosprezadas pelas historiografias, as quais, observando guerras na Europa e nos Estados Unidos, ofereceram toneladas de contribuições que, voltadas a um século tão globalizante como o XIX, muitas vezes acabam por se revelar excessivamente paroquiais.

Invertendo a ênfase de Frega nos materiais utilizados, focando em ampla e atualizada bibliografia e apenas pontualmente - mas por meio de intervenções precisas - em fontes documentais, Di Meglio amplia a observação dessas interconexões recíprocas para traçar uma síntese analítica adornada com hipóteses de trabalho, de uma ampla unidade histórica, que, ao envolver os futuros Estados nacionais de Argentina, Uruguai e Brasil, demanda da análise histórica menos a velha - e de nossa parte diríamos, epistemologicamente superada - insistência na suposta “excepcionalidade brasileira” oitocentista, e mais uma bem fundamentada caracterização das convergências, das intersecções e dos denominadores comuns aos três. Di Meglio identifica e desenvolve preliminarmente sete deles (em nossa leitura, os vemos melhor como sendo oito), todos agrupados ao redor da Guerra da Cisplatina: 1) o fato de que, nela, se enfrentaram duas sociedades escravistas; 2) as grandes e parecidas dificuldades que as duas partes contendedoras enfrentaram para levar a guerra adiante; 3) as dificuldades especificamente econômicas do conflito em si e por ele provocadas ou aprofundadas; 4) as tensões, disputas e oscilações políticas organizadas em torno do binômio analítico (que à época conheceu mais variações no plano conceitual) entre centralismo e federalismo, o que jamais se limitou ao espaço formal do antigo Vice-Reino do Rio da Prata; 5) o fato de que, tanto no Brasil quanto na efêmera “República Argentina”, uma política majoritariamente ditada por grupos que poderiam ser chamados de “elites” teve que lidar, antes, durante e após a guerra, com amplas mobilizações de setores “populares”; 6) uma linguagem política amplamente compartilhada, expressa em formas e conteúdos muitas vezes comuns e recíprocos a toda a área rioplatense (novamente, o Brasil nela incluído); 7) a animosidade ativa, durante a guerra, entre ex-colônias americanas e suas respectivas ex-metrópoles ibéricas, expressa inclusive no plano das identidades políticas; 8) finalmente, a importância da presença e da atuação, na região, do Reino Unido da Grã-Bretanha, cujo gabinete, como bem sabemos, se encarregou de mediar as negociações que deram fim à guerra.

Amplamente convincente e cheia de implicações analíticas, a síntese de Di Meglio deveria servir de estímulo definitivo para que historiadores da Argentina, do Brasil e do Uruguai, bem como de outros países igualmente dedicados à história rioplatense do século XIX, abandonem suas ainda resistentes trincheiras nacionais, em busca de uma história mais ampla e verdadeira que só pode se beneficiar da correspondente ampliação historiográfica de tradições e inovações, que, a despeito de suas particularidades, continuam a apresentar profícuas e inescapáveis convergências. Nesse ponto, o argentino Di Meglio nos dá um belo exemplo: maneja as historiografias brasileira e uruguaia como se as conhecesse desde sempre.

Dos três artigos, o de Fabrício Prado é o único dedicado diretamente à historiografia, em especial ao que o autor chama de contribuições recentes, isto é, das duas últimas décadas. É, também, o mais ligeiro, e o que mais separadamente caminha. Mencionando apenas oito autores (inclusive Di Meglio) na bibliografia, mais dois que constam só do corpo do texto (González Demuro e Sartoretto), destaca contribuições, sem dúvida, altamente relevantes para a historiografia da Guerra da Cisplatina em alguns de seus quadrantes - mobilização de forças, identidades, imprensa -, mas que estão distantes de integrarem um quadro mais satisfatoriamente verdadeiro de uma historiografia que - neste ponto estamos de acordo com Prado - encontra-se em processo de renovação. E de uma historiografia que é muito mais numerosa e plural do que a aqui abordada. Uma segunda parte do artigo é dedicada a esboçar uma discussão em torno do impacto da guerra no estremecimento, por vezes ruptura, da antiga atividade comercial colonial (com base nos trabalhos do próprio Prado). Finalmente, uma terceira parte aponta para um velho, porém não esgotado tema: o das relações entre a guerra e Revolução Farroupilha (1835-1845), com base na obra de Spencer Leitman. Texto mais ensaístico do que os outros dois, a contribuição de Prado ao debate é sugestiva, na medida em que “abre” o tema da guerra não apenas em termos de possibilidades futuras, mas de já auspiciosas realizações concretas. Por que, no entanto, o balanço da historiografia “renovadora” de Prado ignora tantas obras que, decerto, deveriam ser devidamente consideradas até mesmo em aporte ensaístico apenas preliminar? Quanto a esse ponto, basta apontar que Prado ignora quase que integralmente as próprias historiografias aqui mobilizadas por Frega e Di Meglio. E na contramão, haverá algum significado na constatação de que a historiografia valorizada por Prado não foi trabalhada nas contribuições de seus dois colegas?

Não se trata, nestes comentários críticos, de isolar o texto de Prado em relação aos de Frega e Di Meglio. Prova disso é que, quanto a estes dois, também valeria nos perguntar se Frega poderia ter melhor explorado, à sua própria maneira, alguns dos sete (ou oito) pontos de Di Meglio, todos eles indubitavelmente associados à história do conceito de soberania. Poderíamos nos perguntar, também, por que Di Meglio tratou o ponto seis supra, relativo a linguagens e conceitos políticos, de modo tão limitado e tímido, a despeito de trabalhos anteriores como os da própria Frega acerca do tópico e da própria participação de Di Meglio no Proyecto Iberconceptos?

Nesse ponto, o autor destes comentários começa a se aproximar da impertinente posição de cobrar de autores interesses e objetivos que não foram os seus, os quais muito provavelmente Frega, Di Meglio e Prado poderiam aceitar como sugestões de desenvolvimentos futuros, de subsídios a outros trabalhos que não os aqui publicados. Não há, portanto, motivos para sustentarmos tal posição - ao menos não razões equivalentes às que nos levaram a destacar a positividade desses três textos. Embora dialoguem pouco entre si, cada um a seu modo, e principalmente quando sobrepostos e lidos em conjunto, oferece contribuições valiosas a um tema e a uma historiografia que deverão, por um bom tempo, suscitar interpretações particularmente fecundas ao estudo da história em geral. Isso porque por meio deles é possível conhecer, em um objeto específico, marcas de temas mais gerais, permitindo o estabelecimento de níveis de análise que fazem da Guerra da Cisplatina um manancial de realidades históricas as mais diversas.

  • Disponibilidade de dados
    Os dados e demais informações obtidas para o presente estudo estão no próprio texto.

Editado por

  • Editoras responsáveis Mariana Albuquerque Dantas - Melina Kleinert Perussatto

Disponibilidade de dados

Os dados e demais informações obtidas para o presente estudo estão no próprio texto.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    05 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Fev 2025
  • Aceito
    09 Mar 2026
location_on
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP Estrada do Caminho Velho, 333 - Jardim Nova Cidade , CEP. 07252-312 - Guarulhos - SP - Brazil
E-mail: revista.almanack@gmail.com
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error