Open-access LEUCOSE BOVINA: CARACTERIZAÇÃO DO PROTEINOGRAMA ELETROFORÉTICO EM DOIS REBANHOS IDENTIFICADOS COMO SOROPOSITIVOS E COM LINFOCITOSE PERSISTENTE*

BOVINE LEUKOSIS: CHARACTERIZA TION OF THE ELETROPHORETIC PROTEINOGRAM IN TWO HERDS IDENTIFIED AS SERUM POSITIVE AND PERSISTENT LYNPHOCYTOSIS

RESUMO

Após determinações leucolinfocitárias e imunológicas, foram selecionados 30 bovinos de duas propriedades próximas uma da outra, no interior do Estado de São Paulo. Destes foram constituídos três grupos de 10 bovinos cada: grupo um, animais não reagentes aos antígenos do VLB; grupo dois, animais reagentes aos antígenos do vírus da leucose bovina (VLB), e o grupo três reagentes que apresentavam linfocitose persistente (LP). A reatividade para os antígenos do VLB foi determinada por meio de imunodifusão em ágar gel, e a linfocitose persistente foi determinada atravé5 de quatro contagens leucolinfocitárias. Sugere-se que bovinos com linfócitos entre 6.500 a 8.000/µL sejam considerados LP. Sugere-se também que a prevalência da doença depende diretamente de fatores próprios na constituição de cada rebanho. O eritograma e a contagem de plaquetas permaneceram dentro da faixa de normalidade para a raça. Bovinos reagentes aos antígenos do VLB e também os reagentes com LP apresentaram diminuição das proteínas plasmáticas totais, e da fração gamaglobulina no sangue periférico.

PALAVRAS-CHAVE:
Leucose bovina; leucocitose persistente; proteínograma; eritrograma.

ABSTRACT

After leukocytes, lynphocytes and immulogics determinations, a group of 30 bovines were selected frcim two farrns near to each other, localized in São Paulo State, three different groups were formed as follows: group 1 animals nonreagents to the antigens of the virus of the bovine leucose(VLB); group 2, animals reagents to the antigens of the VLB, and group 3, animals reagents to VLB and with persistent linfocitose (PL). Reactivity to bovine leukaemia virus (BLV) was determined by immunodiffusion agar gel (IDAG). Persistent lynphocytosis (PL) was determined by leucocyte and lynphocyte countings between 6.500 - 8.000/µL represent suspicion and above 8.000/µL positive for PL. The results also suggested that the disease prevalence depends upon directly to the normality for the herd. The erithrogram and platelet counting, remained whithin the normality for the race. Bovines antigens reativity for BLV, and PL, showed decrease in the total counting of plasmatic protein and gamaglobulin.

KEY WORDS:
Bovine leukosis; persistent lynphocytosis; proteinogram; erithrogram.

INTRODUÇÃO

Os bovinos infectados com o vírus da leucose bovina desenvolvem a leucose enzootíca bovina (LEB), enfemúdade que pode causar baixas na defesa imune humoral, desenvolver linfocitose persistente (LP) e o linfoma. Tem sido observada a queda de IgM nos animais infectados e com LP (MEIRON et al., 1984; GATEI et al., 1990). As populações de células T e as subpopulações Bot4 e Bot 8 são reduzidas significativamente (GATEI et al.,1989). Estas observações podem ser interpretadas como sendo capazes de levar o animal a uma imunossupressão. Porcentagem variável de animais soropositivos para o VLB, isto é, 30 a 70% desenvolvem uma linfoproliferação policronal de linfócitos B, em resposta à estimulação de proteínas antigênicas do VLB, caracterizada por uma LP, onde o equilibrio quantitativo entre células B e T se altera, as células B aumentam em número e as T diminuem, podendo haver1 ou não aumento do número de linfócitos circulantes (BURNY et al., 1985; KOYAMA et al., 1983; KENYON & PIPER, 1977; WILLIAMS etal., 1988; TAYIDR et al., 1992; GARCIA 1992). Um pequeno número de até 10% pode atingir o estágio linfomatoso (GHYSDAEL et al., 1984; FOSSUM et al., 1988). Para a instalação do linfoma, só é necessário a infecção pelo VLB, fatores genéticos e o ambiente (ABT et al., 1976).

Neste estudo objetivamos caracterizar dois grupos de bovinos oriundos de duas fazendas, sendo um soropositivo para os antígenos do VLB, e o outro, para os que desenvolveram a LP, além da determinação de eritrograma, da contagem de plaquetas, e do comportamento do proteínograma eletroforético nestes grupos animais.

MATERIAIS E MÉTODOS

Foram utilizados 30 bovinos da raça holandesa preto e branco, do sexo feminino com idades variando entre 3 a 12 anos, pertencentes a duas fazendas eqüidistantes 40 km. Esses animais foram divididos em três grupos, obedecendo-se os seguintes critérios: grupo um, composto de 10 bovinos com idades entre 4 e 7 anos, oriundos da Fazenda 1, não reagentes aos antígenos do VLB, e isentos de sinais ou sintomas clínicos da enfermidade ou outros quaisquer; grupo dois, formado por bovinos com idades entre 3 a 12 anos, oriundos da Fazenda II, reagentes aos antígenos da VLB, mas sem LP. Estes animais não apresentavam sinais ou sintomas da enfemúdades ou outros, incluindo linfomas. Grupo três reuniu 10 bovinos com idade entre 3 a 9 anos, também oriundos da Fazenda II, reagentes aos antígenos do VLB e apresentando LP. Para firmar a formação destes grupos foram realizados quatro determinações leucolinfocitárias com intervalos mínimo de 35 dias.

O sangue era obtido adequadamente em duas porções, uma era destinada à leucometria, eritrometria e a contagem de plaquetas e a outra era destinada à obtenção de soro sangüíneo, para a pesquisa de anticorpos anti VLB, cujo antígeno usado foi a glicoproteína do envelope virai (Gp 60), obtidas em cultivo de células de rim fetal de ovelhas infectadas com o VLB, e o processamento eletroforético foi realizado em suporte de agarose para separações das globulinas e da albumina (reagente obtido no comércio Celmgel®). As proteínas plasmáticas totais foram mensuradas através do método Biureto (reagente obtido no comércio Celm® A/G).

O tratamento estatístico deu-se através da análise dos dados obtidos, onde foi processada com o emprego do delineamento inteiramente ao acaso conforme tabela abaixo:

Causa da variação GL Tratamento I - 1 Resíduo J (1 -1) Total IJ-l I == é o número de tratamento. J == é o número de repetição por tratamento.

Sempre que o valor da estatística F foi significativo empregou-se o método de Tukey para comparação de média conforme recomenda BANZATIO & KRONKA, 1989.

RESULTADOS

Os resultados acham-se expostos nas Tabelas de número 1 a 8 e na Figura 1, as quais mostram a análise descritiva de contagem de eritrócitos, plaquetas e leucócitos totais e linfócitos e o resultado do proteinograma eletroforético, além de uma bimodal que descreve o comportamento apenas dos linfócitos.

Tabela 1
Eritograma e contagem de plaquetas nos três grupos.

DISCUSSÃO

Houve dificuldade na caracterização do grupo não reagente, visto que 100% dos animais da 1.il fazenda eram soropositivos. O fato de conseguir em uma fazenda próxima, os animais que constituíram o grupo 1 - bovinos não reagentes, onde foi observado 80% de animais soronegativos podemos inferir que a prevalência da doença não está relacionada tão somente à região estudada e sim, características próprias, na formação de cada rebanho, fato já constatado por BURNY et al. (1985).

A distribuição da freqüência de valores absolutos de linfócitos em todos os bovinos estudados mostra uma distribuição bimodal, caracterizando dois picos onde os valores linfocitários diferentes nos dois primeiros grupos, isto é, os bovinos não reagentes e os apenas reagentes, se encontram na primeira moda, na faixa dos 7.500/µL, portanto dentro de valores representativos para a raça holandesa (SHALM et al., 1975). Na segunda moda concentrou-se todos os animais reagentes com LP (Gráfico 1), com números de linfócitos acima de 9.000/µL, nesta concentramse todos os animais coincidindo com os estudos de BURNY et al. (1985), WILLIAMS et al. (1988) e CATEI et al. (1989). É relatado por TAYLOR & JACOBS (1993) a existência de uma atividade bloqueadora da expressão do VLB no soro de reagentes, sugerindo então que esta atividade estaria ligada à regulação da latência viral e na expressão do provírus, o que explicaria a LP geneticamente controlado.

O comportamento do eritograma e a contagem de plaquetas representadas na Tabela 1 mostram que apesar de haver diferenças estatisticamente significante no grupo dois (reagentes), com maiores médias para eritrócitos e hematócitos, e no grupo um (não reagentes), com médias mais altas para hemoglobina e plaquetas, os valores médios nos três grupos estão dentro da faixa da normalidade para a raça (SHALM et al., 1975). Esses valores nãoforam alterados pela virose.

A análise do proteinograma descrito nas Tabelas 5 a 8 mostram médias de proteínas totais no grupo um, significativamente maiores que nos grupos dois e três; estas diferenças podem ser explicadas devido a alta produtividade leiteira dos dois últimos grupos, além de um manejo alimentar inadequado ou insuficiente.

Entretanto, a diminuição significativa das gama globulinas nos grupos dois e três tem explicações nos estudos de MEIRON et al. (1985) e CATEI et al. (1990), que observaram queda de IgM (componente da fração gama) no soro de bovinos infectados e infectados com LP, podendo significar uma queda da imunidade humoral.

Tabela 2
Resultado da contagem de leucócitos totais, linfócitos absolutos e de prova de IDAG para detectar anticorpos anti VLB do grupo de bovinos normais.
Tabela 3
Resultados daP e 2ª contagens de leucócitos totais, linfócitos absolutos e daP prova de IDAG grupo de bovinos reagentes ao anticorpos do VLB sem LP.
Tabela 4
Resultados da 1•, 2•, 3• e 4• contagens de leucócitos totais, linfócitos absolutos e da prova de IDAG grupo de bovinos reagentes ao anticorpos do VLB com LP.
Tabela 5
Proteinograma eletroforético: valores encontrados no grupo um, bovinos não reagentes ao antígeno do VLB.
Tabela 6
Proteinograma eletroforético: valores encontrados no grupo dois, bovinos reagentes ao antígeno do VLB.
Tabela 7
Proteinograma eletroforético: valores encontrados no grupo três, bovinos reagentes ao antígeno do VLB com LP.
Tabela 8
Análise dos valores encotrados no proteinograma eletroforético (médias e teste de Tukey) dos três grupos: normais, reagentes ao antígeno do VLB e reagentes com LP.

CONCLUSÕES

Os valores de linfócitos absolutos determinados nos bovinos diagnosticados com LP permitem considerar quebovinos com mais de 3,7 anos de idade eque apresentamnúmero delinfócitos absolutos entre 6.500 a 8.000/µL sejam considerados suspeitos, eoscom mais de 8.000/ µL sejam admitidos como LP, ou linfocitóticos.

Fig. 1
Distribuição de freqüência de linfócitos de sangue periférico em animais reagentes e não reagentes aos antígenos VLB.

A prevalência da doença depende diretamente de fatores próprios da constituição de cada rebanho.

A distribuição bimodal da freqüência de linfócitos periféricos analisados nos três grupos permite inferir a existência de fator genético que acompanha a LP, observada em animais seropositivos, reforçando os dados de literatura.

  • *
    Financiado parcialmente pela CAPES

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • ABT, D.N.; MARSHA, K.R.R.; FERRER, J.P.; PLPER, C.E.; BHATT, D.M. Studies of persistent lymphocitosis and infection, with the bovine C-tipe leukaemia virus (BLV) in cattle. Vet. Microbiol., v. 1, p. 278-300, 1976.
  • BANZATTO, A D. & KRONCA, N. S. Experimentação agrícola. Piracicaba: FUNEP, 1989, p. 247.
  • BURNY, A; BRUC1K, C.; CREUTER, Y.; COLLEZ, D.; DESCHAMPS, J.; GHYSDAEL, J.; GREGOIRE, D.; KETTMANN, R.; MAMMERICKX, M.; MARBAIX, G.; PORTELLE, D. Bovine leukaemia vírus and enzootic bovine leukorize. Ondestepoort J. Vet. Res., v. 52, p. 133-144, 1985.
  • FOSSUM, C.; BURNY, A.; PORTELLE, D.; MAMMERICKX, M.; MOREN, B. Detection of B and T cell, with lecitins or antibodies, in healthy and bovine leukemia virus - infected cattle. Vet. Immunol. Immunopathol., v. 18, p. 269-278, 1988.
  • GARCIA,,M. Avaliação da resposta imunitária em bovinos naturalmente infectados pelo vírus da leucose. São Paulo, 1992, 60p. [Tese (Doutorado)- Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia - Universidade de São Paulo].
  • GATEI, M.H.; BRANDON, R.B.; NAIF, H.M.; McLENNAN, M.W.; DANIEL, C.W.; LAVIN, M.F. Changes in B and T ell subsets in bovine leukaemia virus infected cattle.Vet. Immunol. Immunopathol., v. 23, p. 139-147, 1989.
  • GATEI, M.H.; LAVIN, M.F.; DANIEL, R.C.N. Serum immunoglobulin concentration in cattle naturally infected with bovine leukaemia virus. J. Vet: Afed. Ser. B., v. 37, p. 575-580, 1990.
  • GHYSADEL, J.; BRUC , C.; KETTMANN, R.; BURNY, A. Bovine leukemia virus. Curr. Top. Microbiol. Immunol., v. 12, p. 1-19, 1984. ..
  • KENYON, S.J. & P1PER, C.E. Cellular basis. of persistent lymphocytoris in cattle infected with bovine leukemia virus. Infect. Immun., v.16, p. 891-897, 1977.
  • KOYAMA, H.; NAKANISHI, H.; KAJIKAWA, O.; YOSHIKAWA, H.; TSUBAKI, S.; YOSHIKAWA, T.; SAITO, H. T and B lymphocytes en persistent lymphocitotic and leukemic cattle. Jan. J.Vet. Sei., v. 45, p. 471-475, 1983.
  • MEIRON, R.; BRENNER, J.; GLUCKMAN; A.; AVRAHAM, R.; TRAIMIN, Z. Humoral and cellular responses in calves experimentally infected with bovine leukemia vírus {BLV). Vet. Immunol. Immunopathol., v. 9, p. 105-114, 1984.
  • SHALM, W.O;JAIN, B.V.; CARROL, E.J. Veterinaryhematology. 3.ed. Philadelphia: Lea and Febiger, 1975. p. 807.
  • TAYLOR, B.C.; STOTT, J.L.; THURMOND, M. A., PICANSO, J. P. Alterations in lymphocyte subpópulations in bovine leukosis virus-infected cattle. Vet. Immunol. Immunopathol., v. 31, p. 35-47, 1992.
  • TAYLOR, J.A. & JACOBS, R. M. Effects of plasma and serum on the in vitro expression of bovine leukemia vírus. Lab. Invest., v.69, p. 340-346, 1993.
  • WILLIAMS, D.L.; ÁNBORSKI, G.F.; DAVIS, w.e. Enumerations of T and B lymphocytes in bovines leukemia virusinfected cattle, using monoclonal antibodies. Am. ]. Vet. Res., v.49, p. 1098-1103, 1988.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 2000

Histórico

  • Recebido
    06 Set 1999
location_on
Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: arquivos@biologico.sp.gov.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error