Open-access Jorge Amado em romeno: do filtro ideológico às exigências do mercado livre

Jorge Amado in Romanian: from the Ideological Filter to the Demands of the Free Market

Resumo

Neste artigo pretendemos contextualizar as traduções romenas de obras de Jorge Amado, tomando em consideração a sua cronologia e as influências exercidas sobre o polissistema romeno (Even-Zohar, 1990). Num primeiro momento, apresentamos a cultura romena enquanto “cultura de tradução” (Baer, 2011, p. 10); em seguida, esboçamos um panorama geral das traduções de autores brasileiros em romeno e propomos uma classificação cronológica. Na parte mais consistente do nosso trabalho, fazemos uma apresentação das traduções romenas de obras amadianas e analisamos o papel que desempenharam o filtro ideológico e a lógica do mercado livre nos processos tradutórios.

Palavras-chave:
tradução literária; polissistema romeno; literatura brasileira traduzida; Jorge Amado

Abstract

In this article we aim to contextualize Romanian translations of Jorge Amado’s works, considering their chronology and the influences they exert on the Romanian polysystem (Even-Zohar, 1990). Firstly, we present Romanian culture as a “culture of translation” (Baer 2011, p. 10); then we outline a general overview of translations of Brazilian authors into Romanian and propose a chronological classification. In the most consistent part of our work, we present Romanian translations of Jorge Amado’s works and analyze the role they played in translation processes by the ideological filter and the logic of the free market.

Keywords:
Literary Translation; Romanian Polysystem; Translated Brazilian Literature; Jorge Amado

Résumé

Cet article vise à contextualiser les traductions roumaines des œuvres de Jorge Amado en considérant leur chronologie et les influences qu’elles exercent sur le polysystème roumain (Even-Zohar, 1990). Après une présentation de la culture roumaine comme une « culture de la traduction » (Baer 2011, p. 10), il donne un aperçu général des traductions des auteurs brésiliens en roumain et propose une classification chronologique. La partie principale du travail présente les traductions roumaines des œuvres de Jorge Amado et analyse le rôle joué dans les processus de traduction par le filtre idéologique et la logique du libre marché.

Mots clés:
traduction littéraire; polysystème roumain; littérature brésilienne traduite; Jorge Amado

A tradução literária no polissistema de uma cultura semiperiférica

Pretendemos analisar neste artigo1 as traduções romenas de obras de Jorge Amado, tentando, ao mesmo tempo, contextualizar esse processo tradutório no polissistema (Even-Zohar, 1990) romeno. Situada numa posição semiperiférica (na acepção de Wallerstein, 2004), a cultura romena tem tido uma relação nem sempre consensual com as traduções. Enquanto “cultura de tradução”2 (Baer, 2011, p. 10), a cultura romena utilizou as traduções3 como mecanismo de sincronização com as culturas ocidentais (sobretudo a cultura francesa), que serviam de modelo às elites locais, mas ao mesmo tempo tentou resistir a uma possível assimilação cultural4 através da criação de produtos próprios. No caso concreto da literatura e da relação entre as publicações locais e as traduções, é notório o lema do intelectual e político romeno Mihail Kogălniceanu (1840), que já na primeira metade do século XIX queria combater a “mania da imitação”, afirmando de forma categórica: “Traducțiile nu fac o literatură” [As traduções não fazem uma literatura]. Essa tensão entre as produções locais e os textos literários traduzidos, que deriva da dominância destes no mercado, continua ainda hoje. Não é incomum ouvir escritores ou editores romenos lamentando em entrevistas ou em programas da rádio e da TV o papel marginal da literatura romena no mercado editorial atual, sobretudo quando fazem a comparação com a abundância das traduções.

Porém, como mostram Morar (2021, p. 50-60) e Nagy (2021, p. 61-73), nos seus estudos publicados no volume O istorie a traducerilor în limba română. Secolul al XX-lea [Uma história das traduções na língua romena. Século XX], as traduções tiveram um papel fundamental, tanto no desenvolvimento da cultura romena, sobretudo no processo de sua sincronização com as culturas ocidentais, como na evolução da língua romena, que, através das traduções, enriqueceu o seu léxico com empréstimos de línguas ocidentais.5

Deve-se mencionar ainda que os fluxos tradutórios na Romênia mostram algumas particularidades relacionadas com a posição semiperiférica desta cultura. De forma geral, no século XIX e na primeira metade do século XX há uma clara predominância das traduções de culturas cêntricas (francesa, inglesa, alemã) e de alguns autores de literaturas semiperiféricas (Borza, 2018; Morar, 2021). Em outras palavras, na paisagem editorial romena observa-se uma insistência obsessiva de conexão com o centro, em detrimento tanto da conexão com outras culturas semiperiféricas como da fomentação da produção local. A partir do fim da década dos anos 40 do século XX, observa-se o início de um processo de diversificação das traduções literárias: começam a ser traduzidos autores de literaturas latino-americanas ou africanas (Baghiu, 2018), consideradas também semiperiféricas e, respetivamente, periféricas, na acepção de Wallerstein. Na sua análise comparativa das traduções romenas de romances franceses e latino-americanos publicadas entre 1956 e 19716, Goldiș (2021, p. 235-250) assinala uma diminuição do papel da literatura francesa e uma crescente importância do romance latino-americano, tendência que influencia o sistema literário romeno no nível ideológico e de técnica literária. Aliás, de 1948 e a 1989, ano que marca a queda da ditadura comunista na Romênia, observa-se uma dispersão geográfica do romance traduzido, podendo ser destacadas algumas etapas (Baghiu, 2018, p. 66): a dominância soviética e a primeira dispersão geográfica (1948-1955); a equalização entre o Leste e o Oeste e a segunda dispersão geográfica (1955-1964); a dominação do Oeste e a recuperação das tendências ocidentais do período entre guerras; igualdade proporcional e subprodução (1975-1989). O pós-comunismo, que começa em 1990, tem também as suas particularidades, sendo as mais significativas a recuperação da independência editorial e a adaptação à lógica do mercado livre.

A literatura brasileira no polissistema romeno

Neste contexto, observar as traduções de literatura brasileira na Romênia (exemplo de transferências culturais entre semiperiferias) apresenta-se com uma análise de dupla marginalidade: por um lado, o polissistema romeno ocupa uma posição semiperiférica no sistema mundial e, por outro lado, como já assinalamos (Manole, 2024 a , p. 50-70), os autores brasileiros ocupam, por sua vez, uma posição marginal no conjunto das traduções literárias publicadas em romeno. Fazendo um breve levantamento histórico das traduções romenas de autores brasileiros, observamos que a cronologia desses eventos editoriais apresenta algumas etapas, com as suas caraterísticas definitórias:

  1. i. 1900-1947 ou o longo despertar, quase cinco décadas em que aparecem apenas duas traduções de obras brasileiras, publicadas em fascículos: em 1927, O răzbunare, de Medeiros e Albuquerque (tradução de Vana Umbră) e, em 1930, Somnul cel de groază, de Henrique Maximiliano Coelho Neto, traduzido por Mihail D.;

  2. ii. 1948-1958 ou o filtro ideológico,7 etapa em que a Romênia está sob ocupação soviética e começam a ser publicadas sobretudo obras de cunho realista-socialista, sendo Jorge Amado, como veremos mais adiante, um dos autores prediletos, com seis romances traduzidos; na década de 1950 são publicadas também traduções de obras de Orígenes Lessa e uma peça de teatro de Guilherme Figueiredo; essa etapa, de primazia dos critérios ideológicos na seleção dos autores traduzidos, coincide com o que Baghiu (2018) chamou de “a primeira dispersão geográfica” do romance;

  3. iii. 1959-1989: três décadas de perdas e ganhos, período em que começa a diversificação do leque de autores brasileiros traduzidos, mas em que a censura comunista interveio nos textos, por vezes até de forma brutal, sendo um exemplo ilustrativo as traduções dos romances Incidente em Antares e Senhor Embaixador, de Erico Veríssimo;8 trata-se de uma etapa bastante fecunda, em que são publicados autores como Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus, Graciliano Ramos, Murilo Mendes, Manuel Antônio de Almeida, José Sarney e Jorge Amado; destaca-se a publicação do volume Antologia poeziei braziliene [Antologia da poesia brasileira], editado por Darie Novăceanu, que contém poemas de autores de várias épocas e correntes literárias (por exemplo, Gregório de Matos Guerra, Claúdio Manuel da Costa, Ferreira Gullar e Octávio Mora);

  4. iv. 1990-2005: o pós-comunismo e a adoção da lógica do mercado livre, uma etapa de transições e adaptações ao funcionamento do mercado livre, depois de quase cinquenta anos de políticas e práticas editoriais sob controle do Estado; nesse período, deixam de funcionar as instituições responsáveis pela censura9, sendo publicadas edições integrais de traduções censuradas antes de 1989; é evidente a preferência dos critérios comerciais na escolha de obras e de autores, em detrimento dos critérios puramente literários; publica-se (em várias edições) o romance Sclava Isaura [A escrava Isaura], de Bernardo Guimarães, que deve o seu sucesso à enorme audiência da novela homônima; são publicados também autores como Lima Barreto, Maria Dezonne Pacheco Fernandes10 , Jorge Amado, Antônio Olinto, José Sarney, Neida Lucida Moraes e a edição integral da saga Timpul și vântul [O tempo e o vento], de Érico Veríssimo; essenciais nessa etapa são os apoios da Embaixada do Brasil em Bucareste, especialmente o envolvimento do embaixador José Jerônimo Moscardo, que escreveu os prefácios de diferentes traduções.

O início do século XXI (2005-presente): há o amadurecimento do mercado editorial, etapa marcada por uma sincronização com as práticas editoriais europeias, quando, no entanto, corre a crise financeira de 2007-2008, que perturba os fluxos editoriais. Uma das iniciativas mais importantes dessa etapa deve-se à editora Univers, que concorre aos editais da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e publica, graças a esse apoio financeiro, quase trinta romances brasileiros, da autoria de Adriana Lisboa, Clarice Lispector, Patrícia Melo, Jorge Amado, Moacyr Scliar, Alberto Mussa, Raimundo Carrero e Julián Fuks. Outras editoras publicam autores como Fernanda Torres, Luís Fernando Veríssimo, João Paulo Cuenca, Luiz Ruffato, Nélida Piñon e Paulo Lins (depois do sucesso do filme Cidade de Deus). Destaca-se nesses anos a autora Clarice Lispector, com seis volumes publicados; mencionamos também duas retraduções (Dom Casmurro, de Machado de Assis, a primeira tradução em 1965 por Paul Teodorescu, e a segunda tradução em 2012, por Simina Popa; Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, a primeira tradução em 2004 por Micaela Ghițescu, e a segunda tradução em 2023 por Corina Nuțu), fenômeno pouco comum no caso de autores brasileiros. A obra de Jorge Amado é traduzida ao longo das últimas quatro etapas, como veremos na seção seguinte.

Jorge Amado em romeno

Um dos escritores brasileiros mais traduzidos (Lowe 2013; Vejmelka 2014; Vauthier 2014; Silva 2019), Jorge Amado tem uma presença relevante também no panorama editorial romeno, com dezessete volumes publicados, dentre os quais uma retradução (do romance Capitães da areia) e uma reedição (da tradução do romance Gabriela, cravo e canela). A análise da sua penetração no espaço cultural romeno permite destacar os mecanismos de seleção dos autores de literaturas semiperiféricas numa paisagem editorial que mostra um interesse quase exclusivo pelo centro. Por outro lado, comparando pontualmente as traduções romenas com as traduções francesas de obras amadianas, observamos algumas particularidades da dinâmica das transferências entre o centro e a semiperiferia ou entre as semiperiferias. Enquanto o centro (a França) se mostrava aberto às culturas semiperiféricas (o Brasil), na semiperiferia (a Romênia) o objetivo era a sincronização quase-exclusiva com o centro e não com as restantes culturas semiperiféricas. A primeira tradução francesa de Jorge Amado data de 1938 (Mérian, 2014), ao passo que na Romênia o autor será traduzido com um atraso de uma década, quando assistimos também à mudança do centro hegemônico, que passa a ser a União Soviética no final da década dos anos 1940.

O filtro ideológico (1948-1958)

Podemos afirmar que, com as traduções das obras de Jorge Amado publicadas nesse período, assistimos de facto à entrada da literatura brasileira no polissistema romeno, uma vez que as duas traduções publicadas na primeira metade do século XX têm um caráter marginal. As obras traduzidas nessa etapa são sobretudo as de índole realista socialista, sendo preferidas pelas editoras (já sob o controle do Estado), porque se alinhavam à ideologia comunista, que estava sendo implantada na Romênia depois da Segunda Guerra Mundial. Essas traduções devem-se, em grande parte, à atividade política de Jorge Amado, uma vez que começam quando ele se torna conhecido na Europa11 enquanto militante comunista em exílio, mas terminam quando ele se afasta do Partido Comunista Brasileiro.

Publicadas na época de “subtil dispersão” (Baghiu, 2018, p. 66), o conjunto dessas traduções são relevantes também para observar a mudança do “centro” como ponto de referência para a cultura romena: se, na primeira metade do século XX, as literaturas ocidentais (sobretudo a francesa) funcionavam como centro e eram a fonte primária de importações,12 já com a imposição da cultura soviética enquanto cultura hegemônica, a paisagem editorial romena passa por transformações visíveis, começando a aparecer traduções que já tinham sido publicadas na União Soviética.13 Além do mais, como veremos mais adiante, o russo será utilizado para realizar traduções indiretas em romeno, uma vez que nessa altura não havia um ensino sistemático do português na Romênia14 e muito provavelmente não havia tradutores especializados neste idioma. Segundo Beliakova (2014), a primeira obra amadiana publicada na União Soviética apareceu em 1948, o mesmo ano em que o autor brasileiro é publicado na Romênia. Por conseguinte, é evidente o processo de sincronização com o novo centro hegemônico através da rápida importação de produtos culturais validados por esse centro.

As obras publicadas nesse período por editoras controladas pelo regime são: Pământ fără de lege [Terra do sem-fim], na tradução de George Demetru Pan; o volume Prima zi de grevă, na tradução de George Demetru Pan, que contém o fragmento Primeiro dia da greve de Jubiabá e outro fragmento de Terras do sem-fim, publicado aqui com o título Viața în colibă [A vida na cabana]; Pământul fructelor de aur [São Jorge dos Ilhéus], na tradução de Petre Iosif; Cavalerul speranței: viața lui Luís Carlos Prestes [O cavaleiro da Esperança: Vida de Luis Carlos Prestes], na tradução de Octavian Nistor; Secerișul roșu [Seara vermelha], na tradução de Vera Ilchievici e Ionel Jianu; e a trilogia Subteranele libertății [Os subterrâneos da liberdade], na tradução de H. R. Radian e Constantin Țoiu.

Uma caraterística dessa etapa é a predominância das traduções indiretas. Os editores mencionam de forma explícita que Pământul fructelor de aur [São Jorge dos Ilhéus] é uma tradução abreviada, realizada a partir de uma edição em espanhol, publicada no Uruguai. Uma possível influência para a escolha desse título pode ser, porém, a edição francesa, La Terre aux fruits d’or, que fora publicada na França em 1944. Cavalerul speranței: viața lui Luís Carlos Prestes [O cavaleiro da Esperança: Vida de Luis Carlos Prestes] é também uma tradução abreviada do volume francês Le Chevalier de l’Esperance, publicado em 1949 em Paris. Secerișul roșu [Seara vermelha] foi traduzido a partir da edição russa, publicada em Moscou em 1949. No caso da trilogia Subteranele libertății [Os subterrâneos da liberdade], não se menciona a língua de partida, com os editores escrevendo na página de rosto apenas “în românește de H. Radian și Constantin Țoiu” [“em romeno por H. Radian e Constantin Țoiu”], mas podemos pressupor que se trata de uma tradução direta, pois é mencionada a edição brasileira na descrição técnica do livro. Outra prática comum na época eram as traduções realizadas por um tradutor (nesse caso, H. Radian), que fazia uma primeira tradução bruta, e um escritor (nesse caso, Constantin Țoiu), responsável pela estilização do texto na língua de chegada. Em Manole (2024c, p. 39-50) mostramos que até alguns elementos paratextuais - por exemplo, o prefácio de Pământul fructelor de aur [São Jorge dos Ilhéus] - são traduzidos a partir das edições soviéticas.

Se fazemos uma comparação das traduções romenas com a obra amadiana publicada até o final da década dos 1950, observamos que apenas as obras de índole realista socialista foram selecionadas pelos editores romenos15, portanto, o filtro ideológico operou em dois níveis: por um lado, foram selecionados autores que se destacam por sua carreira ou atividade de militância política, sendo Jorge Amado um caso exemplar; por outro lado, da totalidade das obras amadianas, foram selecionadas as de cunho realista socialista, que serviam os interesses ideológicos do regime. O mesmo fenômeno deu-se também na União Soviética.16

Três décadas de ganhos e de perdas (1959-1989)

Como já referimos, depois do afastamento de Jorge Amado do Partido Comunista Brasileiro, as traduções romenas da obra dele pararam. Em 1957, é publicada a trilogia Subteranele libertății [Os subterrâneos da liberdade], seguindo-se um hiato de quase duas décadas e meia até à próxima tradução. O romance Gabriela é publicado só em 1981 pela editora Univers, na tradução de Dan Munteanu. Na mesma década, em 1989, é publicada a obra Păstorii nopții[Os pastores da noite], na tradução de Gabriela Banu.

Esse período de três décadas, em que as editoras romenas tentam conseguir uma ressincronização com as culturas ocidentais, carateriza-se também pela maior dispersão geográfica das traduções e por uma ligeira diminuição dos critérios ideológicos na seleção dos autores traduzidos. Os fluxos editoriais, porém, eram totalmente controlados pelas instituições, que aplicavam uma censura implacável. O controle do regime manifestava-se na censura de obras literárias ou de autores, exercida em vários níveis antes da publicação do livro.17 Havia autores proibidos (por exemplo, Eugène Ionesco, Jean d’Omersson, Vaclav Havel, Milan Kundera), havia temas proibidos (a religião, o sexo, as violações, a homossexualidade, as revoluções, até as guerras) e, por conseguinte, os censores tinham intervenções mais ou menos brutais nos textos traduzidos, com o objetivo de eliminar fragmentos considerados inadequados. O título do livro era também importante, não sendo escassos os casos em que devia ser alterado para se conseguir a publicação.18 Conhecendo o modus operandi dos censores, os tradutores que queriam ver um determinado livro publicado utilizavam também diversas estratégias de autocensura,19 edulcorando ou eliminando os parágrafos possivelmente problemáticos.

No que diz respeito às obras de Jorge Amado, um ganho em si é o recomeço das traduções de obras amadianas, dessa vez realizadas diretamente do português. Porém, uma perda que ocorreu nesse período foi a falta de mais traduções, uma vez que as editoras não aproveitaram o momento de “degelo” e liberalização para recomeçar mais cedo as traduções das obras amadianas, como o romance Gabriela, cravo e canela, publicado no Brasil já em 1958. A tradução Gabriela [Gabriela, cravo e canela], publicada só em 1981, foi realizada a partir da edição original por Dan Munteanu, conhecido hispanista romeno, com o apoio de Maria Theban e Roxana Eminescu, especialistas em linguística e literatura portuguesas, segundo menciona o próprio tradutor numa nota de rodapé do prefácio. O romance Păstorii nopții[Os pastores da noite], é publicado em 1989 pela editora Univers e se beneficia de um amplo prefácio redigido pela tradutora Gabriela Banu. Trata-se de uma tradução realizada a partir da edição brasileira de 1980, publicada na editora carioca Record.

A lógica do mercado (1990 até ao presente)

Com a queda do regime comunista em 1989, assistimos ao nascimento gradual de um novo mercado editorial romeno, que começa a funcionar de acordo com as leis da oferta e da procura. Sobretudo a primeira década do pós-comunismo se afigura como um período único, do ponto de vista da dinâmica das traduções (Sâsâiac, 2021, p. 202-2014), sob a influência das múltiplas transformações da sociedade romena, na sua transição de um regime ditatorial para uma sociedade livre. Na década dos anos 1990, ocorre uma verdadeira explosão do número de editoras, mas poucas conseguem sobreviver num mercado extremamente concorrente, devendo-se o sucesso fulgurante das que, entretanto, desapareceram às escolhas editoriais em que predominava o critério comercial, em detrimento dos critérios estéticos. Por conseguinte, começam a ser traduzidos autores mais vendáveis na época, como Bernardo Guimarães e Maria Dezonne Pacheco Fernandes, cujos livros têm sucesso graças às novelas realizadas a partir dos romances, Ecrava Isaura e Sinhá Moça. A partir da década de 2000, começa a ser publicado Paulo Coelho.

Nesse contexto de múltiplas transformações, a editora Logos publica a obra Căpitanii nisipului [Capitães da Areia], na tradução de Gabriela Banu, e na editora Univers aparece o volume Tocaia Grande: fața ascunsă [Tocaia grande: fața ascunsă], na tradução de Anca Milu Vaidesegan. Ambas são traduções diretas, realizadas a partir das edições originais em português, sem prefácios nem estudos introdutivos, com uma série consistente de notas de rodapé, que visam a esclarecer termos específicos da cultura e da sociedade baianas. As duas obras continuam a série de obras que retratam o “exotismo” brasileiro.

Em 2008, a editora Univers publica uma segunda edição Gabriela, tradução de Dan Munteanu Colán, realizada em 1981. A maior diferença em relação à primeira edição é a ausência do prefácio, o que, na nossa opinião, empobrece essa reedição, por não oferecer ao leitor do século XXI uma contextualização da obra amadiana e do romance. De modo geral, notamos que, na última década do século XX e na primeira década do século XXI, as publicações de obras brasileiras traduzidas são escassas.20

Um mecanismo que visa a corrigir a preferência dos editores pelas literaturas ocidentais ou por autores mais comerciais é o apoio institucional e financeiro oferecido pelos países de origem. Graças ao apoio financeiro da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a editora Univers publicou, entre 2012 e 2016, quase trinta romances brasileiros, dentre os quais cinco são de autoria de Jorge Amado: Căpitanii nisipurilor [Capitães da areia], Dona Flor și cei doi soți ai ei [Dona Flor e seus dois maridos], Prăvălia de miracole [Tenda dos milagres], Cizme, robă, cămașa de noapte [Farda, fardão, camisola de dormir], Morțile lui Quincas Berro Dágua. Bătrânii marinari [A Morte e a morte de Quincas Berro d’Água. Os velhos marinheiros ou o Capitão de longo curso].

Căpitanii nisipurilor [Capitães da areia] é um dos raríssimos caso de retradução de literatura brasileira em romeno: a primeira tradução foi realizada por Gabriela Banu em 1995, ao passo que a segunda, com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, foi publicada pela editora Univers e realizada por Laura Bădescu. As outras quatro obras traduzidas com o apoio da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro entre 2012 e 2014 fazem parte da literatura amadiana em que se retratam os costumes da sociedade baiana e a cultura da Bahia, podendo integrar a categoria de traduções que pretendem mostrar ao público romeno o “exotismo” brasileiro.

Considerações finais

Analisando a arquitetura do polissistema romeno, Goldiș (2022, p. 62-67) faz uma distinção entre importações (escritores que exerceram uma influência significativa no polissistema romeno) e traduções, demostrando que há muitos exemplos de “importação sem tradução”, ou seja, de autores lidos no original (sobretudo em francês e, mais recentemente, em inglês) que exerceram uma influência considerável na literatura romena. Continuando esse raciocínio, podemos afirmar que há também “traduções sem importação”, que seriam os autores traduzidos que não chegaram a exercer uma influência significativa no polissistema romeno. Jorge Amado pode ser considerado um autor traduzido que não chegou a ser importado, apesar de ter tido, sobretudo num primeiro momento, uma posição privilegiada no panorama editorial romeno, sendo um dos “monopolistas” da República Popular das Letras (Djagalov, 2018, p. 26).

As etapas sucessivas de sua publicação representam, porém, um barômetro da evolução do polissistema literário romeno, que incorporou as influências exteriores à dinâmica do fenômeno estritamente literário: as mudanças de regime político, a adoção das ideologias dominantes, a adaptação às flutuações socioeconômicas ou as reconfigurações sucessivas das instituições literárias. Por conseguinte, a penetração inicial (por superficial que fosse) da obra de Jorge Amado no panorama editorial romeno deve-se à adaptação do polissistema literário romeno às normas impostas ao setor cultural durante a ocupação soviética. Essa adaptação nunca foi, porém, uma submissão total, uma vez que, durante toda a época comunista, foram publicadas também diversas obras subversivas.21 Podemos interpretar o hiato de mais de duas décadas entre 1957, quando foi publicada a tradução de Subterrâneos da liberdade, e 1981, quando aparece a tradução do romance Gabriela, cravo e canela, como uma forma de resistência às importações de autores percebidos como tributários a uma ideologia imposta pelo regime soviético de ocupação. Aliás, quando observamos a lista de obras amadianas traduzidas em romeno e tomamos em consideração os anos de publicação, podemos afirmar que a sua temática pode ser circunscrita entre o político e o exótico, sendo a mesma estratégia editorial visível no caso da Alemanha (Vejmelka, 2014). Se o político é dominante durante o controle soviético das instituições literárias romenas, o exótico começa a surgir quando as editoras começam a ter uma autonomia frágil nos seus planos editoriais (controlados pelos censores), e se torna evidente durante o pós-comunismo. Sendo a lógica da oferta e da procura dominante no pós-comunismo, observa-se que num mercado orientado quase exclusivamente para as importações das culturas ocidentais, o apoio institucional da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro desempenha um papel significativo nas traduções de autores brasileiros, inclusive dos romances de Jorge Amado. De forma geral, podemos afirmar que a presença da obra amadiana no polissistema romeno deve-se, por um lado, ao filtro ideológico imposto entre 1948 e 1958 e, por outro lado, aos mecanismos do mercado livre no pós-comunismo.

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  • MANOLE, Veronica. Traduzindo Érico Veríssimo através do espelho ideológico: o papel da censura comunista. In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE LUSITANISTAS, 14., 2024b, Porto. Livro de Resumos [...]. Porto: Universidade do Porto, 2024b. p. 172-173. Disponível in: https://ailporto2024.pt/wp-content/uploads/2024/07/LIVRO-DE-RESUMOS-17-jul_2.pdf Acesso em: 26 abr. 2025.
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  • MANOLE, Veronica. Ideologicamente falando: paratexto nas traduções romenas das obras realistas socialistas de Jorge Amado. Transilvanyan Review, Cluj-Napoca., v. XXXIII. n. 2, p. 39-50, 2024c. Disponível online: URL: https://centruldestudiitransilvane.ro/transylvanianreview_xxxiii_suppl2_2024_39_47/
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  • MÉRIAN, Jean-Yves. Jorge Amado dans la collection “La Croix du Sud” de Roger Caillois. Amerika. Mémoires, identités, territoires, Rennes, v. 10. 2014. Disponível online in: URL: https://journals.openedition.org/amerika/4992
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  • MORETTI, Franco. Atlas of the European Novel: 1800-1900. London: Verso, 1998.
  • MORAR, Ovidiu. Situația traducerilor în limba română în contextul cultural-istoric al secolului al XX-lea. In: Constantinescu, Muguraș; Dejica Daniel; Vîlceanu, Titela. O istorie a traducerilor în limba română București: Editura Academiei Române, 2021. v. 1, p. 50-60.
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  • VIDA, Raluca. De la censure officiele à l’ “autocensure” dans les retraductions de Madame Bovary en roumain. In: BALLARD, Michel (ed). Censure et traduction Arras: Artois Presses Université, 2011, p. 305-316.
  • WALLERSTEIN, Immanuel. World-Systems Analysis: An Introduction. Durham: Duke University Press, 2004.
  • 1
    Esta pesquisa foi realizada no âmbito do projeto Translating Brazil through the Ideological Looking Glass (SRG-UBB no 32862/20.06.2023), financiado pela Universidade Babeș-Bolyai.
  • 2
    Segundo Baer (2011, p. 10), as “culturas de tradução” relacionam-se com a noção de identidade comum recuperada através da tradução, que serviu de metáfora heroica para representar, por um lado, o triunfo sobre o atraso percebido e, por outro lado, uma forma de sobreviver ao ataque - ou à inundação - das influências estrangeiras.
  • 3
    Sobretudo no século XIX e nas primeiras décadas do século XX, o período em que ocorreu a cristalização identitária da cultura romena, as traduções desempenharam um papel fulcral.
  • 4
    São de notoriedade afirmações de escritores e intelectuais romenos como Nicolae Iorga e Benjamin Fundoianu, que descreviam a Romênia como uma “colónia cultural francesa” (Morar, 2021, p. 51; Goldiș, 2022, p. 66).
  • 5
    No século XIX, a influência cultural da França, manifestada também através de importações culturais significativas, determinou mudanças evidentes no léxico, com os linguistas falando de uma verdadeira “relatinização” do romeno, graças aos empréstimos do francês.
  • 6
    Na cultura romena, este período é chamado o “degelo” e coincide com o “degelo de Kruschev”, período de relativa liberalização na URSS, em que diminuíram a repressão política e a censura, graças às políticas de “desestalinização” do líder soviético Nikita Kruschev.
  • 7
    Utilizamos para a descrição desta etapa a terminologia de Terian (2013, p. 180-194), que fala sobre o “filtro ideológico” para analisar as traduções de volumes de crítica e teoria literária publicadas na Romênia entre 1965 e 1989.
  • 8
    Em Manole (2024b) fizemos uma análise detalhada dos trechos do romance Incidente em Antares, de Erico Veríssimo, eliminados ou edulcorados pelos censores comunistas.
  • 9
    Trata-se de diferentes departamentos da Direcția Generală a Presei și Tipăriturilor [Direção Geral da Imprensa e das Impressões], dentre os quais mencionamos: as seções Autorizarea cărții [Autorização do livro], Controlul cărții [Controle do livro], Control Biblioteci-Anticariat [Controlo Bibliotecas-Sebo]. Para uma descrição detalhada do modus operandi dessas instituições, ver Corobca (2014).
  • 10
    Na capa da edição romena do romance Sinhá-Moça (o título completo da tradução é Sinhá-Moça, tânăra stăpână) aparecem os atores Lucélia Santos e Rubens de Falco, protagonistas da telenovela homônima, que passou na televisão romena em 1994 e teve audiências importantes. A tradução foi publicada no mesmo ano, depois da difusão da novela.
  • 11
    Em 1949, o escritor brasileiro faz uma visita à Romênia, amplamente divulgada na imprensa, e conhece escritores da recém criada União dos Escritores Romenos, professores universitários e diversos trabalhadores de Bucareste e de outras cidades, como Cluj e Lupeni.
  • 12
    Utilizamos o termo “importação” na aceção de Moretti (1998), que descreve a produção literária do romance na Europa em termos de importação e exportação, em função da posição hegemônica ou periférica das diversas literaturas nacionais.
  • 13
    Aliás, Djagalov (2018, p. 26) identifica um conjunto de autores (o soviético Ilya Ehrenburg, o polonês Jarosław Iwaszkiewicz, a alemã Anna Seghers, o romeno Mihail Sadoveanu, o húngaro György Lukács, o turco Nâzim Hikmet, o francês Louis Aragon, o chileno Pablo Neruda, o brasileiro Jorge Amado, o chinês Go Mo Zho e o americano Howard Fast) que qualifica como “monopolistas”, já que desempenham um papel essencial de ligação entre Moscovo e as respectivas literaturas nacionais, na tentativa soviética de criar uma República Popular das Letras. Aliás, os fluxos tradutórios refletem esta qualificação, na medida em que se trata de autores amplamente traduzidos na URSS e nos países satélite no período de dominância soviética.
  • 14
    O ensino do português na Romênia começou em 1974, com a abertura de um leitorado do Instituto de Alta Cultura (o precursor do atual Instituto Camões) de Lisboa.
  • 15
    O romance Capitães da areia só terá uma primeira tradução em romeno em 1995.
  • 16
    Análises mais amplas sobre as traduções em russo fizeram Darmaros (2016) e Beliakova (2012; 2014).
  • 17
    Ver também Ghițescu (2012, p. 139-146) para uma descrição mais detalhada do funcionamento da censura no caso das traduções.
  • 18
    Um dos casos mais famosos é o romance Memorial do convento, do escritor português José Saramago, cuja tradução romena foi publicada em 1988 com o título de Memorialul de la Mafra [O memorial de Mafra].
  • 19
    Vida (2011, p. 305-316) explica como funcionava a autocensura no nível estilístico nas retraduções de Madame Bovary, sobretudo nos fragmentos alusivos às relações sexuais.
  • 20
    Trata-se, no total, de menos de dez traduções novas, de obras de Antônio Olinto, Neida Lucia Moraes, José Sarney, José Mauro de Vasconcelos, Luis Fernando Veríssimo, Paulo Lins, bem como de reedições de traduções publicadas anteriormente (Machado de Assis) ou de republicações em versão integral de traduções censuradas durante a ditadura (Erico Veríssimo).
  • 21
    Ver, entre outros, Goldiș (2018, p. 87), que propõe uma classificação da subversão literária na Romênia em duas etapas: a subversão realista (anos 60 e 70) e a subversão formalista (a partir do final dos anos 70 até à queda do regime).
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Declaração dos Editores:
    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutiérrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jun 2025
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2025

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2024
  • Aceito
    31 Mar 2025
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