Contexto: A pancreatite aguda biliar é uma das formas mais comuns de pancreatite aguda e está frequentemente associada à presença transitória ou persistente de cálculos no ducto biliar comum. Quando não reconhecida prontamente, a coledocolitíase pode resultar em complicações graves, como colangite e pancreatite recorrente. A identificação precoce de pacientes com maior risco de coledocolitíase concomitante, com base em achados clínicos e laboratoriais, é essencial para orientar intervenções diagnósticas e terapêuticas oportunas, evitando procedimentos desnecessários e custos adicionais.
Objetivo: Avaliar os preditores clínicos e laboratoriais associados à coledocolitíase em pacientes com pancreatite aguda biliar leve e desenvolver um modelo exploratório de estratificação de risco baseado em variáveis clínicas rotineiramente disponíveis.
Métodos: Foi realizado um estudo de coorte observacional retrospectivo por meio da revisão de prontuários e exames de imagem de pacientes admitidos no Pronto-Socorro Central da Santa Casa de São Paulo entre janeiro de 2017 e agosto de 2024 com pancreatite aguda biliar leve, de acordo com a classificação revisada de Atlanta.
Resultados: Um total de 630 prontuários foi analisado, e 145 pacientes com pancreatite aguda biliar leve preencheram os critérios de inclusão, com idade média de 48 anos. Entre os pacientes, 65,5% eram do sexo feminino. Os pacientes com coledocolitíase confirmada apresentaram níveis significativamente mais elevados de bilirrubina total na admissão e após 48 horas (P=0,001). Os níveis de fosfatase alcalina também foram significativamente maiores no grupo com cálculos (P=0,011), enquanto a gama-glutamil transferase não apresentou diferença significativa (P=0,115). O tamanho dos cálculos na vesícula biliar não diferiu entre os grupos (P=0,936). Um modelo de regressão logística demonstrou aproximadamente 80% de acurácia (AUROC de 0,80), baseado em idade ≥65 anos, bilirrubina total no segundo dia ≥2,4 mg/dL e fosfatase alcalina ≥183 U/L. A validação interna por meio de reamostragens bootstrap demonstrou uma AUROC de 0,793. A inclinação da calibração foi de 1,33, com intercepto de 0,24 e escore de Brier de 0,126.
Conclusão: Um modelo simples de predição clínica, baseado em idade avançada, elevação persistente da bilirrubina e aumento da fosfatase alcalina, demonstrou discriminação aceitável para associar a coledocolitíase em pacientes com pancreatite aguda biliar leve e calibração interna razoável após validação por bootstrap, com utilidade particular para identificar pacientes com baixa probabilidade de coledocolitíase.
Palavras-chave:
Pancreatite aguda; coledocolitíase; colangiopancreatografia por ressonância magnética; colangiopancreatografia retrógrada endoscópica; escore de risco clínico
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