RESUMO
O presente artigo visa registrar uma ocorrência de ergotismo em bovinos jovens observada no município de Mairinque, SP. Os animais exibiam lesões classicamente descritas em casos dessa doença com necrose das extremidades. O problema foi ocasionado pela ingestão de hastes de uma Juncaceae onde foi observada a presença do ergot (Claviceps junci).
PALAVRAS-CHAVE:
ergotismo; bovinos;
Claviceps junci
ABSTRACT
The present paper reports the occurrence of bovine ergotism in the county of Mairinque, SP, Brazil. The young animals exhibited the classically described ergotic lesions and disorders leading to necrosis of the extremities affecting tails, paws and ears. The anamnesis and studies showed that the cattle ergot problem was caused by the ingestion of flowering Juncus sp. infected by Claviceps junci, growing in the area. The symptoms are described and the animals pictured in detail.
KEY WORDS:
ergotism; cattle;
Claviceps junci
O ergotismo em bovinos não constitui ocorrência freqüente em nosso meio, visto que é necessária uma conjugação de fatores para que fungos do gênero Claviceps, Tul. possam instalar-se e frutificar sobre sementes dos vegetais hospedeiros.
Outrossim, há ainda a necessidade de que a planta hospedeira seja palatável para que os herbívoros a ingiram em quantidades suficientes para desencadear os fenômenos tóxicos.
Pode-se dizer que tal aspecto difere basicamente do ergotismo na espécie humana onde a origem do mesmo pode estar, não apenas na ingestão de farinhas produzidas com grãos contaminados com o ergot, mas também na utilização indiscriminada de fármacos que contenham, em sua fórmula, alcalóides produzidos por Claviceps purpurea (Fr.: Fr.) Tul.
O·ergotismo costuma ser encarado clinicamente sob duas formas distintas: aquela que é conhecida como ergotismo nervoso e que se manifesta nos animais sob a forma de tremores, incoordenação motora e até convulsões e que é identificado pelos autores norte americanos como "paspalum staggers" (BELSCHNER, 1976; BROOK, 1966) ou "bermudagrass tremors" (PORTER et al.,1974) e o ergotismo gangrenoso que condiciona o aparecimento de necrose nas extremidades do corpo do animal como patas, cauda e orelhas (BELSCHNER, 1976; BROOK, 1966; HANSEN, 1928; PORTVGAL etal., 1979;ROSENFELD&BEATH, 1950; WOODS et al., 1966).
O ergot tem sido ainda responsabilizado por abortamentos (HANSEN, 1928; NORDSKOG & CLARK, 1945) e por fenômenos de mutagenicidade e teratogenicidade, como comprovam experimentos realizados com animais de laboratório (HAYES, 1981).
A ingestão do esporão de ergot pelos animais é uma ocorrência meramente acidental pois, além das condições já referidas para que isso aconteça, é ainda importante que o ciclo de vida do Claviceps spp esteja no momento de sua maior capacidade de produção de alcalóides para que a concentração dos mesmos seja suficientemente elevada para acumular-se no organismo animal e causar lesões nos vasos sanguíneos. Em conseqüência desses danos surge a manifestação clínica mais significativa da doença, que é o prejuízo para a circulação local e a resultante necrose das extremidades.
O momento de maior toxicidade dos ergots é considerado como sendo o período em que a sua secreção passa do estado viscoso, conhecido pelos autores americanos como "honeydew" ("orvalho de mel") para um estado sólido endurecido, denominado escleródio ou esporão (BELSCHNER, 1976; LOVELESS, 1964). Posteriormente, o esporão germina dando origem ao ascoma do estado teleomórfico Claviceps. Esse ascoma é estipitado e capitado e a cabeça suporta um grande número de peritécios que contém os ascos e ascosporos.
A produção do líquido viscoso e de sabor açucarado ocorre durante a fase de frutificação conidiana e suas características atraem insetos e outros pequenos animais, contribuindo, dessa forma, para a disseminação de Claviceps spp na natureza.
As espécies do gênero Claviceps são preponderantemente parasitas de gramíneas podendo ainda, embora menos freqüentemente, ser encontrados em outras famílias monocotiledôneas, como por exemplo nas Cyperaceae (ROGER, 1951) e Juncaceae (FARR et al., 1989).
Em nosso meio, em 1979, foram registrados três casos distintos de ergotismo bovino do Estado do São Paulo (PORTUGAL et al., 1979). Nessa oportunidade o estado anamórfico de Claviceps, pertencente ao gênero Sphacelia, pôde ser constatado parasitando as sementes do capim colonião (Panicum ma.ximum, Jacquin) onde os animais pastavam.
O caso clínico - a presente citação envolve igualmente animais da espécie bovina, mestiços de raças holandesa e zebuína e atingiu unicamente animais jovens que se encontravam confinados em pequena área de pasto formado por capim pangola (Digitaria decumbens Stent), no município de Mairinque, SP. A anamnese ofereceu informação de que oito bezerros apresentaram, inicialmente, dificuldade na locomoção que, com o evoluir do processo, ficaram impossibilitados de manter-se em estação, passando a permanecer deitados.
Nas fases mais adiantadas, ocorreu a necrose das extremidades com perda das pontas das caudas, orelhas e das primeiras falanges (Figs. 1, 2, 3, 4 e 5).
A informação anamnética e o quadro clínico observado levaram a suspeita de tratar-se de ergotismo. Entretanto, a busca de hastes de capim com sementes, eventualmente contaminadas pelo ergot, resultou infrutífera.
Chamou a atenção, todavia, o fato de que alguns animais ingeriram um vegetal de hastes longas, algumas exibindo inflorescências e ou sementes em suas extremidades (Figs. 6 e 7). Sobre as mesmas, foi possível visualizar formações proeminentes de tonalidade variando entre o amarelo e o castanho, com a forma clássica de um pequeno esporão (Fig. 8).
Esse vegetal vicejava, sob forma de touceiras na porção limítrofe da área, onde a umidade do solo estava garantida pela presença de um córrego. Amostras coletadas possibilitaram classificá-lo como pertencente ao gênero Juncus. Sobre ele o fungo Claviceps junci Adams, segundo FARR et al. (1989), pode desenvolver-se e, eventualmente, vir a ser o responsável pelo ergotismo nos animais que os ingeriram.
Finalmente deve ser destacado que habitualmente os bovinos não são levados a ingerir esse tipo de vegetal, a menos que não tenham outra opção, como aconteceu na presente ocorrência, na qual o longo período de seca fez com que somente os vegetais próximos ao córrego permanecessem verdes.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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