Open-access EFEITO DE ACARICIDAS SOBRE O ÁCARO DA LEPROSE BREVIPALPUS PHOENICIS (GEIJSKES) E ÁCAROS PREDADORES EM PLANTAS CÍTRICAS

EFFECT OF ACARICIDES TO BREVIPALPUS PHOENICIS (GEIJSKES) AND PREDACEOUS MITES IN CITRUS TREES

RESUMO

O experimento foi realizado em pomar de laranja em Presidente Prudente, SP, com o objetivo de avaliar a eficiência de alguns acaricidas, no controle de Brevipalpus phoenicis (Geijskes) (Acari: Tenuipalpidae), assim como observar a toxicidade destes produtos sobre os ácaros predadores presentes no pomar cítrico. Os tratamentos e respectivas concentrações (g i.a./lO0L de água) foram: hexythiazox (0,75 e 1,5); hexythiazox + pyridaphenthion (0,75 + 50,0); hexythiazox + abamectin (0,75 + 0,54); hexythiazox + propargite (0,75 + 27,0); pyridaphenthion (50); abamectin (0,54); propargite (27,0) e óxido fenbutatin (38,4); além da testemunha. Todos os tratamentos, com exceção de abamectin, pyridaphenthion e propargite aplicados isoladamente, apresentaram controle satisfatório de B. phoenicis até 127 dias após a pulverização. Todos os acaricidas, com exceção de hexythiazox e abamectin, aplicados isoladamente ou em mistura, foram significativamente prejudiciais aos ácaros predadores, até 34 dias após a aplicação.

PALAVRAS-CHAVE:
Citros; ácaro da leprose; controle químico; Phytoseiidae.

ABSTRACT

The experiment was carried out in citrus orchard in Presidente Prudente county, state of São Paulo, in order to study the effect of some acaricides toBrevipalpus phoenicis (Geijskes) (Acari: Tenuipalpidae) and predaceous mites. The products tested and concentrations in g Al/lO0L of water were: hexythiazox (0.75 e 1.5); hexythiazox + pyridaphenthion (0.75 + 50); hexythiazox + abamectin (0.75 + 0.54); hexythiazox + propargite (0.75 + 27.0); pyridaphenthion (50.0); abamectin (0.54); propargite (27.0); and fenbutatin oxide (38.4). All the treatments, with the exception of abamectin, pyridaphention and propargite applied solely, presented good control of B. phoenicis up to 127 days after application. All the acaricides, with the exception of hexythiazox and abamectin, applied solely or in mixture, were significantly harmful to predatory mites, up to 34 days post treatment.

KEY WORDS:
Citrus; leprosis mite; chemical control; Phytoseiidae.

INTRODUÇÃO

O ácaro da leprose Brevipalpus phoenicis (Geijskes) (Acari: Tenuipalpidae) é uma das principais pragas no sistema de manejo integrado de pragas (MIP) dos citros. Sua importância é devida à transmissão do vírus, agente causal da doença leprose, que compromete seriamente a produtividade. Além disso, é responsável por significativa parcela dos custos da produção dos citros (OLIVEIRA, 1995). A severidade da doença é variável de acordo com a variedade dos citros e a região. Nos casos severos, podem ocorrer a queda das folhas e a morte dos ramos. Recentemente, tem havido recrudescimento de sua incidência nos pomares p; , ulistas (KITAJIMA et al., 1995). Até hoje, o controle da leprose é baseado na eliminação do inóculo mediante a poda de plantas afetadas pela doença e no uso de acaricidas para reduzir as populações do ácaro vetor (ROSSETTI, 1995). Com relação à utilização de acaricidas, são diversos os trabalhos realizados nos últimos anos (RAGA et al., 1990; SATO et al., 1992; CHIAVEGATO et al., 1993; SATO et al., 1994b; SATO et al., 1995b; RAGA et al., 1996a).

Entre os predadores presentes em citros destacam-se os ácaros da família Phytoseiidae, que exercem o controle biológico sobre os ácaros fitófagos chaves: ácaro da leprose e ácaro daferru-gemPhyllocoptruta oleivora (Ash.) (GRAVENA, 1990; MOREIRA, 1993). Na família Phytoseiidae estão compreendidas mais de 1500 espécies, das quais mais de 50 já foram assinaladas no Brasil (MORAES, 1992). A maioria das espécies pertencentes a esta família é predadora, alimentando-se de ácaros fitófagos e até mesmo de formas jovens de insetos como cochonilhas e tripes (NASCIMENTO et al., 1982). As espécies lphiseiodes zuluagai Denmark & Muma, Euseius citrifolius Denmark & Muma e Euseius concordis (Chant) são bastante freqüentes nos pomares do Estado de São Paulo (MOREIRA, 1993; SATO et al., 1994a; MORAES & SÁ, 1995). Para que o controle biológico seja efetivo, devem ser utilizadas táticas de MIP que preservem e favoreçam o aumento populacional destes inimigos naturais, tais como a realização de controle químico somente nos níveis de ação estabelecidos e a utilização de produtos seletivos, preservando desta maneira, estes agentes de controle biológico nos pomares cítricos (YAMAMOTO et al., 1994). Neste aspecto, diversos trabalhos de seletividade de produtos químicos sobre ácaros predadores e outros inimigos naturais, presentes em pomar cítrico, têm sido realizados (YAMAMOTO et al. 1992; SATO et al., 1994b; SATO et al., 1995a; SATO et al., 1996).

O objetivo do presente experimento foi avaliar a eficiência de alguns acaricidas, aplicados isoladamente ou em mistura, no controle do ácaro da leprose, assim como observar a toxicidade destes produtos sobre os ácaros predadores presentes no pomar cítrico.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado na Estação Experimental do Instituto Biológico, em Presidente Prudente, SP, em pomar de citros, cv. Pera Rio, de 12 anos de idade e com espaçamento de 5 m entre plantas e 7 m entre ruas. O pomar esteve livre da pulverização de acaricidas e inseticidas há pelo menos 6 meses antes do início do experimento. Os tratamentos e as respectivas concentrações em g i.a./100L de água estão apresentados na Tabela 1. Adotou-se o delineamento estatístico de blocos ao acaso, com quatro repetições. A parcela foi constituída de três plantas, avaliando-se apenas a planta central. Havia uma rua de plantas separando os blocos. A aplicação foi realizada em 22/6/95 através de pulverizador tratorizado, equipado com pistolas, gastando-se em média 15 litros de calda por planta.

Tabela 1
Tratamentos empregados em pomar de laranjeira: ingredientes ativos, produtos comerciais e respectivas concentrações. Presidente Prudente, SP, junho/1995

De cada planta útil foram coletados ao acaso cinco frutos, preferencialmente aqueles com sintomas de verrugose, avaliando-se o número de ácaros da leprose vivos presentes na área correspondente ao deslocamento de uma lupa (com campo visual de 1 cm2 e aumento de 10 vezes), desde o pedúnculo até o extremo oposto do fruto. Também foram coletadas cinco folhas de cada planta útil, conforme metodologia sugerida por RAGA et dl. (1996b), visando a avaliação do número de ácaros predadores presentes. Os adultos e larvas dos ácaros predadores foram avaliados no campo, também através de lupa manual de bolso, sendo coletados e transferidos com o auxílio de pincel para recipientes contendo álcool 70%. Posteriormente, procedeu-se à montagem destes ácaros em lâminas de microscopia para a identificação, no laboratório da Seção de Pragas das Plantas Industriais do Instituto Biológico, em Campinas, SP.

Uma avaliação prévia foi realizada em 21/6/ 95, conduzindo-se as demais avaliações aos 7, 14, 34, 61, 97, 127 e 160 dias após a pulveriza_,ç_ ;ão (DAP). O número de ácaros da leprose e predadores foi transformado em e analisado através dos tes es F e Tukey a 5% de probabilidade. As porcentagens de redução populacional foram calculadas segundo a fórmula de ABBOTT (1925).

RESULTADOS

Os efeitos dos acaricidas sobre a população do ácaro da leprose e dos ácaros predadores, podem ser observados nas Tabelas 2 e 3, respectivamente.

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Todos os acaricidas testados afetaram significativamente a população do ácaro da leprose em citros. Não foram observadas diferenças estatísticas entre os tratamentos de hexythiazox, com maior (1,5g i.a./IO0L) e menor (0,75g i.a./IO0L) concentração, em relação ao controle do ácaro praga. O hexythiazox na sua menor concentração apresentou controle semelhante ao óxido fenbutatin. Apesar de não se observar diferença estatística entre estes tratamentos, o hexythiazox na sua maior concentração foi o único a se mostrar significativamente superior à testemunha aos 160 DAP, apresentando eficiência acima de 90%, nesta avaliação. Estes resultados concordam com SATO et al. (1995b) que observaram uma alta eficiência do hexythiazox contra o ácaro da leprose em citros até 127 DAP.

A boa eficácia do hexythiazox, mesmo na sua menor concentração, prejudicou a observação do efeito da mistura deste acaricida com os produtos pyridaphenthion, abamectin e propargite, sobre o controle de B. phoenicis. Assim sendo, as misturas com os três acaricidas não mostraram ser significativamente superiores ao hexythiazox, aplicado isoladamente na sua menor concentração. Estas misturas foram tão eficientes quanto o hexythiazox utilizado na sua maior concentração.

Os produtos pyridaphenthion e abamectin, quando aplicados isoladamente, não apresentaram a mesma performance dos tratamentos anteriores (hexythiazox e misturas), sendo que a partir dos 61 DAP as porcentagens de redução populacional, nestes tratamentos, tornaram-se inferiores a 51%. O propargite, utilizado isoladamente, mostrou controle satisfatório de B. phoenicis até 61 DAP. Após este período, a redução também foi inferior a 51%.

As principais espécies de ácaros predadores encontradas neste pomar foram: E. concordis (53,3%), E. citrifolius (45,0%),/. zuluagai (1,5%), eAmblyseius spp (0.2%) de um total de 553 ácaros fitoseídeos (fêmeas) amostrados. Também foram encontrados alguns ácaros das famílias Stigmaeidae (45) e Bdellidade (19). Com relação ao efeito dos produtos químicos sobre a população de ácaros predadores, observou-se que o hexythiazox nas duas concentrações não se mostrou muito tóxico a estes predadores, com porcentagens de redução populacional inferiores a 48%, nos primeiros 34 dias após a aplicação (Tabela 3). A baixa toxicidade do hexythiazox aos ácaros fitoseídeos também foi verificada em outros experimentos (SATO et al., 1992· SATO et al., 1995b).

Tabela 2
Efeito de acaricidas sobre o ácaro-da-leprose B. phoenicis em laranjeira: número médio de ácaros por planta (Nº) e porcentagem de redução (% Red). Presidente Prudente, SP, junho a novembro/95.
Tabela 3
Efeito de acaricidas sobre ácaros predadores em laranjeira: número médio de ácaros por planta (Nº) e porcentagem de redução(% Red). Presidente. Prudente, SP, junho a novembro/95.

A partir dos 61 DAP, houve uma queda populacional gradativa desses inimigos naturais no campo, dificultando a interpretação dos resultados. Nesta ocasião (61 DAP), já não se observava diferença estatística entre os tratamentos (incluindo a testemunha).

Esta queda populacional foi devida, provavelmente, às condições climáticas desfavoráveis a estes organismos que ocorreram neste período. Neste caso, houve um longo período de estiagem na região, durante os últimos meses do experimento, provocando baixos índices de umidade relativa do ar; que segundo MORAES & MCMURTRY (1981), são desfavoráveis para a eclosão de larvas de ácaros fitoseídeos como E. citrifolius.

A mistura do hexythiazox c_om pyridaphenthion ou propargite foi significativamente prejudicial aos ácaros predadores, registrando-se porcentagens de redução populacional de até 80 e 100%, para as misturas com propargite e pyridaphenthion, respectivamente, até 34 DAP. A mistura com abamectin induziu reduções de até 60% na população destes ácaros. Segundo SATO et al. (1996), o abamectin apresenta um período de toxicidade residual bastante curto, mostrando-se significativamente tóxico (porcentagem de redução de até 61,5%) ao fitoseídeo 1. zuluagai, até um dia após a pulverização em plantas cítricas.

Os produtos pyridaphenthion e propargite aplicados isoladamente também foram mais prejudiciais a estes inimigos naturais que o hexythiazox, provocando reduções populacionais de até 100%. A elevada toxicidade de propargite aos ácaros predadores também foi observada por SATO et al. (1994c).

O óxido fenbutatin praticamente não se mostrou tóxico aos ácaros predadores na primeira avaliação, realizada aos 7 DAP, com 22% de redução populacional. Porém, aos 34 dias esta redução chegou a 80%. A baixa mortalidade inicial induzida pelo produto confirma os resultados obtidos por SATO et al. (1994b), que observaram que a toxicidade residual deste produto para fêmeas adultas de E. citrifolius era praticamente nula. Por outro lado, alguns experimentos realizados em campo (SATO et al., 1992; YAMAMOTO et al., 1992) mostraram que este acaricida causou reduções significativas na população de fitoseídeos, possivelmente por afetar alguma fase de desenvolvimento destes ácaros.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    19 Jun 1997
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