Open-access AÇÃO DOS QUIMIOTERÁPICOS ANTIVIRAIS NO CONTROLE DO VÍRUS DO MOSAICO DOURADO DO FEIJOEIRO, EM PHASEOLUS LUNATUS L.*

Effect of antivirai agents on bean golden mosaic virus in Phaseolus lunatus L

RESUMO

Quinze quirnioterápicos, das mais diversas origens, foram experimentados no controle do vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV) em condições de casa-de-vegetação. Soluções aquosas dos produtos foram pulverizadas, uma única vez, sobre a parte aérea de feijoeiros (Phaseolus lunatus), antes da inoculação, com exceção do Carbendazirn, cuja suspensão foi aplicada duas vezes, em forma de rega. A inoculação foi feita usando-se colônias virulíferas do vetor Bemisia tabaci Genn. Pelos resultados, observou-se que foi possível retardar o aparecimento de sintomas do BGMV, até 15 dias após a inoculação, aplicando os seguintes quimioterápicos: Ácido poliacn1ico, Acyclovir, Aspirina, Distamicina A, EHNA, Foscamet e Pyrazino-pyrazine. Aos 30 dias após a inoculação, esse efeito diminuiu bastante, tornando-se nulo na maioria dos casos. Acyclovir, Aspirina e EHNA mantiveram o efeito inibidor até 30 dias após a inoculaça:o. Concluiu-se que algumas das substâncias, capazes de atrasar a evoluça:o do BGMV, podem apresentar interesse em fitovirologia, pois o efeito desse vírus é muito mais grave quando atinge plantas jovens.

PALAVRAS-CHAVE:
Vírus do mosaico dourado do feijoeiro; quimioterápicos antivirais; Phaseolus lunatus.

SUMMARY

In the attempt to control bean golden mosaic vírus, 15 antivira! agents were tested in Phaseolus lunatus plants. Aqueous solutions of different concentrations were sprayed once on the primary leaves of the plants except Carbendazim suspensions which were watered twice on the soil. Virus inoculation was carried out after treatments through the vector Bemisia tabaci Genn. using a viruliferous whitefly colony. Results showed that systemic symptoms of the disease were delayed up to 15 days after inoculation by the application of some antivirai substances as follows: Polyacrilic acid, Acyclovir, Aspirin, Distamycin A, EHNA, Foscarnet and a Pyrazino-pyrazine derivative. This effect decreased 30 days after inoculation, disappearing completely in almost ali cases. Some drugs like Acyclovir, Aspirin and EHNA maintained their inhibitory effect until 30 days after inoculation. These results lead to the conclusion that the substances which are able to delay bean golden mosaic virus spread within the plant host may be of some interest in phytovirology specially in the early phase of bean plant development when disease damage is more severe.

KEY-WORDS:
Bean golden mosaic virus; chemotherapy; antivirai agents;Phaseolus lunatus.

INTRODUÇÃO

O vírus do mosaico dou: rado do feijoeiro (BGMV), que ocorre no Brasil, é facilmente transmitido pelo vetor Bemisia tabaci Genn., inseto Aleyrodideo conhecido como "mosca" branca, porém ainda na-o pôde ser transmitido mecanicamente (8). EQ.tretanto, estudos realizados com uma doença muito semelhante, que ocorre na América Central, Caribe e Venezuela, indicaram tratar-se de um Geminivírus, que se transmite com facilidade para certas espécies e variedades de Phaseolus (10).

Na última década, os danos causados pelo BGMV à produça-o de feija-o chegaram a atingir 100% em certas regiOes do Brasil, sem que perspectivas de controle tenham sido alcançadas através dos métodos convencionais (1, 2, 6, 12, 19). Porém, como diversos quimioterápicos têm sido experimentados com sucesso em fitovirologia, nos últimos anos (3, 4,7, 13), o presente trabalho foi realizado com a finalidade de tentar encontrar uma substância eficiente no controle do BGMV. Para isso, foram realizados diversos ensaios, em condições de casa-de-vegetação, com uma série de quimioterápicos antivirais, que já se mostraram eficientes no controle de outras viroses, tanto de vegetais como de animais, sendo alguns deles de largo espectro de aça:o (4, 13, 15).

Foi escolhida a espécie Phaseolus lunatus L. como hospedeira do BGMV, pois, nessa espécie, os sintomas do vírus são muito nítidos e aparecem num tempo relativamente curto, entre quatro e 0ete dias após a inoculação.

MATERIAL E METODOS

Foram experimentados 15 quimioterápicos das mais diversas origens, a saber: Ácido Poliacrílico (PA), Acyclovir (Acy), Arildone, Aspirina (AAS), Bromo-vinil deoxiuridina (BVDU), Carbendazim (DPX)*, Di-hidroxi-propil adenina (DHPA), Distamicina-A, Eritrq-9-(2-hidróxi-3-nonil) adenina (EHNA), Foscarnet, 3'orto-metil adenosina (3'-ADO), Pyrazino-Pyrazine (derivado Bromo), Sinefugin, Tiazofurin (TR), Virazole (Vz). A procedência dos produtos e as concentrações usadas constam da tabela 1.

TABELA 1
Testes com quimioterápicos em P. lunatus infectados com BGMV.

Para verificar um possível efeito sinérgico, algumas associações de dois quimioterápicos foram também testadas, tais como: Acyclovir + Foscarnet e DHPA + Virazole.

De maneira geral, os tratamentos constaram de uma única pulverizaçã:o antes da inoculação, com soluções aquosas das diversas drogas, em diversas concentrações. A pulverização foi feÍta sobre a parte aérea de plantas de feijão, Phaseolus lunatus L., na fase de folha primária.

Os controles foram pulverizados com água. Em todos os casos, o adesivo Tween 20 foi adicionado às soluções, na proporção de 1 gota para 100ml de solução. O intervalo 0ntre o tratamento e a inoculaç[o variou de acordo com o produto utilizado e consta da tabela 1.

O Carbendazim foi aplicado na forma de rega, duas vezes antes d0 inoculação. Neste caso, os vasos foram colocados sobre placas de Petri, para que a suspens[o regada não se escoasse. A quantidade de suspensão aplicada foi suficiente para percolar• o solo do vaso e encher as placas de Petri. ·0s controles foram regados com igual quantidade de água.

Foram usadas, no mínimo, 10 plantas por tratamento, inclusive nos controles.

A inoculação processou-se colocando-se as plantas em viveiros contendo uma colônia de vetores virulíferos, durante 24 a 48 horas. Após esse período, as "moscas" foram retiradas e as plantas mantidas em casa-de-vegetaçao, durante um mês. As observações foram feitas diariamente, durante esse período, e as plantas foram pulverizadas semanalmente com inseticida adequado.

RESULTADOS

Os resultad0s dos experimentos com uma única droga foram condensados na tabela 1. Verifica-se que, até 15 dias após a inoculaçao, alguns dos quimioterápicos (Ác.poliacrílico, Acyclovir, Aspirina, Distamicina A, EHNA, Foscarnet e Pyrazino-Pyrazine) provocaram um atraso no aparecimento dos sintomas sistêmicos. Porém, aos 30 dias após a inoculação, esse efeito diminuiu bastante, tornando-se nulo, na maioria dos casos. Os produtos que mantiveram o seu efeito inibidor, até 30 dias após a inoculação, foram: Acyclovir, Aspirina e EHNA, induzindo uma porcentagem de inibiçlro de 20%, 35% e 37%, respectivamente.

Nas plantas regadas com DPX, entretanto, os resultados mostraram que o número de plantas com sintomas de BGMV foi maior nas tratadas do que nos controles. Além disso, nas plantas tratadas com DPX, em qualquer dosagem, os sintomas de BGMV foram mais intensos do que nos controles, efeito que se tornou bem visível 14 dias após a inoculação (Fig. 1).

FIGURA 1
Efeito do DPX 965-75 em plantas de P. lunatus. *

Os resultados dos experimentos feitos com a associação de duas drogas estão na tabela 2. Verifica-se que a associação Acyclovir + Foscarnet, aplicada 12 e 24 horas antes da inoculação, . induziu uma porcentagem de inibição de 60%, 15 dias após a inoculação. Porém, esse efeito tornou-se nulo aos 30 dias. O mesmo aconteceu com a associação DHPA + Virazole, que apesar de induzir 60% de inibiçao até 15 dias, perdeu a atividade gradativamente e, aos 30 dias, todas as plantas apre0entaram sintomas sístêmicos.

TABELA 2
Testes com misturas de quimioterápicos, em P. lunatus infectados com o vírus do mosaico dourado do feijoeiro (BGMV).

DISCUSSÃO

A quimioterapia antifitoviral tem sido usada com o objetivo de selecionar substâncias químicas capazes de controlar, de modo eficiente, a replicação viral ou de induzir um aumento na resistência natural da hospedeira (9, 13). Por esse motivo, neste trabalho, foram experimentados, no controle do BGMV - vírus de DNA com cadeia simples - compostos das mais diversas origens, inclusive alguns que têm apresentado certa especificidade no controle de vírus de animais. Com essa mesma finalidade, DAWSON (4) estudou recentemente o efeito de 27 produtos antivirais no controle do vírus do mosaico do fumo (TMV) e do "cowpea chlorotic mottle virus" (CCMV), ambos de RNA, verificando que alguns compostos, que s[o seletivos para vírus de DNA em sistemas animais, puderam inibir vírus de RNA em plantas0 Outras drogas, que. na-o foram efetivas no controle de vírus de RNA, em animais, foram capazes de inibir a replicaça-o do TMV e do CCMV, o que demonstra que o mecanismo de aça-o dessas drogas varia de acordo com o sistema estudado. Além disso, sabe-se que substâncias quimicamente muito diferentes podem desencadear nas plantas um mecanismo de defesa, através da síntese de proteínas novas, responsáveis pela resistência, denominadas proteínas "b", ou proteínas associadas à resistência (RAPs) ou fatores antivirais (AVFs) (11, 14), que provavelmente funcionam de maneira semelhante ao sistema interferon, em animais.

Pelos resultados obtidos, verificou-se que, nas condições do experimento, dos compostos testados, nenhum pôde controlar o BGMV, porém alguns deles tiveram um certo efeito sobre o aparecimento dos sintomas do mosaico dourado. Entre esses compostos, deve-se salientar que o Acyclovir, a Aspirina e o EHNA foram capazes de inibir o BGMV, até 1 més após a inoculaça-o. O mecanismo de aça-o dessas drogas ainda na-o está esclarecido em plantas, ou só foi estudado em sistemas animais.

O Carbendazim, conhecido fungicida sistêmico, favoreceu o aparecimento de maior número de plantas com sintomas fortes do BGMV, apesar de ter apresentado um certo efeito antivira} em relaça-o a outros vírus (16, 18). Como o Carbendazim tem wna atividade semelhante à das citocininas (17) e o próprio BGMV também induz, nas .plantas infectadas, um awnento no conteúdo desse regulador de crecimento (5), acredita-se que o efeito estimulante do Carbendâzim, sobre os sintomas do BGMV, possa ser atribuído à sua influência sobre o conteúdo endógeno de citocininas, acelerando e exacerbando os sintomas,

Com os quimioterápicos utilizados, verificou-se que, aos 30 dias após a inoculação, o efeito inibidor diminuiu bastante ou tornou-se nulo, provavelmente devido à rápida metabolizaç:ro das drogas no interior das células. Apesar disso, os produtos que conseguiram retardar o aparecimento dos sintomas podem vir a apresentar um certo interesse em fitovirologia, ampliando a relação dos quimioterápicos, que têm se mostrado promissores no controle de viroses de interesse econômico, principalmente no presente caso, em que a doença é muito mais grave quando a infecç:to se dá no início do ciclo vital da planta.

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    Projeto subvencionado pelo Convênio-EMBRAPA/SAA-SP/Instituto Biológico. Parte desse trabalho foi apresent0do no VII Congresso Paulista de Fitopatologia.
  • *
    DPX-965-75 - Produto experimental contendo 75%. de metil-benzimidazol carbamato como ingrediente ativo.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem à Ora. VICTORIA ROSSET TI a leitura crítica do texto e também agradecem aos laboratório s que forneceram os produtos antivirais.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1985

Histórico

  • Recebido
    26 Mar 1985
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