Open-access BRUCELLA SUIS EM DIVERSAS ESPÉCIES DE ANIMAIS NUMA MESMA PROPRIEDADE RURAL

BRUCELLA SUIS IN SEVERAL SPECIES OF ANIMALS ON THE SAME FARM

RESUMO

A ocorrência de brucelose determinada por Brucella suis em diversas espécies numa mesma propriedade de exploração pecuária mista da região Sul do Estado de São Paulo é apresentada. Das cinco espécies estudadas na propriedade, a observação clínica aconteceu em quatro, ou seja, na suína, equina, canina e também na espécie humana. Foram constatadas sintomatologias, como abortamentos e natimortos, além de reações positivas às provas de Soro-aglutinação Rápida, Soro-aglutinação Lenta; do 2-Mercaptoetanole do Card Teste isolamento de B. suis a partir de fetos suínos abortados. Não foram encontradas evidências clínicas ou sorológicas da brucelose nos bubalinos existentes na propriedade. O humano envolvido apresentou fortes mialgias, além de picos de febre intermitente, reação positiva em todas as quatro provas e isolamento de B.suis a partir do sangue.

PALAVRAS-CHAVE:
Brucella suis, brucelose; suínos; caninos; equinos; humanos.

ABSTRACT

The occurrence of brucellosis in several species on the sarne farm is discussed. The disease occurred in four different animal species: swine, canine, equine and hurnan. The syrnptorns observed were abortion, death at birth and positivity for the following laboratory tests: Fast Serurn Agglutination, Slow Serurn Agglutination, 2-Mercaptoetanol and Card Test. There was no clinicai or serological evidence of brucellosis in buffaloes frorn that farrn. In hurnan beings there was observed fever, strong pain in the rnuscles and joints, as well as positive reaction in the 4 serological tests. From the aborted foetus and hurnan blood the isolation of Brucella suis was possible.

KEY WORDS:
Brucella suis, brucellosis; swine; canine; equine; hurnan.

INTRODUÇÃO

Segundo GARCÍA-CARRILLO (1987) a brucelose suína foi assinalada pela primeira vez por Hutyra na Hungria em 1909 e, a seguir, nos E.U.A. por Traurn em 1914 e, desde então, tem sido descrita em diversos países.

Nas Américas tem urna vasta distribuição e, segundo GARCÍA-CARRILLO (1987), sua importância e abrangência são, possivelmente, tão amplas quanto a brucelose bovina.

Embora a brucelose dos suínos possa ser produzida pela Brucella abortus, notadarnente em propriedades onde se verifica uma existência promíscua entre suínos e bovinos, a grande maioria das ocorrências é devida a Brucella suis e, dentro desta espécie, o Biotipo 1 é aquele que se apresenta corno o principal responsável, sendo pouco significativas as assinalações de variantes atípicas (GIORGI et al., 1972).

No que se refere a brucelose canina, ela tem sido observada também em inúmeros países, podendo ser devida à B.abortus, B.suis, B.melitensis e mais recentemente E.canis, que foi descrita pela primeira vez nos E.U.A. e posteriormente assinalada no México, Peru, Chile, Argentina, Brasil e Venezuela, como cita GARCIA-CARRILHO (1987). Experimentalmente a brucelose em caninos foi obtida em 1935 por CARDONA na Itália.

Em 1972, GOMES et al., tipificaram uma amostra deBrucella isolada de um cão com orquite concluindo tratar-se de B. suis Biotipo I.

No homem, a brucelose tem sido assinalada desde as primeiras citações de ocorrência de Febre da Ilha de Malta em 1904 por Bruce e, a partir daí, registrada em inúmeros países em todo o mundo, conforme GARCIACARRILHO (1987). Embora o homem seja sensível a todas as espécies de Brucella, observa-_se que nas regiões onde a B. suis constitui problema, o número de pessoas contaminadas é expressivamente elevado (GARCIA-CARRILLO, 1987). Em São Paulo, as primeiras citações.são de CRUZ & LEMOS (1948).

No Brasil, a brucelose em equinos tem sido descrita como sendo causada por B. abortus ou por B. suis (CALDAS & RIBEIRO, 1958; ALBUQUERQUE, 1974).

A brucelose constitui-se em um dos mais sérios problemas sanitários paraa bubalinocultura em diversos países, causando distúrbios reprodutivos (GENTILE, 1957; HIPÓLITO & BATISTA, 1959; DAS & PARANJAPE, 1988). O principal agente que acomete a espécie é a B.abortus, contudo há citação de infeçção por B.melitensis (SANDOV AL et al., 1979).

No presente trabalho, em uma propriedade de atividade pecuária, foi pesquisada a presença da doença em diversas espécies animais e inclusive em humanos.

MATERIAL E MÉTODOS

O presente estudo refere-se a uma propriedade situada na região sul do Estado de São Paulo, da qual o conteúdo estomacal de fetos abortados de suínos foram enviados para análise e semeados no meio seletivo de Kuzdas & Morse e no meio nutritivo de ágar dextrose-soro, para pesquisa de Brucella spp, segundo ALTON et al. (1975). A anamnese permitiu constatar que diversas abortantes foram registradas no plantel de suínos, além da ocorrência de mortes de leitões logo ao nascer. Optou-se então pela realização do inquérito sorológico na propriedade e como o tratador informou sobre a ocorrência de abortamentos em cadelas e ele próprio se queixava de febre persistente, decidiu-se que o inquérito deveria abranger todas as espécies da propriedade, bem como as pessoas que diretamente lidaram com os animais.

Dessa forma, o total de amostras de sangue coletado para sorologia ficou constituído como mostrado na Tabela l.

As provas sorológicas realizadas foram de Soroaglutinação Rápida (S.A.R.), Soro-aglutinação Lenta (S.A.L.), Card Test (C.T.) e prova do 2- Mercaptoetanol (M.E.), seguindo as normas técnicas internacionais, segundo ALTON et al. (1975). A partir de amostra de sangue humano, foram semeados frascos contendo meio bifásico de Castafíeda para hemocultura, incubando-os a 37 ºC por até 60 dias.

RESULTADOS

Foram observadas sitomatologia clínica em suínos, como abortamentos e natimortalidade e em humano, como febre, cefaléia, mialgias e sudorese profusa. Não foram constadadas evidências clínicas nasdemais espécies da propriedade.

Isolou-se pequenas colônias bacterianas lisas a partir do conteúdo estomacal dos fetos abortados e da amostra de sangue humano que, à microscopia, revelaram a presença de cocobacilos diminutos Gramnegativos que também se coravam pelo método do Ziehl-Neelsen modificado. Essas amostras, em menos de 10 minutos, foram positivas ao teste da urease e foram caracterizadas como B. suis .

Os resultados dos testes sorológicos estão expressos na Tabela 1.

Tabela 1
Número de amostras examinadas e número de animais sorologicamente reagentes para brucelose, segundo a espécie analisada.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Embora a brucelose dos suínos possa ser produzida pela B. abortus, notadamente em propriedades onde se verifica uma existência promíscua entre suínos e bovinos, a grande maioria das ocorrências é devida a B. suis e, dentro desta espécie o Biotipo 1 é aquele que se apresenta como o principal responsável, sendo pouco significativas as assinalações de variantes atípicas e, sem dúvida, esta espécie animal é a que se constitui na mais perigosa fonte de infecção para o homem (GARCIA-CARRILLO, 1987).

O fato dos agentes do gênero Brucella não serem dotados do fenômeno de espécie-especificidade, tem possibilitado o encontro freqüente das diferentes espécies que compõem o gênero comprometendo diferentes espécies animais.

Da mesma forma, é também comumente verificado que em uma mesma propriedade, duas ou mais espécies animais podem manifestar concomitantementeadoença, indicando que a concomitância habitacional e a deficiência na observação das normas sanitárias mais elementares contribuem definitivamente para que se estabeleça a contaminação entre elas, dando origem ao surgimento de manifestações clínicas várias e próprias da brucelose nas diferentes espécies comprometidas.

Sob esse aspecto, em nosso meio, devem ser lembrados os trabalhos de CORREA (1956) no Rio Grande do Sul.

BARG et al (1977) em Minas Gerais e MIRANDA et al. (1978) em São Paulo fazem referência ao comprometimento humano diretamente relacionado à presença da doença em outra espécie animal, sendo o primeiro com a espécie canina e o segundo com a espécie suína.

Na presente citação, quatro das cinco espécies que conviviam no ambiente da mesma propriedade revelaram-se positivas à pesquisa de aglutininas para Brucella e entre elas foi observado algum tipo de manifestação sintomática, como abortamentos nos suínos, elevada mortalidade de leitões ao nascer e no tratador responsável pelo plantel, cefaléia, mialgias e períodos febris intermitentes. Foi relatada também a ocorrência de abortamento nas cadelas, sem que nos tenha sido possível colher amostras para isolamento.

Nos equinos, apesar de evidenciarem títulos aglutinantes para Brucella, não se observou sintomatologia clínica da doença, sugerindo que estes se infectaram através do ambiente contaminado sem contudo desenvolver a brucelose na ocasião.

Chamou a atenção dos autores o fato de que entre os bubalinos não se constatou positividade nas provas laboratoriais realizadas, bem como não se registraram abortamentos ou alterações ligadas à esfera reprodutiva. Contudo, estes animais eram criados em pastos distantes da criação de suínos, sem acesso à água de lavagem da pocilga que possibilitasse a infecção destes a partir do foco nos suínos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ALBUQUERQUE, A.J.D. Isolamento de Brucella suis de equinos em Santa Maria. Rev.Centro Cienc. Bioméd., v.3, p.11-12, 1974.
  • ALTON, G.G.; JONES, L.M.; PIETZ, D.E. Laboratory techniques in brucellosis. 2.ed. Geneve: FAO/WHO, 1975, 163 p.
  • BARG, L.; GODOY, A.M.; PEREZ, N.J. Pesquisa de aglutininas anti-Brucella canis em soros humanos. Arq.Esc.Vet Univ. Fed., Minas Gerais, v.29, p.31-34, 1977.
  • CALDAS, A.D.; RIBEIRO, L.O.C. Ocorrência da brucelose equina no Estado de São Paulo causada pelaBrucella abortus. Biológico, São Paulo, v.24, p.46-48, 1958.
  • CARDONA, L. Experimental brucelosis in dogs. Boll.Sezit.Soc.Microbiol, Milano, v.117, p.131-134, 1935.
  • CORREA, O. Incidência da brucelose bovina, suína e ovina no Rio Grande do Sul. Bol.Dir.Prod. Anim., v.13, p.43-45, 1956.
  • CRUZ, E. & LEMOS JR, A. A brucelose humana no interior do Estado de São Paulo. Arch. Hig., São Paulo, v.13, p.75-92, 1948.
  • DAS, A.M. & PARANJAPE, V.L. Seroprevalence ci Yersinia enterocolitica-associated abortion in buffaloes with reference to its serological cross reaction with Brucella abortus. Indian Vet.J., v.65, p.469-474, 1988.
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  • MIRANDA, J.C.B.; SEI, VERA L.B.; GIORGI, W.; SANDOV AL, L.A.; TERUY A, JULIETA M. Isolamento de Brucella suis em um rebanho suíno infectado, associada à contaminação canina e humana. Biológico, São Paulo, v.64, n.9, p.209-10, 1978.
  • SANDOV AL, L.A.; ARRUDA, N.M.; TERUYA, J.M.; GIORGI, W.; AMARAL, L.B.S.; MAZANTI, M.T. Pesquisas em bubalinos: Prevalência da brucelose e leptospirose no Estado de São Paulo-Brasil. Biológico, São Paulo, v.45, n.11/12, p.209-212, 1979.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996

Histórico

  • Recebido
    08 Jan 1996
  • Aceito
    09 Abr 1996
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