Open-access AÇÃO HERBICÍDICA DO ISOURON NA CULTURA DA CANA-DE-AÇÚCAR

Herbicidal effects of isouron on sugarcane crop.

RESUMO

Dois experimentos de campo foram conduzidos no período de novembro de 1982 a maio de 1984, nos municípios de Capivari e Rafard, Estado de São Paulo, para avaliar na cultura de cana-deaçúcar o comportamento do isouron, N'- [5-(l,1-dimetiletil)-3-isoxazolil)-N,N, dimetilutéif, novo herbicida de ação sistêmica. O isouron nas doses de 0,250, 0,375, 0,500, 0,750 e 1,00kg/ha-1 , aplicado em pré-emergência das ervas e da cultura, mostrou-se seletivo para as variedades Na 5679 e SP 71-1406, não provocando fitotoxicidade nas plantas nem reduzindo a sua produtividade agrícola, e foi eficiente durante dois meses no controle de Brachiaria plantaginea (Link) Hitch, Digitaria Sanguinalis (L.) Scop., Amaranthus viridis L., Sonchus oleraceus L., Cyperus eragrostis Lam. e Richardia brasiliensis Gomez. Os resultados de controle, de modo geral, foram melhores quando empregadas doses maiores dentro da amplitude testada.

PALAVRAS-CHAVE
Defensivos agrícolas; ervas daninhas; Saccharum spp.

SUMMARY

Two field trials were conducted from 1982 to 1984 on São Paulo State, Brazil, to determine the effects of N'- [5(1 ,l-dimethylethyl)-3-isoxazolyl] - N ,N-dimethylurea (isouron), on weeds and sugarcane tolerance. Isouron provided an excelent control for a period of two months of Brachiaria plantaginea (link) Hitch, Digitaria sanguinalis (L.) Scop., Amaranthus viridis L., Sonchus oleraceus L., Cyperus eragrostis Lam. e Richardia brasiliensis Gomes at the rates of 0.75 to 1.0 kg/ha-l , in preemergence applications. The growth and the productions of NA 5679 and SP 71-1406 cultivar were not affected by isouron.

KEY-WORDS
Pesticides; weeds Saccharum spp.

INTRODUÇÃO

Isouron é o nome comum proposto pela ANSI (American National Standards Institute) para o herbicida N'- , 1- dimetiletil)-3-isoxazolil -N,N-dimetilureia, do grupo dos derivados da uréia (7).

Descoberto e posteriormente desenvolvido sob o código experimental SSH 43 pela Shionogi & co. Ltda., sediada em Osaka, Japão, teve suas propriedades herbicfdicas relatadas primeiramente por YUKINAGA et alii (11) e suas características físicas, químicas e toxicológicas, por YUKINAGA & KATAGIRI (10). Segundo esses autores isouron é absorvido rapidamente pelas raízes, apresentando translocação apoplástica e age interferindo no processo de fotossíntese das plantas.

Isouron apresenta-se sob a forma de pó molhável, formulado na concentração de 50%, com solubilidade de 0,79mg/ml em água a 25 °C, e pressão de vapor de 8,2x10 -7mmHg, sendo praticamente não volátil. Para YUKINAGA et alii (8) o isouron apresenta boa atividade para espécies de ervas Poaceae (gramíneas) e dicotiledôneas; Segundo ITO et alii (4), este produto tem sido usado para controle da vegetação total em áreas não agrícolas. Na Ásia foi testado em culturas de amoreira, abacaxi e cana-de-açúcar (1, 8, 10).

Para verificar a ação do isouron em cana-deaçúcar para as condições do Estado de São Paulo, foram conduzidos dois experimentos de campo em Rafard e Capivari.

MATERIAL E MÉTODOS

Os experimentos foram instalados em 06 de novembro de 1982 e 05 de março de 1983, respectivamente, na usina Santa Cruz, Rafard, SP, e na usina São Francisco, Capivari, SP., em solos cujas características físicas e químicas são apresentadas na Tabela 1.

As variedades de cana utilizadas foram a NA 56-79 em Rafard e SP 71-1406, em Capivari.

TABELA 1
Características físicas e químicas dos solos onde foram conduzidos os experimentos.
TABELA 2
Composição, freqüência de ocorrência (%) e densidade populacional (número/m2) da flora infestante nos experimentos de 1982 (Rafard, SP) e 1983 (Capivari, SP). Dados médios de 4 repetições.

Ambos experimentos foram conduzidos sob um delineamento de blocos ao acaso, com onze tratamentos e quatro repetições. Cada parcela experimental foi formada de quatro linhas de cultura de 5m de comprimento, espaçadas de 1,25m.

Os tratamentos consistiram de aplicações de isouron* nas doses de 0,250, 0,375, 0,500, 0,750 e 1,00kg/ha-l , em comparação com aplicações de tebuthiuron** (1 ,00kg/ha-1 ), ametryne (2,40kg / ha-l ), diuron (2,40 kg/ ha-l ), e a formulação pronta da mistura de hexazinone + diuron (0,330 + 1,170kg/ha-1 ), utilizados como produtos-padrão para a cultura, e mais dois tratamentos-testemunha, um com controle do mato por meio de enxada e outro sem controle, para verificar o efeito da concorrência do mato no rendimento da cana-de-açúcar.

As aplicações dos herbicidas foram realizadas em pré-emergência das plantas daninhas e da cultura, utilizando-se um pulverizador manual, costal, equipado com bico 80.03, no experimento de Rafard, gastando-se o equivalente a 425 1/ ha-l de calda, e bico 80.04, no experimento de Capivari, com um gasto de 320 1/ha-l.

TABELA 3
Indices populacionais das ervas daninhas, 30 e 60 dias após os tratamentos (DAT), em aplicação de pré-emergência (09/11/1982), e produção de cana-de-açúcar, var. Na 5679, no município de Rafard, SP., cortada em 23/11/1983. Os dados são médias de quatro repetições.
TABELA 4
Índices populacionais das ervas daninhas 30 e 60 dias após os tratamentos (DAT), em aplicação de pré-emergência (05/03/1983) e produção de cana-de-açúcar, var. SP 71-1406, no município de Capivari, SP., cortada em 29/05/1984. Os dados são médias de quatro repetições.

Para a avaliação de eficiência de controle, foi realizado o levantamento da flora infestante, por espécie, aos 30 e 60 dias após os tratamentos, utilizando-se duas amostragens casualizadas por parcelas (quadro de 1 x 0,5m), e aplicando-se a análise de variância para os dados transformados x+0,5 ao nível de 5% de probabilidade.

O corte da cana foi realizado em 23 de novembro de 1983 (Rafard) e 29 de maio de 1984 (Capivari), sendo mensurados o número e o peso dos colmos. Os dados de produtividade foram submetidos ao teste F de variância (5% de probabilidade), utilizando a transformação para raiz quadrada do número de colmos. Os contrastes das médias foram realizados pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.

RESULTADOS

Os índices populacionais levantados aos 30 e 60 dias após os tratamentos demonstraram que tanto em Rafard como em Capivari, os herbicidas, de um modo geral, tiveram efeitos significativos no controle das ervas daninhas (Tabelas 3 e 4). Houve resposta diferencial para espécie em função da dose do herbicida isouron, nas doses de 0,250kg/ha-1 e 0,375kg/ ha-l ; as doses maiores (0,750kg/ha -l e 1,00kg/ ha-l ), no entanto, foram efetivas para todas as espécies.

Por esses resultados, isouron apresentou alta atividade herbicfdica sobre as espécies de ervas presentes nas áreas experimentais, e, com exceção para Cyperus eragrostis, demonstrou uma ação residual de dois meses. No levantamento de cobertura da vegetação das parcelas 60 dias após os tratamentos, isto é demonstrado, pois as que receberam isouron nas doses mais altas apresentaram baixos índices de cobertura de mato (5%).

FIGURA 1
Efeito herbicídico de aplicação de isouron, em pré-emergência, sobre 6 espécies de ervas. A - Avaliação aos 30 dias e B - 60 dias após a aplicação. Os dados para Digitaria sanguinalis são médias dos dois experimentos.

No que se refere aos produtos empregados como padrões comparativos, a mistura formulada de hexazinone + diuron e o tebuthiuron se comportaram de maneira semelhante ao isouron nas doses mais altas de 0,750 a 1,00kg/ha-1 . Os efeitos produzidos por ametryne foram inferiores para D. sanguinalis. Da mesma forma, o diuron se comportou de modo inferior para essa espécie e para S. oleraceus e R. brasiliensis.

Os resultados podem, também, serem vistos através da figura 1, onde os efeitos do isouron sobre a população das seis espécies é apresentado em porcentagem do número de indivíduos sobreviventes em relação a população da testemunha.

O nível de infestação da flora presente no experimento de Rafard, 105 indivíduos/m2 (Tabela 2), prejudicou a cana-de-açúcar tanto em número quanto em peso dos caules, pois a produção obtida da testemunha sem capina foi, significativamente, menor do que a testemunha capinada (Tabela 3). Por outro lado, a infestação por 36 indivíduos/m 2 (Capivari), não foi suficiente para causar concorrência à cana cultivada (Tabela 4).

Todos os tratamentos com herbicidas se mostraram seletivos para a cultura (Tabelas 3 e 4) não interferindo no seu desenvolvimento e produção.

DISCUSSÃO

Experimentos desenvolvidos por YUKINAGA e KATAGIRI (10) demonstram que o isouron é prontamente lixiviado para as camadas mais profundas em solos em que a fração areia é maior. Esse fato ligado as características de germinação da espécie C. eragrostis, que ocorre nas camadas mais superficiais do solo, provavelmente, explique a eclosão da sementeira depois de 30 dias da aplicação, diminuindo o perfodo residual do produto para essa espécie. O período de dois meses de ação residual encontrada para as demais espécies concorda com o relatado por YUKINAGA et alii (9).

YUKINAGA et alii (8) -relatam que o isouron foi efetivo no controle de A. viridis e espécies de Digitaria.

Nas doses testadas, isouron e os herbicidas utilizados como padrão, não causaram qualquer sintoma de fitotoxicidade nas variedades Na 5679 e SP 71-1406. YUKINAGA et allii (9), no entanto, encontraram resposta varietal diferenciada de susceptibilidade quando usou isouron, em pré-emergência, nas doses de 1,0 e 1,5 kg/ ha-l : para certas variedades houve diminuição de altura de 70 a 60% nas avaliações de 30 DAA, recuperando-se as plantas dois meses após a aplicação. Em doses de 3,0 kg/ha- , em aplicação de pós-emergência, isouron causou injúrias como clorose, atraso na emergência das folhas e diminuições na altura e no número de colmos de cana

Estudando a metabolização do isouron por plantas de feijoeiro, ISHIZUKA et alii (3) verificaram que ocorre primeiramente uma N-demetilação passando a molécula a monometiluréia, seguida de uma hidroxilação do grupo N-metil, inativando o produto dentro da planta o que explica a seletividade. O metabolismo do isouron seria, assim, similar ao modelo encontrado por GOREN (2) e SWANSON & SWANSON (6) para os herbicidas do grupo das feniluréias.

Estes resultados concordam com os relatados por LORENZI (5) quanto à ação de diuron e ametryne e diferem quanto a susceptibilidade de B. plantaginea ao tebuthiuron.

CONCLUSÕES

1. O herbicida isouron, aplicado em pré-emergência das ervas daninhas e da cultura da cana-de-açúcar, foi efetivo no controle de Brachiaria plantaginea (Link) Hitch, Digitaria sanguinalis L. (Scop.), Amaranthus viridis L., Sonchus oleraceus L., Richardia brasiliensis e Cyperus eragrostis Lam., nas doses de 0,750 a 1,00kg/ha-1 . Esse comportamento foi semelhante ao obtido com a mistura formulada de hexazinone + diuron e tebuthiuron, e superior ao conseguido com ametryne e diuron.

2. O herbicida isouron se mostrou seletivo para as variedades NA 5679 e SP 71-1406, mesmo quando usado na dose mais alta (1 ,00kg ha-l), não produzindo qualquer sintoma de fitotoxicidade, nem provocando qualquer alteração na produtividade da cultura.

  • *
    Sem nome comercial, formulado como pó molhável contendo 50% de isouron.
  • **
    Perflan 80 BR, contendo 80% de tebuthiuron.
  • ***
    Gesapax 80, contendo 80% de ametryne.
  • ****
    Karmex, contendo 80% de diuron.
  • *****
    Velpar K, contendo 132g/kg de hexazinona + 468g/kg de diuron.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • 1 CHEN, Y. L.; WU, T. C.; YEN, H. WANG, Y. S. Uptake and translocation of isouron in sugar cane planta. J. Pesticicde Sci, 8:607 :611, 1983.
  • 2 GOREN, R. The effect of fluometuron on the behaviour of citrus leaves. Weed Res., 9:121-135, 1969.
  • 3 ISHIZUKA, M.; KONDO, Y.; TAKEUCHI, Y. Metabolism of a herbicide isouron 3-(5-tert-butyl-3isoxazolyl)-l,l-dimethylurea, in bean seedlings. J. Agric. Food. Chen, 30:882-8, 1982.
  • 4 ITO, HORIO, YUKINAGA, IDE, K.; ITO, M.; UEKI, K. Chemical control of Solidago altissima in non-cropland. In. Asian Pacific Weed Science Society, 7th conference, 1979. Proceedings. p. 171-76.
  • 5 LORENZI, H. Manual de identificagäo e controle de plantas daninhas. Harri Lorenzi, 2 ed., 1986. 220.p.
  • 6 SWANSON, C. R. & SWANSON, H. R. Metabolic fate of monuron and diuron in isolated leaf discs. Weed sci., 16:137-43, 1968.
  • 7 WEED SCIENCE SOCIETY OF AMERICA - Herbicide Handbook. Weed Sci. Sco. Am., 5 ed., Illinois, 1983. p. 280-3.
  • 8 YUKINAGA, ITO, K.; IDE, LEU, L. S.; HORNG, L. C. Selectivity of new herbicide isouron in weeds and crops. In. Asian-Pacific Weed Science Society, 7th conference, 1979. Proceedings. p. 37-40.
  • 9 YUKINAGA, ITO, K.; IMOSE, J. KATAGIRI, K.; NAKAZONO, UCHIMURA, C. New herbicide, isouron; weed control in sugarcane. In. Asian-Pacific Weed Science Society, 7th Conference, 1979. Proceedings. pg. 33-6.
  • 10 YUKINAGA, H. & KATAGIRI, K. Isouron, a new herbicide for weed control in sugarcane and non-croplands. Japan Pesticide Information, 37: 1-6, 1980.
  • 11 YUKINAGA, UEYAMA, Y.; IDE, K.; ISHIZUKA, 1.; SUMINOTO, S. Herbicidal properties of new urea herbicide, isouron. In. Asian-Pacific Weed Science. Society. 7th Conference, 1979. Proceedings. p. 29-31.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1988

Histórico

  • Recebido
    18 Ago 1988
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