Resumo
O diálogo explícito e implícito entre Georges Bataille e Jean-Paul Sartre foi um momento crucial para as mutações sofridas tanto no gênero ensaístico quanto na filosofia e literatura francesas do século XX, em particular aquelas que vivenciaram o período pós-Segunda Guerra Mundial. Neste artigo, proponho a passagem por alguns momentos em que as obras desses dois autores entraram em contato, de modo a ressaltar a constante presença de duas palavras, “escolha” e “decisão”, que parecem ainda ser pertinentes para o que seria uma revalorização ou reavaliação da noção de engajamento como noção-chave da crítica e teoria literária.
Palavras-chave:
política; poesia; nudez; teoria literária; literatura francesa
Abstract
The explicit and implicit dialogue between Georges Bataille and Jean-Paul Sartre was a crucial moment for the mutations that occurred in the genre of the essay, as well as in 20th-century French philosophy and literature, particularly in the post-World War II period. In this article, I propose to examine some moments where the works of these two authors came into contact, highlighting the constant presence of two words, “choice” and “decision”, which still seem pertinent for what would be a revaluation or reassessment of the notion of engagement (or “committed literature”) as a key notion in literary criticism and theory.
Keywords:
politics; poetry; nudity; literary theory; french literature
Résumé
Le dialogue explicite et implicite entre Georges Bataille et Jean-Paul Sartre a été un moment crucial pour les mutations survenues à la fois dans le genre de l'essai, mais aussi dans la philosophie et la littérature françaises du XXe siècle, en particulier celles qui ont traversé l'après-Seconde Guerre mondiale. Dans cet article, je propose de parcourir certains moments où les œuvres de ces deux auteurs sont entrées en contact, afin de souligner la présence constante de deux mots, “choix” et “décision”, qui semblent toujours pertinents pour ce qui serait une revalorisation ou une réévaluation de la notion d'engagement en tant que notion clé de la critique et de la théorie littéraire.
Mots-clés:
politique; poésie; nudité; théorie littéraire; littérature française
Die Sprache bringt es an den Tag [A língua traz isso ao dia] Victor Klemperer
Pode-se sempre arriscar conjeturar - e as conclusões seriam ao mesmo tempo determinantes e insatisfatórias - se Jacques Derrida ainda acharia bonita a palavra “engajamento”, como ele disse uma vez, mesmo após toda a dimensão incitante que se apoderou da palavra no Brasil ao longo do segundo decênio do século XXI. O desenvolvimento e a expansão do uso das redes sociais e das plataformas de compartilhamento de vídeos não poderiam ser previstos em 1996, na ocasião do cinquentenário da revista Les Temps Modernes, quando Derrida prestou sua homenagem a um de seus fundadores, Jean-Paul Sartre.
No final do século XX, engajamento ainda remetia majoritariamente ao campo de ação no debate político público do intelectual, implicado no livre pensamento ou na criação pensante, sendo justamente Sartre o seu principal arauto. Embora ainda estivessem bem frescos os ressentimentos em relação ao discurso engajado na condição pós-totalitária do fim da Guerra Fria e da dissolução da União Soviética, isso não foi o bastante para anular a beleza dessa palavra que, no francês, engagement, fazia Derrida ajuizar entre garantia (gage) e desafio (gageure), encontrando ali um engajamento próprio da linguagem (langage).2 Engajamento não muito diferente daquele que, muitos anos antes, em crítica ao uso que Sartre fazia da mesma palavra, Alain Robbe-Grillet também aspirava estabelecer como um dos novos critérios do Nouveau Roman: engajamento conceitualizado especialmente para o escritor como “a plena consciência dos problemas atuais de sua própria linguagem, a convicção da extrema importância deles, a vontade de resolvê-los de dentro”3 (Robbe-Grillet, 2013, p. 47, tradução nossa).
De lá para cá, e da França ao Brasil, contudo, não se fala tanto de um engajamento da linguagem.4 Se engajamento foi uma palavra decisiva para designar o comportamento de uma série de escritores, sendo, inclusive, usada como parâmetro pejorativo para o escritor não implicado politicamente, ela agora se refere muito mais ao público - em especial a um público em contato com a internet. É antes o público, não mais o escritor, que deve ser engajado. E não no sentido ativo, mas passivamente. É o público que deve ser persuadido, conquistado, levado a “visualizar” - para só depois, ativamente, “curtir”, “comentar”. E não necessariamente de maneira política - na maioria das vezes é até melhor que assim não o seja, que não haja restrição de um possível número de suas visualizações. Em resumo, melhor se engaja um público “desengajado” politicamente. Engaja-se, não mais o sujeito engajando a si próprio, em meio poético ou político, mas o sujeito engajando um coletivo.
Tudo isso indica um deslocamento do foco e, consequentemente, das regências do verbo engajar. Deslocamento que, embora tenha suas próprias implicações, não deixa vazia a sua posição anterior, de uma autorreferencialidade explicitamente política da palavra; pois agora ela é mais do que nunca ocupada pelo que chamaríamos de “militância”. Ocupada, talvez com as mesmas ressalvas dadas antigamente à escrita ou à atividade engajadas, as quais, creio, deveriam, ainda hoje, ser questionadas. Sobretudo porque, mesmo no coração da disputa, referente à demanda e à legitimidade de engajamento ou não da literatura - se entendemos isso como militância, dando-lhe um caráter pretensamente mais bélico -, os termos em jogo não parecem, no entanto, estar claros. Incluindo aqueles que se referem mais diretamente ao lugar ocupado pela poesia, essa forma ou gênero literário para o qual as palavras assumiriam uma pertinência sem igual.
O que outrora Sartre exigiu e que por vezes parecemos recusar, paradoxalmente exigindo-o à nossa maneira, foi realmente a militância do escritor? Ele cobrava de fato uma atividade literária que, em “situação”, para dizê-lo com duas de suas palavras determinantes, deveria se implicar belicamente na política de seu tempo, de sua “época”? E, se sim, seria isso um modo ultrapassado ou ainda atual de conceber o fazer e as consequências da literatura, quiçá as suas relações com a imago que resta de um autor após a sua morte? Seria isso a implicação própria da literatura? Como é que se pode rejeitá-la, abraçá-la, ou - para seguir à risca o vocabulário sartriano - escolhê-la?
É bem possível que, em vez de escolhê-la, hoje fosse muito mais necessário decidir por essa implicação. Ou decidi-la, isto é, ir até o fim, até o ponto de decisão, e não tanto se firmar no que seria o antecipado momento das alternativas, das escolhas. Daí uma diferença a ser produzida, no que compete ao mesmo tempo à filosofia e à teoria literária, entre “escolha” e “decisão”, cujos primeiros esboços foram avançados, por vezes evitados, justamente no tempo de escritores como Sartre e, um de seus mais ambíguos interlocutores, Georges Bataille.
Não seria à toa que Derrida, atento que estava ao debate formado entre ambos os escritores, tenha reafirmado mais tardiamente a importância de se fazer uma filosofia da decisão. Esta, a seu ver, seria uma das grandes questões éticas da política contemporânea. A meu ver, tal diferença entre a escolha e a decisão jamais poderia ser a mesma que nos deixa “entre a cruz e a espada”, como diz a expressão popular. Ou seja, que nos bifurca, às vezes nos paralisando, entre os caminhos do misticismo ou do materialismo, do engajamento ou da desengajada alienação. Cada postura ou impostura de Sartre ou de Bataille são nada menos que a expressão das incongruências dos tempos que eles viveram, de Ocupação e subsequente Liberação, e também dos tempos anacrônicos que eles mesmos formaram. Ambos também avançam o desejo de uma escrita que não busca repetir ou instaurar a dominação, jamais integralmente satisfatório. Tendo isso tudo em vista, almejo indagar aqui sobre o uso dos dois termos em questão no silencioso diálogo que um escritor entreteceu com outro. Entendo, pois, que - sem necessariamente se findar nas obras de cada um - uma considerável parte do discurso filosófico e literário contemporâneo encontraria aí, nesse silêncio irrequieto da teoria literária, um meio pelo qual ainda se poderia falar de engajamento da literatura.
A escolha existencial
Por um lado, não foi Sartre quem primeiramente teria conferido ao intelectual a benção ou maldição (a depender da leitura crítica) do engajamento. A implicação ética do papel do escritor margeia toda a história da censura e das negociações entre escrita e pólis. O debate não poderia ser novo na França, se encarado como uma escolha entre a “vida” ou a “arte”, principalmente depois de toda a história literária que se deu na passagem do século XIX ao XX e, depois, com o imperativo estimado pelas vanguardas por uma transformação direta da vida por meio das artes. Por outro lado, foi Sartre, de fato, quem entregou à noção o seu caráter de operador filosófico e, talvez, quem a tornou de vez um dos mais decisivos instrumentos de análise da crítica literária.5
Desde então, é indiscutível a dimensão política da escrita, tenha ela ou não bem explícitas a sua relação com o tempo, tenha ela ou não um endereçamento, sendo ela ou não literária. A escrita é política, mesmo não se querendo política; a escrita é endereçada, endereçando-se ou não. E talvez tenha sido exatamente o encetamento disso a que Sartre tenha aspirado, ao intitular seu maior ensaio sobre o assunto com uma pergunta tão ontologizante como “Que é a literatura?”: estabelecer um princípio ético do literário; ou tão simplesmente não permitir que a política fosse integralmente apagada ou neutralizada na dinâmica desse mesmo campo - é isso que Sartre dizia ter ocorrido durante o fim do século XIX, a partir de algumas expressões da “arte pela arte” ou do “realismo” científico desinteressado, chegando mesmo a condenar moralmente Baudelaire e Flaubert. Para Sartre, a literatura francesa teria sido herdeira de uma “tradição” da “irresponsabilidade”, em razão da qual uma parte de seus escritores usufruiriam de uma “má consciência literária”. Na outonada da Segunda Guerra, nesse momento crítico da política europeia, seria, então, mais do que nunca imprescindível reverter ou denunciar tal irresponsabilidade (Sartre, 1948, p. 9-10) - é curioso, porém, que, mais tarde, o próprio Sartre reconheceria que, naquele momento, ele “ainda acreditava em Papai Noel”.6
É certo que o entendimento do filósofo acerca do engajamento mudou ao longo do tempo, e seria injusto encerrar a sua obra numa interpretação que não levasse em conta suas mutações. Não seria injusto, todavia, levar em conta como, antes dessas mutações, frutos ou não do reconhecimento de fracassos, as suas elucubrações foram recepcionadas, ora com críticas menos afetuosas, ora com aquiescências. É preciso que sejam levadas a sério, embora com a consciência dos giros de perspectivas, as imprecauções e imprecisões de Sartre, especialmente no tocante à obra de outros autores, como será o caso, aqui, da obra de Georges Bataille, não para demonstrar a primazia teórica da obra de um sobre a do outro, mas para dar algum vislumbre da complexidade tentacular pelos intercâmbios de um debate filosófico-literário complexo.
Sartre desenvolveu o que ele entendia por “engajamento” com mais fôlego e de um modo mais relacionado com a literatura após a liberação da Ocupação nazista na França, isto é, durante o início dos anos 1940. A palavra já aparecia explicitamente designando o literário na famosa apresentação que ele escreveu para o primeiro número da revista Les Temps Modernes, em 1945, aludindo ainda ao período de Ocupação, recém-findo, como a exigência histórica que posiciona o escritor diante de sua responsabilidade; na mesma ocasião, aliás, em que tal responsabilidade era compreendida como a decisão por uma “ação voluntária” num determinado tempo.7 Entretanto teria sido bem antes que se sedimentarem as bases desse “engajamento” sartriano; antes, quando Sartre já gozava de um prestígio como filósofo e se dividia entre as urgências da resistência e a crítica literária de seus contemporâneos. Poderia isso ter sido diferente? Seria possível, durante um período de violenta vigilância, de restrição dos espaços de oposição, reclamar o explícito engajamento da filosofia ou da literatura? Fazê-lo não seria se privar desses espaços clandestinos, tão necessários para o fortalecimento da resistência?
Em O ser e o nada, publicado em junho de 1943, já se podia observar como Sartre desejava conceber uma análise da “escolha” e de sua dissimulação, que mais tarde fundamentaria seu entendimento da ação literária. Essa mesma dissimulação foi um dos princípios da “má-fé”, ou má consciência, que unia a hermenêutica da existência de base heideggeriana com as análises fenomenológicas da consciência empreendidas por Husserl. A isso se somava uma tentativa de análise psicanalítica, reconhecidamente de inspiração freudiana, mas também querendo-se distante desta, que buscava investigar a psique, tendo por pressuposto que a “realidade-humana se anuncia e se define pelos fins que ela persegue” - ou, quando Sartre optava por dizê-lo de outra maneira, “a realidade humana enquanto escolha empírica [choix empirique] de seus próprios fins” (Sartre, 2007, p. 703).
Essa “psicanálise existencial”, como o filósofo a chamava em O ser e o nada, seria uma espécie de “hermenêutica” que iria do reconhecimento e da identificação à elaboração de um conceito capaz de formular a avaliação existencial dos sujeitos - “uma decifração, uma fixação e uma conceitualização” (Sartre, 2007, p. 606-614). No decorrer dessa progressão de análise, seria a “escolha” - choix, no francês de Sartre - que ganharia a importância de um gesto decisivo, que, mais adiante, será a expressão do escritor engajado - ou, quando dissimulado, um gesto carregado de “má-fé” (mauvaise foi):
[...] cada conduta humana simboliza à sua maneira a escolha fundamental [le choix fondamental] a ser elucidada, e uma vez que, ao mesmo tempo, cada uma delas disfarça essa escolha sob seus caracteres ocasionais e sua oportunidade histórica, é pela comparação entre tais condutas que faremos brotar a revelação única que todas elas exprimem de maneira diferente (Sartre, 2007, p. 696).
O destrinchamento do sujeito, o discernimento no tocante às suas escolhas, é o que ressaltaria toda a incoerência desse mesmo sujeito. À primeira vista, a interpretação analítica pode parecer constrangida, dado o modo como um sujeito, em vez de simbolizar, disfarçava aquilo que ele realmente desejava (como é que, ao mesmo tempo, se lê um símbolo disfarçado?). Por outro lado, seria nesse mesmo ponto que a psicanálise de Sartre não se afastaria muito do método psicanalítico de Freud, que também privilegiava os momentos em que o sujeito trai a si mesmo - esses momentos em que as suas contradições transmitem algo que ele não gostaria que fosse, consciente ou inconscientemente, transmitido. Porém, no caso da psicanálise existencial, o todo contraditório revelaria, por meio da “comparação”, de um exame dessa incoerência, uma escolha primordial. Eis o verdadeiro alvo do analista existencial: a escolha a ser elucidada, trazida, enfim, à luz e de sua respectiva verificação. Pouco interessariam, portanto, os efeitos ou os sintomas - essas contradições no interior do sujeito, alguma resolução ou o simples entendimento de que não haveria jamais soluções integrais, tal como a psicanálise freudiana acabaria por afirmar:
É um método destinado a elucidar, com uma forma rigorosamente objetiva, a escolha subjetiva [le choix subjectif] pela qual cada pessoa se faz pessoa, ou seja, faz-se anunciar a si mesmo aquilo que ela é. Uma vez que o método busca uma escolha de ser, ao mesmo tempo que um ser, deve reduzir os comportamentos singulares às relações fundamentais, não de sexualidade ou de vontade de poder, mas sim de ser, que se expressam nesses comportamentos (Sartre, 2007, p. 702-703).
No caso do analista existencial, nas palavras de Sartre, não seria o caso de se ater simplesmente à superficialidade de certas escolhas corriqueiras ou identitárias, definindo o sujeito por aquilo que ele aparenta ser, seja para si mesmo, seja para o outro. Esse existencialismo se voltaria, antes de tudo, a elucidar a “escolha de ser”, toda a escolha de um destino, de uma destinação do sujeito. É com esses mesmos termos, inclusive, que Sartre viria a afirmar depois, no seu ensaio sobre Baudelaire, que “a escolha livre que o homem faz para si mesmo se identifica absolutamente com o que chamamos o seu destino [sa destinée]” (1975, p. 179, tradução nossa).8 Essa destinação, determinada por uma escolha originária, pautaria a vida do sujeito como um gesto de sua primeira infância a ser reafirmado até a sua maturidade, tendo por cume o nexo de uma morte em coesão. Não à toa, as mais polêmicas leituras de Sartre são desses escritores mortos, tais como Baudelaire, Flaubert ou Mallarmé. Esse dos quais a análise biográfica, sobretudo concentrada nas revelações de textos íntimos, como foi o caso de Baudelaire, viria a elucidar trajetos cujo fim, então sabido por todos, poderia vir a ser agora determinado moralmente:
Essa alma singular vive na má-fé. Há, na verdade, nela alguma coisa que ela dissimula numa fuga perpétua: é que ela escolheu não escolher [elle a choisi de ne pas choisir] o seu Bem, é que a sua liberdade profunda, resmungando diante dela mesma, pega emprestado de fora princípios já feitos, precisamente porque eles já estão feitos. De fato, não seria preciso acreditar, como Lemaitre, que essas complicações sejam clara e manifestamente desejadas e que Baudelaire aplica unicamente uma técnica do epicurismo: nesse caso, todas as artimanhas seriam vãs, ele se conhecia muito para se enganar. A escolha [le choix] que ele fez dele mesmo está muito mais profunda nele. Ele não a distingue porque ele se faz um com ela. Mas também não é preciso assimilar uma livre eleição dessa espécie às obscuras químicas que os psicanalistas relegam ao inconsciente. Essa eleição de Baudelaire é a sua consciência, é o seu projeto essencial. Num certo sentido, então, ele está tão imbuído dela que ela é como a sua própria transparência. Ela é a luz de seu olhar e o gosto de seus pensamentos. Mas nessa escolha [ce choix] mesma ele implanta a intenção de não se dizer, de abraçar todo conhecimento e de não se fazer conhecer. Numa palavra, essa escolha original [ce choix originel] é originalmente uma escolha por má-fé (Sartre, 1975, p. 76, tradução nossa).
A experiência ensaística
A lucidez que Sartre atribuiu a Baudelaire, lucidez que jamais poderia ser lida na chave de uma análise do inconsciente à maneira de Freud, como vemos, leva a consciência a uma completa apreensão de si mesma, tendo por únicas expressões de si as de se mostrar ou de se dissimular. Trata-se de uma “livre eleição”: sempre uma escolha, mesmo que esta seja uma escolha por não escolher. Seria compreensível, nesse sentido, que Sartre tenha se obstinado a fazer uma longa e acerada crítica de um livro contemporâneo a ele como A experiência interior, de Georges Bataille. Nesse livro, o intenso desnudamento por escrito implicava o entrelaçamento indiscernível entre o biográfico, o teórico e o ficcional, o que poderia vir a boicotar qualquer projeto de “transparência” conscienciosa.9
O argumento de Sartre em “Um novo místico” se concentrava na definição do lugar, um tanto quanto indefinido, à primeira vista, que o livro de Bataille ocuparia numa história do ensaio como gênero de escrita. É preciso não esquecer que, apesar de sua filosofia já ser conhecida por um grande público em 1943 - tendo em vista a boa recepção, em 1936, de seu A imaginação -, ao escrever “Um novo místico”, Sartre não julgava explicitamente a obra de Bataille do ponto de vista filosófico, mas a visava sobretudo enquanto crítico literário. Sua crítica se expressava em alguns artigos, acumulados naqueles mesmos anos, reunidos posteriormente na coletânea chamada Situações I, de 1947. Ela seria, enfim, formalizada após a Segunda Guerra, com as páginas de teoria crítica que ele escreveu para Les Temps Modernes, depois republicadas nas Situações II. A maioria desses primeiros artigos, incluindo o ensaio sobre Bataille, são comentários de escritores contemporâneos que se encontravam, assim como Sartre, na fina fronteira que separava a literatura e a filosofia. O que não deixa de sinalizar um movimento do filósofo de se aproximar daqueles cuja escrita se relaciona com seu pensamento e afastar-se conceitualmente daqueles que o embaraçariam.
Em meio a esses escritos, o ensaio sobre Bataille é o mais paradigmático, não porque melhor condensa a crítica sartriana, mas por conta de todo o debate subsequente que ele principiava. A “crise do ensaio”, anunciada ali pelo filósofo no início de seu texto, teria em Bataille um de seus maiores sintomas. De alguma forma, Sartre desejava confeccionar este gênero em que ele mesmo se aventurava, dando-lhe as diretrizes, impondo-se como a figura do crítico-analista moral, validando ou não a existência do gênero e do modo como ele deveria se expressar. Para Sartre, ao mesmo tempo que recusava a racionalidade e objetividade promovidas na escrita dos iluministas, as quais teriam pautado o gênero do ensaio até aquele momento, Bataille se voltava para uma exposição de si que não se confundia com o lirismo desinteressado dos escritores mais românticos. Este “ensaio-martírio”, como o filósofo o chamava, só poderia ser a expressão de um místico, porque, assim como Pascal e outros escritores de verve católica, ele apostava numa união da irracionalidade ou da inefabilidade com a vontade de verdade, isto é, com certa busca por “provar”:
Bataille abandona ao mesmo tempo a dicção glacial dos bem-pensantes de 1780 e - é uma coisa só - a objetividade dos clássicos. Ele se desnuda, se mostra, não é de boas maneiras. Vai falar da miséria humana? Vejam minhas úlceras e minhas feridas - diz ele. E ei-lo a tirar as roupas. Mas ele não visa o lirismo. Se se mostra, é para provar. Mal nos fez entrever sua nudez miserável e já está vestido: eis-nos começando a raciocinar com ele sobre o sistema de Hegel ou o cogito de Descartes. Mas em seguida o raciocínio se detém bruscamente e o homem reaparece (Sartre, 2005, p. 153-154).
Segundo Marielle Macé, que investigou densamente as mutações do ensaio ao longo do século XX, é na discussão de Sartre e Bataille que são colocados os termos e questionamentos próprios com que se pautaria o gênero dali em diante, na França: “Transformação da reflexão em aventura, dramatização sem desfecho [dénouement], a tensão em direção à narrativa imprime na reflexão uma forte intensidade biográfica que não deixará mais a representação do ensaio no século XX” (Macé, 2006, p. 152-153, tradução nossa). As peripécias da experiência no lugar da reflexão coesa dos bem-pensantes; o inacabamento do drama, a perda de seu fim e de sua finalidade, jamais permitiram um igual respiro refrescante do leitor diante da ebulição de um crescendo; e as indecisões autobiográficas parasitavam, então, de modo irremediável, a narrativa e a ficção.
Para Sartre, portanto, era preciso identificar os antecessores - o jansenismo de Pascal e a sua concepção de uma existência acerba, embebida de sagrado, a crítica de Nietzsche aos valores, o dandismo literário das vanguardas -; todos comporiam as bases do exibicionismo de que Bataille não se livrava como que tomado por “uma necessidade de destruir toda a literatura”, por um “gosto de escandalizar”. O que, como bem disse Sartre, se concluía numa busca por um “acesso direto”, por uma “promiscuidade carnal entre o autor e o leitor” (Sartre, 2005, p. 154).
Pode-se dizer que, após essa primeira forçagem da escrita nua de Bataille (primeira realmente autografada, que surge com o fôlego de um livro), todo desfecho, o dénouement de que falou Macé, não era mais imprescindível para o gênero ensaístico, porque, dilacerado, “dilacer[ando] senão a si mesmo”, como argumentava Sartre (2005, p. 162) contra o escritor, não dava outra escolha aos seus praticantes senão a de darem uma resposta à mesma altura: ou demonstrava-se a pertinência do gênero, a maneira como ele ainda se distinguia da narrativa, ou se deixava misturar de vez o pensamento e a ficção, ameaçando em igual medida os destinos da meditação filosófica, da literatura e, talvez, principalmente, do mundo literário que as circunda.
Em suma, com a aparição do livro de Bataille, a crise estava dada. O ensaio começava a ter por expressão uma escrita que conjugava, ao mesmo tempo, o desnudamento (dénudement) da vida com certa miséria (dénuement) e falta de desfecho (dénoument).10 Tal era a “nudez miserável”, como dizia Sartre, com a qual ele mesmo, embora fosse um filósofo-escritor que jamais deixou de ser um escritor-filósofo, não soube lidar sem ser, na contramão, promovendo uma prosa que fosse integralmente engajada. Como se, abandonando de vez qualquer perspectiva não utilitária da literatura, lhe fosse imprescindível reafirmar diversas vezes, depois da guerra, que a literatura teria um único objetivo (“le but de la littérature”). Antes de qualquer coisa, a literatura seria a produção de alguém que “escolheu revelar o mundo e singularmente o homem aos outros homens para que estes assumam, diante do objeto assim desnudado, sua inteira responsabilidade” (Sartre, 1948, p. 74, tradução nossa). Desnudamento evidenciado por Bataille na literatura e na escrita do ensaio, que, no caso de Sartre, seria inteiramente voltado para a revelação da moral do contemporâneo e de uma responsabilização tanto do escritor quanto daqueles que decidissem lê-lo.
Se há de haver desnudamento da vida do escritor, a ser considerado do ponto de vista do engajamento existencial, este não o poderia ser tal como o de Baudelaire, que, ao chegar ao fim da vida, escolhendo insistir na dissimulação, não assumiria senão que a sua destinação de ser é a da “má-fé”. Isto porque o desnudamento existencialista se configurava, pelo menos aquele de Sartre, como a exposição da verdadeira descoberta de si mesmo pela consciência, da nudez somente quando acompanhada da lucidez, do saber-se verdadeiro diante do que se é. Daí a afirmação de Maurice Nadeau (1970, p. 118, tradução nossa) de que o romance existencialista “desnuda as almas e os corpos com uma obstinação lúcida”.
O surgimento de expressões de desconfiança em relação a tal tipo de autodesnudamento lúcido não tardaria, principalmente nos anos posteriores à Segunda Guerra, quando a linguística e a psicanálise questionavam, ao mesmo tempo, qualquer gestão lúcida que o sujeito poderia ter de si, no tocante a determinações de sua consciência ou inconsciência, da língua ou do não sabido. Bataille, por sua parte, também não deixaria de apontar a impertinência de uma análise concentrada na lucidez e na escolha. No seu entender, estas não passariam de “conjecturas”, como se percebe na primeira versão de sua resenha dedicada ao ensaio de Sartre sobre Baudelaire, publicada primeiramente na revista Critique e, depois, na coletânea A literatura e o mal (“Baudelaire ‘desnudado’”):
Seria vão, me parece, se demorar nas dificuldades que essa interpretação levanta no tocante à realidade dos fatos. O que efetivamente se passou ou se decidiu no espírito de uma criança não é tão fácil de conhecer. Nós somos reduzidos a formar conjecturas. Da primeira infância de Baudelaire, que pôde ter um valor determinante, não sabemos e não saberemos nada. A ideia de um momento em que o ser se escolheu é, além disso, uma ideia pessoal de Sartre: ela não tem o privilégio que obriga a preferi-la a outras maneiras de ver. (Não importa e eu não tenho agora a intenção de considerar em geral a filosofia de Sartre, para a qual sabemos que a ideia de escolha é essencial.) (Bataille, 1979, p. 444-445, tradução nossa).
O que Bataille via como determinante, enquanto um atento leitor de Freud, não era tanto, como no caso de Sartre, fazer o julgamento dos fatos ou dos limites que determinavam o destino do sujeito - conjecturar sobre a “primeira infância de Baudelaire”, por exemplo. Antes, o que o interessava era a dinâmica que determinado sujeito poderia instigar com o seu próprio desconhecimento ou questionamento de si, mesmo que este viesse na forma de um desnudamento. Desnudamento sempre incompleto, mas significativo, decisivo, à medida que demonstrava a consciência se desfazendo diante daquilo que a suplantava.
Bataille até chegava a se permitir utilizar a palavra “lucidez”, que, no entanto, viria, na sua escrita, acompanhada de certas ressalvas no tocante ao que se sucederia com o esclarecimento de si:
A vida humana está ligada à lucidez - que não é dada de fora, adquirida em condições contrárias - lucidez feita de contestações contínuas de si mesma, que no fim se dissolvem no riso (no não-saber). A lucidez, a contestação não podem deixar de atingir a consciência dos limites - em que os resultados relativos vacilam, em que o ser é o questionamento de si mesmo (Bataille, 2017a, p. 137-138).
Assim, para Bataille, a consciência só seria consciência plena, quando levasse em conta os seus próprios limites, o que, paradoxalmente, dissolveria qualquer lucidez. Trata-se da percepção - iluminista? kantiana? - de um além da consciência e de uma lucidez enquanto exposição. Mas exposição a quê? Senão ao conhecimento do constante e irresoluto “questionamento de si mesmo”.
Embora aceitando os limites da consciência, tal como Kant, antes, os determinava, Bataille não se estagnaria em nenhuma inércia de um conhecimento satisfeito com seu desconhecimento. Nem enveredaria por caminhos de possíveis entendimentos a despeito dos limites. Antes, quando acabava por falar, à maneira de Sartre, de “lucidez”, ele o fazia principalmente para induzi-la a uma extremação. Preferia, em vez de usá-la como apoio filosófico, extremar a lucidez, levá-la à sua saturação. Chegada a noite, a iluminação do saber é apagada por exaustão, assim adviria o “desfalecimento da lucidez”, e um possível conhecimento impossível, se me for permitido o oxímoro - não raro na escrita do próprio Bataille: “A extrema lucidez nunca é dada numa lucidez imediata, mas num desfalecimento da lucidez: assim que a noite cai o conhecimento é possível [...]” (Bataille, 2017a, p. 139). Lucidez sem lucidez, e conhecimento possível somente à noite, no obscuro. Percepção, então, de que mais vale a ignorância, como atesta a célebre máxima socrática? Não, porque mesmo tal conhecimento se findaria em “riso” e, paradoxalmente, em “não saber”. Tratar-se-ia, de fato, de um paradoxo, tendo em vista uma espécie de paródia do argumento de Sócrates; de onde Bataille mobilizaria, obviamente na esteira de Nietzsche, uma filosofia alegre.
Fiestas
Uma aproximação entre Sartre e Bataille se deu certamente durante a primavera de 1944. Esse foi um momento significativo em que se pode melhor identificar as suas posturas e imposturas. Ainda está por ser analisado profundamente o impacto teórico dos encontros, chamados por alguns de fiestas, que se sequenciaram no cenário intelectual das vésperas da Liberação, tendo por participantes uma série de escritores importantes, todos mais ou menos envolvidos com o movimento de resistência francês à Ocupação nazista. Em suas memórias, Simone de Beauvoir, companheira de Sartre, que tivera uma reação muito ambígua ao ler A experiência interior11, não nega a importância desses momentos para a sua própria obra, e a relação deles com o que Bataille teorizou sobre o dispêndio em A parte maldita (Beauvoir, 1960, p. 656, nota 2).12 Isso se insere teoricamente na obra da escritora, na promoção que ela fazia de uma “moral da ambiguidade” - uma expressão que, por si só, parece firmar um acordo entre o pensamento de Sartre e de Bataille. Ali, Beauvoir falava da festa, como se tirasse conclusões da sua experiência de confraternização - e por que não de confrontação? - com Bataille, de cujos termos ela também não deixava de se apropriar (Beauvoir, 2005, p. 102-103).
Mesmo a imagem que Beauvoir guardava de Bataille não é insignificante do ponto vista literário: uma cena das memórias da escritora, em que o escritor e Raymond Queneau se enfrentam num “duelo com garrafas à guisa de espada” (Beauvoir, 1960, p. 658, tradução nossa), aparece no seu romance Les Mandarins, de 1954, explicitando que o primeiro lhe serviu de inspiração para a concepção do personagem Vincent. No romance, este sempre aparece sorridente, entregando-se à bebedeira e à frequentação excessiva dos bordéis; nos olhos de seus companheiros, sua imagem é ambígua, ele é malvisto pelos homens e quase santificado pelas mulheres (elas os chamam de “arcanjo” ou “anjo”, título que remete a um dos pseudônimos da literatura erótica do escritor, Pierre Angélique).
Pergunto-me se mesmo A parte maldita, publicado em 1949, cujos estudos datam de pelo menos antes de 1933, onde Bataille teorizava sobre a economia mundial com propostas políticas mais diretas, ele não teria sido impactado por esses momentos de afeto mútuo e dispêndio coletivo aos quais Beauvoir se referia? Não seria um exagero afirmar que foi impactante na obra de cada um daqueles, envolvidos nas fiestas, a urgência vivida nesse período em que, como disse a escritora, eles “esperav[am] a derrota de Hitler com uma jubilação febril”, quando “a alegria, a angústia faziam em [seus] corações um casamento incerto”13 (Beauvoir, 1960, p. 650, tradução nossa). Em relação a A parte maldita, em que o aspecto autobiográfico é apenas sugerido, é difícil dizê-lo contundentemente; isto que é uma evidência em Sobre Nietzsche, onde Bataille narra explicitamente um desses momentos:
Feliz por recordar a noite em que bebi e dancei - dancei sozinho, como um campônio, como um fauno, em meio aos casais. Sozinho? Para dizer a verdade, dançávamos face a face, num potlatch de absurdo, o filósofo - Sartre - e eu. Recordo ter dançado girando. Pulando, batendo com os pés no assoalho. Num sentimento de desafio, de loucura cômica. Essa dança - diante de Sartre - se associa em mim à lembrança de um quadro (As senhoras de Avignon, de Picasso). A terceira personagem era um boneco formado por um crânio de cavalo e um vasto roupão listrado, amarelo e malva. Um triste baldaquino de cama gótica presidiu essa folia. Um pesadelo de cinco meses terminava em carnaval. Que ideia me associar a Sartre e Camus (e falar de escola). (Bataille, 2017b, p. 106-107).
À primeira vista, Bataille colocava-se como um fauno que dança totalmente entregue à embriaguez, ausentando-se do coletivo, quase como o herói de “A tarde de um fauno”, poema de Mallarmé, que “abr[e] [sua] boca para o astro eficaz dos vinhos”, despedindo-se do par de ninfas que este antes encalçava sem sucesso, a fim de encontrá-las em sombra nos sonhos do álcool (“Couple, adieu; je vais voir l’ombre que tu devins”). Porém, em seguida, essa imagem de solidão alegre é integralmente voltada contra Sartre, ou, no mínimo, contra toda a filosofia de que Bataille o faz representante.
Em certa medida, Bataille desafiava Sartre, num gesto duplo de oferta e demanda, exatamente como exigia o sistema de trocas, também referenciado aqui pelo escritor, que é o potlatch. Estudado profundamente por Marcel Mauss, cujas aulas Bataille assistia avidamente nos anos da Documents (1929-1930), o potlatch é esse regime de dádiva estabelecido na cultura dos povos autóctones do noroeste americano em que, ao mesmo tempo que se pagam dívidas, se endividam14, e cujas “coisas trocadas”, de alguma maneira, afetam diretamente a relação dos envolvidos: “estas jamais se separam completamente de quem as troca; a comunhão e a aliança que elas estabelecem são relativamente indissolúveis” (Mauss, 2013, p. 59-60).
Eis a “comunhão e a aliança” “indissolúveis” desses dois escritores, advinda nesse momento compartilhado de alegria diante dos prenúncios da Liberação, de uma “folia”, como dizia Bataille, cujo cenário era “um triste baldaquino de cama gótica”. Tal qual aquele em que Bataille mesmo dormia no ateliê de Balthus da cour de Rohan,15 de modo que a realidade pessoal simbolizasse o cenário europeu externo de então. Estando ambos entregues a esse pas de deux, como o chamou uma vez Francis Marmande (1985, p. 84), a essa dança de um “face a face”,16 é possível dizer que, de fato, Sartre e Bataille acabaram por fazer ali, como se lê um pouco antes do trecho citado de Sobre Nietzsche, o avesso dos monges que “renunci[am] ao mundo, à chance, à verdade dos corpos” - “Odeio os monges. Renunciar ao mundo, à chance, à verdade dos corpos deveria, a meu ver, dar vergonha. Não há pecado mais pesado” (Bataille, 2017b, p. 106).
Sartre e Bataille dançavam juntos - porém com uma ressalva, tendo em vista a singularidade deste último na cena e o fato de aqui só termos o seu relato. É difícil imaginar Sartre acompanhando Bataille inteiramente, como o exigiria um pas de deux. Se, de fato, em algum momento, eles dançaram “face a face”, não é crível que tenham mantido sincronizados o mesmo nível de excesso, de embriaguez e, consequentemente, de decisão. Sobretudo se temos em vista o exagero da dança de Bataille, desse seu estranho flamenco. Seu jeito de pular, girar e bater os pés no chão, como ele insistia que o figuremos, estaria muito mais próximo da dança espanhola do que de um pas de deux.
É dessa maneira que, a meu ver, Bataille fazia da filosofia, diante da qual ele obstinadamente se colocava, uma poesia. O seu modo de, insistente e sensivelmente, alegrar a vida, de tornar o “pesadelo” um “carnaval”, ou a estagnação da bucólica “cama gótica”, desse “sótão” que ele habitava,17 uma “folia”. A filosofia sempre lhe servia com esse propósito, de ser o limite a ser transgredido; não necessariamente o espelho invertido em que ele se olhava, mas a fotografia, o instantâneo, que ele saturava. Toda a poesia ou dança de Bataille se concentraria nesse movimento, às vezes exagerado, às vezes dialético, da positivação transgressiva de alguma negatividade.
É nesse sentido que, contrariamente ao que Sartre propunha como uma moral da “escolha”, mesmo antes, em A experiência interior, Bataille optava pela “decisão”. Ao contrário da “escolha original”, de uma escolha metafísica que fundamenta o destino do sujeito, a decisão seria a expressão de um gesto abrupto: ela não se valeria do julgamento, de um juízo, de uma certa ponderação das escolhas. Seria antes de tudo uma obstinação. Audaciosa e sobretudo contrária ao aspecto moral de uma “escolha”, ela seria reconhecidamente passível de “derrisão” - na medida em que reconheceria a sua equivocidade, a possibilidade da discordância de si consigo mesma. O seu destino, fruto de uma dissimulação ou não, pouco importa, seria a “idiotia”:
O que não tínhamos como saber: que só a revelação permite ao homem ser tudo o que a razão não é, mas estávamos acostumados a ser tudo, daí o vão esforço da razão para responder como fazia Deus, e dar satisfação. Agora a sorte está lançada, a partida mil vezes perdida, o homem definitivamente só - sem poder dizer nada (a menos que ele aja: decida).
A grande derrisão: uma multidão de pequenos “tudos” contraditórios, a inteligência se superando para culminar na idiotia multívoca, discordante, indiscreta (Bataille, 2016, p. 57-58).
Com a partida perdida, quando se satisfazer com Deus já não é mais suficiente, a única ação possível é a decisão. Por assim dizer, uma ação - engajada, talvez -, mas discordante, estranha; tal como a dança que Bataille improvisava diante de Sartre, essa mesma que, por ser decisão sem deliberação, depressa se converte numa derrisão, cuja força anárquica, “culminada na idiotia multívoca, discordante, indiscreta”, era vista por Bataille como, nos seus termos, verdadeiramente soberana e heterogênea; ou seja, intensa expressão de indisciplina e diferença, sem ser indiferença - pois lembremos que Bataille, na cena da dança, não tira os olhos de Sartre.
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Foi sobretudo diante do seu par que Bataille se reafirmou definitivamente como poeta. Embora hoje não o reconheçamos majoritariamente nessa categoria fluída e relativa, no tempo em que os dois dialogaram, não haveria dúvidas. Sartre talvez não o tenha dito, num primeiro momento, por não saber defini-lo se não pela denúncia de sua contradição, já que Bataille publicamente somente escrevia ensaios. Para o espírito filosófico de Sartre, que apreciava as distinções, ainda que ele mesmo fosse um escritor multívoco - de peças, de romances, de contos, de tudo, menos de poesia -, o engajamento só poderia ser o ímpeto de ação reservado àquele que “se serve das palavras”, àquele que “está além das palavras”, àquele para quem elas são “domésticas”, “convenções úteis”, “instrumentos que vão se desgastando pouco a pouco e são jogados fora quando não servem mais” (Sartre, 2004, p. 13-14). Para ele, o poeta nem precisaria se preocupar com o engajamento (“a tolice que seria exigir um engajamento poético”), pois, servindo “às palavras”, “aquém” das palavras, tratando-as em “estado selvagem”, interessado pelo seu “avesso”, acabava por vê-las “se atr[aindo], se repel[indo], se queim[ando]” (Sartre, 2004, p. 14-17).
Se, por um lado, a correspondência entre Bataille e Leiris demonstra como alguns escritores da época viam em Sartre a figura do filósofo acadêmico prototípico, por outro, ali se observa como é na própria figura de Sartre que eles conseguem se reafirmar quanto poetas. A tal ponto que eles esclareciam para si mesmos que a sua atividade poética, não necessariamente apolítica (como Sartre acabava por dizer, tentando canhestramente definir o lugar da poesia), não se findava na política, mas era um constante questionamento de sua linguagem.
Por exemplo, numa carta a Leiris, do dia 27 de junho de 1943, Bataille já se interrogava sobre o uso pelo filósofo da oposição moral entre “erro” e “verdade”, a mesma que estaria no seio da noção existencialista de “escolha”. Oposição a que se permitiria somente aquele que jamais teria “cometido um crime”: “Se Sartre tivesse cometido um crime... Não gosto nada dessa oposição [em As moscas] entre o homem no erro e o homem na verdade: ela me parece abstrata (...)” (Bataille apudSurya, 1997, p. 150-151). O que, na resposta de Leiris, de 6 de julho, estaria na ordem de uma distinção entre o “filósofo”, “racionalista”, e o “poeta”: “O que diferencia Sartre de nós é que ele é, essencialmente, racionalista. É um filósofo, e não um poeta. Para mim, uma grande parte da questão se encontra expressa ali” (Bataille; Leiris, 2004, p. 154-155).
Esse questionamento da aplicação moral e da racionalidade no debate da poesia só poderia levar ao questionamento da própria noção de engajamento na literatura. No dia 26 de outubro de 1945, Leiris diz, no seu diário, que a única possibilidade de se manter ainda atrelado a uma via do engajamento seria se esse engajamento fosse o de uma literatura que o engajasse, e não de uma literatura engajada - “Muito mais que uma ‘literatura engajada’ eu acredito numa literatura que me engaje [...]” (Leiris, 1992, p. 421, tradução nossa). A literatura e a sua linguagem, o seu trabalho na linguagem, não poderiam ser reduzidas a uma escolha que viria a se justificar com a medida de uma ação política, de uma busca por liberdade - que, para Sartre, era a medida de responsabilização do escritor.
Naqueles anos, toda a questão, de fato, pairava na França. Ao ponto de René Char promover uma interrogação sobre a “incompatibilidade do escritor”, dirigida aos escritores de então. Em sua resposta, publicada em 1950, Bataille falaria de uma “miséria” da literatura, dessa condição de “desordem que resulta da impotência da linguagem em designar o inútil, o supérfluo, a saber, a atitude humana que ultrapassa a atividade útil (ou a atividade encarada sob o modo útil)” (Bataille, 2024, p. 113). Creio que uma de suas perguntas ali ainda mereça, hoje, ser ponderada detidamente. Principalmente porque ela traz à tona o lugar criativo (Bataille diria “transgressivo”) que a literatura engaja na sua dinâmica de inutilidade diante da utilidade exigida comumente pela vida. Esse lugar não poderia ser comparado senão com o lugar do sonho, com o seu trabalho, com seu desejo informe e insubordinado, que desorganiza a utilidade. Teria sido justamente à imagem do sonho ou do pesadelo que Bataille teria escrito a sua nudez; com um ou com outro, ele fazia a sua verdade e a sua escrita: “Não deveríamos, no intuito de ser claros, marcar em contrapartida que a literatura, como o sonho, é a expressão do desejo - do objeto do desejo - e, portanto, da ausência de obrigação, da insubordinação ligeira?” (Bataille, 2024, p. 113).
Alguns pequenos relatos sobre sua personalidade indicam que uma de suas obsessões era se contrapor a alguns de seus pares. Expressão disso é, em parte, a sua postura antinômica em relação ao surrealismo, principalmente à encarnação mais ortodoxa do movimento que era a figura de André Breton. Mas também em relação a Sartre e até mesmo Paul Valéry (Bataille; Leiris, 1998, p. 15-32). Se haveria um “método” no pensamento de Bataille, seria o de um desnudamento comunicante: aquele que se exibe, que deseja que o vejam, para, enfim, se contrapor, afinar e desafinar a sua própria escrita, reformular os seus próprios termos. O seu pensamento e sua escrita seriam levados adiante por meio dessas contraposições, embora alguns temas, as suas obsessões, se mantivessem.
Por exemplo, na prière d’insérer de A experiência interior, depois abandonada nas republicações do livro que sucederam à crítica de Sartre, Bataille dizia haver um “movimento perfeito da decisão”, somente atingido pela “musculatura humana” no “transe extático”. A mesma prière sugeria um “além da poesia”, e admitia a relação conflituosa entre o livro e o misticismo e o dogmatismo das religiões, ao mesmo tempo que apontava uma via de trabalho que se valesse da “nudez da ignorância” (Bataille, 2016, p. 260-261).
A literatura, de um modo geral, sempre soube jogar com as precisões e imprecisões que circundam as palavras e as origens etimológicas mais populares. Sabendo ou não que as palavras latinas caedere (cortar) e cadere (cair) não estavam relacionadas etimologicamente, Dante ainda as forçava como derivantes de dēcīsiōnem.18 Em Políticas da amizade, Derrida lembrava a diferença existencial que Heidegger impôs à língua alemã entre “escolha” (Wahl) e a “autenticidade da resolução ou da decisão” (Eingentlichkeit der Entschlossenheit). Sua tese, que parte de uma aproximação estreita com a obra do filósofo alemão, é em grande medida assumir essa palavra que, já no francês, como o é no português, carrega a etimologia, bivalente e inventada pela literatura, do cair e do cortar:
Se há uma tese no presente ensaio, ela seria talvez a de que não poderia haver escolha: a decisão consistiria uma vez ainda em dividir [trancher] sem excluir, em inventar outros nomes e outros conceitos, e em se colocar para além do que é o político sem cessar de intervir nele para transformá-lo (Derrida, 1994, p. 183, tradução nossa).
Haveria um corte, um modo de resolução, de trancher, como diz Derrida, que poderia associar a poesia à política, sem com que uma perca suas propriedades diante da outra, ou simplesmente que uma seja a possibilidade de alteração da outra: uma a transformação da outra; a sugestão de um “além”, como Bataille insistia, apontando sempre para o excesso - e para o êxtase no lugar da estase, a “insubordinação ligeira” do desejo contra a dominância do já sabido.
Referências
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- BATAILLE, Georges. A experiência interior. Seguida de Método de meditação e Postscriptum 1953 Tradução: Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2016.
- BATAILLE, Georges. O culpado. Seguido de A aleluia Tradução: Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Editora Autêntica , 2017a.
- BATAILLE, Georges. Sobre Nietzsche: a vontade de chance. Seguido de Memorandum; A risada de Nietzsche; Discussão sobre o pecado; Zaratustra e o encantamento do jogo Trad. Fernando Scheibe. Belo Horizonte: Editora Autêntica , 2017b.
- BATAILLE, Georges. A pura felicidade: ensaios sobre o impossível. Tradução: Marcelo Jacques de Moraes. Belo Horizonte: Editora Autêntica , 2024.
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- DERRIDA, Jacques. Papier Machine: le ruban de machine à écrire et autres réponses. Paris: Galilée, 2001.
- DERRIDA, Jacques. Politiques de l’amitié, suivi de L’oreille de Heidegger Paris: Éditions Galilée, 1994.
- LEIRIS, Michel. Journal 1922-1989 Paris: Gallimard , 1992.
- MACÉ, Marielle. Le temps de l’essai: histoire d’un genre en France au XXe siècle. Paris: Belin, 2006.
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- MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva Tradução: Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
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- NOVO, Sergio. O sexo na boca da poesia. Revista Escrita, Rio de Janeiro, v. 30, p. 151-168, 2025.
- ROBBE-GRILLET, Alain. Pour un nouveau roman Paris: Les Éditions de Minuit, 2013.
- SARTRE, Jean-Paul. Situations II Paris: Gallimard , 1948.
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- SARTRE, Jean-Paul. Que é a literatura? Tradução: Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Editora Ática, 2004.
- SARTRE, Jean-Paul. Situações I Tradução: Cristina Prado. São Paulo: Cosac Naify , 2005.
- SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução: Paulo Perdigão. Petrópolis: Vozes, 2007.
- SURYA, Michel. (org.) Georges Bataille: choix de lettres 1917-1962. Paris: Éditions Gallimard , 1997.
- SURYA, Michel. Georges Bataille, la mort à l’œuvre Paris: Gallimard , 2012.
- MALATO, Enrico (org.). Dizionario della divina commedia. Roma: Salerno Editrice 2018, p. 266
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1
Este texto foi parte de minha tese de doutorado sobre a noção de nudez na obra do escritor francês Georges Bataille, intitulada A parte maldita do corpo humano: a nudez segundo Georges Bataille, defendida em maio de 2025 no Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura, da UFRJ. Ela foi financiada por uma bolsa de doutorado do CNPq e de doutorado-sanduíche da CAPES/PrInt.
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2
“Nécessité impérative de garder le mot ‘engagement’, un beau mot encore tout neuf (gage, gageure et langage, ‘situation’, responsabilité infinie, liberté critique au regard de tous les appareils, etc.)” (Derrida, 2001, p. 200).
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3
“Redonnons donc à la notion d’engagement le seul sens qu’elle peut avoir pour nous. Au lieu d’être de nature politique, l’engagement c’est, pour l’écrivain, la pleine conscience des problèmes actuels de son propre langage, la conviction de leur extrême importance, la volonté de les résoudre de l’intérieur. C’est là, pour lui, la seule chance de demeurer un artiste et, sans doute aussi, par voie de conséquence obscure et lointaine, de servir un jour peut-être à quelque chose - peut-être même à la révolution”. Ver o artigo de Robbe-Grillet “Sur quelques notions périmées” (Robbe-Grillet, 2013, p. 47).
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4
Engajamento na linguagem é o que o próprio Sartre propunha quando dizia que o escritor deveria se servir das palavras. Entendo que a diferença de preposição distanciaria a sua proposição daquela de Robbe-Grillet, por sua vez, mais próxima do modo como Sartre via o fazer do poeta em geral, aquele que, como diz ele, em Qu’est-ce qu’est la littérature?, serve às palavras.
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5
O exílio de Victor Hugo e os processos, contra As flores do mal e Madame Bovary, sofridos por Baudelaire e Flaubert, junto do mais óbvio caso Dreyfus e o crucial papel político de Zola, são os exemplos incontornáveis para a compreensão de uma genealogia não necessariamente iniciada no século XIX, mas bastante fundamentada ali, da demanda de engajamento do escritor ou do intelectual francês. No entanto, não é um exagero dizer que é com Sartre que o “engajamento” se impõe pela primeira vez ou em definitivo como uma palavra própria do léxico da crítica literária.
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6
“[...] vers 1940, je croyais encore au père Noël”, dizia Sartre numa entrevista concedida a Madelaine Chapsal (1984, p. 98).
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7
“Chacun de ces auteurs, en une circonstance particulière de sa vie, a mesuré sa responsabilité d’écrivain. L’occupation nous a appris la nôtre. Puisque nous agissons sur notre temps par notre existence même, nous décidons que cette action sera volontaire” (Sartre, 1948, p. 13).
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8
A primeira versão do ensaio, antes de ser estendido, aparece como prefácio numa edição reunindo todos os Escritos íntimos de Baudelaire, em 1947.
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9
Em outro texto, também fruto de minha pesquisa de doutorado, me debrucei sobre esse entrelaçamento, chamando-o de “pornoautografia”. Ver Novo (2022).
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10
A aliteração dessas palavras - no caso das duas primeira, também o parentesco etimológico - não parece ter passado despercebida ao próprio Bataille, muito atento às sugestões sonoras de sua língua. Este é um dos aspectos de sua escrita que analiso na tese, e em especial num texto recentemente publicado. Ver Novo (2025).
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11
“Nous revîmes souvent aussi, chez les Leiris, Georges Bataille dont l’Expérience intérieure m’avait, à certains passages, irritée, à d’autres, vivement touchée [...]” (Beauvoir, 1960, p. 654).
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12
Beauvoir confunde, não sem razão, o título do livro de Bataille, chamando-o de La part du diable. Creio que Bataille não recusaria tal tipo de confusão, visto que o lado diabólico da literatura foi até mesmo ressaltado em A literatura e o mal.
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13
No original: “Nous attendions la défaite d’Hitler avec une jubilation fiévreuse; mais, d’ici là, nos vies pouvaient être ravagées. L’allégresse, l’angoisse faisaient dans nos cœurs un incertain ménage”.
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14
Para dizê-lo na definição do termo de Franz Boas, mencionada e elogiada por Mauss: “Contrair dívidas, de um lado, pagar dívidas, de outro, isso é o potlatch”. Definição de Boas, mencionada e elogiada por Mauss (2013, p. 183, nota 131, (tradução nossa).
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15
A descrição do ateliê de Jean Piel é a de que se tratava de “uma espécie de sótão mobiliado de uma cama gótica com um baldaquino e de um amontoado de velharias” (Bataille apudSurya, 2012, p. 401, tradução nossa).
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16
Michel Leiris teria sido uma de suas testemunhas: “Au cours d’une des fiestas du printemps 1943 dont parle Simone de Beauvoir, je me rappelle que Sartre et Bataille ont exécuté ensemble une espèce de danse, un peu comme on fait aujourd’hui, debout face à face” (Libération, 18 de maio de 1980, apudMarmande, 1985, p. 84).
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17
“[...] sótão que habito, feliz se devo acabar ali, num lugar tão nefasto de aparência” (Bataille apud Surya, 2012, p. 401).
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18
Para Dante, quem decide é aquele que se afasta progressivamente da divindade: “deciso: part. Pass. Del lat. Dēcīdo, -ere, ‘tagliare’, o decido, -ere ‘cadere’; da quello odiare ogni Dio: Pg. XVII 111.(...)” Ver Malato (2018, p. 266).
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Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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