RESUMO
Visando observar a possibilidade de redução do número de aplicações de inseticidas em cultura de tomateiro, avaliou-se o efeito de três sistemas de controle de pragas, sobre a população de insetos prejudiciais e benéficos, e sua interferência na produção. O ensaio foi conduzido no município de Tremembé, SP, no período de maio a outubro de 1986, sendo a área experimental (4.320 pés) dividida em 9 parcelas de 160 plantas, para cada tratamento. Os tratamentos foram: A - Manejo integrado de pragas; B - Manejo integrado de pragas mais inseticida granulado; C - Tratamento convencional mais inseticida granulado. Efetuou-se monitoramento semanal através de observação visual e batedura do ponteiro em 10 plantas por parcela. Constatou-se uma redução de 80% e 93,4 % , no número de pulverizações nos tratamentos A e B, respectivamente, em relação ao tratamento C, sem prejuízos na produção.
PALAVRAS-CHAVE:
Manejo integrado; produção; tomate estaqueado.
SUMMARY
The effects of three systems of pest control on harmful and beneficial insect populations and on crop production are evaluated with a view to possible reduction of insecticide application to tomato crops. Experiments carried out in Tremembé, State of São Paulo, Brazil, from May to October 1986, involved an area with 4, 320 plants, divided into 9 plots of 160 plants each for each treatment. The treatments were: a) integrated pest management; b) integrated pest management plus compound granulated insecticides; c) conventional treatment plus compound granulated insecticides. Weekly monitoring by visual observation and beating to dislodge insects covered ten plants per plot. Treatments A and B displayed a reduction in number of applications of insecticide of 80% and 93.4 % , without loss of productivity by comparison with treatment C.
KEY WORDS:
Management; production; stacked tomato.
INTRODUÇÃO
O manejo integrado de pragas abrange estratégias e metodologias de controle, que visam não só controlar a população de pragas a níveis suportáveis em relação à produção mas também possibilitar ao máximo a ação de inimigos naturais existentes na cultura, diminuir o impacto de inseticidas no ambiente, no produto final e no homem, além de reduzir o custo de produção.
CROCOMO (1) salienta o conceito moderno e dinâmico de pragas, sob o ponto de vista econômico e ambiental, caracterizando o manejo integrado através da aplicação de três etapas básicas: avaliação do ecossistema, tomada de decisão e escolha do sistema de redução populacional.
No cultivo das hortaliças, a prática do manejo integrado apresenta dificuldades, devido à falta de conscientização dos produtores, à rigidez dos padrões estéticos exigidos para o produto final, ao curto ciclo da cultura e seu intensivo sistema de cultivo. Segundo FRANÇA (3), o valor total da produção de uma hortaliça torna desprezível o custo do tratamento da cultura, desestimulando o produtor a utilizar estratégias que visem à racionalização do uso de inseticidas.
Uma das hortaliças mais difundidas, consumidas e industrializadas do mundo é o tomate, que se destaca por suas qualidades organolépticas e seu alto teor de vitamina C. A produção nacional situa-se ao redor de 1.700.000 toneladas por ano, das quais cerca de 48% é produzida no Estado de São Paulo.
A tomaticultura é efetuada atualmente por um sistema altamente intensivo, sendo extremamente exigente em tratos culturais, nutricionais e fitossanitários, envolvendo elevado risco de custo de produção.
Segundo GRAVENA (6), a realização do manejo integrado na cultura do tomateiro apresenta duas limitações fundamentais que são a alta incidência de doenças fúngicas e bacterianas e a existência de doenças viróticas transmitidas por insetos vetores.
A utilização contínua de fungicidas e inseticidas, de largo espectro de ação desde a semeadura, elimina drasticamente os fungos entomopatogênicos e a fauna benéfica da cultura, simplificando o agroecossistema e favorecendo as pragas.
Com o intuito de se observar a possibilidade de redução do número de aplicações de inseticidas na cultura do tomate, avaliou-se o efeito de diferentes sistemas de condução da cultura, sobre a população de insetos pragas e benéficos e sua interferência na produção.
MATERIAL E MÉTODOS
No município de Tremembé-SP, efetuou-se estudo comparativo de três diferentes métodos de condução da cultura de tomate estaqueado, durante o período de maio a outubro de 1986. A propriedade agrícola continha 15.000 pés de tomate estaqueado variedade Ângela Hyper, sendo que a área experimental (4.320 pés) foi dividida em três tratamentos com nove parcelas, contendo 160 plantas. Os tratamentos consistiram de diferentes sistemas de condução da cultura em relação ao controle de pragas, a saber:
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A - MIP = Manejo Integrado de Pragas. O controle químico só foi efetuado a partir da constatação da praga em nível econômico de dano e as plantas com sintomas de viroses foram erradicadas.
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B - MIP + GRAN. = Manejo Integrado de Pragas + Inseticida Granulado: segue a metodologia anterior incluindo o tratamento de solo com o inseticida granulado aldicarb (Temik 150) no sulco de plantio na dosagem de 10 kg/ha.
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C - CONV. + GRAN. = Tratamento Convencional + Inseticida Granulado: Pulverizações semanais com deltametrina (Decis 25 CE), incluindo o tratamento de solo com o inseticida granulado aldicarb (Temik 150) no sulco de plantio na dosagem de 10 kg/ha.
Para os três tratamentos efetuou-se monitoramento semanal de pragas e inimigos naturais, através de observação visual e batedura do ponteiro sobre recipiente branco, em 10 plantas por parcela, conforme metodologia desenvolvida por GRAVENA (6). Para os sugadores iniciais foi considerado como nível de controle a presença de um adulto, na média das nove parcelas amostradas, até os trinta dias da cultura.
Para a mosca minadora Liriomyza SP. , considerou-se a presença de minas. Para Scrobipalpula absoluta, além da presença de minas considerou-se a presença de orifícios de entrada nos frutos verdes e maduros e para Neoleucinodes elegantalis, o percentual de frutos com orifícios de entrada e saída.
A avaliação dos tratamentos foi feita através da observação das curvas populacionais de pragas e inimigos naturais, além da comparação entre os dados de colheita total dos frutos.
RESULTADOS
Na figura 1 as curvas de flutuação populacional das pragas-chave da cultura incluem os sugadores iniciais Frankliniella schulzei Trybom, 1920 e Myzus persicae Sulzer, 1976, as minadoras Liriomyza SP. e Scrobipalpula absoluta (Meyrick, 1917), que ocorrem desde o viveiro até a colheita e a tardia Neoleucionodes elegantalis (Guenée, 1854).
A figura 2 mostra as curvas de flutuação populacional de coccinelídeos, himenópteros e aracnídeos que atuam como inimigos naturais de pragas.
As referidas curvas são apresentadas em três sistemas de condução da cultura em relação ao controle de pragas: manejo integrado de pragas, manejo integrado de pragas mais inseticida granulado no plantio e tratamento convencional mais inseticida granulado no plantio.
Relacionam-se abaixo os dados de produção obtidos em cada tratamento estudado e o número de pulverizações efetuadas:
No tratamento A, as pulverizações foram efetuadas durante os primeiros 30 dias da cultura, sendo a primeira com deltametrina (Decis 25 CE) - 0,4 ml/l água, as seguintes com acefato (Orthene 750 BR) - I g/l água. No tratamento B, efetuou-se pulverização com deltametrina (Decis 25 CE) - 0,4 ml/l água na primeira semana da cultura. No tratamento C foram efetuadas pulverizações semanais com deltametrina (Decis 25 CE) - 0,4 ml/l água durante todo o ciclo da cultura.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Na figura 1 observa-se o efeito do granulado aldicarb, utilizado nos tratamentos B e C, sobre a população dos sugadores iniciais Frankliniella schulzei e Myzus persicae, limitando o desenvolvimento de sua população, o que não ocorreu no tratamento A. Segundo GRAVENA (4), para fins de manejo integrado, a cultura do tomateiro apresenta duas fases distintas: fase inicial (até 40 dias) e fase final (início da formação dos frutos). Na fase inicial, o problema chave são os insetos vetores: tripes, pulgões e mosca branca que transmitem as viroses "vira-cabeça", "amarelos", "y" e "mosaico-dourado". Após este período, o problema das viroses é reduzido pela maior tolerância da planta adulta. Apesar do efeito limitante do inseticida granulado sobre a população dos insetos sugadores, permanece o risco da transmissão de viroses através da "picada de prova", que pode ser diminuída através da utilização de inseticidas de contato e de métodos mecânicos de controle, como barreiras físicas e culturas armadilhas.
Ainda na figura 1, relativa à Liriomyza SP. , observa-se que as curvas de flutuação dos tratamentos A e B assemelham-se diferindo do tratamento C, o que evidencia o efeito do produto de contato. O pico populacional da praga em questão ocorreu no mês de julho para os tratamentos A e B e em agosto para o tratamento C. Foi observado que, apesar da alta incidência de adultos no tratamento A, o número de minas encontrado foi reduzido, podendo indicar a não preferência do inseto para postura no tomateiro, o que justifica a decisão de não se efetuar a pulverização com inseticidas. De acordo com GRAVENA (7), o nível de controle para esta praga seria a presença de 25 minas em 6 folíolos ao acaso, no terço apical da planta, em 1 metro linear por parcela. FRANÇA (3) estabelece um nível de controle igual a 10 pupas/bandeja/3 dias, para Liriomyza SP. em tomate, monitorada através da coleta de pupas em bandejas, coloçadas na base das plantas duas vezes por semana. POHRONEZNY et al. (9) recomendam o exame de 2 m de rua/ha a cada duas semanas, observandose o número de minas e as porcentagens de minas com larvas vivas e mortas, em seis folíolos trilobados da 3? ou 4? folha já desenvolvida, a partir do ápice da planta; o nível de controle seria de 25 minas/6 folíolos trilobados/ha com 25 % de minas contendo larvas vivas.
O presente ensaio foi realizado fora do período favorável para a praga chave da cultura, Scrobipalpula absoluta (traça do tomateiro), cujo crescimento populacional inicia-se com o aumento da temperatura em agosto/setembro, decrescendo com a queda da mesma em abril/maio. Mesmo assim, observa-se, na figura 1, uma infestação inicial apresentando diferenças entre o tratamento convencional e os tratamentos que foram conduzidos pelo manejo integrado. No início da época favorável à praga, as infestações apresentaram pequenas diferenças entre os tratamentos, mas não na produção final. FRANÇA (3) estabelece para o monitoramento desta praga, o exame visual de ovos e larvas nas folhas e flores do terço superior da planta, durante todo o ciclo da cultura. Segundo GRAVENA (6) faltam estudos visando determinar o melhor método de amostragem e o nível de dano econômico para a traça no Brasil; entretanto, o mesmo considera viável a aplicação dos métodos já bem definidos para a traça Keiferia lycopersicella (Walsingham), muito freqüente na América do Norte. POHRONEZNY et ai. (9) e POHRONEZNY & WADDILL (8), em MIP de tomate na Flórida, estabelecem uma amostragem de 2m de rua/ha, contando o número de minas em três folhas já formadas do topo de cada planta, definindo o nível de controle como uma mina para cada três folhas examinadas por planta, nos dois metros de rua, em média.
Com relação à broca pequena Neoleucinodes elegantalis, o presente ensaio também situouse fora do período mais favorável, que seria a coincidência da produção com o mês de março. Apesar disso, a população apresentou pico no final da colheita, com diferença entre os tratamentos conduzidos pelo MIP e o convencional, não interferindo porém na produção. GRAVENA (6) considera razoável a amostragem através de exame visual de 25 pencas/ha ao acaso e o nível de controle de 5% e 1% de frutos com sinais de entrada e saída da broca respectivamente.
Curvas de flutuação populacional de pragas-chave em cultura de tomate estaqueado. Tremembé - SP, 1986.
Curvas de flutuação populacional de inimigos naturais de pragas em cultura de tomate estaqueado. Tremembé - SP, 1986.
O presente trabalho é um estudo preliminar do conceito de manejo integrado, devendo ser aferido em relação à técnica de amostragem e nível de controle, que devem inclusive ser regionalizadas. No entantoóá apresenta vantagens da utilização do MIP como a redução do número de pulverizações sem interferências significativas na produção. GRAVENA (6) considera que qualquer redução no uso de inseticidas, ainda que pequena, representa um extraordinário ganho para o meio ambiente e para o consumidor. O mesmo autor (4,5,7) apresenta dados de estratégias de manejo integrado com redução no número de aplicações de defensivos e tabelas comparativas entre o surto de pragas e declínio de inimigos naturais, após a aplicação de inseticidas em culturas de algodão, soja, café e citros. CRUZ (2) apresenta dados de redução no custo e número de pulverização em campos de algodão, conduzidos com técnicas de manejo integrado em diversos municípios do Estado de São Paulo. GRAVENA (4) observa o porcentual de redução de predadores chave, após aplicação de inseticidas e estabelece índices de adequação para o manejo integrado, em função do número de frutos danificados e do total de predadores, em cultura de tomate.
Com relação à fauna benéfica foram amostrados apenas himenópteros (microhimenópteros e vespídeos), coccinelídeos (joaninhas) e aracnídeos, reconhecidos como inimigos naturais.
A figura 2 evidencia o efeito do inseticida de contato do tratamento C, reduzindo a população de himenópteros e aracnídeos, de forma semelhante a que ocorrreu com os pulgões, tripes e moscas minadoras. A curva do tratamento B pode ser explicada pela redução do nível populacional das pragas iniciais pelo efeito do inseticida granulado. Dessa forma, a curva populacional dos himenópteros e aracnídeos no tratamento A seria atribuída à presença significativa das pragas e ausência da interferência de inseticidas. A curva populacional de coccinelídeos foi pouco expressiva, apenas demonstrando um efeito inicial do inseticida de contato no tratamento C. Segundo RAGA (10) e GRAVENA (6), são predadores chave na cultura do tomateiro percevejos dos gêneros Nabis, Orius e Geocoris, coccinelídeos, tesourinhas, crisopídeos, carabídeos, tripes, formigas lava-pés e algumas famílias de aranhas. GRAVENA (6) salienta a importância da preservação de alta densidade de artrópodes predadores, na primeira fase da cultura, as quais agiriam não só sobre os vetores de viroses, mas principalmente sobre ovos e lagartas de 1 ? instar de lepidópteros, durante a frutificação. O mesmo autor, menciona a existência de parasitóides da superfamília Chalcidoidea, sobre tisanópteros em geral, salientando não haver qualquer citação para os tripes do tomateiro; além disso, relaciona diversos microhimenópteros parasitóides de ovos, larvas e adultos das pragas da cultura.
O presente trabalho permite observar a existência de uma fauna benéfica na cultura do tomateiro, que interfere na população de pragas-chave, mas é influenciada pelo uso de produtos químicos utilizados durante o ciclo cultural, principalmente os que agem por contato. Observa-se, ainda, a possibilidade de se reduzir o número de aplicações destes produtos químicos, através da utilização de técnicas do manejo integrado. Dessa maneira, torna-se evidente a necessidade do reconhecimento de artrópodes parasitos e predadores presentes na cultura. Os resultados obtidos demonstram, ainda, que uma certa população da praga nem sempre é prejudicial à cultura, sendo tolerável sem grandes prejuízos à produção, o que permite diminuir os tratamentos fitossanitários com ganhos reais no custo operacional da cultura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- 1 CROCOMO, W.B. ManejodePragas. Botucatu, SP, Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais, 1984. 238p. [Curso de Extensão Universitária]
- 2 CRUZ, V.R. da. Controle integrado de pragas. Campinas, SP, CTPV - DEXTRU/CATI, 1983, p. 9-13. [Artigo de divulgação]
- 3 FRANÇA, F.H. Considerações sobre um programa de Manejo Integrado de Pragas de Hortaliças no Brasil. In: Congresso Brasileiro de Olericultura, 24. & Reunião Latinoamericana de Olericultura, 1., Jaboticabal - F.C.A.V./UNESP, 1984. Palestras publicadas. Jaboticabal, Sociedade Brasileira de Olericultura, 1984. p.104-128.
- 4 GRAVENA, S. O manejo integrado - Pragas. Granja, São Paulo, 38 (411): 38-50, 1982.
- 5 GRAVENA, S. O controle de pragas - manejo integrado. Granja, São Paulo, 38 (417): 78-82, 1982.
- 6 GRAVENA, S. Manejo integrado de pragas do tomateiro. In: Congresso Brasileiro de Olericultura, 24. & Reunião Latinoamericana de Olericultura, 1., Jaboticabal, F.C.A.V./UNESP, 1984. Palestras publicadas. Jaboticabal, Sociedade Brasileira de Olericultura, 1984. p.129-149.
- 7 GRAVENA, S. Manejo integrado de pragas - A agricultura alternativa em grande escala. Jaboticabal, SP, 1985. 7p. [Artigo de divulgação]
- 8 POHRONEZNY, K.L. & WADDILL, VAN. Integrated pest management - development of an alternative approach to control of tomato in Florida. Eu. plant. path. Rot., 22, 1978. 7p.
- 9 POHRONEZNY, K.L.; WADDILL, VAN.•, STALL, w.M., DANKERS, W. Integrated control of the vegetable leafminer (Liriomyza sativae Blanchard) during the 1977-78 tomato season in Dada County, Florida. Proc. Fia. State Hortic. Soc., 91: 264 - 267, 1978.
- 10 RAGA, A. Amostragem de insetos e atividade de artrópodes predadores na cultura do tomateiro de crescimento determinado. Jaboticabal, FCAV - UNESP, 1982. 68p. [Trabalho de graduação]




