RESUMO
Com intuito de avaliar a frequência e os níveis de resíduos de arsênio nas espécies bovina, suína, equina e aves, foram analisadas 558 amostras de fígado, rim e músculo oriundasde estabelecimentos sob Inspeção Federal de diversas Unidades da Federação, por espectrofotometria de absorção atômica. Esta pesquisa foi realizada no período de 1992 a 1995 e as amostras foram colhidas nos estabelecimentos sob Inspeção Federal. Deste total, 187 (33,5%) amostras apresentaram resíduos de arsênio. Resíduos deste elemento no fígado foram detectados em 18 (11,8%) amostras de bovinos, 14 (32,5%) de suínos, 22 (40,7%) de aves. No rim foram observados em 86 (44,5%) amostras de bovinos, em 12 (60,0%) de suínos e 21 (41,2%) de aves e no músculo de eqüinos foram detectados em 14 (31,1%) amostras. Os dados mostraram quenenhuma amostra ultrapassou.o limite de tolerância proposto pelo Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos. Resíduos de arsênio foram encontrados com maior freqüência no rim e a concentração média em aves foi significativamente mais elevada no fígado.
PALAVRAS-CHAVE:
Resíduos de arsênio; tecidos; bovinos; suinos; eqüinos; aves.
ABSTRACT
Arsenic residues in 558 samples of liver, kidney, edible muscle collected of cattle, swine, poultry and equine were determined. Arsenic residues were determined by atomic absorption spectrophometry. The samples were collected from 1992 to 1995 in abbatoirs of several states of Brazil by officials of the Federal Government. Arsenic residues were found in 187 (33.5%) samples. Arsenic residues were detected in 18 (11.8%), 14 (32.5%) and 22 (40.7%) samples ofliverin cattle, swine and poultry, respectively. Arsenic residues were alsofoundin 86 (44.5%), 12 (60.0%) and 21 (41.2%) samples ofkidney in cattle, swine and poultry and 14(31.1%) samples of edible muscle in eqpine. Arsenic residues \· were not detected above the mmaximum tolerance limit proposed by the National Residull Program Plan of the Brazilian Department of Agriculture. The results showed that arsenic residues were present with more freque9:cyp in kidney, and for poultry highe t mean concentration was in the liver.
KEY WORDS:
Arsenic residue; tissues; cattle; swines; equines; poultry.
INTRODUÇÃO
Vários elementos, muito deles, essenciais para o desenvolvimentodas plantas, animais e homem, dentro de determinadas concentrações, podem tornar-se danosos àsaúde dessas espécies quando os limites são ultrapassados. Os elementos como arsênio, cádmio, '.: chumbo dentreoutros, encontram-se disseminados no meio ambiente, ocorrendo naturalmente ; a súa toxicidade dependedaformatjt1ímicaea concentração em tecidos animais está rela ionada com a dieta (ARANHA et al., 1994).
Os elementos tóxicos como arsênio, mercúrio e cádmio são geralmente provenientes de contaminação acidental, sendo transferidos através da cadeia alimentar até o homem e animais (ARANHA et al., 1994).
O arsênio se encontra largamente distribuído nos tecidos e fluidos do corpo humano em concentrações variáveis, assim como no solo e nas plantas (ANGELLUCI & MANTOVANI, 1986). O elemento arsênio por si só não apresenta toxicidade, entretanto os compostos tri e pentavalentes são tóxicos, principalmente na forma trivalente. Quanto aos sais inorgânicos do arsênio assim como na forma orgânica a toxicidade é proporcional à sua concentração e sua forma química (DOYLE & SPAULDING, 1978).
O arsênio é acumulativo e armazena principalmente no fígado, rim, pele e cabelo. A nível intracelular o arsênio reage com o grupo sulfidrila e inibe o sistema enzimático necessário para metabolismo celular e age como antagonista frente aos elementos iôdo e selênio. No homem, uma exposição crônica pode acarretar em fraqueza. dor muscular, podendo causar polineurite, hematopoese alterada e degeneração de fígado e rins (ANGELLUCI & MANTOVANI, 1986).
Os compostos organoarsenicais tais como ácidos arsanílico e fenilarsônico são largamente utilizados em aves como medicação adicionadaà ração, auxiliando na prevenção e controle de coccidiose, assim como promotores de crescimento, de eficiência alimentar e melhoria de pigmentação. Em suínos, estes compostos são também usados no combate a enterites bacterianas e como promotores de crescimento e eficiência alimentar (FEED ADDITIVE COMPENDIUM, 1993; MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, 1991; SALISBURY etal., 1991).
Em 1990, o Programa Nacional de Controle de Resíduos do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, intensificou a amostragem nas várias espécies animais, vistoquequeo arsênio foi detectado emmadeira tratada que pode ser utilizada na construção de cercado para animais. Este programa tem sidodesenvolvido pelo governo americano _desde 1967 (UNITED STATES DEPARTEMENTOFAGRICULTURE,1990, 1994).
Diante do exposto, a Coordenação de Laboratório Animal, orgão do Ministério da Agricultura, do Abastecimento e Reforma Agrária, através de seus laboratórios vem monitorando resíduos de contaminantes inorgânicos, dentre estes, o arsênio, com intuito de avaliar a frequência e verificar se os níveis de resíduos de arsênio estão dentro dos limites estabelecidos pelo Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos em Carnes (PNCRBC) nas espécies bovina, suína, equina e aves nos diferentes tecidos analisados.
MATERIAIS E MÉTODOS
Durante o período de janeiro de 1992 a dezembro de 1995 foram analisadas 558 amostras de fígado, rim e músculo das espécies bovina, suína, equina e aves oriundas de estabelecimentos sob Inspeção Federal de diversas Unidades da Federação. As amostras foram provenientes dos Estados da Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro; Rondônia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe, São Paulo e Tocantins. Deste total, foram 249 amostras de fígado, 264 de rim e 45 de músculo (Tabela 1).
As amostras encaminhadas ao laboratório, foram constituídas de 500 gramas de cada um dos tecidos (fígado, músculo e rim), colhidas a partir de lotes de animais sorteados aleatoriamente. Posteriormente, as amostras foram embaladas em sacos plásticos, congeladas e acondicionadas em caixa de isopor contendo solução refrigerante, lacradas, identificadas e encaminhadas ao laboratório.
No laboratório, as amostras foram analisadas segundoos Métodos de Análises de Resíduos B_iológicos em Produtos de Origem Animal (MINISTERIO DA AGRICULTURA, DO ABASTECIMENTO E REFORMAAGRÁRIA, 1992).
O método baseia-senadestruição damatéria orgânica comauxíliodenitratodemagnésio. Oarsenatoéreduzido a arsenito com iodeto de potássio e o hidreto de arsênio é gerado por adição de borohidreto desódioe conduzido para uma célula dequartzo aquecida e quantificado por espectrofotômetrç de absorção atômica. . ·
O equipamento usado foi o espectrofotômetro de absorção atômica "Perkin-Elmer", modelo 2380 provido de gerador de hidretos "MHS-10" e com as seguintes condições instrumentais: comprimento de onda-193.7; fenda-O.7 alternada e fontelâmpada de descarga de arsênio.
Para a curva analítica foram utilizadas soluções padrões nas concentrações de 25,00/50,00/100,00ppb e efetuadas as leituras de absorbâncias dessas soluçôes eos valores calculados por comparação das leituras das soluções das amostras em relação à curva.
Os resultados foram expressos em partes por milhão(ppm)eparacadalotedeamostrasforamefetuadas as fortificações e a média de recuperação foi de 92%. Para assegurar a qualidade analítica, este estudo foi conduzido conforme recomendado pelo Programa de Garantia da Qualidade Laboratorial (MINISTÉRIO DA AGRICULTURA, DO ABASTECIMENTO E REFORMA AGRÁRIA, 1993).
O Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos em Carnes, estabelece os seguintes níveis de ação para arsênio nos tecidos: no músculo 0,7 ppm e no fígado e rim 2,70 ppm nas 4 espécies analisadas (MINISTÉRIODAAGRICULTURA, 1991).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Do total de 558 amostras, 187 (33,5%) amostras apresentaram resíduos de arsênio. Resíduos de arsênio no fígado foram detectados em 18 (11,8%) amostras de bovinos, 14 (32,5%) de suínos, 22 (40,7%) de aves. No rim foram observados em 86 (44,5%) das amostras de bovinos, em 12 (60,0%) de suínos e 21 (41,2%) de aves. Em eqüinos 14 (31,1%) amostras apresentaram resíduos de arsênio no músculo queéo tecido analisado (MINISTÉRIODAAGRICULTURA, 1991).
O teor mais elevado de arsênio foi detectado em uma amostra de fígado de aves com 1,60 ppm. Considerando o nível de ação de acordo com o Programa Nacional de Controle de Resíduos Biológicos em Carnes, nenhuma amostra ultrapassou o limite estabelecido. Nas tabelas 2,3,4 são apresentadas as concentrações de resíduos de arsênio em diferentes tecidos e nas espécies analisadas.
Comparando as medianas obtidas, tabelas 2 e 3 , verificou-se que para as espécies animais, bovina e suína, nos tecidos estudados fígado e rim, as medianas são iguais. Para aves, as medianas são respectivamente 0,05 parao fígado e 0,03 parao rim. Aplicando-se neste caso o teste estatístico não paramétrico (Prova U de Mano - Whitney) verificou-se que o nível mínimo de significância de 8,18%, asdistribuições das concentra· ções de arsênio nas amostras estudadas (valores de concentração= 0,01 ppm) mostram ser diferentes, considerando-se que são amostras oriundas de locais diferentes de diversas Unidades da Federação.
SALISBURY et al. (1991) estudando resíduos de multielementos em fígado e rim de espécies animais provenientes de abatedouros no Canadá, verificou-se queo resíduos de arsênio foram encontrados principalmente em amostras de suínos e aves e as concentrações médias foi de 0,36 e 0,26µg/g respectivamente, sendo que no fígado foi de sete a doze vezes superior às concentrações encontradas em outras espécies. Os dados indicam concentração média em fígado de suinos de 0,04 µg/g e em aves de 0,27µg/g, portanto muíto inferior aos dados do Canadá. Ainda em relação à concentração média, no rim e fígado de aves observou-se que é três a nove vezes superior ao encontrado em outras espécies estudadas.
FLANJAK&LEE(1979)analisandotraçosdemetais emfígado e rim debovino, verificou-se queaconcentraçãomédiae avariaçãodosníveisdearsênioeramde0,013 (ND-0,09}e0,018(ND-0,10). Níveis abaixodolimitede detecção constituiram 30% no fígado e 27% no rim. Comparando com os dados desta pesquisa, as concentrações encontradas apresentam valores muito próximos e, quanto ao número de amostras que apresentaram resíduos abaixo dolimite dedetecção, esteestudo revela um percentual mais significativo, sendo de 82,1% no fígado e 55,5% no rim.
DadosobtidosporDOYLE&SPAULDING(l978) sugerem que as concentrações de arsênio são relativamente baixas e não tendem a se acumular em tecidos comestíveis de bovino, carneiro e suino. Entretanto, os estudos revelaram queo teor de arsênio nas aves foram muito superiores em relação a outras espécies estudadas, tendo sido encontrado no rim uma concentração médiade0,28µg/genofígado0,70µg/g. Emboraestes dados sejam superiores aos obtidos nesta pesquisa, indicam a mesma tendência donível de arsênio ser mais elevado em aves.
CONCLUSÕES
Com base nos resultados das análises, conclue-se:
-
Resíduos de arsênio apresentaram-secom maior frequência no rim do que no fígado;
-
Do ponto de vista de saúde pública, os níveis encontrados parecem não constituir risco, pois estão dentrodos limites estabelecidos pelo PNCRBC. Entretanto há necessidade de contínuo monitoramento, principalmente nas espécies suina e aves em que os compostos arsenicais são utilizados naformulação de rações e medicamentos.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao Dr. José Guedes Deák, ChefedoLaboratório Animal-LARA/CAMPINAS ea Ora. Margarida M. Hoeppner Zaroni pelas valiosas orientações e facilidades proporcionadas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- ANGELLUCI, E. & MANTOVANI, D.M.B. Minerais em alimentos. Campinas: Instituto de Tecnologia de Alimentos, 1986.
- ARANHA, S.; NISHIKAWA, A.M.; TAKA, T.; SALIONI, E.M.C. Níveis da cádmio chumbo em fígado e rins de bovinos. Rev. Inst. Adolfo Lutz, v.51, n.1, p.16-20, 1994.
- DOYLE, J.J.&SPAULDING, J.E. Toxicandessential trace elements in meat - A review .J. Anim. Sei., v.47, n.2, p.398-419, 1978.
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- FLANJAK, J. & LEE, H.Y. Trace metal content of livers andkydneys of cattle. J. Sei. FoodAgrie., v.30, p.503-7, 1979.
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