Open-access LEPTOSPIROSE BOVINA. NÍVEIS DE OCORRÊNCIA E SOROTIPOS PREDOMINANTES EM REBANHOS DOS ESTADOS DE MINAS GERAIS, SÃO PAULO, RIO DE JANEIRO, PARANÁ, RIO GRANDE DO SUL E MATO GROSSO DO SUL. PERÍODO DE JANEIRO A ABRIL DE 1996*

BOVINE LEPTOSPIROSIS. OCCURRENCE AND MOST PREVALENT SEROVARS IN FARMS FROM STATES OF SOUTH, SOUTHEASTERN AND CENTER REGIONS OF BRAZIL. BLOOD COLLECTIONS FROM JANUARY TO APRIL OF 1996

RESUMO

De janeiro a abril de 1996 foram examinados 2449 bovinos de 56 propriedades, distribuídas em seis estados brasileiros (Minas Gerais-MG, Rio de Janeiro-RI, São Paulo-SP, Mato Grosso do Sul-MS, Paraná- PR e Rio Grande do Sul -RS). Destas propriedades, 34 e 21 criavam, respectivamente, raças leiteiras e de corte. Apenas quatro rebanhos referiram já ter efetuado vacinação contra leptospirose. Houve 1.480 (60,43%) animais positivos para pelo menos um de 24 sorotipos de leptospiras (microtécnica de soroaglutinação microscópica). A caracterização do sorotipo mais provável, por propriedade, levou em conta a titulação e a freqüência. A distribuição dos sorotipos mais prováveis, nos seis estados foi: hardjo (76,78%); wolffi (5,35%); pomona (3,57%); grippotyphosa (3,57%) e australis (1,78%). Nos estados isolados a distribuição dos sorotipos foi: MS e PR= hardjo; RJ e RS= hardjo e wolffi; MG= hardjo, wolffi, pomona e grippotyphosa; SP = hardjo, pomona, grippotyphosa e australis. A proporção de animais reatores foi mais elevada entre os bovinos de corte que nos leiteiros (p<0,001). Foram observadas diferenças na proporção de animais reatores entre os estados (p <0,001); MS e RS apresentaram proporções de animais reatores mais elevadas do que MG, SP, PR e RJ. Houve valores mais elevados nas regiões subtropicais que nas tropicais e tropicais de altitude (p<0,001). Nos Estados de MS e RS as variações intra estado foram destituídas de significado estatístico, no entanto em SP, PR, MG e RJ as variações internas foram significantes

PALAVRAS-CHAVE:
Leptospirose; bovino; sorologia.

ABSTRACT

The presence of antibodies to leptospirosis was investigated in 2,449 bovines from 56 farms located in six states of Brazil (Minas Gerais/MG; Rio de Janeiro/ RJ; São Paulo/SP; Mato Grosso do Sul/MS; Paraná /PR and Rio Grande do Sul/RS). These states cover the southeastern, south and center regions of the country the most developed areas of beef and milk production. Only four farms had vaccinated their animals against leptospirosis but at least 90 days before the blood collections; 34 were milking farms and 21 beef farms. The blood collections were done between January to April 1996. There were found 1,480 positive reactions (60.43%) against at least one of 24 different leptospiral serovars (Microscopic Agglutination Test). In each farm the most prevalent serovar were found crossing the results of frequency and titer of agglutinines; the animals that presented the sarne titer for two or more serovars were eliminated from this analysis. The most prevalent serovars were: hardjo (76,78%); wolffi (5,35%);pomona (3,57%);grippotyphosa (3,57%) andaustralis (1,78%). Analysis by state give the following distribution: MS and PR= hardjo; RJ and RS= hardjo and wolffi; MG= hardjo, wolffi, grippotyphosa and pomona; SP= hardjo, pomona, grippotyphosa and australis. The proportions of positive animals were higher in beef than in milking cattle(p<0.001). There were differences between states; MS and RS presented higher levels than the others. The analysis of the climatic conditions showed that the results of subtropical regions were higher than the tropical ones. The number of positive animals in different regions of the states presented no significance only in MS and RS .

KEY WORDS:
Leptospirosis; bovines; serology.

INTRODUÇÃO

A leptospirose é uma infecção amplamente difundida no Brasil que acarreta elevados prejuízos econômicos para a pecuária nacional. O seu principal impacto é o comprometimento do desempenho reprodutivo dos rebanhos acometidos (VASCONCELLOS, 1993).

O controle da leptospirose envolve a aplicação de medidas que incluem a ídentificação das fontes de infecção, a eliminação do excesso de água do ambiente e a imunização sistemática dos suscetíveis, com vacinas inativadas que contenham os sorotipos de leptospiras presentes na região. (GUIMARÃES et.al., 1982/1983).

Os sorotipos de leptospiras já isolados de bovinos brasileiros foram: pomona (FREITAS et al., 1957), icterohaemorrhagiae (SANTA ROSA et al., 1961), guaicurus, goiano (YANAGUITA, 1972), hardjo e georgia (MOREIRA, 1994). Destes pomona e icterohaemorrhagiae têm como reservatórios primários, respectivamente, os suínos e os roedores sinantrópicos. Os sorotipos guaicurus e goiano têm sido revistos pelos taxonomistas e georgia é de descrição tão recente que ainda nada foi estudado, quanto a sua distribuição.

Dos inquéritos sorológicos que investigaram a ocorrência da leptospirose em bovinos brasileiros o ponto que tem suscitado maior discussão é a participação dos sorotipos hardjo e wolffi. Estes dois sorotipos são membros do sorogrupo sejroe e apresentam uma parcela de reações cruzadas nos testes sorológicos e talvez na proteção, COSTA & MOREIRA (1996).

A patogenicidade do sorotipo wolffi foi experimentalmente demonstrada por BATRA et al.,(1991) em ovinos. As alterações observadas foram: lesões hepáticas e renais com congestão, hemorragias, infiltrações celulares e necrose .

Embora o sorotipo wolffi tenha sido observado em exames sorológicos aplicados a bovinos brasileiros, SANTA ROSA, 1969/1970; GIORGI et al. (1981); MOREIRA et al.(1979); BROD et al.(1994), LILENBAUN & SANTOS, 1995; o mesmo só foi isolado e tipificado, no. Brasil, em um surto, peri-urbano, que envolveu roedores e seres humanos CORREA et al. (1965/1967).

Os inquéritos sorólógicos realizados, a partir de 1980, em bovinos de diversas regiões do mundo, retratam a variabilidade da distribuição de sorotipos de L.interrogans nas diferentes localidades. Na Austrália os mais freqüentes foram hardjo, tarassovi eballum (MILNER et al,1980) ehardjo (KING et al., 1991). Na África, hardjo, sejroe, tarassovi e hebdomadis, (FERESU, 1988) ecynopteri, hardjo, pomona, nona, kambale, grippotyphosa, hebdomadis e pyrogenes. (NIANG et al.,1994). EmPortugal, hardjo, bratislava e saxkoebing (COLLARES PEREIRA & ROCHA, 1991). Na França, grippotyphosa (ANDRE FONTAINE et al.,1988). Na Alemanha, hardjo, grippotyphosa, saxkoebing, australis e copenhageni (SCHÕNBERG et al.,1987). No Canadá, hardjo, pomona e bratislava (RICHARDSON et al., 1995). Nos Estados Unidos da América, hardjo, pomona, grippotyphosa, copenhageni e wolffi. (THIERMAN, 1983; MILLER et al. 1991). No Méxicohardjo, wolffi e tarassovi(SALMAN et al.,1989; CANTU COVARRUBIAS & BANDARUIZ, 1995). Na Argentinahardjo (STANCHI, 1989).

No Brasil, GUIDA et al.(1959) encontraram 3,93% de reatores em 763 bovinos do Estado de São Paulo/ SP, com predomínio dos sorotipos pomona, grippotyphosa e canicola.SANTA ROSA et al.(1961) encontraram 28,3% de reatores em 279 bovinos de SP, com destaque para os sorotipos icterohaemorrhagiae, pomona, grippotyphosa e canicola.SANTA ROSA et al. (1969/1970), no período de 1960 a 1968, examinaram 15.080 bovinos de diversos Estados, encontrando 23,6% de reatores com predomínio para o sorotipo wolffi.MOREIRA et al. (1979) examinaram 6.181 bovinos do Estado de Minas Gerais e encontraram 18,35% de reatores com predomínio dos sorotipos wolffi, pomona, hardjo, icterohaemorrhagiae, grippotyphosa e canicola.GIORGI et al. (1981), no período de 1974 a 1980, examinaram 17.643 bovinos de diversos Estados encontrando 15,50% de reatores, com maior freqüência para os sorotipos wolffi, pomona e tarassovi BROD et al.(1994) em 3.265 bovinos de 351 propriedades do Estado do Rio Grande do Sul encontraram 70,42% de reatores em rebanhos leiteiros com clínica de leptospirose e 12,14 % nos rebanhos livres de sinais clínicos desta doença; os sorotipos mais freqüentes foram : hardjo, wolffi, pomona, hebdomadis, canícola e pyrogenes. LILENBAUN & SANTOS (1995) em 405 bovinos de 21 propriedades do Estado do Rio de Janeiro, encontraram 277 (68,39%) reatores compredomínio do sorotipo hardjo.

Os diversos inquéritos sorológicos sobre a ocorrência da leptospirose bovina, já realizados no Brasil oferecem informações valiosas, no entanto como foram conduzidos em momentos diversos, em localidades específicas e empregaram coleções de antígenos distintas, as conclusões obtidas necessitam ser atualizadas. Ressalte-se também a intensa mobilização nacional e internacional de animais e dos materiais de multiplicação animal que pode ter propiciado a introdução de variantes de leptospiras em áreas indenes.

Os Estados de Minas Gerais (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Paraná (PR), Rio Grande do Sul (RS) e Mato Grosso do Sul (MS) apresentam extensão geográfica que representa 20,15% do território brasileiro. No ano de 1989, a população bovina, destes estados, representava 51,81% do rebanho bovino nacional; contudo no que se refere à produtividade, ela foi responsável por 67,16% do volume de leite produzido, naquele ano, em todo o Pais (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 1991).

Deste modo o objetivo do presente trabalho foi a realização de inquérito sorológico para investigar a ocorrência de bovinos reatores para a leptospirose em rebanhós localizados em seis estados brasileiros (MG, SP, RJ, PR, RS e MS), fixando-se o período de colheita das amostras entre janeiro a abril do ano de 1996 e atentando-se para a determinação dos sorotipos mais prováveis, segundo a região e as suas respectivas características climáticas.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram examinadas 56 propriedades dos Estados MG, RJ, SP, PR, RS e MS. No Estado do Paraná foram trabalhadas seis propriedades e nos demais dez, por Estado. Não foi aplicado nenhum critério de probabilidades para o estabelecimento do número de propriedades examinadas por Estado. Os Municípios contemplados foram escolhidos em função do conhecimento prévio de criadores que concordaram com a realização da investigação. Os Municípios trabalhados por Estado foram: PR-Londrina, Ourizona, Lobato, Santa Tereza do Oeste e Campo Mourão; MS-Anastácio, Aquidauana, Nioaque, Bodoquena, Bonito, Antonio João, Amambai e Itaporã; RJ Rezende, Barra Mansa, Trajano de Moraes, Duas Barras, Itaperuna, Italva, Campos, Macaé, Caserniro de Abreu e Barra Mansa; SPPromissão, Marilia, Herculândia, Martinópolis, Guaratinguetá, Taubaté, Lorena, Batatais, Santo Antônio da Alegria e Itobi; MG - Guaxupé, Passos, Campo Florido, Tupaciguara, Uberlândia, Uberaba, Pará de Minas, Esmeraldas e Codisburgo; RS-Boçoroca, São Luiz Gonzaga, Bagé, Don Pedrito, Condor, Passo Fundo, Erexim e Cruz Alta. Em cada propriedade trabalhada foi aplicado um questionário que levantava informações sobre o tipo de exploração, as práticas de manejo zootécnico-sanitário e a ocorrência de transtornos da reprodução; 34 propriedades criavam raças produtoras de leite e 21 de corte, em uma propriedade esta informação não foi disponível. A ocorrência de abortamentos foi informada em 41 propriedades, nove referiram nã J apresentar este transtorno e seis não responderama esta questão. O registro de repetições de cio foi confirmado em 33 propriedades, a ausência deste transtorno foi referida em 13 e em 10 esta questão não foi respondida. O uso de vacinação contra a leptospirose foi relatado em quatro propriedades, no entanto de forma descontinuada e a última vacinação havia sido executada, no mínimo, há três meses da colheita de sangue. A distribuição climática envolveu 27 propriedades do tipo Tropical de Altitude,15 Tropical e 14 Sub-Tropical.

As colheitas de sangue foram realizadas no período compreendido entre 30 de janeiro a 30 de abril de 1996.

Em cada propriedade as amostras de sangue foram colhidas de um conjunto aleatório das fêmeas púberes. O número de animais examinados por rebanho foi fixado em 44; frente a uma estimativa de prevalência de 10,0% e significância de 99,0%, (FAINE,1982)

Os soros foram examinados através da microtécnica de soroaglutinação microscópica (GALTON et al., 1965), com uma coleção de antígenos vivos que incluiu 22 sorotipos de leptospiras patogênicas ( australis, bratislava, autumnalis, butembo, castellonis, bataviae, canicola whitcombi, cinoptery, grippothyphosa, hebdomadis, copenhageni, icterohaemorrhagiae, javanica, panama, pomona, pyrogenes, hardjo, wolffi, shermani, tarassovi e mini) e dois de leptospiras saprófitas ( andamana e patoc ). O soros foram triadas na dilllição de 1:100 e aqueles que apresentaram resultado positivo foram titulados através do exame de uma série de diluições geométricas de razão dois. O título do soro foi a recíproca da maior diluição que apresentou resultado positivo.

A análise dos resultados considerou como mais provável o sorotipo que apresentou maior título e o maior número de animais caracterizados como reatores na propriedade. Nas ocasiões em que um bovino apresentou reações com titulas idênticos para dois ou mais sorotipos este animal foi excluído desta análise.

A caracterização da significância entre as diferenças observadas nas freqüências de animais reatores segundo o tipo de exploração, o estado e a localização interna dentro dos estados ou de grandes regiões foi determinada através do teste de Qui-Quadrado pelo programa SPSS/6.0./Windows. O nível de significância adotado foi de 0,05.

RESULTADOS

A Tabela 1 apresenta os resultados obtidos segundo o Estado e os sorotipos predominantes. Nas 56 propriedades foram examinados 2449 bovinos, dos quais 1.480 (60,43%) foram reagentes frente a pelo menos um dos 24 sorotipos da coleção de antígenos empregada.

A variação na proporção de bovinos reagentes por estado situou-se entre 51,89 a 70,53%. Houve apenas uma propriedade (1,78 %) em Batatais/SP em que todos os animais foram não reatores e uma em Don Pedrito/RS onde todos os animais foram reatores

O estudo da influência da aptidão dos rebanhos examinados (corte ou leite) demonstrou que a proporção de reatores positivos foi significativamente superior no conjunto de propriedades que exploravam raças especializadas para a produção de carne (p <0,001).

A análise das proporções de animais reatores entre estados confirmou a existência de variação significativa (p<0,001). A distribuição dos Estados em ordem decrescente da proporção de animais reagentes é a seguinte : MS, RS, RJ, SP, MG, PR.

A análise das flutuações na proporção de animais reatores dentro dos estados revelou igualdade para as regiões norte, sul e oeste do Estado do Rio Grande do Sul (p=0,112). No estado do Paraná as regiões sudeste e centroeste foram iguais entre si, porém com valores superiores ao constatado na região norte (p<0,001). No Estado de.São Paulo as diferenças observadas foram significantes (p<0,001) e a distribuição das regiões examinadas em ordem decrescente de reatores é a seguinte: Sudoeste, Leste e Nordeste. No Estado do, Mato Grosso do Sul houve igualdade entre as três regiões examinadas: sul, sudeste e sudoeste (p=0,506). No Estado de Minas Gerais houve igualdade entre as regiões sudoeste e sul, porém ambas apresentaram valores superiores aos encontrados na região central (p<0,001). No Estado do Rio de Janeiro houve igualdade entre as regiões sul e central as quais apresentaram valores inferiores aos constatados na região norte (p=0,001).

A distribuição espacial das propriedades da região sudeste possibilitou a comparação de três importantes polos de atividade pecuária: Vale do Rio Paraiba (RJ e SP); Serra da Mantiqueira (SP e MG) e o oeste de (SP) verificando-se a existência de variações significantes (p<0,001) sendo que a distribuição destas regiões na ordem decrescente da proporção de soro-reatores é a seguinte: Centroeste -SP, Vale do Paraíba e Mantiqueira.

Tabela 1
Inquérito sorológico para a leptospirose bovina em seis estados da federação. Resultados segundo o estado, proporção de animais soro-reatores para leptospiras patogênicas (22 sorotipos) e leptospiras saprófitas (2 sorotipos) com classificação do sorotipo mais provável segundo a ordem das reações dominantes (maior título, com exclusão dos animais com título empatado para dois ou mais sorotipos). Brasil, vários estados, janeiro a abril de 1996.
Tabela 2
Rebanhos bovinos submetidos ao teste de soroaglutinação microscópica aplicada ao diagnóstico da leptospirose segundo o estado da federação e o sorotipo de Leptospira interrogans mais provável*, em primeira colocação. Brasil , vários estados, janeiro a abril de 1996.

A caracterização do sorotipo mais provável por propriedade e por estado apresentada na Tabela 2 revela que das 56 propriedades examinadas, foi possível a identificação de um sorotipo mais provável em 51, (91,07%). Em quatro propriedades, das quais uma no RJ, uma PR e duas em MS, houve a caracterização de combinações de dois sorotipos. No PR e RS o sorotipo mais provável foi hardjo; no RJ, foram: hardjo e wolffi; em MG: hardjo, wolffi, grippotyphosa e pomona e em SP: hardjo, pomona, grippothyposa e àustralis. Saliente-se contudo que nos seis estados investigados o sorotipo hardjo foi o mais provável em 43 de 56 propriedades (76,78%); o wolffi em três de 56 (5,35%), o grippotyyphosa duas de 56 (3,57%) o pomona, duas de 56 (3,57%)e o australis, uma de 56 (1,78%).

Relativamente à presença do sorotipo wolffi, constata-se que o mesmo foi o mais provável em três de 56 propriedades (5,35%), das quais uma no RJ, uma em MG e uma no RS. Nestes estados os Municípios identificados foram respectivamente: Casemiro de Abreu (RJ); Pará de Minas (MG) e Erexim.(RS). De todas estas propriedades, deve ser dado especial destaque para a de Pará de Mi-nas (MG), pois nela não foram registradas reações com o sorotipo hardjo e portanto há pouca probabilidade de terem ocorrido reações cruzadas entre os sorotipos hardjo e wolffi.

O sorotipo mini, representante do grupo mini, ao qual pertence o sorotipo georgia, recem isolado em bovinos leiteiros do Estado de Minas Gerais (MOREIRA,1994), só foi constatado como sorotipo mais provável, em terceira colocação, no Estado do Rio Grande do Sul.

As respostas apresentadas ao questionário aplicado por ocasião da colheita de sangue revelaram , que a presença de abortamento foi referida em 41 proprie-'dades e a ausência, em nove. A ocorrência de repetições de cio foi declarada em 33 propriedades e a ausência em 13 . As proporções de soro reatores calculadas segundo estas características foram, respectivamente abortamento/sim= 59,00%; abortamento/não= 66,00% (p=0,00449); repetição de cio /sim= 63,53%; repetição de cio não= 56,56% (p=0,00379).

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos revelam que no período de janeiro a abril de 1966 a leptospirose esteve presente nos seis estados trabalhados em níveis de ocorrência bastante elevados.

De fato o percentual de positividade encontrado (60,43%) quando comparado aos valores observados nos últimos anos em outros países, só foi inferior ao obtido por KING (1991), na Austrália, (72,0%). Quanto aos outros registros internacionais levantados a menor proporção de reatores do Brasil (51,89 %-PR), só foi superada pelo relato de STANCHI (1989) na Argentina com 57,3%. A época escolhida para a realização do presente trabalho pode ter contribuído para o alto valor obtido, pois as colheitas foram executadas justamente no final do período das chuvas, época em que há a maior somatória de condições ambientais favoráveis para a disseminação da infecção (FAINE, 1982).

A constatação de que as raças de bovinos de corte apresentaram maior positividade que as de leite concorda com o achado de MILLER et al. (1991), nos Estados Unidos da América, no entanto para as condições de Brasil esta é uma informação bastante inovadora pois até então imaginava-se que a leptospirose fosse mais importante em bovinos de leite devido ao sistema de criação das raças leiteiras ser mais intensivo.

As flutuações verificadas na proporção de animais reatores entre estados e em diferentes regiões de um mesmo estado também foram observadas em outros países (MILNER et al.,1980; SCHÕNBERG et al., 1987), admite-se que o clima, a topografia, o tipo de solo e as práticas de manejo (FAINE, 1982) tenham grande participação, neste contexto. Ressalte-se que no presente estudo houve uma maior positividade nas propriedades localizadas· em regiões de clima subtropical (Rio Grande do Sul e parte dos Estados de Paraná e do Mato Grosso do Sul); talvez atemperatura mais amena e as chuvas menos copiosas registradas nas regiões subtropicais quando comparadas as observadas onde o clima é tropical ou tropical de altitude possam contribuir para a persistência das leptospiras no ambiente.

A grande predominância de animais reatores para o sorotipo hardjo, concorda com observações recentes em outros países e demonstra que nos últimos anos esta amostra têm sido a mais freqüente em bovinos dos diversos continentes. É provável que o comércio internacional de reprodutores, ou dos materiais de multiplicação tenha favorecido esta condição. Dos informes internacionais analisados, apenas o registro de ANDRÉ FONTAINE et al.1988, na França, não refere a presença do sorotipo hardjo.

O sorotipo wolffi, segundo colocado, entre os bovinos examinados, apresenta uma distribuição geográfica mais restrita. A despeito de ter sido referido em inquéritos sorológicos no México (CANTU COVARRUBIAS & BANDARUIZ, 1995)enosEstados Unidos da América (MILLER et al., 1991) existe a hipótese de que tais registros tenham sido reações cruzadas com o sorotipo hardjo, pois ambos estão incluídos no mesmo sorogruposejroe (FAINE, 1982) e compartilham determinantes antigênicos entre si. Saliente-se contudo que o critério introduzido no presente estudo com análise da freqüência/título, teve o objetivo de minimizar a participação destas reações. Ressalte-se também que das três propriedades onde o sorotipo wolffi foi o predominante houve pelo menos uma em Pará de Minas-MG com 36,36% de reatores· positivos em ausência de reações para o sorotipo hardjo.

Dentre os demais sorotipos registrados a análise comparativa com os achados internacionais revela que o sorotipo pomona, também foi, recentemente, encontrado na África (NIANG et al.,1994), no Canadá (RICHARDSON et al.,1995) e nos Estados Unidos da América (MILLER et al., 1991; THIERMANN, 1983). O sorotipo grippotyphosa, na Alemanha (SCHÕNBERG, et al., 1987), nos Estados Unidos da América (THIERMANN, 1983) e na França (ANDRÉ FONTAINE et al.,1988) e o sorotipo australis na Alemanha (SCHÕNBERG et al., 1987).

A despeito de um representante do sorogrupo mini ter sido isolado em bovinos leiteiros do Estado de Minas Gerais (MOREIRA, 1994), a inclusão de uma amostra deste sorogrupo na coleção de antígenos da reação de SAM revelou a presença de uma participação muito pobre. Talvez o referido isolamento tenha uma distribuição muito restrita ou trate-se de uma variante antigenicamente distinta da estirpe empregada como antígeno.

O cotejamento dos resultados do presente estudo com os obtidos em outras investigações realizadas no País revela que os percentuais de reatores encontrados aproximam-se dos valores referidos nos últimos anos nos Estados do Rio Grande do Sul (BROD et al.,1994) e do Rio de Janeiro (LILENBA UN & SANTOS, 1995)mas foram muito superiores aos citados nos inquéritos conduzidos entre 1959 a 1980 (CORREA et al., 1965/1967; GIORGI et al., 1981; GUIDA et al.,1959; SANTA ROSA et al., 1969/1970; SANTA ROSA et al., 1961). É provável que adespeito de nos últimos anos ter ocorrido uma grande evolução tecnológica na atividade pecuária, algumas falhas nas condutas sanitárias, relacionadas às práticas de manejo e ao comércio de animais, tenham contribuído para o aumento da ocorrência da leptospirose.

No relativo a constatação do grande predomínio de reações para o sorotipo hardjo em relação aos demais, o que concorda com BROD et al. (1994) e LILENBAUAN & SANTOS (1995), pode se aventar a hipótese de que esta situação fosse conseqüência da não inclusão da amostra hardjo nas coleções de antígenos de muitos investigadores (CORREA et al., 1965/1967; GIORGi et al., 1981; GUIDA et al., 1959; SANTA ROSA et al., 1969/1970 e SANTA ROSA et al.,1961); entretantoMOREIRA et al. (1979), em uma amostra probabilística representativa de todo o Estado de Minas Gerais, colhida durante o ano de 1976, incluíram as amostras hardjo e wolffi em sua coleção de antígenos e naquela oportunidade os resultados para o sorotipo wolffi foram mais freqüentes que parahardjo. Esta argumentação reforça a hipótese de que o sorotipo hardjo tenha sido introduzido no Brasil ao final dos anos 70 e desde de então tenha se difundido pelas principais áreas de exploração pecuária no País.

Quanto a análise da associação entre a presença de transtornos reprodutivos (abortamento, repetição de cio) com a positividade para leptospirose, como as proporções de animais reatores e.de rebanhos problema foi muito elevada, não foi possível a fixação de grupos controle que incluíssem um número suficiente de rebanhos negativos ou também livres de patologias da reprodução. Ressalte-se também a informação de que quatro propriedades já haviam empregado bacterinas contra a leptospirose. No entanto há indícios de maior associação entre repetições de cio e soropositividade para a leptospirose do que entre abortamentos e os resultados sorológicos. No relativo à busca de evidências comparativas entre o sorotipo mais freqüente e a clínica de reprodução, os resultados também ficam prejudicados devido a freqüência de reações com o sorotipo hardjo ter sido muito elevada.

AGRADECIMENTOS

A realização desta investigação só foi possível devido à participação da Equipe de Médicos Veterinários da PFIZER responsável pelas colheitas a campo: Felipe Vieira Furtado; Arthur Bergo Sestito; José Roberto Baltazar; Pedro Eduardo Longuinho; Carlos Scalon; Alexandre Rosa Gonçalves; Francisco Carlos Miceli; Fernando Reis Pereira; Lineu R. Padovesi; Aristócles Borges da Mata Junior e Marcos Antonio de A. Maia.

  • *
    Trabalho apresentado em Mesa Redonda" Problemas da Reprodução", Reunião Anual do Instituto Biológico, 9., 1996 e Congresso Brasileiro de Medicina Veterinária, 25., 1997; Gramado/RS.
  • Trabalho executado em parceria com o Laboratório Pfizer Ltda.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ANDRE-FONTAINE,G. GANIERE, J.P.; BOUKERROU, A. Comparison of antileptospiral antibodies in aborting and non-aborting cows in the Loire Atlantique region of France. Israel Journal ofVeterinary Medicine. v.44, n.l, p.46-49, 1988.
  • BATRA, H.; CHANDIDRAMANI, N.K; MANDOKHOT, U.V. Clinical, bacteriological, serological, pathological and metabolic studies of Leptospira interrogans serovar woif.fi infection in sheep. Indian Journal of Animal Sciences, v.61, n.1, p.6-12, 1991.
  • BROD, C.S.; MARTINS, L.F.S.; NUSSBAUM , J.R.; FEHLBERG, M.F.B.; FURTADO, L.R.I; ROSADO, R.L.I. Leptospirose bovina na região sul do Estado do Rio Grande do Sul. A Hora Veterinária, v.14, p.15-20, 1994.
  • CANTU COVARRUBIAS & A; BANDA RUIZ, V.M. Seroprevalence of bovine leptospirosis in three municipalities in the south of Tamaulipas, Mexico. Técnica Pecuária en México. v.33, n.2, p 121-124, 1995
  • CORREA, M.O.A; HYAKUTAKE, S.; NATALE, V. GALVÃO, P.A.A.; AGUIAR, H.A. Estudos sobre a Leptospira wolfii, em São Paulo. Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, v.25/27, p.11-25, 1965/1967.
  • COSTA, M.C.R. & MOREIRA, E.C. Avaliação da imunidade cruzada entre leptospirose hardjo wolffi. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINARIA, 24., Goiânia, GO, 1996. Anais. p.170.
  • COLLARES PEREIRA, M. & ROCHA, T. Leptospira infection in cattle serologically negative for brucellosis in Portugal:second study. Revista Portuguesa de Ciências Veterinárias. v.86, n.498, p.90-98, 1991.
  • FAINE, S. Guidelinesfor the contrai ofleptospirosis, 2.ed., Geneva, World Health Organization, 1982, 171p( Who offset Publication, 67)..
  • FERESU, S.B. A serological survey to determine the most commonly occurring serovar of Leptospira interrogans in the bovine population of Zimbabwe. Israel Journal of Veterinary Medicine. v.44, n.1, p.25-30, 1988.
  • FREITAS, D.C.; LACERDA, JR.; P.M.G.; VEIGA, J.S.; LACERDA, J.P.G. Identificação da leptospirose bovina no Brasil. Revista da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia São Paulo.v.6, n.1, p.81-83, 1957.
  • GALTON, M.M.; SULZER, C.R.; SANTA ROSA, C.A.; FIELDS, M.J.. Application of a microtechnique to the agglutination test for leptospiral antibodies. Applied Microbiology, v.13, n.1, p.81-85, 1965.
  • GIORGI, W; TERUYA, J.M.; SILVA, A.S.; GENOVEZ, M.E.. Leptospirose: Resultados das soroaglutinações realizadas no Instituto Biológico de São Paulo durante os anos de 1974/1980. Biológico, São Paulo, v.47, n.11, p.299-309, 1981.
  • GUIDA, V.O.; SANTA ROSA, C.A.; D' ÁPICE, M.; CORRÊA, M.O.A.; NATALE, V. Pesquisa de aglutininas anti-leptospira no soro de bovinos do Estado de São Paulo. Arquivos do Instituto Biológico, v.26, p.109-118, 1959.
  • GUIMARÃES, M.C.; CÔRTES, J.; VASCONCELLOS, S.A.; ITO, F.H.; Epidemiologia e controle da leptospirose bovina. Importância do portador renal e do seu controle terapêutico. Comunicações Científicas da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo,v.617, nl/4, 1982/1983.
  • INSTITUTO BRASILERO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Anuário Estatístico Brasil, 1991.
  • KING , S. The prevalence of leptospirosis in cattle herds in the Western Division of New South Wales - a serological survey. Australian Veterinary Journal, v.68, n.9, p.307-308, 1991.
  • LILENBAUM, W. & SANTOS, M.R.C. Leptospirosis in animal reproduction.III. The role of serovar hardjo in bovine leptospirosis in Rio de Janeiro, Brazil. Revista Latinoamericana de Microbiologia, v.37, n.2, p.87-92, 1995.
  • MILLER, D.A.; WILSON, MA.; BERAN, G.W. Survey to estimate prevalence of Leptospira interrogans infection in mature cattle in the United States. American Journal of Veterinary Research, v.52, n.11, p.1761-1768, 1991.
  • MILNER, A.R.; WILKS, C.R.; CALVERT, K. The prevalence of antibodies to members of Leptospira interrogans in cattle. Australian Veterinary Journal, v.56, p.327-330, 1980.
  • MOREIRA, E.C. Avaliação de métodos para erradicação de leptospirose em bovinos leiteiros. 1994, 94p.[ Tese de Doutorado-Escola de Medicina Veterinária, Universidade. Federal de Minas Gerais].
  • MOREIRA, E.C.; SILVA, J.S.; VIANA, F.C.; SANTOS, W.L.M.; ANSELMO, F.P.; LEITE, R.C. Leptospirose bovinal. Aglutininas anti-leptospiras em soros sanguineos de bovinos de Minas Gerais. Arquivos Escola de Veterinária UFMG, v.31, n.3, p.375-378,1979.
  • NIANG, M.; WILL, LA.; KANE, M.DIALLO, A.A.; HUSSAIN, M. Seroprevalence of leptospiral antibodies among dairy cattle kept in comtnunal corrals in periurban areas of Bamako, Mali, west Africa. Preventive Veterinary Medicine,v.18,n.4, p.259-265, 1994.
  • RICHARDSON, G.F.; SPANGLER, E.; MACAULAY, E.B. A serological survey offour Leptospira serovars in dairy cows on Prince Edwar Island. Canadian Veterinary Journal, v.36, n.12, p.769-770;1995.
  • SALMAN, M.D.; HERNANDEZ, J.A.; BRAUN, I. A seroepidemiological study of five bovine diseases in dairy farms of the coastal region of Baja Califomia, Mexico. Preventive Veterinary Medicine, v.9, p.143-153, 1990.
  • SANTA ROSA, C.A; CASTRO, A.F.P.; SILVA, A.S. TERUYA, J.M.. Nove anos de leptospirose no Instituto Biológico de São Paulo. Revista do Instituto Adolfo Lutz, São Paulo, v.29/30, p.19/27, 1969/1970.
  • SANTA ROSA, C.A.; CASTRO, A.F.P.; TROISE, C. Leptospirose bovina. Inquérito sorológico na região de Campinas. Arquivos do Instituto Biológico, v.28, p.169-173, 1961.
  • SCHÔNBERG, A.; STAAK, C.H.; KÃMPE, U. Leptospirosis in West Germany. Results of a survey of Leptospirosis in animals in the year 1984. Joumal Veterinary Medicine.E, v.34, p.98-108, 1987.
  • STANCHI, N.O. Serological survey ofleptospirosis in cattle in Buenos Aires Province. Veterinaria Argentina, v.6, n.56, p.384-387, 1989.
  • THIERMANN, A.B. Bovine leptospirosis: Bacteriologic versus serologic diagnosis of cows at slaughter. American Journal of Veterinary Research, v.44, n.12, p.2244-2245, 1983
  • VASCONCELLOS, S.A. Leptospirose Animal. ENCONTRO NACIONAL EM LEPTOSPIROSE, 3. Rio de Janeiro, RJ.,1993, (Anais p.62-66)..
  • YANAGUITA, R.M. Contribuição ao Estudo da leptospirose bovina. Isolamento de dois novos sorotipos no sorogrupo hebdomadis: sorotipos guaicurus e goiano: 1972. 71 p. [Tese (Doutorado) Instituto de Ciências Biomédicas/USP.].

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Dec 1997

Histórico

  • Recebido
    22 Set 1997
location_on
Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error