Open-access A apostasia do gosto em A cidade e as serras

The Apostasy of Taste in The City and the Mountains

Resumo

A reavaliação gustativa verificada no protagonista de A cidade e as serras revela, por meio da metonímia, a multiplicidade do gosto, marca da modernidade no romance de Eça de Queirós, em desfavor da tese com que foi lido pela crítica do passado.

Palavras-chave:
Estudos queirosianos; estética literária; sensibilidade

Abstract

The protagonist’s gustatory re-evaluation in The city and the mountains illustrates, through metonymy, the multiplicity of taste-an essential feature of modernity in Eça de Queirós’s novel. This perspective challenges the traditional critical interpretations that previously shaped its reception.

Keywords:
Queirosian Studies; Literary Aesthetics; Sensibility

Résumé

Le protagoniste du roman La ville et les montagnes illustre, par métonymie, la multiplicité du goût, caractéristique essentielle de la modernité dans le roman d’Eça de Queirós. Cette perspective remet en question les interprétations critiques traditionnelles qui ont façonné sa réception.

Mots-clés:
Etudes queirosiennes; esthétique littéraire; sensibilité

“Que desconsolo! Jacinto, em Paris,

sempre abominara favas!...”

Eça de Queirós

Dis-moi ce que tu manges:

je te dirai ce que tu es.”

Brilllat-Savarin

O sentido do gosto, que metafórica e metonimicamente deu o nome ao conceito abstrato e intelectual do juízo estético, é um aferidor do espírito crítico do homem. Pelo paladar ele escolhe, seleciona, isto é, critica os sabores que mais lhe agradam e desagradam, sem que nessa seleção possa encontrar causas que a justifiquem,1 retirando, contudo, daí consequências, as que enformam o seu ser a partir daquilo que ingere: diz-me o que comes, dir-te-ei quem és. Aforismo paródico de um provérbio conhecido, a expressão cuja autoria se atribui a Brillat-Savarin (1826, I, p. viii) - “Dis-moi ce que tu manges, je te dirai ce que tu es” - e que Eça de Queirós (2000, p. 236) cita, traduzindo à letra - “Diz-me o que comes, dir-te-ei o que és” - dá bem conta da importância conferida, por esses autores, ao gosto na constituição não apenas fisiológica, mas também moral, cultural, antropológica, e mesmo ontológica, do ser humano.

Cultivado nas mais vastas leituras dignas de enciclopédia e sinceramente interessado no valor da gastronomia, Eça de Queirós leu com certeza o livro que imortalizara o nome do multifacetado gastrônomo francês, sucesso que foi desde logo testemunhado pela fortuna editorial que Physiologie du Goût mereceu. Editada em 1825, dois meses antes de o seu autor morrer,2 a Physiologie du Goût, ou Méditations de Gastronomie Transcendante; Ouvrage Théorique, Historique et à l’Ordre du Jour, Dédié aux Gastronomes Parisiens, par un Professeur, Membre de Plusieurs Sociétés Littéraires et Savantes constitui-se num gênero polimórfico, entre a antologia aforística, o memorial autobiográfico, o receituário, e o tratado fisiológico, mas também entre a análise sociológica, o ensaio filosófico, e o manual de bons modos. À obra também não ficam alheios os dotes literários, que o próprio autor da Comédie Humaine reconheceu.3 Por seu turno, Eça não só impregnou vivamente a sua obra ficcional dos prazeres gastronômicos como dedicou ensaios ao tema, o que faz dele um incontestável figurino dessa história gastronômica, sobre a qual discorreram ambos, o gastrônomo francês e o escritor português.4

Ora, nenhuma obra serve de melhor exemplo à “faceta anímica que transparece constantemente através do seu estilo”, a essa “sensibilidade sensorial, que atinge o voluptuoso” (Cal, 1981, p. 82), do que o romance A cidade e as serras, todo ele governado pela inspiração da décima Musa catalogada por Brillat-Savarin (1826, I, p. 343) com o nome de Gasterea - Gastérea ou Gastereia -, o que se observa desde logo nos sápidos augúrios com que é descrito o berço afortunado de Jacinto:

Pois um rio de Verão, manso, translúcido, harmoniosamente estendido sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas aldeias, não ofereceria àquele que o descesse num barco de cedro, bem toldado e bem almofadado, com frutas e champanhe a refrescar em gelo, um anjo governando ao leme, outros anjos puxando à sirga, mais segurança e doçura do que a Vida oferecia ao meu amigo Jacinto (Queirós, 2008, p. 16).

O nascimento do protagonista entra, assim, em contraponto quiasmático com a morte de seu avô, responsável pelo repatriamento da família portuguesa à França, em cuja capital gozou uma “vida de pachorra e de boa mesa” que o humor queirosiano fez pagar com a morte por indigestão “de uma lampreia de escabeche que lhe mandara o seu procurador em Montemor” (Queirós, 2008, p. 13).5 Desde este seu começo ao happy ending serrano, o romance editado postumamente em 1901 - que resultou da reescrita de um conto publicado em 1892, sob o título Civilização (Queirós, 1998) - apresenta um paradigma sinestésico que se manifesta de forma proeminente. Por sua vez, os momentos das refeições assumem uma função preponderante em A cidade e as serras, o que assaz se verifica no conjunto da obra queirosiana, em que “a acção dos romances sofre constantes paragens gastronómicas, em que alternam, como em banquete platónico, os manjares concretos e os - possíveis - do espírito” (Rocha, 1981, p. 22). O encontro entre a arte da mesa e a arte do discurso é, com efeito, antigo, e Brillat-Savarin (1826, I, p. 334) chega mesmo a avançar com a tese de que

C’est pendant le repas que durent naître ou se perfectionner les langues, soit parce que c’était une occasion de rassemblement toujours renaissante, soit parce que le loisir qui accompagne et suit le repas, dispose naturellement à la confiance et à la loquacité.

A linguagem, que desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento do intelecto humano, aliar-se-ia, assim, ao sentido ligado à necessidade mais básica do homem. Do mais elementar do ser (a faculdade nutritiva) ao aspecto mais distinto do ser humano (a faculdade intelectual), o gosto atravessa a vida do homem e funde-se mesmo nela. A metafísica releva então da fisiologia, como explica Luís Adriano Carlos (2004, p. 26), em seu ensaio Fisiologia do gosto literário:

Visto que o sabor extrai a sensação directa das coisas tangíveis na sua realidade viva, o gosto é a medida do Ser, uma fisiologia ontológica em que ser é comer, como no verbo latino esse, que agrega as duas significações. [...] a língua é o órgão superior do conhecimento, assessorado pelo aparelho fisiológico da digestão e da excreção, que dirige as suas operações gnosiológicas para a revelação de uma alma gástrica, a mais radical interioridade do Ser.

A primazia do gosto entende-se, deste modo, através de uma questão que já Aristóteles havia notado, a saber, a profunda intimidade deste sentido com outros sentidos, nomeadamente o tato, o olfato e, de forma indireta, a visão.6 Com efeito, o gosto é o sentido sinestésico por excelência, ao convocar a participação determinante dos outros sentidos na degustação. O ato de comer implica, por outro lado, todo o percurso que culmina na escatologia: comer é destruir matéria, desde logo pelos dentes e saliva. Comer é dissolver, e todo aquele que devora expele. O alimento, fonte do gosto, passa assim por uma série de transmutações, de variações de estados, de metamorfoses, e geralmente na ordem inversa à da alquimia. E o corpo é o lugar onde se passa todo esse processo.

Na literatura, o corpo é o texto. Ora, como Beatriz Berrini (1995, p. 21) bem observa, o que “parece constituir a especificidade dos excertos culinários queirosianos, é a expressão do sabor dos alimentos, é a autêntica degustação que o leitor colhe das suas palavras”. Na verdade, além das estratégias ou dos recursos para o efeito apontados - “a manifestação da personagem diante dos pratos ou dos vinhos servidos”, “a valorização do ambiente”, a “adjetivação” sacralizante dos pratos e das bebidas, as “comparações”, as “metáforas”, as “hipérboles” e a “ironia” (Berrini, 1995, p. 22) -, há uma característica preponderante na prosa queirosiana enquanto gastronomizadora da língua que deve ser realçada: a dimensão icônica do signo verbal.7 É na iconicidade da linguagem que Eça de Queirós atinge de modo acurado esse impressionismo vivo da gastronomia que o leitor autenticamente saboreia por via da imaginação e da memória.8 Exemplo dessa face icônica assumida pelo signo linguístico em A cidade e as serras são “as Rojões” (Queirós, 2008, p. 203, 213-214, 223), que nos surgem adiposas, coradas e reluzentes de gordura, por meio dessa semantização do material fônico e gráfico. Semiótica e retórica combinam-se, assim, num sugestivo jogo de efeitos do palato, extensivos a toda a linguagem queirosiana.9

Na leitura que faz da obra de Brillat-Savarin, Roland Barthes (2010, p. 9-10) compara a degustação aos sistemas da linguagem ou da narrativa - e com pertinência, pois ambos convocam ao mesmo tempo uma diacronia e uma sincronia, uma sintagmática e uma paradigmática. Todavia é necessário visar aí uma diferença: ao degustar, o homem é simultaneamente sujeito e objeto dessa rede sistêmica. Se a boca ou, antes dela, o nariz espreita a recepção do alimento, é no juízo crítico - ou faculdade de juízo reflexiva, nos termos preconizados por Kant10 - que defrontamos a conclusão do ato degustativo. O autor de Physiologie du Goût discrimina a sensação do gosto em três etapas analogamente denominadas sensações:

la sensation directe, la sensation complète et la sensation réfléchie.

La sensation directe est ce premier aperçu qui naît du travail immédiat des organes de la bouche, pendant que le corps appréciable se trouve encore sur la langue antérieure.

La sensation complète est celle qui se compose de ce premier aperçu, et de l’impression qui naît, quand l’aliment abandonne cette première position, passe dans l’arrière-bouche, et frappe tout l’organe par son goût et par son parfum.

La sensation réfléchie est le jugement que porte l’âme sur les impressions qui lui sont transmises par l’organe.

Mettons ce système en action, en voyant ce qui se passe dans l’homme qui mange ou qui boit (Brillat-Savarin, 1826, I, p. 77, grifos da autora).

Que Jacinto entre, pois, em ação!

Após uma viagem obrigada pelos deveres familiares que conduzem o protagonista de Paris a Tormes sem malas, sem livros, sem criado, enfim, sem a civilização a que se habituara, o neto de D. Galeão aguarda o jantar no decrépito lar dos seus antepassados:

Jacinto ocupou a sede ancestral - e durante momentos (de esgazeada ansiedade para o caseiro excelente) esfregou energicamente, com a ponta da toalha, o garfo negro, a fusca colher de estanho. Depois, desconfiado, provou o caldo, que era de galinha e rescendia. Provou - e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, com espanto: - Está bom!

Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.

- Também lá volto! - exclamava Jacinto com uma convicção imensa. - É que estou com uma fome… Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.

Foi ele que rapou avaramente a sopeira (Queirós, 2008, p. 147).

Estava então encaminhado o momento prandial, cumprindo-se mesmo o conselho de Brillat-Savarin (1826, I, p. 113) que dita que, após períodos demasiado prolongados sem ingerir alimento e em que o apetite quase se esvai de esperar tanto, se deve começar por um caldo, de forma a preparar o estômago para a refeição. Nem a fome, nem a sensação completa, nem a sensação refletida, para usar os termos do gastrônomo francês, nos espantam. Só Jacinto se espanta, apreensivo como está no novo ambiente em que se encontra. Porém, é esse contexto rural que lhe permite cometer o ato que, esse sim, nos surpreende, pois Jacinto, em Paris, não raparia:

Foi ele que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!... Tentou todavia uma garfada tímida - e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado:

- Óptimo!... Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres palreiras que em baixo remexiam as panelas, o Melchior que presidia ao bródio...

- Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo! (Queirós, 2008, p. 147-148).

Jacinto é dominado pela histeria. A reiterada confirmação da apreciação positiva do arroz de favas culmina com um advérbio de negação que coroa a glória do prato. Nem em Paris… A metrópole francesa, o centro do mundo europeu à época, fora também o seio materno do protagonista, tal como o seria agora Portugal, esta nova pátria alegoricamente figurada na mulher que o vem alimentar, a “formidável moça, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das ramagens do lenço cruzado, ainda suada e esbraseada do calor da lareira” (Queirós, 2008, p. 147).

A mulher parisiense de Jacinto - cujo modelo se descobre na sensual Madame d’Oriol - não remexe panelas, não alimenta, antes deixa saborear-se. Já Brillat-Savarin (1826, I, p. 334-337) distinguia o plaisir de la table do plaisir de manger. O primeiro encerra-se no ritual, no puro gosto pelo gosto, enquanto o segundo nasce da necessidade, seja ela a fome, seja o apetite. Isto é, o segundo tem uma função, enquanto o primeiro se exerce por puro deleite, com a sensibilidade que ultrapassa a própria mecânica da natureza. É na adequação a essa mecânica, porém, que Jacinto vai encontrar a verdade do mundo rural, que o sossega.11 O exercício do gosto numa sociedade propensa à constante volúpia entrega-se necessariamente a uma busca permanente do exótico, especioso ou sutil. Ao assentar verdades - como já o fizera, por exemplo, com os pessimistas -, Jacinto encontrava os momentos raros de saciedade do gosto crítico em que podia suspender por momentos a sua congênita insatisfação. O problema, detectado pelo narrador, o seu amigo Zé Fernandes, é diagnosticado pelo seu empregado preto chamado Grilo: “Sua Excelência sofre de fartura” (Queirós, 2008, p. 84). A variedade compromete o juízo crítico com a eterna tarefa da comparação, que é um dos critérios para o crítico modelar.12

Mas voltemos ao arroz de favas e à noite dos dois companheiros recém-chegados às serras:

- [...] Tu sempre vais amanhã?

- Com certeza, Zé Fernandes! Com a certeza de Descartes. ‘Penso, logo fujo!’ Como queres tu, neste pardieiro, sem uma cama, sem uma poltrona, sem um livro?... Nem só de arroz com fava vive o Homem! (Queirós, 2008, p. 151).

De novo o advérbio de negação, mas dessa vez a personagem, já de estômago cheio, pensa para além dele, e a expressão com que se refere ao prato resulta mesmo depreciativa - arroz com fava -, ao reduzi-lo aos seus alimentos essenciais, expressos no singular, e com uma preposição de adição acumulativa subtraindo, assim, o que há de mais especial num manjar, o segredo culinário. O Homem com h maiúsculo, essa humanidade civilizada a que Jacinto pertence e que representa, é dessa vez relegado para as suas inúmeras facetas, e a gastronômica é uma dentre outras, porquanto o arroz com fava vem desde logo em contraponto com o livro: da faculdade mais básica, a nutritiva, à mais complexa, a faculdade intelectual. Mas, sobretudo, o que ressalta da frase de Jacinto - “Nem só de arroz com fava vive o Homem!” - é a conotação do prato com o puro prazer, derivado da faculdade sensitiva do paladar.

Que Jacinto se convertera ao arroz de favas já não estranhamos, mas é necessário sublinhar a própria conversão sofrida pelo alimento fava. As duas apreciações relativas a ele que tivemos até o momento são as de Jacinto, e ambas corrigem uma ideia antiga de sabor desagradável. Todavia há neste romance queirosiano outras duas aparições do termo, reportadas ao discurso do narrador homodiegético, em que se vê reforçada a conotação negativa do alimento: “um café com leite que me sabia a fava” (Queirós, 2008, p. 105) e “um café cor de chapéu-coco, que sabia a fava” (Queirós, 2008, p. 243).

O fato de essas duas apreciações acontecerem em duas viagens realizadas pelo narrador, uma por cidades europeias que não Paris, outra à capital francesa (a última, segundo um Zé Fernandes frustrado), implica-se necessariamente na cena da degustação de Jacinto, da qual ressalta a ideia de que as favas só são favas e só são boas em Portugal. Por outro lado, o recorrente sentido da fava enquanto sabor errado (ou seja, desagradável) não faz mais do que sublinhar a mudança operada no gosto de Jacinto. Na verdade, essa idiossincrasia de Zé Fernandes não provoca espanto, pois aceitar-se-á no geral que a preferência por favas nem é assim tão comum. Por sua vez, a alteração no gosto de Jacinto só erroneamente pode corroborar uma viragem na integridade da personagem, pois trata-se não de uma substituição de gostos, mas de um acréscimo por meio de uma novidade. Além disso, decorrente da alegação de uma mudança de caráter, a portugalidade imputada a Jacinto deriva decisivamente do enviesamento crítico do narrador homodiegético, cuja falta de fiabilidade estará na origem da tese em torno da recessão que A cidade e as serras implicaria na produção queirosiana.13

Ora signo simbólico de conotação negativa, ora signo simbólico de conotação positiva - para me reportar de novo aos termos peircianos -, a fava assumirá também no romance uma outra função, a do índice. Quando regressa de Guiães para visitar Jacinto em Tormes, aonde não regressara ainda desde aquela noite episódica, Zé Fernandes encontra a habitação renovada pelo amigo, o que o surpreende:

- […] Viste o comedouro?

- Não.

- Então vem admirar a beleza na simplicidade, bárbaro!

Era a mesma onde nós tanto exaltáramos o arroz com favas - mas muito esfregada, muito caiada, com um rodapé besuntado de azul estridente, onde logo adivinhei a obra do meu Príncipe. Uma toalha de linho de Guimarães cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de louça forte reluzia um galo amarelo. Era o mesmo galo e a mesma louça em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões aos cavadores... (Queirós, 2008, p. 160).

Desse modo, o arroz com favas é a marca indelével não apenas da transição física, mas da reconstituição do gosto de Jacinto. Se consultarmos a receita do arroz de favas recolhida por Maria de Lourdes Modesto (1995, p. 90) em fonte próxima do criado de Eça de Queirós em Tormes, facilmente observamos a simplicidade da sua confecção. É essa simplicidade que Jacinto vincula à verdade das serras numa busca da autenticidade.

Mas, a acreditar no princípio de Brillat-Savarin (1826, I, p. 376) segundo o qual “La digestion est, de toutes les opérations corporelles, celle qui influe le plus sur l’état de l’individu”, terá mesmo o protagonista sofrido a mudança moral ligada à sua nova alimentação? Jacinto, apóstata? Dispondo dos 30 mil volumes que constituíam a sua biblioteca, o neto de D. Galeão aperfeiçoou-se no método do livro único. Ao complexo catálogo de sabores que já havia experimentado Jacinto acrescentou e aprofundou os da cozinha tradicional portuguesa. Mais do que aflorar um Eça ou um Jacinto ambíguos,14 urge distinguir a pluralidade congênita de A cidade e as serras. A reformulação verificada no gosto de Jacinto não é, afinal, senão um sintoma da lógica da conciliação15 numa dialética que se constitui como a maior prova de um caráter formado no mais radical cosmopolitismo, cuja lição se plasma nessa capacidade receptiva do protagonista, confirmando a evidência de uma notável cópula entre a cidade e as serras.

Referências

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  • TAMEN, Miguel. Fazer Arcádia. In: BAPTISTA, Abel Barros (org.). A cidade e as serras: uma revisão. Coimbra: Angelus Novus, 2001. p. 25-32.
  • 1
    Conforme evidenciou Kant, em Kritik der Urteilskraft, de 1790, “não existe nenhum argumento empírico capaz de impor um juízo de gosto a alguém [...] já que este deve ser um juízo de gosto e não do entendimento ou da razão” (Kant, 1998, p. 185-186, grifo da autora). O filósofo de Königsberg exemplifica desse modo a validade subjetiva do juízo do gosto: “alguém pode enumerar-me todos os ingredientes de uma comida e observar sobre cada um que ele até me é agradável, além disso pode com razão elogiar o carácter saudável dessa comida; todavia sou surdo a todos esses argumentos, eu provo o prato com a minha língua e o meu paladar, e de acordo com isso (não segundo princípios universais) profiro o meu juízo” (idem, 1998, p. 186, grifo da autora), concluindo: “É que embora os críticos, como diz Hume, possam raciocinar mais plausivelmente do que os cozinheiros, possuem contudo destino idêntico a estes. Eles não podem esperar o fundamento de determinação do seu juízo da força de argumentos, mas somente da reflexão do sujeito sobre o seu próprio estado (de prazer ou desprazer), com rejeição de todos os preceitos e regras” (idem, 1998, p. 187).
  • 2
    A cidade e as serras não teve a mesma sorte, ficando provas por rever quando da morte do vencido da vida, o que faz dela uma obra semipóstuma.
  • 3
    Cf. Aguilera (1999, p. ix).
  • 4
    Cf. Brillat-Savarin (1826, II, p. 133-185) e Queirós (2000, p. 233-242).
  • 5
    Acerca do processo da digestão, veja-se o que disserta o gastrónomo francês: Brillat-Savarin (1826, I, 365-383).
  • 6
    Atente-se ao fato de Aristóteles (2001, p. 57-58, 79-80 e 82-83) sobrelevar a relação entre o sentido do gosto e o sentido do tato.
  • 7
    Como é sabido da semiótica peirciana, a relação do signo com o objeto compreende três tipos não exclusivos entre si: símbolo, índice e ícone. Nessa teoria tricotômica do signo, o ícone distingue-se pela relação de semelhança que estabelece com o seu referente, como observa o filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1991, p. 181, grifo do autora): “the diagramatic sign or icon, which exhibits a similarity or analogy to the subject of discourse”.
  • 8
    A literatura é, assim, capaz de mobilizar a expressão de conceitos relativos ao paladar que constituem um verdadeiro desafio para o pensamento analítico. Essa dificuldade foi, de resto, assumida por John Locke (2008, I, p. 292) em An essay concerning human understanding, de 1690: “Todos os sabores e cheiros compostos são também modos compostos de ideias simples desses sentidos. Mas como não temos, regra geral, nomes para designá-los, pouca importância lhes atribuímos e não podem expressar-se por escrito. Portanto, é preciso deixá-los entregues aos pensamentos e à experiência do meu leitor, sem fazer a sua enumeração”.
  • 9
    Para uma perspectiva abrangente da isotopia gastronômica na obra ficcional de Eça de Queirós, ver Rocha (1981) e Berrini (1995).
  • 10
    Segundo a teoria kantiana, o gosto repousa sobre a faculdade de juízo reflexiva, enquanto a ciência se funda sobre a faculdade de juízo determinante (cf. Kant, 1998, 54-82).
  • 11
    Declara Jacinto a Zé Fernandes: “Não, meu filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... São porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé Fernandes, é para mim um repouso” (Queirós, 2008, p. 161-162). Segundo Miguel Tamen, o trânsito físico de Jacinto para as serras não implica uma transformação da sua personalidade: “À medida que o romance se aproxima do fim, continuamos a encontrar evidências adicionais de que os ares da serra não mudaram o corolário de uma doutrina sobre a natureza que remonta à época da sua Equação Metafísica” (Tamen, 2001, p. 28).
  • 12
    David Hume, no seu ensaio Of the standard of the taste (1757), considera a comparação entre as cinco qualidades exigidas a um crítico de excelência, a saber, delicadeza ou qualidade de discernimento, experiência ou especialização, poder de comparação, ausência de preconceito e bom senso. Sobre o exercício da comparação como critério de avaliação, cf. Hume (2002, p. 217).
  • 13
    Jacinto do Prado Coelho (1969, p. 231-232) é um célebre preconizador dessa tese da tese, ao afirmar contundentemente: “Eu diria que a insinceridade da obra consiste em ser infiel (pelo menos em parte) ao melhor da personalidade literária de Eça: o que podia ser uma obra profundamente irónica redundou num jogo de espírito superficial, na demonstração diletante e mal estabelecida, duma tese reaccionária, não obstante a existência de algumas páginas vagamente polvilhadas duns restos de idealismo social”. Na recensão à obra Eça na ambiguidade, de Maria Lúcia Lepecki (1974), o crítico insiste na sua leitura corrosiva: “para mim nem é romance nem é satírico” (Coelho, 1976, p. 192). Pelo contrário, Mário Sacramento (2002, p. 187-188) sugere que a desconstrução da tese radica justamente na imagem de marca queirosiana, a ironia: “se cada livro seu toma aparências de tese, é apenas como delimitação indispensável ao acto criador - tendo por supremo escopo deixar-nos, através da narrativa, de posse da antítese que permita reduzir à suspensão irónica a primitiva aparência discursiva. E só porque a tese sempre assim se autodestrói inexoravelmente, a obra de Eça vive, com legitimidade, no clima da arte”. Por sua vez, Frank F. Sousa (1996, pp. 11-22), na sua dissertação de doutoramento, comprova que essa tese deve ser assimilada à voz da narração, responsabilidade adstrita à personagem-narrador Zé Fernandes. Para uma análise do estatuto do narrador homodiegético em A cidade e as serras, cf. Sousa (1996, p. 53-99). Acerca do narrador indigno de confiança (unreliable narrator), ver Booth (1983, p. 158-159).
  • 14
    Sobre a ambiguidade como modelo interpretativo de A cidade e as serras, cf. Lepecki (1974), Coelho, (1976) e Sousa (1996).
  • 15
    A investigação dessa lógica da conciliação enquanto aspecto basilar da modernidade de Eça de Queirós foi levada a cabo por Ana Nascimento Piedade ao longo de Ironia e socratismo em A cidade e as serras, bem como em Fradiquismo e modernidade no último Eça (1888-1900) (Piedade, 2002, 2003). Relativamente a esse suposto roman à thèse, Frank F. Sousa (1996, p. 42) conclui oportunamente a propósito do protagonista: “A sua trajectória é um abrir de horizontes para outras possibilidades e uma compreensão de diferentes soluções para a problemática da vida moderna”. Portanto o percurso de Jacinto, ao mesmo tempo que valida o potencial polifônico ou dialógico (e não monológico) do romance, confirma a afinidade da derradeira produção queirosiana com a estética emergente.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Parecer Final dos Editores
    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutierrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Nov 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Maio 2025
  • Aceito
    30 Jul 2025
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