Open-access Tradução e adaptação cultural do protocolo A Child’s Journey para o português brasileiro

RESUMO

Objetivo  Traduzir e fazer adaptação transcultural do instrumento A Child’s Journey: Developmental Milestones (Birth – 6 years) para o português brasileiro.

Métodos  A pesquisa transversal focada na tradução e na adaptação cultural. A autorização para a tradução e a adaptação foi concedida pela MED-EL, que detém os direitos do material. Seguindo um modelo consagrado há mais de duas décadas, a iniciativa envolveu três tradutoras brasileiras uma linguista e duas fonoaudiólogas. As três traduções foram comparadas para criar uma única versão, que passou por um processo de retrotradução por um nativo de inglês sem conhecimento da versão original. Adaptada para o português, essa versão final recebeu o título “Jornada da Criança” e foi aplicada, em pré-teste, a 88 crianças.

Resultados  A adaptação do instrumento levou em conta a equivalência semântica e gramatical e a adequação ao contexto cultural. Assim, aproximaram-se rimas, músicas, brincadeiras e parlendas da cultura e do português brasileiro. Também foram feitas adaptações à estrutura gramatical do português brasileiro. Na avaliação do pré-teste, o instrumento demonstrou validade de conteúdo cultural e sua adaptação foi clara, tendo sido compreendida pelos pais. No entanto, eles fizeram críticas: extensão do instrumento, dificuldade em contar palavras e desconhecimento da referência de Brown. Em contrapartida, destacaram aspectos positivos como o caráter interessante, abrangente e orientador do material. O conteúdo cultural do instrumento se mostrou válido e sua adaptação foi clara e objetiva.

Conclusão  Cumpriu-se a tradução transcultural do instrumento sob o título de Jornada da Criança.

Palavras-chave:
Adaptação cultural; Tradução; Criança; Avaliação; Desenvolvimento infantil

ABSTRACT

Purpose  To translate and culturally adapt the instrument A Child’s Journey: Developmental Milestones (Birth – 6 years) into Brazilian Portuguese.

Methods  The study was a cross-sectional study focusing on translation and cultural adaptation. Authorization for translation and adaptation was granted by MED-EL, which holds the rights to the material. Following a widely recognized model that has been in use for more than two decades, three Brazilian translators were involved in the initiative: a linguist (V1L) and two speech-language pathologists (V1F1 and V1F2). The three translations were compared to create a single version, which was then subjected to a back-translation process by a native English speaker with no knowledge of the original text. The final version in Portuguese was titled Jornada da criança, and it was applied to 88 children.

Results  The instrument’s adaptation process considered semantic and grammatical equivalence as well as appropriateness to the cultural context. The cultural adaptation included adjustments to the local context, ensuring that rhymes, songs, games, and nursery rhymes aligned with Brazilian Portuguese culture. Grammatical structures were also adjusted to Brazilian Portuguese norms. The instrument demonstrated cultural content validity and showed that the adaptation of the content was evident and objective, moreover, most parents understood the present items reasonably well.

Conclusion  The cross-cultural translation of the instrument was successfully carried out, resulting in the Portuguese version entitled Jornada da criança.

Keywords:
Cross-cultural adaptation; Translation; Child; Evaluation; Child development

INTRODUÇÃO

O processo de desenvolvimento infantil envolve maturação e interação entre habilidades perceptuais, motoras, cognitivas, de linguagem, socioemocionais e de autorregulação. Tais habilidades evoluem em progressão estruturada, sequencial e simultânea(1). A maturação de cada habilidade também é denominada marco do desenvolvimento.

Na base desse processo está a plasticidade neural, que engloba a capacidade do sistema nervoso para mudar sua estrutura e função em resposta a experiências e estímulos do ambiente. A relação entre plasticidade neural e marco do desenvolvimento infantil é estreita e significativa. Durante a infância, o cérebro é altamente plástico, ou seja, pode ser moldado e modificado com base nas experiências da criança(2).

Os marcos do desenvolvimento são um conjunto de habilidades adquiridas pela maioria das crianças em determinada idade. A sequência de etapas que as crianças cumprem pode variar, mas, geralmente, segue um padrão que reflete o crescimento físico, cognitivo, emocional e social(3-5).

Essas etapas não são rígidas, mas dependem de fatores genéticos e ambientais, por exemplo, e podem se manifestar de maneira diferente em cada criança.

O instituto de saúde pública Centers for Disease Control and Prevention (CDC) propôs à Academia Americana de Pediatria uma pesquisa com atualização dos marcos do desenvolvimento infantil para orientar pais e profissionais da saúde e da educação na identificação do momento ideal de procurar ajuda e iniciar uma intervenção o mais cedo possível.

Em 2024, o CDC e a Academia Americana de Pediatria(6) publicaram a atualização das habilidades dos marcos do desenvolvimento até os 5 anos de idade. Esse documento caracterizou as competências e habilidades que as crianças devem atingir, tanto para os marcos sociais e emocionais, quanto para linguagem, comunicação, cognitivas (aprender, pensar, resolver problemas) e desenvolvimento físico (motor). Cada idade tem diferentes números de itens, de acordo com determinadas sequências e com a complexidade de cada competência(2). Essas atualizações são a base para pais adaptarem o instrumento a seu contexto cultural. No entanto, ainda é necessário um instrumento para uma análise abrangente, contemplando critérios relativos a habilidades de audição, linguagem receptiva e expressiva, cognição e brincadeira, correspondentes a cada faixa etária.

No Brasil, a Caderneta da Criança(7) é o documento que avalia o desenvolvimento infantil, acompanhando a criança de 0 a 9 anos. Sua primeira edição é de 2005, atualizada em 2024, e abrange tópicos relativos à saúde, crescimento e desenvolvimento da criança; sua última versão foi publicada on-line(7).

Para o monitoramento dos marcos do desenvolvimento e potenciais atrasos, são imprescindíveis os instrumentos de avaliação, cuja validade depende de adaptação cultural e linguística, assegurando a equivalência cultural de testes internacionais. A atualização contínua desses instrumentos é fundamental para a reabilitação precoce e para aumentar a eficácia das intervenções, otimizando os prognósticos(8-11).

Um instrumento utilizado e conhecido em países de idioma inglês é o A Child’s Journey: Developmental Milestones (Birth – 6 years)(12), elaborado por especialistas americanos da área de linguagem e designado como ferramenta para profissionais monitorarem a aquisição das oito habilidades necessárias para a criança ouvir, falar e se comunicar entre o nascimento e os 72 meses de idade.

Trata-se de um guia de rastreio que ajuda a acompanhar o desenvolvimento infantil em diversas áreas e pode ser aplicado por pais, educadores e profissionais da saúde. Além disso, permite compreender o percurso evolutivo da criança, destacando áreas que podem exigir atenção e orientando possíveis intervenções adequadas.

O instrumento abrange oito áreas de domínio do desenvolvimento: audição, linguagem receptiva, linguagem expressiva, articulação da fala, brincadeira, cognição, pragmática e alfabetização. O número de itens de cada habilidade varia. As habilidades compõem uma lista de itens que descrevem comportamentos ou marcos do desenvolvimento específicos previstos para diferentes faixas etárias. Os resultados são apresentados em três escalas que representam níveis de competência e pede-se que se registre a data da avaliação, para ajudar a acompanhar o progresso ao longo do tempo.

O objetivo deste estudo foi traduzir e fazer a adaptação transcultural do instrumento A Child’s Journey: Developmental Milestones (Birth – 6 years) (9) para o português brasileiro. As informações da coleta das respostas das habilidades em comparação com a idade serão analisadas e validadas numa segunda etapa, que não faz parte deste trabalho.

MÉTODOS

Esta pesquisa recebeu a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), com nº 7.114.078.

Trata-se de uma pesquisa transversal de tradução e adaptação cultural, cujos dados foram submetidos à análise qualitativa. A tradução e adaptação transcultural foram autorizadas pela MED-EL, empresa que detém o domínio do material, e seguiram modelo divulgado anteriormente por autores(13). Inicialmente, trabalharam de forma independente três tradutoras brasileiras certificadas, que não conheciam o instrumento: uma da área de linguística e duas fonoaudiólogas, respectivamente designadas como V1L, V1F1 e V1F2.

Após as traduções, compararam-se as três versões para compor uma única. Produzida em consenso entre as tradutoras, a síntese da tradução solucionou as discrepâncias.

Seguiu-se uma retrotradução por um nativo falante do inglês que também não conhecia a versão original e não teve acesso à versão original ou aos conceitos abordados.

O instrumento foi encaminhado para a revisão pelo comitê de seis especialistas que fizeram observações sobre sua clareza. As especialistas têm conhecimento fluente na língua inglesa e, no mínimo, título de mestrado.

O instrumento traduzido para o português foi intitulado “Jornada da Criança” e encaminhado à MED-EL.

O pré-teste foi entregue impresso a 150 pais selecionados aleatória e independentemente, segundo o critério principal de ter filhos na faixa etária de 1 a 72 meses e desenvolvimento típico; consideraram-se características demográficas como idade, gênero e nível educacional, para garantir a representatividade da população-alvo.

Depois de aceitarem participar do estudo e assinarem o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), os pais receberam orientações verbais sobre como preencher o material e assistiram a um vídeo de um minuto com explicações detalhadas sobre o instrumento. Eventuais dúvidas e observações relativas ao preenchimento foram prontamente respondidas por meio do WhatsApp.

Desses 150 pais, 88 completaram o instrumento e o entregaram pessoalmente aos avaliadores, com suas considerações relatadas oralmente e cujos dados foram compilados no Research Electronic Data Capture (REDCap), ferramenta amplamente utilizada para a coleta e gerenciamento de dados em pesquisas acadêmicas e clínicas.

O REDCap é construído para atender a padrões rigorosos de segurança e privacidade, incluindo a conformidade com regulamentos como Health Insurance Portability and Accountability Act (HIPAA), para pesquisas nos Estados Unidos, e General Data Protection Regulation (GDPR), na União Europeia. Os dados são armazenados em servidores seguros e só podem ser acessados por usuários autorizados. O desenvolvimento do REDCap teve apoio financeiro do National Center for Advancing Translational Sciences/National Institutes of Health (NCATS/NIH) (UL1 TR000445). A análise dos dados foi feita por meio dos relatórios disponibilizados pela própria plataforma.

O instrumento apresenta oito habilidades: audição, linguagem receptiva, linguagem expressiva, articulação da fala, brincadeira, cognição, pragmática e alfabetização (Quadro 1), divididas entre as faixas etárias de 0-3 meses, 3-6 meses, 0-6 meses, 6-9 meses, 9-12 meses, 6-12 meses, 12-15 meses, 15-18 meses,12-18 meses, 18-24 meses, 24-30 meses, 24-36 meses, 30-36 meses, 36-48 meses, 36-42 meses, 42-48 meses, 36-48 meses, 48-60 meses, 48-54 meses, 54-60 meses, 60-72 meses e 66-72 meses, com perguntas específicas entre as faixas. Na resposta, o participante deve marcar com um “X” se as habilidades estão dominadas (já adquiridas), emergentes (acontecem algumas vezes) ou são uma meta a ser atingida, sendo aconselhável registrar a data da aplicação do instrumento para que se possa observar a evolução em tempo propício.

Quadro 1
Definição das habilidades

RESULTADOS

A adaptação do instrumento levou em conta a equivalência semântica e gramatical e a adequação ao contexto cultural. Avaliadas pelas especialistas (linguista e fonoaudiólogas), as traduções foram comparadas e o consenso consta no instrumento como versão final (Quadro 2).

Quadro 2
Versões originais traduzidas por especialistas e versão final

Adequação do contexto cultural

A adaptação contemplou a adequação ao contexto cultural procurando aproximar rimas, músicas, brincadeiras e parlendas à cultura do português brasileiro. O Quadro 3 apresenta as substituições realizadas para as expressões idiomáticas, as charadas, os jogos e o livro adaptado.

Quadro 3
Adaptação cultural e gramatical

Adaptação gramatical

Quando foi possível, houve também adaptações para a estrutura gramatical do português brasileiro. Seguem-se dois exemplos:

  • can’t, don’t, won’t – não existe equivalente em português.

  • Begins to produce common irregular plurals (e.g. children, feet) foi adaptado para “começa a produzir plurais irregulares comuns (por exemplo, aviões, pães)”.

Unanimemente, os avaliadores concordaram em manter a designação Estágios de Brown(14) dos estágios morfológicos (Quadro 4).

Quadro 4
Tradução dos Estágios de Brown(14)

Tradução do material: instruções gerais

A apresentação da versão final das instruções gerais para a “Jornada da Criança” encontra-se no Apêndice 1.

As Figuras 1, 2, 3 e 4 são exemplos das propostas de habilidades a serem observadas em cada faixa etária. O material completo da tradução, com cerca de 100 páginas, será disponibilizado pela MED-EL.

Figura 1
Exemplo de audição na faixa etária de 12-15 meses
Figura 2
Exemplo de linguagem receptiva na faixa etária de 12-15 meses
Figura 3
Exemplo de linguagem expressiva na faixa etária de 12 - 15 meses
Figura 4
Exemplo de articulação da fala na faixa etária de 12 - 15 meses

Pré-teste

Foram avaliadas 44 crianças (50%) do gênero feminino e 44 do gênero masculino, assim distribuídas: 19 (21,59%) na faixa etária de 0-12 meses; 24 (24,27%) na de 13-24 meses; 17 (11,36%) na de 25-36 meses; 10 na de 37-48 meses; 8 (9,09%) na de 49-60 meses e 10 na de 60-72 meses.

O conteúdo cultural do instrumento se mostrou válido e sua adaptação foi clara e objetiva, tendo a maioria dos pais compreendido todos os itens. Quando devolveram seu respectivo instrumento aplicado, fizeram espontaneamente algumas observações: por um lado, julgaram-no muito longo e apontaram dificuldade para contar o número de palavras, além de que nenhum deles conhecia a referência de Brown; por outro lado, consideraram-no interessante, abrangente e norteador.

DISCUSSÃO

O instrumento “Jornada da Criança” é abrangente para que profissionais da saúde (fonoaudiólogos, psicólogos, médicos) ou da educação e familiares possam acompanhar o desenvolvimento infantil. Não é uma ferramenta para diagnosticar distúrbios ou atrasos. Se surgirem motivos para preocupação, pode ser o caso de encaminhar a criança para profissionais especializados, que procederão a uma avaliação qualificada.

Nesse sentido, o instrumento sugere propiciar um acompanhamento contínuo e construtivo, focando em fortalecer as habilidades e potencialidade das crianças, sem a intenção de rotulá-las ou diagnosticá-las.

O desenvolvimento global da criança sofre influência de processos neurais que têm variações genéticas e epigenéticas(1,15). Assim, a qualidade de suas interações com os adultos a sua volta é extremamente importante(9,16).

O desenvolvimento infantil é um processo dinâmico e fascinante, em que cada marco representa não apenas a aquisição de novas habilidades, mas também a forma como as crianças interagem com o mundo ao seu redor. Desde os primeiros passos até a compreensão de conceitos mais complexos, cada fase implica um conjunto único de descobertas e desafios. Acompanhar essas mudanças e entender as etapas do desenvolvimento é muito útil para pais, educadores e profissionais da saúde.

Estudo anterior(17) evidencia a importância de considerar o contexto da criança ao avaliar seu desenvolvimento. Essa análise permite compreender melhor as influências do meio nas diversas dimensões do crescimento. É fundamental ter conhecimento do ambiente imediato, pois as diferentes culturas desempenham um papel significativo no desenvolvimento infantil. Cada criança é única e suas vivências são moldadas tanto por tradições e valores culturais, quanto pelas interações sociais que ela experimenta. Esse contexto cultural é essencial para a formação de sua identidade, influindo diretamente nas habilidades e competências que ela desenvolverá ao longo da vida.

Os instrumentos de avaliação, incluindo a observação do desenvolvimento de habilidades relacionadas à audição e à linguagem, servem como norteadores importantes, que ajudam a identificar se a habilidade foi plenamente conquistada, se está em processo de conquista ou se é necessária uma intervenção para desenvolvê-la. Esses instrumentos não apenas fornecem dados sobre o progresso da criança, mas também orientam pais, educadores e profissionais a ajustarem sua abordagem, garantindo que cada criança tenha o suporte adequado para avançar em seu aprendizado. Assim, a avaliação é fundamental para promover um desenvolvimento integral e eficaz.

As avaliações das especialistas se mostraram bastante coerentes, com pequenas variações na interpretação entre as duas línguas. Isso sugere que o processo de tradução e adaptação foi eficaz, preservando a essência e o significado do conteúdo original. A consistência das interpretações revelou boa compreensão das nuances culturais de ambas as línguas, o que é essencial para garantir que o instrumento seja relevante e aplicável em diferentes contextos. Essa uniformidade das análises pode concorrer para a confiança na aplicação do material traduzido em avaliações ou intervenções.

As adaptações ao contexto cultural consideraram a realidade atual, o que permite que as intervenções e as traduções respondam às necessidades contemporâneas. Sabendo que esses contextos podem mudar com o tempo, as adaptações podem demandar revisões periódicas. Essa flexibilidade é crucial para garantir que os instrumentos e suas aplicações sejam relevantes e eficazes, adequando-se às mudanças sociais, culturais e linguísticas que sobrevierem. Assim, é importante adaptar periodicamente os materiais com vistas a preservar sua eficácia contínua e atender às necessidades da população atendida.

As adaptações gramaticais foram necessárias porque a aquisição de linguagem difere de idioma para idioma. Cada qual tem suas próprias regras gramaticais, estrutura sintática e nuances que influem na forma como as crianças compreendem e usam a linguagem. Portanto, há que considerar essas diferenças no processo de tradução e adaptação, a fim de garantir que o conteúdo seja claro e funcional em cada novo contexto linguístico. As adaptações não só devem respeitar as particularidades da língua-alvo, mas também favorecer um aprendizado eficaz e relevante para os falantes dessa língua.

No instrumento A Child’s Journey original, os autores adotam os Estágios de Brown(14), que fornecem uma estrutura morfológica e sintática para entender e prever o desenvolvimento da linguagem expressiva da criança falante da língua inglesa. O autor designa como mean length of utterance (MLU) o índice que verifica o desenvolvimento morfológico e gramatical e acompanha a evolução da produção gramatical relativa à idade e o vocabulário como preditores desse desenvolvimento.

No Brasil, existem poucas ferramentas para avaliar detalhadamente o desenvolvimento da linguagem global, como a proposta de Brown, que envolve o desempenho gramatical e pragmático de crianças de 0 a 6 anos de idade.

Estudos anteriores(18,19) avaliaram a extensão média do enunciado (EME) a partir da tradução do MLU(14) em trabalhos com crianças com alterações especificas no desenvolvimento da linguagem. Outros autores(20) também apresentam resultados de EME produzidos por crianças com síndrome de Down e um estudo(21) conclui que os valores encontrados na medida do desenvolvimento da linguagem podem servir como referência normativa para crianças portuguesas.

Quantificar e qualificar os aspectos morfológicos e sintáticos de crianças típicas parece ser ainda uma dificuldade para muitos pesquisadores, mas podem nortear estudos que avaliam crianças atípicas.

Assim, acredita-se na necessidade de mais estudos no Brasil sobre a proposta de Brown(14) em toda a sua extensão de faixa etárias.

Embora os avaliadores tenham sido unânimes em manter a designação “Estágios de Brown”, na etapa do pré-teste, perceberam que não havia sentido mencionar esse autor para os pais: muitos não assinalavam esse item ou o faziam aleatoriamente, como todos confirmaram verbalmente durante a avaliação ou na entrega. Diante disso, sugeriu-se a remoção dos títulos de Brown no modelo traduzido para o português, a fim de evitar possíveis dúvidas entre os examinadores, mas mantendo as etapas propostas pelo autor.

Outra dificuldade dos pais para avaliarem os filhos foi o ponto em que o instrumento aponta um aumento gradual do vocabulário; essa realidade não parece se alinhar com a cultura brasileira, que, em geral, não valoriza o número de palavras. Por exemplo, o instrumento indica que, na faixa entre 42 e 48 meses, a criança deve falar, aproximadamente, de 1.000 a 1.500 palavras. No entanto, muitos pais têm dificuldade de saber se o vocabulário de seu filho está nesse intervalo. A escassez de instrumentos validados que considerem a diversidade linguística e cultural do país pode resultar em avaliações que não refletem com precisão o que se espera em termos do número de palavras para cada faixa etária. Assim, a dificuldade dos pais para estimar esse número pode ter levado à falta de resposta a essa questão, mostrando a complexidade de avaliar o vocabulário infantil.

Por incluir oito habilidades, o instrumento se torna longo; sugeriu-se usá-lo por meio de um aplicativo, como já acontece na língua inglesa.

A tradução da “Jornada da Criança” não tem a pretensão de esgotar a avaliação linguística de crianças de até 6 anos de idade, mas procura apresentar um olhar para o desenvolvimento da produção de linguagem que pode ser tomado como uma referência. Os marcos citados pelo instrumento nortearão o trabalho de profissionais da saúde, em particular fonoaudiólogos que trabalham com famílias. A aplicação desse instrumento suscita reflexões sobre marcos do desenvolvimento para profissionais e familiares e realinhamento de objetivos terapêuticos e orientação familiar.

Entende-se que existem limitações nas interpretações dos marcos do desenvolvimento em avaliações isoladas, que exigem considerações socioeconômicas e nutricionais e da diversidade humana. Um estudo polêmico(17) acusa resultados conflitantes entre o domínio da linguagem expressiva encontrado em sua pesquisa e os determinados pelo CDC em crianças nos EUA.

Como primeiro passo de um trabalho, a tradução se dispôs a ser fiel ao original e adequar as exigências gramaticais e culturais para que no próximo – a validação – seja possível oferecer mais um instrumento avaliativo que permita acompanhar o desenvolvimento infantil, incluindo as vantagens do monitoramento sistemático do progresso da criança, medidas preventivas na identificação de atrasos e instrumentalização de pais e profissionais em decisões sobre intervenções para atender às necessidades da criança e orientar trocas conversacionais, apoiando seu progresso e seus familiares.

O pré-teste demonstrou a aplicabilidade do instrumento em diversas faixas etárias e levou à sugestão da exclusão do item sobre os estágios de Brown. A etapa subsequente consistirá na validação da robustez do instrumento de avaliação, bem como na análise qualitativa dos dados coletados. Essa análise se concentrará nas relações entre as oito habilidades propostas e as diferentes faixas etárias dos participantes. Esse processo permitirá compreender melhor como as habilidades se desenvolvem ao longo das etapas de crescimento.

CONCLUSÃO

Cumpriu-se a tradução transcultural do instrumento A Child’s Journey, que nessa versão se intitula “Jornada da Criança”. A necessidade de novos instrumentos culturalmente adaptados vem ao encontro de práticas que respeitem e valorizem a diversidade cultural e acompanhem os avanços da contemporaneidade. A equipe multidisciplinar que inclua crianças, família e profissionais da saúde e da educação faz toda a diferença.

Instrumentos atualizados podem proporcionar medições mais precisas e relevantes, que reflitam melhor a condição e o progresso da criança. A atualização permanente das ferramentas avaliativas permite que profissionais da saúde e familiares personalizem o atendimento com base nas necessidades individuais da criança em seu contexto. Essa atualização é fundamental para garantir que os serviços de saúde e as clínicas sejam baseados nas melhores práticas e nas mais recentes evidências científicas, beneficiando as crianças e seus familiares.

Apêndice 1 Tradução do material: instruções gerais

A versão final das instruções gerais para o instrumento “Jornada da Criança” fornece diretrizes para o desenvolvimento típico de crianças desde o nascimento até os 6 anos de idade nas habilidades de audição, linguagem receptiva, linguagem expressiva, articulação da fala, brincadeira, cognição, pragmática e alfabetização (Quadro 1).

Durante os primeiros 24 meses, as habilidades de desenvolvimento são verificadas em intervalos de três meses (por exemplo, 0-3 meses ou 3-6 meses). As competências que normalmente surgem de seis em seis meses são verificadas semestralmente (por exemplo, 0-6 meses). Após o primeiro ano de vida, as habilidades de desenvolvimento também são verificadas semestralmente (por exemplo, 24-30 meses). Analogamente, as competências que normalmente surgem a cada ano são verificadas anualmente (por exemplo, 24-36 meses).

Em cada fase, as crianças são avaliadas por competências, e o resultado pode ser: meta (M) – não consegue realizar a tarefa (é meta do avaliador desenvolver a habilidade), emergente (E) – consegue realizar a tarefa, mas não sistematicamente, e domínio (D) – a criança já consolidou essa habilidade.

O indicador ‘meta’ refere-se a uma habilidade esperada na idade ou no estágio de desenvolvimento da criança, mas que ainda não está totalmente sob seu controle. É importante registrar a data em que uma habilidade foi qualificada como meta, e há uma coluna para isso no instrumento. Todas as competências contempladas nesse documento devem ser monitoradas, mas nem todas precisam ser objeto de intervenção. O julgamento clínico dos terapeutas orientará a seleção adequada dos objetivos.

O indicador ’emergente’ designa que uma habilidade é esperada na idade ou no estágio de desenvolvimento da criança, mas ainda é inconsistente em diferentes ocasiões (por exemplo, aproximadamente 50% de domínio observado), ou pode ser suscitada com apoio. Também nesse caso é importante registrar na coluna específica a data em que uma habilidade está surgindo.

O indicador ’domínio’ aponta que uma habilidade esperada na idade ou no estágio de desenvolvimento da criança está consolidada, ou seja, que a criança a exerce de forma independente e consistente em diversos contextos (por exemplo, aproximadamente 90% de domínio observado). Igualmente, deve-se registrar em coluna própria a data em que se alcançou esse domínio.

A maioria das competências terá um marcador M, E ou D. No entanto, algumas competências indicam desenvolvimento típico e não um marco específico. Nesses casos, apenas o D estará disponível.

Para selecionar metas apropriadas, é importante saber qual é o nível atual de desempenho da criança, isto é, quais as habilidades que ela já domina. Determinado isso, selecionam-se e direcionam-se os objetivos entre a habilidade dominada e a habilidade alcançável seguinte, em termos de desenvolvimento. Se uma criança não demonstrar progresso adequado em determinada habilidade ou em determinado domínio, isso pode ser considerado um motivo de preocupação ou um sinal de alerta. No caso de sinais de alerta, o desenvolvimento de uma habilidade ou domínio específico pode exigir atenção e foco adicionais.

As Figuras 1, 2, 3 e 4 são exemplos das propostas de habilidades a serem observadas em cada faixa etária e o material completo da tradução, com cerca de 100 páginas, será disponibilizado pela MED-EL.

AGRADECIMENTOS

Aos nossos colegas Ana Luiza Gomes Pinto Navas, Caio Augusto Buratti Penido, Carlos Felipe Navas, Fernanda França e Miriam da Silva Ferreira.

  • Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo – FCMSCSP – São Paulo (SP), Brasil.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis somente mediante solicitação
  • Financiamento:
    Nada a declarar.

REFERÊNCIAS

  • 1 Marzola P, Melzer T, Pavesi E, Gil-Mohapel J, Brocardo PS. Exploring the role of neuroplasticity in development, aging, and neurodegeneration. Brain Sci. 2023;13(12):1610. https://doi.org/10.3390/brainsci13121610 PMid:38137058.
    » https://doi.org/10.3390/brainsci13121610
  • 2 Zubler JM, Wiggins LD, Macias MM, Whitaker TM, Shaw JS, Squires JK, et al. Evidence-informed milestones for developmental surveillance tools. Pediatrics. 2022;149(3):e2021052138. https://doi.org/10.1542/peds.2021-052138 PMid:35132439.
    » https://doi.org/10.1542/peds.2021-052138
  • 3 Scharf RJ, Scharf GJ, Stroustrup A. Developmental milestones. Pediatr Rev. 2016;37(1):25-38. https://doi.org/10.1542/pir.2014-0103 PMid:26729779.
    » https://doi.org/10.1542/pir.2014-0103
  • 4 Misirliyan SS, Boehning AP, Shah M. Development milestones. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2025 [citado em 2025 Ago 29]. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK557518
    » https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK557518
  • 5 ASHA: American-Speech-Language-Hearing Association. Developmental milestone: birth to 5 years [Internet]. Rockville: ASHA; 2005 [citado em 2025 Ago 29]. Disponível em: https://www.asha.org/public/developmental-milestones/?srsltid=AfmBOoqsQ-GeHyL08N0TQSUKrQUxmhK-szmU0QNuf4UM_3iY3TDSITXy
    » https://www.asha.org/public/developmental-milestones/?srsltid=AfmBOoqsQ-GeHyL08N0TQSUKrQUxmhK-szmU0QNuf4UM_3iY3TDSITXy
  • 6 Handargule A, Meshram RJ, Taksande A, Malik A, K SSNSP, Desai K. A review of developmental scales in pediatric practice: recent guidelines. Cureus. 2024;16(6):e62941. https://doi.org/10.7759/cureus.62941 PMid:39044889.
    » https://doi.org/10.7759/cureus.62941
  • 7 Brasil. Ministério da Saúde. Caderneta da criança – passaporte da cidadania [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2024 [citado em 2020 Out 28]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/caderneta
    » https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/saude-da-crianca/caderneta
  • 8 Lipkin PH, Macias MM, Norwood KW Jr, Brei TJ, Davidson LF, Davis BE, et al, and the COUNCIL ON CHILDREN WITH DISABILITIES, SECTION ON DEVELOPMENTAL AND BEHAVIORAL PEDIATRICS. Promoting optimal development: identifying infants and young children with developmental disorders through developmental surveillance and screening. Pediatrics. 2020;145(1):e20193449. https://doi.org/10.1542/peds.2019-3449 PMid:31843861.
    » https://doi.org/10.1542/peds.2019-3449
  • 9 Black MM, Walker SP, Fernald LCH, Andersen CT, DiGirolamo AM, Lu C, et al, and the Lancet Early Childhood Development Series Steering Committee. Early childhood development coming of age: science through the life course. Lancet. 2017;389(10064):77-90. https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31389-7 PMid:27717614.
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(16)31389-7
  • 10 Zotey V, Andhale A, Shegekar T, Juganavar A. Adaptive neuroplasticity in brain injury recovery: strategies and insights. Cureus. 2023;15(9):e45873. https://doi.org/10.7759/cureus.45873 PMid:37885532.
    » https://doi.org/10.7759/cureus.45873
  • 11 Merzenich MM, Van Vleet TM, Nahum M. Brain plasticity-based therapeutics. Front Hum Neurosci. 2014;8:385. https://doi.org/10.3389/fnhum.2014.00385 PMid:25018719.
    » https://doi.org/10.3389/fnhum.2014.00385
  • 12 Therres M, Steyns I. A child’s journey – developmental milestones (birth – 6 years). Innsbruck, Austria: HearLIFE; 2017.
  • 13 Beaton DE, Bombardier C, Guillemin F, Ferraz MB. Guidelines for the process of cross-cultural adaptation of self-report measures. Spine. 2000;25(24):3186-91. https://doi.org/10.1097/00007632-200012150-00014 PMid:11124735.
    » https://doi.org/10.1097/00007632-200012150-00014
  • 14 Brown R. A first language: the early stages. Cambridge, MA: Harvard University Press. 1973. https://doi.org/10.4159/harvard.9780674732469
    » https://doi.org/10.4159/harvard.9780674732469
  • 15 Weaver IC. Integrating early life experience, gene expression, brain development, and emergent phenotypes: unraveling the thread of nature via nurture. Adv Genet. 2014;86:277-307. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-800222-3.00011-5 PMid:25172353.
    » https://doi.org/10.1016/B978-0-12-800222-3.00011-5
  • 16 Donnelly S, Kidd E. The longitudinal relationship between conversational turn-taking and vocabulary growth in early language development. Child Dev. 2021;92(2):609-25. https://doi.org/10.1111/cdev.13511 PMid:33547640.
    » https://doi.org/10.1111/cdev.13511
  • 17 Roberts MY, Sone BJ, Jones MK, Standley M, Conner T, Lee ED, et al. What the evidence does (and does not) show for the centers for disease control and prevention child development milestones: an illustrative example using expressive vocabulary. J Speech Lang Hear Res. 2023;66(9):3622-32. https://doi.org/10.1044/2023_JSLHR-23-00020 PMid:37536464.
    » https://doi.org/10.1044/2023_JSLHR-23-00020
  • 18 Carvalho AMA, Befi-Lopes DM, Limongi SCO. Extensão média do enunciado em crianças brasileiras: estudo comparativo entre síndrome de Down, distúrbio específico de linguagem e desenvolvimento típico de linguagem. CoDAS. 2014;26(3):201-7. https://doi.org/10.1590/2317-1782/201420140516 PMid:25118915.
    » https://doi.org/10.1590/2317-1782/201420140516
  • 19 Befi-Lopes DM, Nuñes CO, Cáceres AM. Correlação entre vocabulário expressivo e extensão média do enunciado em crianças com alteração específica de linguagem. Rev CEFAC. 2013;15(1):51-7. https://doi.org/10.1590/S1516-18462012005000017
    » https://doi.org/10.1590/S1516-18462012005000017
  • 20 Marques SF, Limongi SCO. A extensão média do enunciado (EME) como medida do desenvolvimento de linguagem de crianças com síndrome de Down. J Soc Bras Fonoaudiol. 2011;23(2):152-7. https://doi.org/10.1590/S2179-64912011000200012 PMid:21829931.
    » https://doi.org/10.1590/S2179-64912011000200012
  • 21 Cruz-Santos A, Costa SSS, Fernandes RMS, Sapage SP. Perspectivas e práticas de apoio educativo aos alunos com transtornos da linguagem em Portugal. CoDAS. 2019;31(5):e20180074. https://doi.org/10.1590/2317-1782/20192018074 PMid:31691743.
    » https://doi.org/10.1590/2317-1782/20192018074

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Maria Cecilia Martinelli Iorio.
  • Editor Associado:
    Stela Maris Aguiar Lemos.

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis somente mediante solicitação

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Abr 2025
  • Aceito
    14 Dez 2025
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
location_on
Academia Brasileira de Audiologia Rua Itapeva, 202, conjunto 61, CEP 01332-000, Tel.: (11) 3253-8711 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revista@audiologiabrasil.org.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro