Open-access O amanhã sacrificado na Universidade, em seu quase centenário

The Sacrificed Tomorrow at the University, on its Almost Centenary

Resumo

O texto se abre (e se encerra) com cenas da vida universitária na USP, buscando destacar certo ciclo de reescrita da história como palimpsesto de si, comprometendo a revisão crítica de sua narrativa focada no esforço de seus fundadores e da manutenção de suas memórias e legados. Para descrever de uma forma mais detida o modo como a relação com o movimento eugenista foi apagada da historiografia uspiana, a cena de abertura dá, então, palco para a reapresentação de Fernando de Azevedo, um dos nomes principais da criação da USP, assim como relê um discurso de Antonio Candido, ex-orientando de Azevedo, tentando demonstrar como o apagamento das questões raciais (aliado ao movimento supremacista branco, base da eugenia) precisa ser revisto como fundante de uma escola de pensamento na USP, que também remonta aos seus dividendos das heranças escravocratas no Brasil.

Palavras-chave:
Fernando de Azevedo; Antonio Candido; Universidade de São Paulo

Abstract

The paper opens (and closes) itself with scenes of the university life at USP, seeking to highlight a certain cycle of rewriting history as its own palimpsest, seeking to compromise the critical revision of its narrative, focused on the efforts of its founders and the maintenance of their memories and legacies. In order to describe in more detail how the relationship with the eugenics movement has been erased from USP’s historiography, the opening scene then gives way to the re-presentation of Fernando de Azevedo, one of the main names in the creation of USP, as well as re-reading one speech by Antonio Candido, who Azevedo mentored, trying to demonstrate how the erasure of racial issues (linked to the white supremacist movement, basis of eugenics) needs to be reviewed as foundational to a school of thought at USP, which also goes back to its dividends from Brazil’s slavery heritage.

Keywords:
Fernando de Azevedo; Antonio Candido; University of São Paulo

Resumen

El texto se abre (y cierra) con escenas de la vida universitaria en USP, buscando enfatizar cierto ciclo de reescritura de la historia como palimpsesto de sí misma, buscando comprometer la revisión crítica de su narrativa centrada en los esfuerzos de sus fundadores y en el mantenimiento de sus memorias y legados. Para describir con más detalle cómo la relación con el movimiento eugenésico ha sido borrada de la historiografía de USP, la escena inicial da paso a la re-presentación de Fernando de Azevedo, uno de los principales nombres en la creación de USP, así como a la relectura de un discurso de Antonio Candido, que fue supervisionado por Azevedo, tratando de demostrar cómo el borramiento de las cuestiones raciales (aliado al movimiento de la supremacía blanca, base de la eugenesia) necesita ser revisado como fundamento de una escuela de pensamiento en la USP, que también se remonta a sus dividendos de la herencia esclavista de Brasil.

Palabras clave:
Fernando de Azevedo; Antonio Candido; Universidad de São Paulo

O corpo da discente se posiciona no Salão Nobre da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), para aquilo a ser considerado o ponto final da corrida na carreira universitária, ao menos como aluna, pesquisadora em início de carreira: eis a defesa daquilo construído ao longo de, no mínimo, quatro anos de dedicação à pesquisa e à forma(ta)ção de um pensamento a poder ser chamado de seu, que lhe provê certo mérito para o título de doutora.

A cena toda parece apontar que o resultado foi bem apre(e)ndido nos anos de estudo em torno da extração de valor pelo capitalismo tardio, assim como aqueles tantos termos ouvidos em sala de aula, a formar algo como o objetivo da universidade, nesse mesmo sistema de opressão. Eis mais um corpo, agora, dizendo que se, por um lado, se entende, na sala de aula das Humanidades, o mercado como o agente vilanizado da dicotomia, para que a universidade se construa enquanto o antro da liberdade, da humanização e da elevação possível da entrada do corpo estranho em seus domínios até o ponto final, na reta nunca outrora imaginada por aqueles a se sentarem ali, na mesa localizada ao canto esquerdo, cujo apoio, com um microfone e espaço suficiente para depósito das folhas de rascunho e preparação para a arguição, algo continua falhando no apoio total a tal discurso, já que tais cenas sempre deixaram um retrogosto estranho na ideia de que, se aquilo era um salão, se aquela mesa era nobre…

O primeiro arguidor, se interrompendo nas solenidades, em um lampejo possuído pelos mortos ali presentes, abre a boca e diz: “Você tem alguma ideia de quem foi a pessoa retratada que está logo atrás de você?”.

*

O retratado é Fernando de Azevedo. Caso alguém percorra os corredores da administração da FFLCH, verá uma placa em sua homenagem,1 além de uma instalação chamada Em defesa da educação pública, mantida no Instituto de Estudos Brasileiros.2 Todas falam de Azevedo sem dar destaque para algo crucial, considerando a proximidade do centenário da Universidade de São Paulo. Primeiro secretário da Sociedade Eugenista de São Paulo, eleito com louvor, Azevedo dedicou não só um pedaço de sua carreira (como se pudéssemos imaginar uma superação da eugenia em seu vocabulário e ação política), mas sim sua produção acadêmica para participação nos debates a imbuir na educação (não só a física) a ideia de que melhoramento racial fosse praticado e feito ao longo das décadas futuras, escrevendo, majoritariamente, entre os anos 1920 e 1940.

Não obstante, presente e atuante nos movimentos que ajudaram a fundar a USP, em seu pensamento sociológico destaca figuras como Euclides da Cunha e a teoria do melhoramento racial a partir da figura do português (branco) com o indígena (o sertanejo), mas relegando (e agindo politicamente em torno disso)3 ao negro as mazelas responsáveis pela necessidade de ação do movimento que apresenta intelectual-politicamente como correto. Não só em correspondências privadas (mantidas no IEB), mas também em suas publicações, Azevedo insiste na necessidade de ver as mudanças no quadro populacional brasileiro como algo em progresso, que precisa ser melhorado para que esta terra volte a viver seus tempos gloriosos de outrora.

Quais são esses tempos? Na leitura de Silva (2020, p. 202) se destaca “[a] impressão causa[da] [n]o leitor [de] que [no Brasil Colônia] havia uma confluência entre homem e meio a ponto de compor um sentido de ordem que levava ao progresso. Todavia apontava que essa ordem fora modificada a partir de 1888”. O neolamarckismo de Azevedo avançava ao ponto de sugerir que seria somente pelo melhoramento físico, até mesmo pelo apagamento da presença de pessoas negras no Brasil, que o transformaria em uma nação moderna, a partir do ponto no qual a miscigenação ocorrida em períodos anteriores fosse transmutada, com a junção e expulsão dos traços não negros: “a inferioridade do sertanejo não estava associada à raça, mas ao abandono pelo Estado, na esfera social e econômica, na saúde e na educação” (Silva, 2020, p. 212). A intenção de reivindicar a necessidade de releitura do trabalho de Azevedo a partir da ótica de sua dedicação integral à eugenia (mesmo quando o vocabulário parece se alterar levemente, a partir de 1940) é pela figura central deste texto, a surgir na próxima curva do tempo: reivindicando que a criação da USP está atrelada a tal movimento, as linhas de força dos precursores, frequentemente elogiados pelas suas ações para a fundação da universidade, precisam ser revistas, recalculadas, assim como abrir caminhos para a releitura, inclusive, daqueles que se espelharam em figuras como Azevedo.4

*

A história, repetindo-se como farsa ou tragédia, não parece oferecer mudanças significativas, em uma espécie de prolegômeno das ideias que sustentam o discurso de, talvez, um dos orientandos cuja trajetória mais marca a história da Teoria Literária na USP.5 Antonio Candido, tido como fundador não só de um curso, mas também de um paradigma de análise no desenvolvimento da Escola da Formação como base para o entendimento da historiografia uspiana para crítica literária, também teve sua trajetória marcada (e relida, assim como emulada, repetida) como intelectual público, cujos discursos são muitas vezes repetidos ad eternum, mesmo se, em termos de citações exatas, pouco seja possível observar no nexo entre o dito por ele e o parafraseado a partir do que dizem os discípulos, a menos que redefinamos o que significa ler.

O texto selecionado aqui para discussão e análise talvez permaneça perdido nos escombros de Vários escritos, ainda que o volume contenha arquivos determinantes da carreira do crítico, como “O direito à Literatura”, “Radicalismos” e “Esquema de Machado de Assis”.6 “A Faculdade no centenário da Abolição” busca pensar e fornecer ditames e esquemas da relação entre o passado e o futuro, não só da universidade, mas da instituição e do reflexo do Brasil, quando completados 100 anos da Abolição da Escravatura, ou seja, 1988.7 O histórico criado por Candido repassa alguns pontos-chave desde a criação da USP por “intelectuais e cientistas” como Júlio de Mesquita Filho e Fernando de Azevedo (Candido, 2023, p. 247), concluindo que a grande missão da faculdade permanecia ativa, mas corria um risco. Aquilo que Candido destacava como a missão de sua alma mater era a criação de um saber desinteressado, e que tal palavra possui o sentido no qual

[...] era preciso estabelecer em certos setores um tipo de ensino superior desvinculado das injunções imediatas da formação profissional, porque esta já existia nas respectivas escolas; e criar, sem prejuízo do que havia, e era importantíssimo, um tipo de ensino ligado à pesquisa, que tivesse como finalidade maior a investigação, a descoberta, a inovação. Deste modo, o país teria uma fonte nova de conhecimentos, inclusive como reforço para a aplicação profissional (Candido, 2023, p. 246).

O projeto de educação tão elogiado por Candido é, por fim, aquele ao qual se dedica veemente Azevedo a defender e a permanecer distinguindo como o conhecimento necessário. Alguns termos deslocados e descolocados do contexto inicial, como na escrita do palimpsesto da história segregacionista na/da Universidade de São Paulo podem continuar a dar a impressão de que permanecemos, por fim, na mesma seara, principalmente naquilo que Candido jura ser o saber mais profícuo criado como herança (à qual se filia), relacionado aos anos 1930 e 1940 na USP:

[...] a Faculdade de Filosofia foi concebida pelos seus fundadores dentro de um espírito aberto, visando à formação de quadros auxiliares da elite dominante, mas evitando a infiltração das ideologias conservadoras mais agressivas, que naquele momento se encarnavam no fascismo. Como os professores franceses eram na maioria homens de pensamento democrático-radical, e como o momento histórico, isto é, o nosso decênio de 1930, foi marcado pelas radicalizações, houve desde logo condições implícitas para o advento de concepções mais avançadas do que as previstas, inclusive devido ao simples fato de serem ensinadas disciplinas que aguçam o espírito crítico, como a sociologia e a filosofia (Candido, 2023, p. 250).

A palavra “radical” merece atenção pelo espectro de “Radicalismos” (também de 1988). Antes de passarmos brevemente por ele, gostaria de destacar a presença de outros vocábulos importantes para Candido, como na seguinte passagem:

[...] as ciências sociais nos decênios de 1930 e 1940 correspondem ao que ocorreu no romance, que naquela altura se preocupava com a vida do pobre de um modo que superava o ângulo exótico ou paternalista, antes predominante de maneira quase absoluta, sobretudo no regionalismo, que podia levar à degradação folclórica do homem rural pelo pitoresco, a caricatura ou o sentimentalismo (Candido, 2023, p. 250, grifos nossos).8

A louvação final aos anos 1940, no romance, surge por se considerar que a pesquisa, “implicando contato íntimo e compreensivo com o pesquisado”, trazia, “no seu movimento explicativo[,] uma rotação ética e social de atitude, que[,] mesmo implícita[,] era atuante” (Candido, 2023, p. 251). Antes da amarração e junção com a já prometida tentativa de matização de alguns dos termos, cito duas passagens em que o elogio à USP ultrapassa as fronteiras da universidade, se entendido que o conglomerado de faculdades agora já era quase metonímia do estado de São Paulo

[...] pelo simples fato de serem praticadas, as ciências humanas corretamente orientadas constituem um fator de revisão crítica e, portanto, alteram a mentalidade em sentido moderno e mais avançado (Candido, 2023, p. 252, grifos nossos).

E mais adiante:

[...] todas as formas de estudo e pensamento que adotam perspectiva analítica adequada e optam pela investigação dos grupos oprimidos ou marginalizados são contribuições progressistas, que podem inclusive ser condição de eventuais atitudes revolucionárias (Candido, 2023, p. 253, grifos nossos).

Aqui é o ponto de parada inicial antes das últimas páginas da fala de Candido. Talvez por conterem um certo direcionamento para a fala pública, não se leve muito adiante o fato de as generalizações feitas a partir de períodos históricos e fontes que possam confirmar o argumento de Candido serem, muitas vezes, rarefeitas, desde que não se observe, por fim, que isso também parece ser um procedimento padrão no tom adotado pelo crítico, sendo essa sua caracterização como didático, simples, fácil de entender.

O perceptível é o fato de que a simples introdução de nomes e recortes, destacando o tom heroico de alguns nomes da elite urbana em sua tarefa hercúlea para a criação da USP, esconde e reescreve, apagando para os confins da história, as motivações em paralelo, além daquilo que é frequentemente elogiado por/em/a partir de Candido: o foco no texto. Essa mesma atividade tantas vezes cobrada a partir do crítico é pouco vista, por exemplo, na precisão histórica e bibliográfica de seu discurso, pedindo ao ouvinte que se mantenha atento e sempre em anuência àquilo que é resumido por Candido em seus gestos de planificação e transformação em verdade inquestionável, preparando o terreno para a construção do Destino Manifesto seguinte, do amanhã a ainda chegar na USP.

Os radicais aos quais se dirige Antonio Candido, por exemplo, com a criação de uma linha geral para a observação da mudança no pensamento social brasileiro, dependem de um texto escrito em palimpsesto, no qual Manuel Bomfim, Joaquim Nabuco e Sérgio Buarque de Holanda são observados como progressistas, possivelmente protorradicais, onde “radicalismo” é

[...] o conjunto de ideias e atitudes formando contrapeso ao movimento conservador que sempre predominou. [...] Digo que o radicalismo forma contrapeso porque é um modo progressista de reagir ao estímulo dos problemas sociais prementes, em oposição ao modo conservador. Gerado na classe média e em setores esclarecidos das classes dominantes, ele não é um pensamento revolucionário, e, embora seja fermento transformador, não se identifica senão em parte com os interesses específicos das classes trabalhadoras, que são o segmento potencialmente revolucionário da sociedade.

De fato, o radical se opõe aos interesses de sua classe apenas até certo ponto, mas não representa os interesses finais do trabalhador. É fácil ver isso observando que ele pensa os problemas na escala da nação, como um todo, preconizando soluções para a nação, como um todo. Deste modo, passa por cima do antagonismo entre as classes; ou por outra, não localiza devidamente os interesses próprios das classes subalternas, e assim não vê a realidade à luz da tensão entre essas classes e as dominantes. O resultado é que tende com frequência à harmonização e à conciliação, não às soluções revolucionárias (Candido, 2023, p. 209-210, grifos nossos).

Se “radical” significa “relativo ou pertencente à raiz ou à origem; original” e se relaciona a “um sensível afastamento do que é tradicional ou usual; extremado”, podemos pensar que este intelectual, sendo radical um adjetivo, tem em seu sintagma uma dupla possibilidade de nos remeter a outras duas chances de definir o que é tal conceito ou de como podemos começar a tensioná-lo. São tais as interpretações: 1. pensarmos uma intelectualidade brasileira formada dentro do ambiente familiar, cujas bases são o patriarcalismo, a escravidão, a cis-heteronormatividade e o ódio de classe, mas sem ruptura; 2. tendo em vista a formação da intelectualidade brasileira como algo intrinsecamente ligado a seu quadro histórico (ou seja, 1), alguém que toma uma posição sensível de questionamento dessa formação, visando algum tipo de rompimento, só pode chegar a uma aporia, a menos que o prolegômeno todo seja destruído.

Ao tentarmos fechar a conta, partindo do princípio de que, para ser radical, há de se ter uma dissociação do pensamento conservador, ao sugerir que o intelectual radical brasileiro por excelência concilia, a representação de fato ali feita faz com que os problemas, ou seja, as raízes pelas quais os intelectuais se ligam, continuem firmes na terra, já que a classe subalterna continua na posição anterior, agora sendo representada, tratada como algo que pode ser observável, descrito e dali retratado, como numa peça. Diferentemente de uma ideia na qual o progresso pode assumir certa conciliação, o intelectual radical de Antonio Candido se torna o capacitado para definir o que é bom ou ruim na humanização dos seres ainda não considerados tão humanos, passando por cima dos interesses daqueles em posições subalternas e buscando, como finalidade, a reprodução da própria estrutura ali fomentada, permitindo ao intelectual seu lugar de destaque enquanto máquina reprodutora sem possibilidade de contato com a questão geradora de tal radicalismo (ou seja, a estrutura de lucros e dividendos advindos da escravidão, levando em consideração de quais elites Candido fala em seu texto). A resposta do outro (o representado), no entanto, é dificilmente ouvida.

A consequência, ao reconhecermos a radicalidade do pensamento enquanto algo fundado de maneira ambígua, entre aquilo que é originário da classe intelectual no Brasil e o que busca se afastar disso, é uma defesa possibilitada pelo primeiro para que o segundo não seja reconhecido como aceitável, por ser lido como inimigo do primeiro. Nesse esquema confuso, observar-se-ia por fim que, em nome da radicalidade, dessa intelectualidade a ler a herança do radicalismo como seu modo de separação da primitividade de outrora, como o caminho feito pelos intelectuais que, de certa forma, são intelectuais porque se ligam a ela, quando são confrontados com algo a, por via das dúvidas, poder simbolizar “o outro lado da radicalidade”, em uma lógica estranha considerada o problema, recuam, relembram a importância da tradição, das etapas a serem seguidas - ou seja, conciliam, reestruturando a manutenção de seus interesses em detrimento do subalterno.9

São a linha evolutiva do que se pode chamar de pensamento progressista brasileiro e a exclusão da violência colonial como determinante das ações fatidicamente possíveis como revolucionárias que Candido vai apagando ao longo do tempo, além de demarcar como impossível uma relação outra com o saber (e o progressismo) que não seja aquela demarcada e entendida por ele. Gerações diretamente ligadas ao passado colonial são tidas como precursoras e responsáveis por gerar uma chance de revolução no futuro: no entanto, a crença na bondade, no altruísmo e na forma de ação escolhidas pela leitura de Candido dependem de uma secção na história e na historiografia do pensamento social brasileiro que exclui de antemão qualquer chance de ver a própria narratividade das gerações mencionadas pelo autor (Buarque de Holanda, Nabuco e até mesmo a sua história familiar, atravessada pela junção da elite escravocrata e urbana, entre Minas Gerais e São Paulo) como manipulada e em desejo de manutenção de certo princípio de autorreconhecimento que não se sustenta fora dessa metanarrativa, criada por gerações descendentes dos beneficiários da antinegritude escravocrata, fundante do mecanismo segregacionista em terras brasileiras.

O próprio estudo, por exemplo, da mais refinada sociologia, como apontado por Candido para os grupos subalternizados no Brasil, é algo cuja importância o autor não só subscreve, como também integra.10 No entanto observemos certa passagem de como Candido entende as criações de parentesco entre seus objetos de estudo (as populações caipiras de Bofete):

No Brasil, o erotismo zoofílico é comum nas zonas rurais, tendo sido Gilberto Freyre o primeiro a chamar sobre ele a atenção dos estudiosos, tratando da formação sexual do menino de engenho. De um ponto de vista psicossociológico, não se pode reputá-lo anormalidade. Nas fazendas e sítios, a iniciação à vida do sexo dá-se muitas vezes com animais, sendo que as novilhas, eguinhas e carneiras fixam de preferência o erotismo infantil e juvenil. A expressão eufêmica “encostar no barranco”, referente ao ato sexual em geral, deriva de tais práticas e revela a sua generalidade. Na área estudada elas são correntes, e como nem todos possuem gado de porte, os meninos e os jovens utilizam também as cabras, porcas e galinhas, mais acessíveis pela criação doméstica. Pode-se dizer que isso equivale à “masturbação compensadora” (Forel), corrente nas cidades, sendo, como ela, etapa transitória de iniciação, superada sem dificuldade aos primeiros contatos com mulher, que se estabelecem cedo devido ao casamento precoce. Num e noutro caso, apenas a incorporação definitiva aos hábitos sexuais do adulto poderia ser considerada desvio; e tudo bem pesado, a prática rural talvez seja menos nociva que a urbana, pois repousa menos na imaginação. Proporcionando ao adolescente um certo contato direto com a realidade, ela diminui o perigo de inibições e desvios, que podem desenvolver-se em relação ao ato normal do sexo (Candido, 2017, p. 290).

E o comentário de Moreschi (2020, p. 197, grifo nosso) em torno disso:

[n]o trecho, Candido, explicando a origem da expressão “encostando no barranco”, avalia as práticas zoofílicas da juventude masculina de Rio Bonito, julgando-as favoravelmente como forma de prevenção do onanismo e de práticas homossexuais desviantes e urbanas. Sim, para o cândido-mestre, antes carneirinha do que viado.

A linha etapista de Candido, formulada em seu doutoramento em sociologia, é um exemplo daquilo que vamos demonstrar na segunda parte de “A Faculdade no centenário da Abolição”: o caminho parte de Freyre sem discutir de maneira explícita, por exemplo, que a formação sexual do menino de engenho em Casa Grande & Senzala passa pela naturalização (e anuência do autor) do estupro de mulheres negras para caracterizar o impacto da violência como um ponto positivo no polo que subalterniza (cf. Freyre, 2003, p. 368). Ao sugerir, como também demonstra Moreschi, que há algo de natural na zoofilia para fazer com que o caipira não se torne “viado”, o tom de Candido se encontra perdido exatamente na anuência das vozes que maneja (Lima, 1992), além da sensação de dívida com o passado que, ao olhar para o/a subalterno/a, o faz deixando evidente certa fé em seu próprio lugar de enunciação, não permitindo ser questionado. Os grandes cânones pelos quais Candido jura (e exige) fidelidade, no fim, são, tanto quanto ele, beneficiários do próprio sistema que se dizem esgotados (os lucros da escravização) e, se voltarmos a “Radicalismos”, vemos a consequência:11 caso o que exista seja exatamente o ato de passar por cima dos interesses dos subalternos, o intelectual radical, na verdade, reforça o paradigma que o trouxe até aqui, cortando pela raiz a chance de mudança, sempre jogada para o futuro, para poder aproveitar um pouco mais o bônus e manter o ônus ao seu outro, a/o subalterna/o representada/o em seu texto.

Isso se reflete de maneira mais aguda no discurso selecionado para discussão porque, após a criação da linha da dívida e da homenagem à história da Faculdade de Filosofia, que passa por um legado diretamente relacionado a elites descendentes de escravocratas, o tópico do discurso de Candido se torna o outro ponto da linha: aquilo que o crítico passa a chamar de “o problema do negro”. Candido informa os ouvintes que os problemas relacionados ao negro, categoria que parece cada vez mais abstrata em seu discurso, precisa de uma linha genealógica dentro da Faculdade de Filosofia que leve as/os estudiosas/os para o caminho e os questionamentos mais adequados, quando o que se busca pensar é a disparidade racial no país. Em suas palavras:

[a] nossa Faculdade teve função de relevo no progresso dos estudos sobre o negro, porque superou a fase de mera verificação e a fase de obsessão étnica para incorporar o cárater problemático [...]. Houve uma espécie de rotação, que fez passar os estudos do eixo da constatação para o eixo da participação implícita ou explícita, como ocorreu também em relação a outros grupos sociais subalternos e marginais estudados [...]. Isso mostra que no Centenário da Abolição ela pode se orgulhar de alguns feitos positivos e reivindicar sua posição que, a partir da radicalidade sociológica inicial, abriu caminho para a radicalidade política (Candido, 2023, p. 256, grifos nossos).

Um salto no raciocínio se dá na seguinte passagem:

[a] falta de oportunidade econômica e social do negro é acompanhada por toda a sorte de consequências morais da maior gravidade, como o sentimento de insegurança que corrói a personalidade e é agravado pelas situações de humilhação (Candido, 2023, p. 256).12

E termina, um parágrafo depois, em constatações como:

[...] cabe sobretudo à nossa escola contribuir para esclarecer a natureza real do problema, evitando o predomínio das posições passionais, que arriscam atrapalhar não apenas o entendimento, mas o encaminhamento adequado das soluções. Penso, por exemplo, na afirmação sem matizes de que somos um país afro-brasileiro, o que é compreensível como arma de luta e maneira de chamar a atenção para um aspecto reprimido, mas que é sem dúvida uma deformação da realidade. A consciência necessária e salutar da componente africana em nossa história e nossa cultura não pode nem deve conduzir ao exagero deformador. Para o bem ou para o mal, felizmente ou infelizmente, somos um país colonizado por europeus e desenvolvido com predomínio cultural europeu, modificado pela contribuição decisiva e diferenciadora do índio e sobretudo do negro. Negar o sentido, digamos[,] ocidental para simplificar, da nossa civilização e postular um retorno sentimental às raízes africanas, é uma extrapolação baseada no exagero da verdade (Candido, 2023, p. 257-258, grifos nossos).13

Sigamos alguns outros saltos candidianos, para amarrá-los:

O importante é dignificar as culturas africanas como modos de ser e viver, abertos não apenas para os grupos chamados “de cor”, mas eventualmente a todos os brasileiros, como componentes de uma pluralidade que no futuro dará os seus frutos. [...] Imaginemos que num universo livre de preconceito as tradições africanas poderiam se combinar de maneira admirável com as linhas que o colonizador implantou aqui. O resultado seria talvez a humanização da chamada civilização ocidental, a mais predatória, a mais espoliadora, a mais destruidora e ao mesmo tempo a mais eficiente e flexível que a humanidade conheceu. É inestimável o que as tradições africanas poderão trazer, não como cultura exclusiva e excludente, nem como cultura encasulada, mas como componente humanizadora de uma cultura plural (Candido, 2023, p. 259, grifos do autor).

O discurso termina com o seguinte prognóstico, com certos ares de ordem:

Caros colegas e estudantes: a Universidade de São Paulo em geral, a nossa Faculdade em particular, foram e são um dos acontecimentos mais importantes na história da cultura brasileira [...] é notável que a crise institucional não tenha quebrado a capacidade produtiva dos docentes e pesquisadores, frequentemente tão injustiçados e expostos a toda a sorte de incompreensões. Tanto assim, que a produção da Universidade em geral e desta Faculdade em particular corresponde aos melhores padrões possíveis no Brasil. Isso vem da nossa boa tradição e com certeza fortalecerá ainda mais quando houvermos encontrado as fórmulas de reajuste institucional. Da tradição a que me referi, destaquei nesta aula inaugural a linha de radicalidade dos estudos sociais, que foi um dos princípios tutelares da Faculdade, mesmo quando era implícita, e se manifestou por traços como os que procurei indicar. A sua herança é um legado de honra que empenha o nosso presente na luta pela integração e superação dos preconceitos, dos quais o mais odioso e socialmente mais lesivo é o que atinge a população considerada de cor (Candido, 2023, p. 259-260, grifos nossos, exceto em “de cor”, que é do autor).

Candido segue uma inquietação estranha: o Brasil, apesar de não necessariamente branco/indígena/negro, parece ser sempre associado à característica cuja ascendência é marcada pelo olhar expansionista da supremacia branca (a colonização europeia foi, afinal, branca). Ao sugerir que esse conteúdo racialmente definido a partir da violência, ou seja, algo que só pode ser considerado possível porque se sustentou ao longo do tempo a partir da exploração e da violência direcionada a povos não brancos (Mills, 2023), está aquém e além da raça, Candido parece reforçar a ideia de que pessoas brancas são anteriores à própria racialização e que brasileiros estariam, por fim, ligados de alguma forma a esse mecanismo de supremacia no qual se nega o reconhecimento racial e aplica a todos os seus outros a segregação.

Ainda que não seja novo e muito menos recente, tal entendimento de pessoas brancas como não racializadas no raciocínio candidiano se perde em suas próprias voltas ao tentar incluir aquilo que considera como a questão/o problema do14 negro, reforçando ditames que passam por diversos curtos-circuitos. Isso porque o ideal de civilização identificado como correto é o de conseguir transformar em problema externo as próprias bases que fundam e sustentam sua existência enquanto excludente e segregacionista. Se o pensamento ocidental (europeu no qual Candido se espelha, desejoso de inclusão desde Formação) se formula enquanto aquele a ser o Sol em seu momento de ápice, preparando-se para o ponto mais alto de chegada, é também porque se construiu historicamente como o movimento de deleção do registro das condições materiais a lhe permitirem chegar a esse ponto, onde as questões de seu próprio quintal são tidas como universais, do Homem (Derrida, 1991; Ferreira da Silva, 2024). Tais problemas são, mais uma vez, repetitivos em/de Candido, como ressalta Moraes (2023, p. 68-69, grifos nossos):

Em sua leitura d’Os sertões, Antonio Candido ressalta a clarividência de Euclides da Cunha, capaz de, apesar de seu arcabouço teórico racista, desenvolver uma visão reveladora do país. De outra maneira: para Candido, o que Euclides observou acertadamente foram problemas de natureza social, de maneira que o conteúdo sociológico de sua obra superaria possíveis equívocos de um determinismo rácico e mesológico. Assim, se traduzirmos a tese da guerra entre raças superiores e inferiores (levando ao “esmagamento inevitável” destas) para conflito entre culturas superiores e inferiores (em termos de “imposição cultural”), traçamos a ponte entre Euclides da Cunha e Antonio Candido. O empenho em traduzir o racial em sociológico ou cultural, e mesmo em acentuar a perspectiva sociológica já inscrita na abordagem de Euclides da Cunha, encontra paralelo no tratamento dado por Candido ao pensamento de Sílvio Romero. Também n’O método crítico de Sílvio Romero (1954), argumentos rácicos são recuperados em termos sociológicos, sendo, então, valorizados (Candido atribui também a Romero laivos de “clarividência”). Talvez possamos mesmo pensar que o “branco” ou “ariano” de Romero torna-se, em Candido, o “europeu” ou “ocidental” - de maneira que o branqueamento como destino certo (e desejável) para um Romero ressurge em Candido como (desejável, mesmo que não tão certa) participação de todos os brasileiros nos bens culturais de matriz europeia (tenho em mente aqui a contundente defesa do amplo acesso, como formulada especialmente no famoso ensaio “O direito à literatura”, de 1988).

Se as confusões epistêmico-ontológicas são um fator decisivo em Candido para certo elogio irrestrito à dívida ligada à produção legada como herança na USP (produzida pela elite branca urbana descendente da escravocrata), deixa de parecer tão estranho, por exemplo, o sumiço do trabalho de nomes da Imprensa Negra Paulista,15 Abdias do Nascimento, Kabengele Munanga, Beatriz Nascimento e Lélia Gonzalez que, (in)diretamente, não só estavam em ação em diversos períodos mencionados por Candido (dos anos 1930 em diante, por exemplo, até o momento de sua fala, os já quase finalizados 1980), como se tornaram desde cedo nomes decisivos para encarar e entender o funcionamento do Brasil de uma forma diferente, ligada ao passado escravocrata como presente e determinante daquilo a ser olhado por cada uma dessas frentes intelectuais, criando o que hoje já se entende por pensamento crítico negro brasileiro.

Se tais movimentações já eram presentes ao mesmo tempo que Candido produzia ativamente, o que pensar da exigência feita pelo autor em sua aula inaugural no centenário da Abolição? Se tal mecanismo retórico parece exigir, melancolicamente (Manne, 2018), o retorno à tradição, não seria isso, quiçá, uma tentativa de controle determinista para a sobrevida de um mecanismo de dominação que, na teoria e na prática, se encontra muito bem estabelecido como modus operandi da USP, relegando ao futuro a possibilidade de mudança, distendendo um pouco mais a divisão desigual dos dividendos, afinal, aquele a chegar (o subalternizado que passaria a querer pensar e refletir em torno de uma outra tradição) precisaria de todo um rito de iniciação que, por certo, tomaria toda a sua carreira universitária? Nesse esquema, não seria exatamente a mudança aquilo que, na estrutura do sacrifício, se perderia?

A cena, no entanto, é mais do que repetida:

Admitida a existência de uma relação constante entre a liberdade e o progresso dessas instituições a que chamamos “universidades” e que supõe uma livre pesquisa executada em comum, e no pressuposto de que a democracia implica, em sua essência, a ideia de liberdade de pensamento e de opinião, podemos afirmar que, se quiserem desenvolver-se, é nessa forma de vida política que encontrarão o seu clima próprio, ao menos enquanto não atingirmos novamente a [sic] uma concepção universal de vida, um ideal ecumênico que determine, como na idade média, e nos faça compreender a finalidade suprema do esforço comum e subordine todos os seus fins dispersos a uma afirmação fundamental [...] [S]e as universidades tendem hoje, sob a pressão das coisas, a realizar essa ideia da unidade do pensamento e da ação e a ligar constantemente uma pela outra a pesquisa intelectual e a reação vital, pondo um máximo de ciência a serviço de um máximo de ação; se para se ajustarem às novas condições, tem de servir às massas sem se deixarem dominar por elas, e eliminar o divórcio entre o povo e as elites que são chamadas a formar, como e em que medida, promovendo a técnica e a “democratização” da cultura, poderão elas resguardar o culto do pensamento abstrato, o gesto da alta especulação, essa educação verdadeiramente superior de que resultam a um tempo um acréscimo de força e um afinamento intelectual e moral, e a tradição que quase se perdeu e hoje apenas nos permite falar da arte de um filósofo como Bergson ou de um sábio como Claude Bernard, isto é, da tradição da ciência artística dos gregos? (Azevedo, 1946, p. 278-279)

*

Os cumprimentos pós-defesa se encerram, a cerimônia se fecha em um ponto aparentemente apoteótico, com lágrimas, desabafos e atritos que deixam o corpo da ex-discente um tanto curvado, enquanto tenta manter o sorriso no rosto para as fotos com orientador, membros da banca e tantas pessoas que, por desejarem privilegiar esse momento, também querem dividir um pouco do possível capital simbólico que é se verem rodeadas de doutores formades pela USP.

Como última cartada, no entanto, um dos examinadores se vira para a nova doutora, cujo trabalho indicara para publicação e recomendara um sem-número de possíveis artigos a serem escritos a partir de desdobramentos e notas daquilo que ele, em sua leitura, entendia como caminhos para a ressaca do depósito da tese e lhe pergunta, não tão em tom de sussurro como suspeitava que estava fazendo: “Falando essas coisas sobre a USP, do jeito que você se pronuncia e escreve, não tem medo de acabar com o nome manchado e sem chance de passar em concurso, não?”.

Referências

  • AZEVEDO, Fernando de. As universidades no mundo de amanhã. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 8, n. 23, p. 269-282, jul./ago. 1946.
  • CANDIDO, Antonio. Os parceiros do Rio Bonito São Paulo: EdUSP; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2017.
  • CANDIDO, Antonio. Vários escritos São Paulo: Todavia, 2023.
  • DERRIDA, Jacques. A mitologia branca: a metáfora no texto filosófico. In: DERRIDA, Jacques. Margens da Filosofia Trad. Joaquim, A. Costa; Antônio, M. Magalhães. Campinas: Papirus, 1991, p. 249-314.
  • FERREIRA DA SILVA, Denise. A dívida impagável: uma crítica feminista, racial e anticolonial do capitalismo. Trad. Nathalia, Silva Carneiro; Viviane, Nogueira; Jéfferson Luiz da Silva; Roger, Farias de Melo; Nicolau, Gayão. Rio de Janeiro: Zahar, 2024.
  • FFLCH. Fernando de Azevedo. Memoria FFLCH, 2024. Disponível in: http://memoria.fflch.usp.br/node/73 Acesso em: 5 set. 2024.
    » http://memoria.fflch.usp.br/node/73
  • FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala São Paulo: Global Editora, 2003.
  • IEB. Em defesa da educação pública: Fernando de Azevedo no IEB (1927-1968). USP.br, 2019. Disponível in: https://sites.usp.br/fernandodeazevedo/ Acesso em: 5 set. 2024.
    » https://sites.usp.br/fernandodeazevedo/
  • LIMA, Luiz Costa. Concepção de história literária na “Formação”. In: D’INCAO, Maria Angela; SCARABÔTOLO, Eloísa Faria (orgs.). Dentro do texto, dentro da vida: ensaios sobre Antonio Candido. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. p. 153-169.
  • MANNE, Kate. Melancholy whiteness (or, shame-faced in shadows). Philosophy and Phenomenological Research, Hoboken, v. 96, n. 1, p. 233-242, 2018.
  • MELO, Alfredo Cesar. A formação como nacional-ocidentalização. Criação & Crítica, São Paulo, v. 1, n. 26, p. 136-148, 2020.
  • MILLS, Charles W. O contrato racial Trad. Teófilo, Reis, e Breno, Santos. Rio de Janeiro:Zahar, 2023.
  • MORAES, Anita Martins Rodrigues de. Para além das palavras: representação e realidade em Antonio Candido. São Paulo: EdUnesp, 2015.
  • MORAES, Anita Martins Rodrigues de. Contornos humanos: primitivos, rústicos e civilizados em Antonio Candido. Recife: Cepe Editora, 2023.
  • MORESCHI, Marcelo. D’a Espírita e de Encostando no barranco, para cândida apreciação. Criação & Crítica, São Paulo, v. 1, n. 26, p. 190-209, 2020.
  • NATALI, Marcos. A literatura em questão: sobre a responsabilidade da instituição literária. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.
  • ROCHA, Mariana Machado. Uma luta científico-social desproporcional: colonialidade e branquitude na fundação da USP e ensino superior na Imprensa Negra Paulista (1924-1937). 2023. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo:Faculdade de Educação, 2023.
  • SALDANHA, Fabio. Etapismo e conciliação: notas sobre a exclusão da diferença (e do dissenso) em Antonio Candido. Revista da APG, São Paulo, v. 2, n. 1, p. 70, 2022.
  • SILVA, Priscila Elisabete da. As origens da USP: raça, nação e branquitude na universidade. Curitiba: Appris Editora, 2020.
  • 1
  • 2
    Todas as informações, assim como o catálogo, podem ser consultadas no link disponível nas referências, em IEB (2019).
  • 3
    Azevedo, em seus escritos e ações políticas, chega a defender a proibição da capoeira, que considera algo degenerado (Silva, 2020).
  • 4
    Isso porque Azevedo, por exemplo, contém fortuna crítica dedicada à releitura de seu passado eugenista, como bem demonstrado em Silva (2020). Aquele a quem passaremos agora, no entanto, talvez seja necessário ainda começarmos os movimentos de sugestão da urgência da reescrita de sua história…
  • 5
    Assim como a divide e a transforma em uma espécie de briga familiar, disputa pelo nome do Patriarca.
  • 6
    Todos textos nos quais a temática racial, se abordada de maneira crítica, pode demonstrar novas formas de reflexão para aquilo que vamos destacar no discurso escolhido para análise.
  • 7
    E, a nosso ver, fator decisivo para uma releitura de “O direito à Literatura”. Não o faremos aqui, mas permanecemos na inquietação possível de fazê-lo, ou permitir, a quem interessar possa, que tal fato um dia esteja circulando pelos meios de interpretação. Outro texto importante para a compreensão de alguns outros cacoetes candidianos no discurso analisado é “Radicalismos” (1988), cuja leitura um tanto mais cerrada já fizemos em outras condições (cf. Saldanha, 2022). Aqui e acolá serão apontados, todavia, alguns aspectos importantes da noção de radicalidade (e como desejamos torcê-la para outro entendimento), de modo que cheguemos às imbricações desejadas.
  • 8
    Outro termo importante no texto é a ideia de humanização, central em “O direito à Literatura”. Para matizações críticas: Natali (2020) e Moraes (2023).
  • 9
    Ódio de classe, nesse caso, continuaria existindo: ele só seria um ódio direcionado ao subalterno.
  • 10
    É um tanto errôneo pressupor facetas em Candido (o sociólogo e o literato), como se elas não se comunicassem: Formação da Literatura Brasileira e Os parceiros do Rio Bonito, por exemplo, foram compostas ao mesmo tempo (Moraes, 2015). Pressupor a impossibilidade de cruzar as leituras parece querer anular uma forma de ver macroscopicamente os deslizes e os instrumentos retórico-teóricos de Candido enquanto um projeto estruturado que, muitas vezes, se justifica em uma valoração por criar, via explicação e tom, uma pressuposição de que seu método de trabalho é autojustificável por Candido ser… Candido! Conforme Moreschi (2020, p. 265): “a facilidade da leitura da ensaística de Candido é negativamente acalentadora, produzindo a falsa sensação da possibilidade de redução do literário, do artístico e do discurso crítico sobre eles a uma teoria que mal se apresenta como tal. O resultado prático é a formação de uma massa insossa de leitores com pouca autonomia e incapaz de elaboração teórica e hipotética própria, uma vez que o trabalho crítico tem uma tarefa (comunitária, inclusive) já estabelecida a cumprir e é reduzido à demonstração de hipóteses já formuladas e naturalizadas como se não necessitassem também de escrutínio crítico e como se não fossem elas também literatura. Tal modelo também gera leitores amedrontados que lidam muito mal com a legibilidade difícil ou não prevista de textos que, por natureza, são incapazes de confirmar o modelo. Mesmo nesses casos, não é o modelo que é questionado, mas os textos, que são acusados de formalismo, esteticismo, cosmopolitismo, hermetismo etc. e, por isso, se tornam dispensáveis para a perspectiva oitocentista da ‘literatura nacional’ e novecentista de desenvolvimentismo. Isso é particularmente notável no veto a literaturas de outras línguas ou de outros lugares e no modo pouco convincente pelo qual a socioglossia lida com as letras coloniais e com toda a produção vanguardista (apesar de essa teoria ter origem no chamado ‘modernismo brasileiro’, que ela reificou a partir da transformação da autohistoriografia mariodeandradeana em história)”.
  • 11
    Como neste trecho: “Em entrevista a Heloísa Pontes, Candido confessa que Casa-grande & senzala era o livro que gostaria de ter escrito. E aqui talvez um cotejamento entre Casa-grande & senzala e Formação da literatura brasileira não seja todo descabido: os dois livros retratam a figura do colonizador (muitas vezes entendido como civilizador) de maneira empática e compreensiva, mas os dois autores também enxergam atrocidades, arbitrariedades, violências e imposições nesse processo de colonização” (Melo, 2020, p. 12).
  • 12
    Somos deixados a imaginar, por exemplo, se as consequências morais não seriam vistas por Candido como também declaradas em torno dos caipiras em Bofete: em um pulo determinista da relação economia-personalidade, aquilo que foge do padrão previamente estabelecido por Candido como bom (a herança branco-europeia urbana) é danoso e retrógrado por si, devendo ser reintroduzida na forma de ser/existir prevista como “natural” e somente assim se poderia considerar o subalternizado devidamente um humano. A consequência básica desse raciocínio é, por exemplo, a ideia na qual a humanidade de alguém só se confirma a partir da ótica branca, da vista colonizadora, sendo impossível, por exemplo, não juntar o movimento de humanização candidiana a uma forma de etnocídio, na qual os elementos que caracterizam o subalterno enquanto tal precisam ser eliminados antes mesmo que tais sejam considerados humanos (Moraes, 2023).
  • 13
    O parágrafo seguinte apela para uma teoria de democracia racial um tanto disfarçada pelo elogio à síntese apagadora da diferença, costumeira em Candido (Moraes, 2023): “é preciso lembrar ao patrício negro que ele não é africano; como o patrício branco não é português, nem italiano, nem alemão; como o patrício nissei não é japonês, mas que são todos brasileiros, e ser brasileiro é ter na mente, na alma, frequentemente no sangue, muita coisa de africano [Candido parece não querer assumir, aqui, os motivos pelos quais tal fato acontece, como já vimos em seu louvor a Freyre], independente da cor da pele. Nenhum outro país da América tem, como o Brasil, a possibilidade de efetuar em larga escala uma síntese das componentes europeias, indígenas e africanas” (Candido, 2023, p. 257, grifos nossos).
  • 14
    Uma análise deste “do” poderia levar muitas páginas, mas fica aqui de fato a pergunta, caso alguém se interesse pela possibilidade de reler todo o argumento candidiano como uma espécie de prolegômeno intelectual que faz tudo, menos se enquadrar na possibilidade do intelectual respeitoso que tenta se adequar ao objeto estudado, a partir do momento em que transforma o subalternizado em objeto responsabilizável por algo.
  • 15
    Para uma visão detalhada do apagamento da Imprensa Negra Paulista no movimento fundacional da USP, ver Rocha (2023).
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Declaração dos Editores:
    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutiérrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2025

Histórico

  • Recebido
    15 Set 2024
  • Aceito
    31 Mar 2025
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