Open-access ASPECIOS BIOLÓGICOS DE DYSDERCUS PERUVIANUS GUÉRIN MENÉVILLE, 1831, EM CONDIÇÕES DE LABORATÓRIO

BIOLOGICAL ASPECTS OF DYSDERCUS PERUVIANUS - GUÉRIN MENÉVILLE, 1831, IN LABORATORY CONDITIONS

RESUMO

Devido à importância econômica de espécies neotropicais do gênero Dysdercus em regiões algodoeiras, procedeu-se a criação de D. peruvianus, em laboratório, sob condições não controladas, com o objetivo de analisar alguns parâmetros de sua biologia. Adultos e ninfas, alimentados com sementes de algodão embebidas em água, foram mantidos em frascos de vidro contendo areia lavada e fechados com tela de filó. Utilizaram 16 casais, oriundos de insetos coletados em Piracicaba e Campinas-SP. Obtiveram-se através de conservações diárias, os períodos médios de pré-acasalamento (3 dias), acasalamento (3,49 dias), pré-oviposição (5,88 dias), oviposição (23,06 dias), incubação (6,80 dias), ínstares ninfais (5 ínstares - 28,58 dias) e longevidade de adultos (37,00 dias Q e 55,80 dias c). Verificaram-se 5,18 posturas / Q, sendo obtidos 104,18 0' e 109, 31 Q por casal, com razão sexual igual a 0,51.

PALAVRAS-CHAVE:
Biologia; comportamento; percevejo manchador do algodão; Dysdercus peruvianus.

SUMMARY

Neotropical species of the genus Dysdercus are of economic importance in cotton-growing regions. With this in mind, D. peruvianus was reared in the laboratory, under uncontrolled conditions, for study of biological parameters. Adults and nymphs, fed on water-moistened cotton seeds, were kept on washed sand in glass flasks closed with cheesecloth. Daily observation of sixteen insect couples, collected in Piracicaba and Campinas (State of São PauIo, Brazil), gave the following average periods: premating (3 days), mating (3.49 days), preoviposition (5.88 days), oviposition (23.06 days), incubation (6.80 days), nymphal instars (to 5 instars 28.58 days) and longevity (female - 37.00 days and male - 55.80 days). Average laying was 5.18 eggs per female: 104.18 males and 109.31 females per couple, with a sex ratio of 0.51.

KEY WORDS:
Biology; behaviour; cotton stainer bugs; Dysdercus peruvianus.

INTRODUÇÃO

O gênero Dysdercus é encontrado em todas as áreas cotonicultoras (14), com distribuição nas regiões Neotropical, Neártica, Paleártica, Etiópica, Oriental e Australasiana (9,10). Explora troficamente um considerável número de espécies vegetais, em geral herbáceas, destacando-se as malváceas. Para a espécie D.peruvianus, o algodoeiro é, provavelmente, o hospedeiro essencial.

Segundo Lima (12), a primeira nota de danos ocasionados por Dysdercus no Brasil foi registrada por Hempel em 1908. No Estado de São Paulo, algumas espécies vêm causando danos expressivos nas regiões algodoeiras.

Os prejuízos diretos advêm da perda de peso da semente e redução do teor de óleo; são economicamente relevantes, embora secundários em relação aos de ordem indireta, que são provocados pela inoculação de microrganismos causadores de doenças e pelo manchamento das fibras, sendo por isto vulgarmente denominados "percevejos manchadores" (1,7,11,14).

A criação de D. peruvianus objetivou a análise de alguns parâmetros sobre a bioetologia da espécie.

MATERIAL E MÉTODOS

A criação de D. peruvianus iniciou-se a partir da geração FI, obtida de espécimes coletados nos municípios de Piracicaba e Campinas. O período de criação estendeu-se de dezembro de 1986 a janeiro de 1987, em laboratório, durante o qual a temperatura média foi de 21,38°C (Â=18,2 a 25°C) e umidade relativa de 62,63 % (Â=45,6 a 81,1%).

Em frascos de vidro de 12,0cm x 5,5cm, fechados com tela de filó e contendo uma camada de areia lavada de 4cm de altura, para substrato de posturas e absorção das dejeções, foram individualizados 16 casais, formados de adultos virgens de mesma idade. Para alimentação utilizaram-se sementes de algodão IAC-17, embebidas em água por 24 horas e armazenadas em geladeira. Foram oferecidas, em média, três sementes por casal, substituídas a cada dois dias, por ocasião da limpeza dos frascos. A umidade foi mantida através de um chumaço de algodão hidrófilo, colocado sobre o filó e umedecido sempre que necessário.

Ao término de cada postura, o casal era transferido para outro frasco em idênticas condições. As ninfas foram criadas nos frascos em que eclodiram, utilizando-se a metodologia já descrita, apenas assegurando-se que a alimentação fornecida fosse proporcional à população do frasco.

Através de observações diárias obtiveram-se as médias dos períodos de pré-acasalamento, acasalamento, pré-oviposição, oviposição, incubação, ínstares ninfais e longevidade de adultos. Verificou-se ainda o número de posturas por fêmea, número e sexo da progênie, além de dados gerais de comportamento.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

OVOS - As posturas foram efetuadas a aproximadamente 4mm sob o nível da areia, freqüentemente abaixo das sementes de algodão e eventualmente na superfície da areia. A fêmea abre pequenas covas jogando a areia para trás de si, com as pernas anteriores. Em seguida inicia a postura, durante a qual permanece em posição inclinada. Ao término da postura, as massas de ovos são cobertas com areia. Os ovos têm forma elíptica e coloração inicial branca opaca, variando do amarelo perolado até o alaranjado quando próximos da eclosão. Estas observações concordam com as de: BALLARD & EVANS (5), para D. sidae Monst.•, ULLYETT (19), para D. nigrofasciatus Stal; MACGILL (13), para D. howardi Ballou; BARBOSA (6), para D. fasciatus Sign. , D. nigrofasciatus Stal e D. intermedius Dist.; ALMEIDA & XEREX (3), para D. maurus Dist. e NÓBREGA (18), para D maurus Dist.

A contagem dos ovos por postura para obtenção da taxa de fertilidade não foi efetuada devido ao fato da maioria ser subterrânea, evitando-se o manuseio das mesmas para não interferir na eclosão. O número médio de posturas por fêmea foi de 5,25 (Â=l a 9). O período de incubação foi de 6,80 dias (Â=2 a 10), considerando-se 78 posturas. O pico de eclosão ocorreu entre os 6? e 7? dias após a oviposição em 53,8 % das posturas, tendo o restante variado entre 0 5? e 10? dias. A grande maioria das eclosões ocorreu no período da manhã. ULLYETT (19) observou uma variação de 25 a 100% na taxa de fertilidade de D. nigrofasciatus, acreditando que na natureza ela deva se encontrar em torno de 80%. Em seus trabalhos, o período de incubação variou de 6 a 13 dias, obtendo em média 12 posturas com um total de 900 ovos por fêmea. MACGIL (13) observou em D. howardi uma média de 2 posturas por fêmea (Â=l a 5) totalizando 141,9 ovos por fêmea, sendo que 38,4% foram inférteis. Verificou um máximo de 486 ovos em 5 posturas e um mínimo de 14 ovos em uma única postura; 52 % das fêmeas morreram sem ovipositar. BARBOSA (6) obteve, para três espécies de Dysdercus, uma média de 6 posturas por fêmea (Â=l a 8) com mais de 100 ovos em cada postura; o número máximo foi observado em D. nigrofasciatus e o número mínimo em D. fasciatus, ALMEIDA & XEREX (3) relataram para D. maurus 9 posturas por fêmea e um período de incubação de 6± 2 dias. Observaram que a média de ovos decresceu da primeira para a nona postura e a taxa de eclosão aumentou da primeira para a terceira, decrescendo em seguida. NÓBREGA (18) registrou em D. maurus uma média de 4,2 posturas e 298,7 ovos por fêmea, com uma taxa de eclosão de 87,2%.

NINFAS - Logo após a eclosão, as ninfas apresentaram coloração laranja-claro, cuja tonalidade foi se intensificando para o laranja-escuro e avermelhado. Por algum tempo ficaram sob a superfície da areia, período em que aparentemente não se alimentaram. Constataram-se cinco ínstares ninfais, observando-se um escurecimento da cabeça no 2? ínstar e o aparecimento de tecas alares no 3? ínstar. No 4? ínstar, as tecas alares cobriam cerca de 1/3 do abdômen e os urômeros apresentavam as margens com nítidas faixas brancas. No último ínstar ninfal, as tecas alares cobriam cerca de 2/3 do abdômen. Ao final desta fase, os indivíduos buscaram um local adequado (sementes de algodão, filó) para iniciarem o processo de emergência. Em todos os ínstares apresentaram hábito gregário, passando boa parte do dia alimentando-se das sementes e caminhando sob a tela.de filó. Antes e após cada ecdise, permaneciam imóveis por algum tempo.

Verificaram-se ninfas de 2 ? ínstar predando as | 0. e 2 0. e ninfas de 5? ínstar, predando predominantemente adultos recém-emergidos, além de ninfas de 4? e 5? ínstar. O predatismo foi mais freqüente no 5 0. ínstar. Observou-se mortalidade de ninfas em todos os ínstares, sendo maior no 2 ? seguido do 1? e 5? . O período médio ninfal foi de 28,58 dias, sendo que os ínstares de 1 a 5 duraram em média 4,63 - 4,72 - 4,51 - 5,29 e 9,31 dias, respectivamente, em 79 posturas observadas. BALLARD & EVANS (5) detectaram canibalismo em D. sidae tanto na ausência como na presença de abundância de alimento, ocorrendo comumente em condições de campo e laboratório, como uma patologia não hereditária. Usualmente, as ninfas de 4? ínstar atacavam as de 5 0. e as de 5? e 3? ínstar atacavam os adultos. Observaram, ainda, que ovos não protegidos podem ser sugados por adultos, mas uma fêmea não preda sua própria postura. ULLYETT (19) observou em D. nigrofasciatus hábitos gregários e canibalísticos durante o período ninfal, que variou de 29 a 57 dias. MACGIL (13) observou, emD. howardi, que apenas 61% de ninfas de 5? ínstar tornaram-se adultas e 72 % de 2? ínstar alcançaram 0 3 ? ínstar. BARBOSA (6), estudando D fasciatus, D. nigrofasciatus e D. intermedius, obteve uma duração de 34 a 75 dias para o período ninfal. ALMEIDA et al. (2) observaram que as populações de Dysdercus apresentaram distribuição gregária independentemente da planta hospedeira, da densidade, da época do ano e da presença de outras espécies.

ADULTOS - Cabeça: castanho-avermelhada; região pós ocular preta e olhos vermelhos; artículos antenais variando do castanho ao preto, da base para o ápice; rostro atingindo o terceiro urosterno, com coloração variando do vermelhoalaranjado ao castanho-escuro e enegrecido no ápice. Tórax: pronoto com colar branco e escutelo avermelhado. Coloração geral variando do laranja ao castanho avermelhado, incluindo pleuras, externos, pernas e urosternos. Hemiélitros com o cório variando do castanho amarelado ao ocre e a membrana, do castanho ao preto. Os adultos recém-emergidos apresentaram coloração pálida que em seguida se intensificou. Observou-se um ligeiro dimorfismo sexual através do abdômen, que no macho apresentou uma reentrância na parte central do sexto urosterno, sendo a fêmea visivelmente mais volumosa. Os aspectos morfológicos externos dos adultos coincidiram com a caracterização da espécie efetuada por BRISOLLA (8).

O período de pré-acasalamento foi de 3 dias, sendo observada uma média de 4,25 acasalamentos por casal, com duração média de 3,49 dias cada um, variando de 2 horas até 8 dias. A iniciativa da cópula partiu sempre do macho, que iniciava a corte abordando lateralmente a fêmea, através de toque das antenas em sua região dorsal. Durante o acasalamento o macho era submetido aos movimentos de deslocamento da fêmea. O período de pré-oviposição médio foi de 5,88 dias, variando entre 4 e 7. O período de oviposição foi em média de 23,06 dias, nos quais foram obtidos 5,18 posturas. Em relação aos descendentes, observou-se uma média de 104,18 maChos e 109,31 fêmeas por casal, com razão sexual igual a 0,51. A longevidade média foi de 37,00 dias para fêmeas e 55,80 dias para machos. ULLYETT (19) observou para D. nigrofasciatus uma longevidade média de 66 dias para machos e 58 dias para fêmeas; MACGILL (13) obteve para D. howardi um período de pré-acasalamento de 2,8 dias, pré-oviposição de 5 a 6 dias e um ciclo vital de 32 dias. Observou um período de vida adulta de 7 dias para fêmeas, 11 dias para machos e razão sexual de 1:1,27. BARBOSA (6) obteve para D. nigrofasciatus um período de préacasalamento de 2 a 6 dias e uma longevidade média de 48,8 dias para machos acasalados, 23,3 dias para fêmeas virgens e 33,7 dias para fêmeas acasaladas. MENDES (15, 16, 17) verificou, em laboratório, uma longevidade média de 24,78 dias para fêmeas acasaladas, 24,25 dias para fêmeas virgens, 30,05 dias para machos acasalados e 30,98 dias para machos não acasalados de D mendesi Bioete. ALMEIDA et ai (3) e ALMEIDA & XEREX (4) obtiveram para D. maurus um período de pré-oviposição de 12 a 24 horas; período de cópula de 12 a 14 horas; reinício da cópula variando de 3 a 5 horas após cada postura e duração média de vida dos adultos de 32,7 dias. NOBREGA (18) observou em D. maurus um período de acasalamento de 14,8 dias com 4,5 cópulas em média; período de préoviposição de 7,9 dias e de oviposição de 21 dias. A longevidade dos adultos foi de 43,2 dias para machos e 36,2 dias para fêmeas.

CONCLUSÕES

A metodologia utilizada mostrou-se adequada para criação de D. peruvianus para fins de estudos biológicos, uma vez que a população utilizada manteve-se sadia e fértil, produzindo descendência numerosa.

Os aspectos biológicos e etológicos de D. peruvianus apresentaram bastante semelhança com outras espécies de Dysdercus já estudadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  • 2 ALMEIDA, J.R. de; XEREX, R. de; GONÇALVES, L. Nota sobre a tendência gregária entre espécies de percevejos "manchadores de algodão" Dysdercus spp. Pyrrhocoridae). An. Soc. Entomol. Bras., 1985.
  • 3 ALMEIDA, J.R. de; XEREX, R. de; JURBERG, J. Comportamento de acasalamento de Dysdercus mauno, Distant, 1901 (Hemiptera, Pyrrhocoridae). An. Soc. Entomol. Bras. , 15(1): 161-7, 1986.
  • 4 ALMEIDA, J.R. de & XEREX, R. de. Bionomia de Dysdercus maurus Distant, 1901 (Hemiptera, Pyrrhocoridae). An. Soc. Entomol. Bras., 15(1): 19-26, 1986.
  • 5 BALLARD, E. & EVANS, M.G. Dysdercus sidae, Montr. in Queensland. Bol. Entomol. Res. London, 18: 405-32, 1921
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  • 7 BARBOSA, A.J.S. A infecção, o poder germinativo e a perda de peso da semente de algodão em função do ataque de insetos sugadores. Rev. Fac. Ciênc. Lisboa, Lourenço Marques, Lisboa, 2(1):45-56, 1952.
  • 8 BRISOLLA, A.D. Taxonomia de espécies de Dysdercus Guérin-Menéville, 1831 (Hemiptera - Pyrrhocoridae) assinalados no Estado de São Paulo. Piracicaba, SP, 1989. 127p. [Dissertação - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"]
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  • 11 FONSECA, J.P. da. Relação das principais pragas observadas nos anos 1931, 1932, 1933, nas plantas de maior cultivo no Estado de São Paulo. Arq. Inst. Biol., São Paulo, 5:263-89, 1934.
  • 12 LIMA, A.M. da C. Insetos do Brasil. II Hemipteros. Rio de Janeiro, Escola Nacional de Agronomia, 1940. 335p.
  • 13 MACGILL, E.I. On the biology of Dysdercus howardi Ballou (Hem). Bull. Entomol. Res., Lond., 26: 155-162. 1935.
  • 14 MENDES, L.O.T. Os "manchadores" do algodão (Dysdercus spp.) Bol. Téc. Inst. Agron. Campinas, (23):1-21, 1936.
  • 15 MENDES, L.O.T. Longevidade de Dysdercus I - Fêmeas adultas de Dysdercus mendesi Bloete Bragantia, Campinas, 15(5):43-54, 1956.
  • 16 MENDES, L.O.T. Longevidade de Dysdercu, 11 - Fêmeas virgens de Dysdercus mendesi Bloete, em condições de laboratório. Bragantia, Campinas, 19(50): 799-810, 1960.
  • 17 MENDES, L.O.T. Longevidade de Dysdercus m - Machos adultos de Dysdercus mendesi Bloete, em condições de laboratório. Bragantia, Campinas, 20(12): 471-94, 1961.
  • 18 NÓBREGA, A.M.I. Reprodução e longevidade de Dysdercus maurus Distant 1901 (Hemiptera, Pyrrhocoridae). An. Soc. Entomol. Bras., 18 (supl.): 109-17, 1989.
  • 19 ULLYETT, G.C. The life-history, bionomics and control of cotton stainers (Dysdercus spp.) in South Africa. Sci. Buli., Pretoria, 94:5-9, 1930.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1992
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