RESUMO
Foi realizado um estudo caso-controle para identificação de fatores de risco associados à ocorrência de micobacterioses em suínos, na região sul do Brasil. Todas as granjas selecionadas foram do tipo ciclo completo. Foram consideradas casos aquelas que apresentaram dois ou mais animais condenados por “tuberculose”, confirmadas por exames histológicos e/ou microbiológicos. Em raio inferior a 5 km de cada caso foram selecionados dois controles com histórico de não condenação por no mínimo dois anos. Nas 33 granjas caso e nas 66 controles foi aplicado um questionário elaborado com base em dados de literatura e na realidade local, procurando investigar variáveis que poderiam estar associadas a tais infecções. O modelo final da regressão logística apontou três variáveis associadas a infecções por micobactérias: dimensão do rebanho ≥25 matrizes (OR= 4,2; 1,2≥IC95%≤14,5), não ter piso ripado ou parcialmente ripado nas instalações de creche (OR=3,6; 1,05≥IC95%≤12,7); má qualidade da higiene da creche por ocasião da visita; (OR=2,9; 0,99≥IC95%≤8,3). Foi sugerido como estratégia de controle a adoção de programa de higiene e desinfecção, com especial atenção para a fase de creche, naturalmente bem planejados do ponto de vista econômico e respeitando a singular resistência das micobactérias ao meio ambiente e a desinfetantes de uso pecuário.
PALAVRAS-CHAVE:
Mycobacterium avium; suínos; fator de risco.
ABSTRACT
IDENTIFICATION OF RISK FACTORS FOR SWINE MYCOBACTERIOSIS IN THE SOUTH OF BRAZIL. A case control study was performed to identify the risk factors associated with the occurrence of swine mycobacteriosis in the South Region of Brazil. Thirty three swine herds with more than two tuberculous pigs at slaughter and 66 herds with no evidence of infection were selected. Two control herds were chosen in a maximum of a 5 km ratio distance from each case. All selected herds were scrutinized through a questionnaire based on literature data and local characteristics. The results showed that an increase risk of infection is associated with: herds with ≥25 sows (OR= 4.2; 1.2≥IC95%≤14.5), nursery without partial or completely lath floor (OR=3.6; 1.05≥IC95%≤12.7), and bad quality of hygiene in the time of inquest (OR=2.9; 0.99≥IC95%≤8.3). The implementation of hygiene and disinfection program was suggested as strategy of control, obviously observing the economic aspects and the resistance of the mycobacteria to the environment and livestock disinfectants.
KEY WORDS:
Mycobacterium avium, swine; risk factors.
INTRODUÇÃO
As micobactérias pertencentes ao complexo Mycobacterium avium (MAC) são as principais respon sáveis pelas linfadenites granulomatosas de suínos, detectadas em matadouros, onde são classificadas como “tuberculose” (LANGENEGGER, LANGENEGGER, 1981; FERREIRA NETO et al.;1989; BALIAN et al.; 1997). As lesões causadas por Mycobacterium bovis, M. tuberculosis, Mycobacterium avium e demais micobactérias não são diferenciáveis por exames patológicos (RAY et al.; 1972), justificando a condenação de carcaças acometidas pelo serviço de inspeção de carnes, devido ao potencial zoonótico dessas infecções (SZAZADOS, 1993).
Na região sul do Brasil (Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina), responsável por 63% da produção suinícola do país em 1997 (ANUÁRIO da SUINOCULTURA INDUSTRIAL, 1998), nos últimos anos vem sendo observado um alto índice de condenações em matadouro por tuberculose. Para esta região, em 1996, foi estimada uma freqüência de 0,9% das carcaças de suínos abatidos exibindo lesões granulomatosas (MARTINS et al.; 1999).
Estudos epidemiológicos têm demonstrado que tais infecções estão associadas à utilização de cama de serragem ou maravalha, água e alimentos contaminados, contato com aves silvestres e domésticas, má qualidade da higiene das instalações e o próprio suíno infectado (Reznikov et al.; 1971; ELLSWORTH et al.; 1980; PAVLAS, 1987; CHARETTE et al.; 1989; NESIC et al.; 1992; ALFREDSEN & SKJERVE, 1993; CVETNIK et al.; 1994).
Devido ao aumento na ocorrência de micobacterioses na região Sul do Brasil e conseqüente prejuízo econômico, faz-se necessário um melhor entendimento da epidemiologia da doença nesta região, de forma a permitir uma intervenção racional. Para tanto foi planejado o presente estudo, com o objetivo de identificar os fatores de risco associados à ocorrência de linfadenites granulomatosas em suínos criados e abatidos no sul do Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS
Delineamento experimental
Foi realizado um estudo caso-controle.
A partir de janeiro de 1997, foi iniciado o monitoramento de rebanhos do tipo ciclo completo em 12 matadouros da região Sul do Brasil. Granjas que apresentaram pelo menos duas carcaças com linfadenite granulomatosa foram consideradas “casos”. Estas lesões foram colhidas para a realização de exames bacteriológicos e histológicos. Dentro de um raio igual ou inferior a 5 quilômetros de cada granja “caso”, foram selecionadas duas granjas “controle”, permitindo uma relação caso-controle de 1:2. Os critérios para escolha das granjas controle foram: ser rebanho do tipo ciclo completo e ter histórico de ausência de carcaças com linfadenite granulomatosa nos últimos dois anos.
Cada granja incluída no estudo foi submetida a um questionário, elaborado com base na literatura e na realidade da suinocultura local, procurando investigar variáveis que poderiam estar associadas a tais infecções. Foram abordadas questões relativas ao aspecto sanitário do rebanho, manejo, ambiente, instalações e contato com outras espécies domésticas e silvestres. O preenchimento dos questionários foi feito através de entrevistas com os responsáveis pelas granjas de suínos acompanhada de inspeção técnica. As informações contidas nos questionários foram repassadas para um banco de dados para posterior análise estatística.
Colheita para exames bacteriológicos e histológicos
As lesões colhidas em matadouro foram divididas em duas partes: uma para bacteriologia, acondicionada em sacos plásticos devidamente identificados, mantidos a -20º C até o processamento; e outra acondicionada em cápsulas plásticas identificadas, embebidas em formalina tamponada a 10%, para exames histológicos.
Exames bacteriológicos
As amostras foram descongeladas e descontaminadas pelo método de Petroff (MASAKI et al., 1982), seguidas de centrifugação e semeadura em meios de cultura Löwenstein Jensen e Stonebrink-Leslie, e incubadas a 37ºC por, no mínimo, 60 dias. A caracterização dos isolados foi feita através da reação em cadeia da polimerase (PCR), utilizando-se um par de primers dirigido contra um fragmento do gene da hsp 65 kDa, comum a todas as micobactérias, seguida da digestão e análise de produtos amplificados (PRA), conforme TELENTI et al. (1993).
Exames histológicos
O material colhido em formol foi processado pelo método de inclusão em parafina. E desses foram feitos cortes de 5µ corados por Hematoxilina e Eosina (HE), utilizando técnicas descritas por LUNA (1968). As lâminas coradas por HE foram analisadas em microscópio óptico quanto à presença ou ausência de lesões granulomatosas.
Análise estatística
Inicialmente foi feita uma análise exploratória de todas as variáveis, selecionando-se as que apresentaram p< 0,20 ao teste de χ2. Estas, por sua vez, foram submetidas à análise multivariada (stepwise forward), segundo SCHLESSELMAN (1982). Os cálculos foram realizados através do programa SPSS for Windows, versão 9.0.1.
RESULTADOS
Os exames histológicos demonstraram, em todas as oportunidades, a presença de lesão granulomatosa e Mycobacterium avium foi isolado de material proveniente de 23 granjas caso.
No presente estudo foram incluídas 33 granjas caso e 66 controles. As variáveis selecionadas para a regressão logística (p< 0,20 ao teste de χ2) estão organizadas na Tabela 1.
Variáveis selecionadas para a regressão logística no estudo de fatores de risco para linfadenite granulomatosa em suínos.
Modelo final da regressão logística do estudo de fatores de risco para linfadenite granulomatosa em suínos.
O modelo final da regressão logística é apresentado na Tabela 2.
DISCUSSÃO
Neste estudo foram identificados três fatores de risco associados à ocorrência de micobacterioses nos suínos, todos direta ou indiretamente relacionados à higiene na criação.
A má qualidade da higiene da creche por ocasião da visita (OR=2,9) dispensa maiores comentários por ser evidente sua relação com a falta de higiene. Não ter piso ripado ou parcialmente ripado nas instalações de creche (OR=3,6) também está relacionada à higiene, uma vez que o ripado impede o contato direto com fezes, urina e restos de ração que se acumulam nas baias.
A identificação de dimensão do rebanho ≥25 matrizes como fator de risco (OR=4,2) deve ser interpretada juntamente com as demais, pois em rebanhos maiores as medidas de higiene das instalações são mais trabalhosas, estando mais sujeitas a falhas. Além do que, é impossível intervir sobre essa variável pois a suinocultura está caminhando no sentido contrário, ou seja, estão permanecendo na atividade aqueles produtores que estão investindo no aumento do plantel para ganhar escala.
Embora todas as fases de criação de suíno tenham sido estudadas isoladamente, dois fatores de risco identificados dizem respeito à fase de creche, o que pode ser atribuído ao fato de que as lesões por micobactérias tornam-se visíveis para o inspetor de carnes (diâmetro da lesão ≥ 1 mm) apenas aproximadamente 3 meses após a infecção (NAKAMURA et al., 1984).
ALFREDSEN & SKJERVE (1993) identificaram presença de aves domésticas e/ou silvestres nas criações como fator de risco para micobacteriose suína na Noruega. Outros estudos apontaram para serragem e/ou maravalha utilizadas como cama, como prováveis fontes de infecção (CHARETTE et al., 1989; SONGER et al., 1979; WINDSOR et al., 1984). No presente estudo não foi constatada tal associação. Isto se deve, provavelmente, às diferenças entre as regiões onde foram realizados os estudos, pois cada qual apresenta peculiaridades, o que significa que os resultados não podem ser extrapolados de uma região para outra.
Os resultados aqui apresentados demonstram que o controle da doença consiste na adoção de programa de higiene e desinfecção, com especial atenção para a fase de creche, naturalmente bem planejados do ponto de vista econômico e respeitando a singular resistência das micobactérias ao meio ambiente e a desinfetantes de uso pecuário (PINHEIRO et al., 1992; PINHEIRO et al., 1997).
REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
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