Open-access UTILIZACÄO DE ADJUVANTE PROTETOR CONTRA RADIACÄO SOLAR E FAGOESTIMULANTE, EM MISTURA COM UM VfRUS DE POLIEDROSE NUCLEAR DE ANTICARSIA GEMMATALIS (LEPIDOPTERA: NOCTUIDAE)

USE OF PROTECT ADJUVANT AGAINST RADIATION AND STIMULANT, IN COMBINATION WITH A NPV OF ANTICARSIA GEMMATALIS (LEPIDOPTERA: NOCTUIDAE)

RESUMO

Um adjuvante ä base de 61eo vegetal foi utilizado em mistura com Baculovirus anticarsia, visando proteqäo contra a inativagäo pela radiaqäo solar e a fagoestimulaqäo. O virus na forma impura, usualmente empregado (lagartas infectadas, maceradas e coadas), serviu como padräo e a {gua destilada, como testemunha. Sob condiqöes de campo, os tratamentos foram aplicados com auxflio de um pulverizador costal, em {rea experimental formada por soja, na Estacäo Experimental do Instituto Biol#x00F3;gico, em Campinas. Os folfolos foram coletados periodicamente e fornecidos äs lagartas de A. gemmatalis em laborat6rio. No teste de fagoestimulaqäo, os folfolos, em condiGöes de laborat6rio, receberam, por pulverizaqäo, as preparaqöes em teste e em seguida foram oferecidos aos insetos. Os resultados evidenciaram o efeito protetor do adjuvante, sendo observado, 7 dias ap6s a aplicaqäo, reduqäo de 13,33 % de atividade do pat6geno acrescido de adjuvante e 36,67% de inativaqäo viral na auséncia do adjuvante. Com relaqäo fagoestimulaqäo, o adjuvante acresceu a ingestäo de 1,4 x 104 CIP/lagarta, causando jå no 6? dia ap6s a inoculaqäo, 60% de mortalidade contra 20% observada na preparaqäo do virus sem adjuvante.

PALAVRAS-CHAVE:
Adjuvante; Baculovirus anticarsia; protetor solar; fagoestimulante.

SUMMARY

An adjuvant made of vegetable oil and mixed with Baculovirus anticarsia was used to protect against solar radiation and to stimulate feeding and resulting mortality among pests. Application was made by manual sprayer, in an experimental area of soybean at the Experimental Station, Instituto Biol#x00F3;gico, Campinas (State of Säo Paulo, Brazil). Folioles were collected at intervals and fed to larvae of Anticarsia gemmatalis in the laboratory. For gustatory stimulation tests under laboratory conditions, folioles were sprayed for each treatment and fed to the larvae. The protective effect of the adjuvant was demonstrated. Seven days after application, the activity of the pathogen mixed with the adjuvant fell by 13.33%; without the adjuvant it fell by 36.67%. The adjuvant increased ingestion by 1.4 x 104 CIP/larva; on the 6th day after inoculation mortality was , as opposed to 20% observed for the virus without adjuvant.

KEY WORDS:
Adjuvant; Baculovirus anticarsia; sun protector; feeding stimulant.

INTRODUÇÃO

Nos ültimos anos tém sido incrementadas as pesquisas que envolvem preparo de formulaGöes de agentes microbianos que ofereqam viabilidade de uso para o controle de pragas. Nessas pesquisas, o estudo do efeito de agentes capazes de proteger os microrganismos de processos de degradaqäo constitui-se em um importante item para a elaboraqäo dos bioinseticidas, pois contribuem para tornå-los mais eficazes e persistentes. Em seus estudos, YOUNG & YEARIAN (15) e JAQUES (8) observaram que a atividade dos microrganismos entomopatogénicos é afetada, principalmente, pela radiaqäo solar, através da fraqäo ultravioleta, a qual atua sobre os {cidos nucléicos, inativando-os jå nas primeiras 48 horas ap6s a liberaqäo do microrganismo no ambiente.

Uma das formas de minimizar o problema consiste na aplicação do patógeno nas primeiras horas da manhã, ou após as 16:00 horas, quando os raios ultravioleta do espectro solar são de maior comprimento de onda, portanto, de menor poder de penetração. Existe também a possibilidade de se explorar determinados adjuvantes minerais e vegetais, que apresentem características fagoestimulantes, retardantes de evaporação e protetoras contra a radiação solar (7, 10).

Estudos de laboratório e campo mostraram que adjuvantes, tais como açúcares e óleos vegetais (soja, milho e algodão), quando adicionados ao VPN de Heliothis spp. , provocaram maior consumo de alimento e, conseqüentemente, maior mortalidade em lagartas do que o vírus em suspensão aquosa (1, 9, 14).

Técnicas envolvendo formulações de vírus entomopatogênicos e protetores contra radiação ultravioleta têm sido estudadas por IGNOFFO & BATZER (6); SHAPIRO et ai. (13) e BATISTA FILHO et ai. (3).

O presente trabalho teve por objetivo determinar o efeito protetor e fagoestimulante de um adjuvante baseado em óleo vegetal quando adicionado à suspensão aquosa de Baculovirus anticarsia.

MATERIAL E MÉTODOS

Experimento n.o1 - Persistência da atividade viral no campo

O ensaio foi realizado em Campinas, na Estação Experimental do Instituto Biológico, em três áreas de 4m2 , demarcadas em um campo experimental de soja, cultivar IAC-8. Nessas áreas, as suspensões relativas aos tratamentos a serem estudados foram aplicadas com um pulverizador costal, marca BRUDDEN P5, na concentração de 50 LE/ha (1 LE=uma Lagarta Equivalente, isto é, uma lagarta de Anticarsia gemmatalis maior ou igual a 2,5cm de comprimento, morta por Baculovirus anticarsia). As aplicações foram executadas a partir das 12:00 horas do dia 21 de janeiro de 1992 e o consumo de calda foi equivalente a 625 litros/ha. Foram considerados os seguintes tratamentos: a) Baculovirus anticarsia impuro (obtido por maceração e coagem de lagartas mortas); b) B. anticarsia impuro + adjuvante (emulsão de óleo de soja a 10%); c) testemunha (água destilada).

Após uma hora da aplicação, e ao acaso, foram coletados em cada área 60 folíolos de soja do terço superior das plantas. Em seguida, foram levados ao laboratório e individualizados em tubos de vidro (8,5cm de altura x 2,5cm de diâmetro), contendo uma lagarta de Anticarsia gemmatalis com aproximadamente 1,4cm de comprimento. O material foi mantido no interior de uma câmara de germinação tipo B.O.D. , com temperatura de 25°C, U.R. próxima a 65% e fotoperíodo de 14 horas.

Constatado o consumo (cerca de 48 horas após o fornecimento dos folíolos), as lagartas foram transferidas para tubos de vidro com dieta artificial (5) e mantidas sob condições controladas (temperatura: 27°C±1; U.R. 65% ±5 e fotoperíodo: 14 horas). Repetiu-se o mesmo procedimento (coleta e fornecimento de folío10s) às lagartas de A. gemmatalis sempre às 12:00 horas após um, três, cinco e sete dias da aplicação.

Nas avaliações diárias, em laboratório, considerou-se a mortalidade e o agente causal.

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância (teste F) e confronto das médias pelo teste de Duncan. O nível de significância adotado foi 5% de probabilidade.

Experimento n.o2 - Efeito fagoestimulante

Com esse objetivo foram elaboradas 4 preparações, a saber: a) água destilada; b) água destilada + adjuvante; c) Baculovirus anticarsia impuro; d) B. anticarsia impuro + adjuvante. O adjuvante (emulsão de óleo de soja) foi adicionado na concentração de 10% do volume preparado.

A inoculação foi feita em laboratório, no interior de uma câmara, por meio de pulverização de 2ml de cada preparação, sobre 20 folíolos de soja, cultivar IAC-8, previamente desinfestados em solução de hipoclorito de sódio 0,5% e lavados em água corrente. Antes de receber os tratamentos, determinou-se a área superficial dos folíolos, através de um medidor de área foliar marca Li-COR, Li-3000.

Após a secagem, os folíolos foram individualizados em tubos de vidro (8,5cm de altura x 2,5cm de diâmetro) juntamente com uma lagarta de Anticarsia gemmatalis com 1,3cm de comprimento. Decorridas 24 horas, os folíolos foram retirados e submetidos novamente ao medidor de área foliar, o que permitiu determinar o consumo alimentar. As larvas foram transferidas para dieta artificial e mantidas sob condições controladas (temperatura: 26°C±1, U.R.: 67,5% e fotoperíodo: 14 horas) até que atingissem a fase de pupa. Durante esse período foram registrados a mortalidade e o agente causal.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Experimento n? 1 - Persistência da atividade viral no campo

TABELA 1
Porcentagem de lagartas de Anticarsia gemmatalis mortas por Baculovirus anticarsia em função da persistência de duas preparações do patógeno em folíolos de soja, cultivar IAC-II. Campinas, 1992.

(2) Para efeito de análise foram consideradas as médias dos valores de mortalidade obtidos.

Os dados expressos na tabela 1 mostram que até 0 3? dia após a aplicação não houve qualquer alteração na atividade do patógeno nos tratamentos com e sem adjuvante, sendo observados, nestes, valores de mortalidade próximos a 100 %. No 5 ? dia, o tratamento em que o patógeno não recebeu o adjuvante já apresentava 26,67 % de perda de eficiência em relação ao preparado com adjuvante; percentual que caiu para 21,67 % no 7? dia. Convém ressaltar que no 5? dia Baculovirus anticarsia impuro apresentou decréscimo de 35 % da atividade original, enquanto que no tratamento com adjuvante observou-se apenas 6,66 % de perda de eficiência. Aos 7 dias, observou-se elevado nível de mortalidade provocada pelo B. anticarsia + adjuvante (83,33 %) com pouca redução de sua viabilidade inicial (13,33 %). Por outro lado, a eficiência de B. anticarsia impuro decresceu para , o que mostra uma queda de 36,67 % em relação ao dia da aplicação. MOSCARDI & CORSO (11) obtiveram resultados semelhantes comparando a atividade do B. anticarsia impuro e purificado, desprovido e acrescido de adjuvante, observaram que o patógeno na forma impura permaneceu ativo em 60% , aos 6 dias após a aplicação. Do mesmo modo, OLIVEIRA & MOSCARDI (12), comparando a atividade de 3 patógenos contra A. gemmatalis, sob condições de campo e laboratório, observaram o maior efeito residual do Baculovirus anticarsia, em relação à persistência do fungo Nomuraea rileyi e do Bacillus thuringiensis, aos 6 dias da aplicação, quando o vírus apresentava atividade superior a 55%.

BATISTA FILHO (2), utilizando adjuvantes minerais associados ao B. anticarsia, obteve valores de mortalidade próximos a 50% da atividade original, após 7 dias da aplicação e cerca de 40% de preservação da eficiência com o vírus associado a adjuvante vegetal, no mesmo período de observação. Por outro lado MOSCARDI & CORSO (11) incorporaram um adjuvante mineral ao B. anticarsia e obtiveram, aos 6 dias da aplicação, 80% de manutenção da atividade viral.

Os dados climáticos registrados no período de observação no campo são apresentados na tabela 2 e complementam as informações sobre o experimento. É importante observar que, apesar da pulverização ter sido executada a partir das 12:00 horas, o microrganismo não foi desativado nas primeiras 72 horas de exposição. Provavelmente a alta persistência de atividade, nos primeiros 3 dias, esteja associada com o baixo número de horas de insolação, entre 0 2? e 3? dias. Ainda considerando, que na maioria dos dias do período de observação tenham sido registradas mais de 7 horas de inoculação/dia (média para Campinas no mês de janeiro = 9 a 10 horas/dia), fica evidente o efeito protetor do óleo emulsionável de soja, como evidenciou BATISTA FILHO (2), analisando a ação do óleo emulsionável de soja, que manteve a atividade viral 36% superior em relação ao vírus purificado, durante 48 horas de exposição considerando uma média de 9,3 horas de insolação/dia. Durante o 3? dia de observação foram computados 27mm de precipitação pluviométrica. A este fato pode-se associar um provável efeito da chuva sobre os depósitos de vírus nas folhas de soja, pois a partir do 3? dia, mesmo sob baixa intensidade de insolação, observou-se uma acentuada queda na eficiência no tratamento com o patógeno desprovido de adjuvante em cerca de 36% . Este valor não foi encontrado no tratamento com o adjuvante, provavelmente pela maior aderência do Baculovirus anticarsia sobre os folíolos de soja, pela ação espalhante adesiva do óleo emulsionável, diminuindo as perdas mecâncias, prolongando o efeito residual, conforme salientou BULLOCK (4).

Experimento n .0 2 - Efeito fagoestimulante

Os resultados apresentados na tabela 3 mostram que após 24 horas da instalação do ensaio, as lagartas alimentadas com folíolos tratados com adjuvante consumiram 19,91% e 12,90% de área foliar, respectivamente para água + adjuvante e Baculovirus anticarsia + adjuvante. Os tratamentos sem adjuvante, que serviram como controle, tiveram níveis de consumo de 10,46% e 11,89%. A diferença no consumo entre os folíolos tratados com o vírus + adjuvante e vírus sem adjuvante foi menor quando comparada à diferença observada entre os outros dois tratamentos (1,01% e 9,45 % , respectivamente). Entretanto há que se considerar que 1,01 % de consumo representa 0,27cm2 de área foliar, contendo 1,4 x 104 CIP a mais que foram ingeridos pelos insetos. O maior consumo de partículas virais provocou a morte de 60% da população de insetos no 6? dia, enquanto no tratamento com o patógeno isolado apenas 20% de indivíduos morreram nesse período.

Os dados convergem com os resultados de IGNOFFO ai. (7) e LUTTREL ai. (9), para 1agartas de Heliothis zea infectadas com Baculovirus heliothis. Nesses estudos realizados em laboratório, os adjuvantes comerciais testados aumentaram significativamente o consumo de folío10s de soja. Entretanto os autores não observaram qualquer efeito sobre a mortalidade dos insetos.

TABELA 2
Dados climáticos observados durante o período de avaliação da persistência de atividade de duas preparações de Baculovirus anticarsia sobre folhas de soja do cultivar IAC-II. Campinas, 1992.
TABELA 3
Avaliação do consumo foliar e mortalidade de lagartas de Anticarsia gemmatalis em função de adjuvante adicionado à suspensão de Baculovirus anticarsia.

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos nos experimentos indicam que a utilização do óleo de soja, em mistura com o vírus impuro, favorece a atividade do patógeno em condições de campo. Além disso, sua capacidade fagoestimulante pode também acentuar significativamente a eficiência do inseticida viral, pelo aumento na ingestão de vírus, ou ainda permitir uma redução da dose recomendada do patógeno para aplicação no controle da lagarta da soja, Anticarsia gemmatalis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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  • 3 BATISTA FILHO, ALVES, L.F.A.; AUGUSTO, N.T.; ALVES, S.B. Efeito da radiação ultravioleta sobre Baculovirus anticarsia formulado em condições de laboratório. In: Reunião Anual do Instituto Biológico, 4., São Paulo, 1991. Resumos. Arq. Inst. Biol., São Paulo, 58 (supl.): 16, 1991.
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  • 12 OLIVEIRA, R.F. & MOSCARDI, F. Persistência de Baculovirus anticarsia, Nomuraea rileyi e Bacillus thuringiensis sobre folhas de soja. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENTOMOLOGIA, 9., Londrina, 1984. Resumos. p. 144
  • 13 SHAPIRO, M.; AGIN, P.P.; BELL, R.A. Ultraviolet protectants of Gypsy moth (Lepidoptera: LYMANTUIDAE) nucleopolyhedrosis virus. Environ. Entomol., 12(3): 982-5, 1983.
  • 14 SMITH, D.B.; HOSTETTER, D.L.; PINNELL, R.E.; IGNOFFO, C.M. Laboratory studies of viral adjuvants: formulation development. J. Econ. Entomol., 75(1): 16-20, 1982.
  • 15 YOUNG, S.Y. & YEARIAN, W.C. Persistence of Heliothis NPV on foliage of cotton, soybean, and tomato. Environ. Entomol. , 3(2): 253-5, 1974.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1992
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