Resumo
Este trabalho centrou na realização de levantamento de indicadores de distintas manifestações patológicas associadas à umidade, ocorridas em edificações da região Norte de Portugal entre os anos de 1990 e 2023, cuja base dos dados foi obtida por laudos técnicos periciais (judiciais e extrajudiciais). A metodologia envolveu a utilização de universo amostral de 125 laudos, sendo que as paredes (duplas e simples) e as lajes constituíram as vertentes analisadas. Foram produzidos gráficos estatísticos e correlações que possibilitaram estabelecer uma contribuição relevante à temática umidade em edificações por meio das seguintes ponderações: edificações residenciais (56%) e públicas (18%) apresentaram a maioria dos problemas; paredes duplas apresentaram mais anomalias (51%) quando comparadas às paredes simples (16%) e as lajes (33%); o sistema que mais apresentou manifestações patológicas foi o constituído de bloco cerâmico nas paredes duplas (81%), nas paredes simples foi o com rocha (60%) e nas lajes (tetos) foi o com concreto pré-moldado (61%); as vertentes paredes duplas, paredes simples e lajes foram em sua maioria acometidas pelas manchas de umidade (55%; 45%; 60%), degradação do revestimento (26%; 35%; 24%) e eflorescências (9%; 10%; 7%), respectivamente; a umidade se torna a principal porta de entrada para o surgimento de outros danos que acarretam prejuízos estéticos, de saúde e financeiro.
Palavras-chave
Degradação; Anomalias; Solicitações higrotérmicas; Laudos periciais
Abstract
This paper focused on conducting a survey of indicators of different pathological manifestations associated with humidity, occurring in buildings in the Northern region of Portugal between 1990 and 2023, whose database was obtained from expert technical reports (judicial and extrajudicial). The methodology involved the use of a sample universe of 125 reports, with walls (double and single) and slabs constituting the aspects analyzed. Statistical graphs and correlations were produced that made it possible to establish a relevant contribution to the theme of humidity in buildings through the following weightings: residential (56%) and public (18%) buildings presented the majority of problems; double walls presented more anomalies (51%) when compared to single walls (16%) and slabs (33%); the system that presented the most pathological manifestations was the one consisting of ceramic block in double walls (81%), followed by rock in single walls (60%) and precast concrete in slabs (ceilings) (61%); the areas of double walls, single walls and slabs were mostly affected by damp stains (55%; 45%; 60%), coating degradation (26%; 35%; 24%) and efflorescence (9%; 10%; 7%), respectively; moisture becomes the main gateway for the emergence of other damages that cause aesthetic, health and financial losses.
Keywords
Degradation; Anomalies; Hygrothermal stresses; Expert reports
1 Introdução
Atualmente as manifestações patológicas desencadeadas pela ação da água conseguem ser minimizadas ou até mesmo evitadas por meio de diferentes sistemas de impermeabilização, ventilação, aquecimento, limpeza, entre outras. Porém, conforme relataram Freitas, Vieira e Guimarães (2013), Flores-Colen, Brito e Freitas (2008), Mésároš et al. (2024) e Yari et al. (2025), tais soluções podem ainda não ser totalmente eficientes, sendo necessário considerar no momento da aplicação suas chances de sucesso juntamente com as dificuldades e seus custos.
De maneira paralela, alguns materiais de construção são considerados como higroscópicos, ou seja, estando em ambientes com variação da umidade do ar, o seu teor de umidade acaba também oscilando até atingir o estado denominado de equilíbrio, propiciado, nesse caso, pela adsorção de moléculas de água contidas no ar, estas se encontrando internas aos poros do material (Zanoni et al., 2020; Freitas; Torres; Guimarães, 2008; Gomes; Gomes; Reis, 2023). Logo, os diversos mecanismos que originam a umidade nos componentes de construção são considerados complexos, isso significa, na prática, que o transporte realizado na fase líquida e vapor ocorre de maneira simultânea e são dependentes da temperatura ambiente, bem como da umidade relativa, pressão exercida pelo vento, precipitação e radiação solar, sem esquecer as próprias características que os materiais apresentam, ou seja, considerar a compatibilidade entre o sistema de impermeabilização selecionado e o elemento construtivo a ser impermeabilizado quanto à flexibilidade ou rigidez do conjunto (Freitas; Torres; Guimarães, 2008; Lopez-Carreon et al., 2025; Šadauskienė; Šeduikytė, 2014).
Perante o apresentado, o processo de melhoria das edificações passa pelo correto processo de análise de seu desempenho frente aos fenômenos naturais a que estão expostos, entre eles a umidade. Destarte, a origem da umidade presente nas edificações pode ser considerada uma tarefa complexa, pois envolve muitas vertentes (mecanismos de transporte) (Lopez-Carreon et al., 2025; Mésároš et al., 2024; Mattsson et al., 2024; Ksit; Szymczak-Graczyk; Nazarewicz, 2022).
Solicitações higrotérmicas presentes nas edificações podem dar origem a outras manifestações patológicas (corrosão, eflorescências, fissuras, destacamentos, crescimento biológico, entre outras), o que, de fato, afeta sua estética, causa desconforto aos usuários e pode trazer consequências nocivas à saúde. Diante disso, o objetivo deste trabalho ficou centrado na realização de levantamento de indicadores de distintas manifestações patológicas associadas à umidade, ocorridas em edificações localizadas na região Norte de Portugal entre os anos de 1990 e 2023, em que a base dos dados extraídos foi obtida por meio de laudos técnicos periciais (judiciais e extrajudiciais).
1.1 Panorama de anomalias relacionadas à umidade
A umidade como defeito em edificações acaba sendo a responsável pelo surgimento de outras distintas manifestações patológicas em paredes, lajes, pisos e coberturas, como por exemplo, a colonização biológica e as eflorescências, que estão relacionados a defeitos de construção que podem afetar o desempenho funcional, e que, muitas das vezes, se deve ao incorreto detalhamento de projetos, a falta de qualidade da mão de obra, bem como a escassez de manutenção e incorreto uso/operação (Pereira et al., 2018; Othman et al., 2015; Mésároš et al., 2024). Aliado a isso, os reparos de danos em edificações devem ser realizados de maneira imediata (Pinto et al., 2020).
A falta de manutenção preventiva também é apontada como outra questão relacionada ao surgimento de danos devido à umidade. Conforme relatou Wu et al. (2025), as edificações construídas antes de 1970 apresentam em sua maioria problemas relacionados com a manutenção inadequada, estanqueidade e vazamento de tubulações de água; enquanto as edificações mais recentes sofrem com problemas de execução, falhas de projeto e impermeabilização deficiente.
Annila et al. (2018) relataram que até 85% das edificações públicas na Finlândia necessitam receber reparos em função de danos ocasionados pela umidade (pisos, lajes e paredes), revelando que essas edificações são consideradas multiproblemáticas, independentemente da idade da construção.
Com relação às fontes de entrada de umidade em edificações, a chuva é o tema mais abordado na literatura, com média de 25% das publicações, enquanto a chuva impulsionada pelo vento (como fonte de umidade em serviço) é estudada em 7% das publicações relacionadas (Lopez-Carreon et al., 2025). Cabe destacar que a anomalia mais recorrente é a umidade pela infiltração seguida pela umidade por condensação (Carretero-Ayuso et al., 2022), enquanto os mecanismos de infiltração de água em superfícies de elementos das edificações normalmente são: percolação, capilaridade, condensação, vazamentos e falhas de drenagem (Gomes; Gomes; Reis, 2023).
Os danos originados pela água tratam de um problema internacional, mas diferentes aspectos dessas anomalias são enfatizados dependendo dos problemas mais amplos de construção que ocorrem nas diferentes regiões do mundo (Mattsson et al., 2024).
De maneira paralela, a disponibilidade de dados estatísticos que demonstrem, como exemplo, os problemas patológicos mais incidentes nas obras e consequentemente os custos de reparos desses danos, mesmo que de maneira geral, são escassos na literatura devido ser considerada uma atividade dispendiosa e demorada (Freitas; Vieira; Guimarães, 2013).
A Noruega, por meio da Norwegian Building Research Institute (NBRI), demonstrou esse tipo de preocupação com os referidos dados estatísticos e disponibilizou por algum tempo essas iniciativas (como exemplo os dados entre 1993 e 2002), que podem ser visualizados nos gráficos que compõem a Figura 1. No período em questão, os demais componentes e conjuntos de construção não relacionados na envoltória da edificação e as paredes externas acima do terreno representaram a maior distribuição dos danos referentes ao elemento de construção, com 31% e 29%, respectivamente. Quanto ao tipo de parede externa, as constituídas de concreto representaram 32% dos danos. E conforme o tipo de telhado, terraços sob pisos de concreto foram responsáveis por 26% dos danos observados. No ano de 2006 o NBRI se fundiu com a Stiftelsen for Industriell og Teknisk Forskning (SINTEF), que é considerado um dos maiores institutos de pesquisa da Europa e atua de maneira multidisciplinar em tecnologia desde 1950 (Freitas; Vieira; Guimarães, 2013).
Atualmente a França se destaca no quesito de prevenção de problemas em edificações e melhoria da qualidade da construção por meio da Agence Qualité Construction (AQC) – organização que visa a qualidade na construção – em associação com a Fondation Excellence SMA – importante seguradora que atua no setor da construção civil – em aliança com o SYCODES (SYstème de COllecte des DÉSordres) – banco de dados composto por laudos técnicos anatomopatológicos – que tem o intuito de analisar as bases e tomar decisões planejadas nos futuros projetos de construção, ou seja, os dados da plataforma apresentam os danos mais frequentes e dispendiosos, cobertos pela garantia de dez anos, mensurando sua ocorrência e consequentemente seu impacto financeiro.
O SYCODES teve seu observatório lançado em 1995 e desde então tem registrado em sua base mais de 500.000 danos em edificações (perfazendo uma média de 50.000 danos por ano), estes divididos em 74 elementos construtivos. A Figura 2 apresenta que os revestimentos de piso internos, as janelas externas e tubulações de água/esgoto internas são os elementos construtivos mais incidentes em termos de danos, cujos custos de reparos foram da ordem de € 16.000, € 7.000 e € 9.000, respectivamente. Também tem destaque que, entre os anos 2022 e 2024, os problemas relacionados à estanqueidade à água perfizeram 41% do total de danos nas edificações francesas, que representaram um custo de reparação dos danos entre € 760 e € 250.000, ou seja, durante a década que envolveu os anos de 2015 a 2024, o montante de 64,1% de pessoas que teve danos em suas edificações, estes estavam relacionados à água, com custos de reparo de 49,1% em relação ao montante total (Figura 3). Do total de danos apresentados, 56% se referem a ocorrência em edificações residenciais, 29% em residências unifamiliares e 15% em edificações comerciais (SYCODES, 2025).
Cabe destacar que ocorre na França uma crescente evolução de reclamações por danos nas edificações a medida em que o tempo vem passando, corroborando que a temática, patologia das construções, vem ganhando cada vez mais destaque, indicando que desde a etapa de projeto, como também dos processos de execução, propiciados pelos profissionais do setor da construção civil, precisam de constante atualização e treinamento técnico mais preciso, respectivamente.
2 Metodologia
2.1 Origem dos dados técnicos
Este trabalho pode ser classificado como descritivo devido à realização do levantamento de indicadores de distintas manifestações patológicas associadas à umidade, ocorridas em edificações da região Norte de Portugal (Figura 4) entre os anos de 1990 e 2023, local em que o clima é predominantemente mediterrânico, com temperatura média anual de 14ºC a 15ºC e umidade relativa por volta de 80% a 85%. A base dos dados extraídos foi obtida por meio de laudos técnicos periciais – judiciais e extrajudiciais – realizados por equipe de especialistas do Laboratório de Física e Tecnologia das Construções (LabFTC), pertencente a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), de Portugal.
Pela natureza do trabalho, cabe expressar que as partes envolvidas, os responsáveis técnicos de projetos e execução, os municípios, as imagens ou quaisquer outras informações que possam de alguma forma favorecer a identificação das edificações foram omitidas.
Os laudos técnicos periciais foram realizados em função de danos/anomalias que surgiram em edificações residenciais, públicas, comerciais e industriais – todas em fase de uso – após os proprietários ou municípios enfrentarem problemas construtivos que notadamente se relacionaram ao desempenho funcional, à estética, ao conforto, à durabilidade e à depreciação de mercado das edificações afetadas. A fundamentação metodológica adotada teve como base as prescrições das “Fichas de Reparação de Patologias” (LNEC, 1985) e da UNE 41805-1 (AENOR, 2024).
2.2 Caracterização dos casos
Foi utilizado um universo amostral de 125 laudos técnicos periciais, em que no máximo duas manifestações patológicas associadas à umidade (as mais relevantes e incidentes) foram consideradas por cada relatório pericial, sendo que as paredes (fachadas e internas) e as lajes constituíram as vertentes analisadas, subdivididas como apresenta o Quadro 1.
É válido relatar que em paredes duplas constituídas apenas de blocos cerâmicos e nas de concreto/blocos cerâmicos foram verificadas, em algumas situações, a presença de isolamento térmico (exemplo: placas de poliestireno expandido, cortiça e poliestireno extrudado). Em paredes simples elaboradas de blocos de cerâmica ou de concreto, os laudos a partir de 2005 relataram, por vezes, a presença de isolamento térmico exterior do tipo ETICS (External Thermal Insulation Composite System) conhecido popularmente de “capoto”. Com relação às lajes de concreto armado – maciças ou pré-moldadas – a presença de impermeabilização sempre se fez presente por meio de aplicação de mantas asfálticas, mantas líquidas e sistemas multicamadas.
Destarte, deve ser destacado que em Portugal o Decreto-Lei nº 80 (Portugal, 2006) estabeleceu desde então o “Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE)”, que tratou de normas mais rigorosas para a qualidade da construção, conforto térmico e eficiência energética na envolvente de novas edificações. Enquanto o Decreto-Lei n.º 40 (Portugal, 1990) prescreveu o “Regulamento das Características de Comportamento Térmico dos Edifícios (RCCTE)”, que iniciou os requisitos mínimos para isolamento e desempenho térmico apenas de lajes nas edificações. Atualmente o Decreto-Lei nº 101-D (Portugal, 2020) é o responsável pelas prescrições referentes à transposição das diretivas europeias de 2018/844 a 2019/944, ou seja, trata do regulamento referente ao desempenho energético das edificações.
No geral, as paredes em sua maioria eram revestidas internamente de argamassa ou gesso e externamente de placas cerâmicas, placas cimentícias, placas de rochas, além de argamassa. As lajes internamente eram revestidas de argamassa, placas de gesso ou ainda aparentes, enquanto na parte superior revestidas de placas cerâmicas, placas de rochas e aparente (neste caso em áreas sem acesso). Quanto às espessuras, as paredes duplas revestidas (com ou sem isolamento) apresentaram variações de 26 a 40 cm; as paredes simples revestidas variaram de 15 a 20 cm; as paredes simples com ETICS continham em média 40 cm; as paredes simples de rocha (com ou sem revestimento) possuíam em torno de 50 cm. Para as lajes de concreto armado, maciças e pré-moldadas, foram seguidas as espessuras prescritas em normas e regulamentos da época de construção.
Os laudos técnicos periciais contaram com a realização de vistorias in loco, registros fotográficos, informações obtidas por moradores/síndicos/construtores, documentos como caderno de encargos (quando disponibilizado) e projetos de engenharia e arquitetura; que contribuíram na caracterização das edificações, objeto de análise, na descrição das anomalias identificadas, no diagnóstico das anomalias, na metodologia de reparo contendo eventuais custos e nas conclusões. Além disso, incluíram a partir dos anos 2000, a realização de ensaios não destrutivos para auxiliar nos diagnósticos obtidos.
As manifestações patológicas consideradas no trabalho para as paredes e lajes, bem como os diagnósticos (ainda sem nenhum tipo de relação problema/causa) são apresentados no Figura 5.
Referente aos laudos técnicos periciais, 24% foram realizados entre os anos de 1990 – 1999; 42,4% entre 2000 – 2009; 28,8% entre 2010 – 2019; e 4,8% entre 2020 – 2023. Quanto às idades das edificações, as mais antigas datavam do final do século XVIII enquanto as mais novas tinham apenas 2 ou 3 anos de uso (na época da realização dos relatórios periciais).
2.3 Geração de dados técnicos
Inicialmente foi elaborada e preenchida uma ficha técnica com características consideradas pertinentes aos casos (identificação do laudo, ano de realização do laudo, tipo de edificação, caracterização/material [parede ou laje], tipo de problema identificado, diagnóstico, método utilizado no diagnóstico e técnica de reparo mais adequada), que serviu de base para a obtenção dos dados utilizados na realização dos gráficos, com base em análise estatística.
Foram produzidos gráficos, com base em análise estatística, por meio do software Excel, que evidenciaram as edificações em função de sua tipologia, os sistemas analisados (paredes duplas, paredes simples e lajes), bem como as respectivas correlações com as manifestações patológicas. Ao final também é apresentado um quadro de correlação entre os diagnósticos apontados nos laudos técnicos periciais e as anomalias identificadas.
É importante relatar que trabalhos como os de Lopez-Carreon et al. (2025), Yari et al. (2025), Carretero-Ayuso et al. (2022), Gomes, Gomes e Reis (2023) e Hidalgo-Betanzos et al. (2018), do mesmo modo trataram das manifestações patológicas ocasionadas pela umidade em edificações, oportunidade em que foram destacados os efeitos negativos que surgem na envolvente da construção, bem como os métodos disponíveis que vem sendo utilizados no processo de caracterização de propriedades que se encontram relacionadas com a temática em questão.
Destarte, da forma como ocorreu na pesquisa de Carretero-Ayuso et al. (2022), este trabalho não apresenta nenhum mecanismo de conexão entre os casos contidos nos laudos técnicos judiciais, se tratando de casos independentes. Contudo, possibilita a apresentação de resultados com contribuição particular para a área de patologia das construções.
3 Resultados e análise
Conforme o universo amostral de 125 laudos técnicos periciais, inicialmente são apresentados, na Figura 6, a distribuição dos tipos de edificações e o percentual de elementos (vertentes) considerados no levantamento dos dados.
Pela Figura 6, fica constatado que a maior parcela das anomalias observadas se deu em 70 edifícios residenciais (56%), logo depois em 23 edifícios públicos (18%), seguido de 15 edifícios comerciais (12%), 13 residências unifamiliares (11%) e 4 edifícios industriais (3%). Enquanto as paredes duplas sobressaíram em relação aos danos mais relevantes (51%), seguido das lajes (33%) e por último das paredes simples (16%). Trabalhos obtidos na literatura, como os de Othman et al. (2015), Wu et al. (2025), Valero, Sasso e Vicioso (2019), Annila et al. (2018), Barbosa, Rosse e Laurindo (2021), Perez-Gracia, Solla e Fontul (2024), Lopez-Carreon et al. (2025), Yari et al. (2025), Carretero-Ayuso et al. (2022), Tulukov et al. (2024), entre outros, trataram de manifestações patológicas relacionadas a solicitações higrotérmicas em paredes e/ou lajes de edificações, indicando ser um assunto bastante explorado em função dos vários tipos de problemas que vem ocorrendo nesses elementos construtivos.
Referente aos materiais utilizados nas vertentes estudadas (Figura 7), cabe destacar que nas paredes duplas o mais empregado foi o bloco cerâmico (81%), enquanto nas paredes simples os blocos de granito e calcário constituíram 60% desse elemento. Já o concreto armado foi o principal material utilizado nas lajes, sendo que 63% compuseram as pré-moldadas (teto e piso) e 37% as maciças (teto e piso). Cabe destacar que os dados levantados dos materiais tratam do processo de caracterização dos elementos construtivos (vertentes) analisados, ou seja, não tem ligação com o quantitativo de manifestações patológicas identificadas nesses elementos. Diante do exposto, independente do material que constituiu as paredes (e do sistema de isolamento térmico quando identificado) e das lajes (e da técnica de impermeabilização adotada), as anomalias referentes a umidade se fez presente, como também observado por Šťastný e Makys (2025), Gomes, Gomes e Reis (2023), Hidalgo-Betanzos et al. (2018), Mattsson et al. (2024), Šadauskienė e Šeduikytė (2014), Araújo, Brito e Júlio (2010).
De modo geral, a Figura 8 apresenta que as manchas de umidade e a degradação do revestimento (pulverulências, infiltrações, trincas e fissuras) foram as manifestações patológicas mais recorrentes nos laudos técnicos periciais, atingindo valores da ordem de 55% e 26% para as paredes duplas, 45% e 35% para as paredes simples e 60% e 24% para as lajes, respectivamente. As demais anomalias apresentaram valores abaixo de 10%, com destaque para as eflorescências com uma diferença sutil entre elas: 9%, 10% e 7%, respectivamente para as paredes duplas, paredes simples e lajes. Esse perfil de recorrência (manchas de umidade/degradação do revestimento/eflorescências) também é seguido em relação ao total de manifestações patológicas, 28%, 13%, 5% – 8%, 6%, 2% – 18%, 7%, 2%, respectivamente para as paredes duplas, paredes simples e lajes. O padrão de ocorrências observado tem ligação com os trabalhos desenvolvidos por Wu et al. (2025), Pereira, Brito e Silvestre (2018), Othman et al. (2015), Sousa (2024), Yari et al. (2025), em que a umidade foi responsável por problemas (como exemplos: condensação elevada, colonização biológica, eflorescências e degradação) que afetaram o desempenho funcional das edificações em paredes, lajes e pisos, cujo detalhamento de projetos e os defeitos de construção foram apontados com o a principal causa do surgimento dos danos relacionados à umidade.
As demais manifestações patológicas (escorrimentos, destacamentos, cristalização de sais e água sob pressão na parede) apresentaram recorrências inferiores quando comparadas às anomalias mais incidentes. Os trabalhos de Annila et al. (2018), Carretero-Ayuso et al. (2022), Ksit, Szymczak-Graczyk e Nazarewicz (2022), Šťastný e Makys (2025), apontaram que a origem dos danos, independentemente da incidência, está também relacionada aos problemas construtivos, cujos reparos (quando executados) devem ser monitorados por um longo período como forma de comprovar a eficácia da técnica empregada.
Como complemento, o Quadro 2 apresenta a correlação entre as manifestações patológicas e os diagnósticos obtidos nos laudos técnicos periciais.
Referente à correlação da Figura 8, entre os diagnósticos mais recorrentes nas duas manifestações patológicas mais incidentes, as infiltrações foram as principais causas detectadas (45% e 25%, respectivamente para as paredes e lajes), cujas técnicas utilizadas nos reparos apresentados nos laudos técnicos periciais envolveram: tratamento da impermeabilização da fachadas, tratamento da impermeabilização das lajes (sobretudo nos arremates), reparo da estanqueidade das caixilharias, impermeabilização e capeamento das platibandas, reparo das fissuras das fachadas, ventilação da caixa de ar das paredes, tratamento das juntas de dilatação das fachadas, tratamento das juntas do revestimento externo das fachadas, correta fixação das placas de revestimento (rocha) nas fachadas, reparo das tubulações de águas pluviais, aplicação de sistema de revestimento tipo "fachadas ventiladas" (elementos pré-fabricados), reparo das tubulações de água e esgoto, impermeabilização da base das paredes, aplicação de ETICS nas fachadas e realização de corte hídrico na base de paredes com posterior aplicação de produto hidrófugo. Cabe relatar que os diagnósticos de Pereira, Brito e Silvestre (2018), Othman et al. (2015), Valero, Sasso e Vicioso (2019), Annila et al. (2018), Šťastný, Gašparík e Makýš (2021), Pinto et al. (2020), Perez-Gracia, Solla e Fontul (2024), Yari et al. (2025), Carretero-Ayuso et al. (2022), Tulakov et al. (2024), Šťastný e Makys (2025) e Mattsson et al. (2024), tiveram variações em relação aos percentuais apresentados, entretanto, praticamente por unanimidade, relacionaram a ocorrência das infiltrações devido a falhas projetuais e problemas construtivos.
Quanto às condensações internas, tiveram representatividade de 17% da identificação dos danos, se destacando como nas pesquisas de Wu et al. (2025), Sousa (2024), Lopez-Carreon et al. (2025), Gomes, Gomes e Reis (2023), Hidalgo-Betanzos et al. (2018) e Šadauskienė e Šeduikytė (2014), em que técnicas de reparo contidas nos laudos técnicos periciais apontaram a necessidade de realização de reforço do sistema de ventilação, reforço do sistema de aquecimento e reforço do sistema de isolamento térmico, respectivamente nos ambientes afetados, propiciando a redução ou mesmo eliminação desse tipo de problema. Cabe relatar que a renovação das alvenarias com aplicação de sistemas ETICS também proporciona melhorias internas contra as condensações superficiais nas edificações.
Conforme os diagnósticos apresentados no Quadro 2, o elevado teor de umidade teve suas técnicas de reparo relacionadas à criação de juntas de dilatação preenchidas posteriormente com mastique e com a aplicação de ETICS nas fachadas. As caixilharias de janelas com problemas de vedação tiveram seus reparos relacionados à estanqueidade (falta de selantes principalmente). A umidade de construção teve sua correção ligada à impermeabilização da base das paredes e dos contrapisos afetados. O fenômeno da criptoflorescência teve sua técnica de reparação atribuída à aplicação de revestimento de gesso acartonado nas paredes afetadas, com espaço mínimo de 10 mm (considerada uma resolução um tanto complexa pelo fato de o fenômeno continuar a agir na parede, ou seja, a vedação com gesso apenas oculta o problema). A infiltração nas paredes (elevação do nível freático) relacionou a técnica de reparo ao processo de injeção de resinas hidroexpansivas nas paredes de concreto (aumentando sua resistência e permeabilidade), vinculada a impermeabilização da superfície do pavimento térreo com revestimento do tipo epóxi auto-nivelante, pelo fato de terem sido constatadas frentes de umidade distintas. A contaminação com sais, em ambiente marítimo (presença de cloretos), teve como técnica empregada o reparo das fissuras da fachada, com posterior tratamento da impermeabilização das áreas afetadas. Por fim, a termoforese (gradiente de temperatura) teve como solução a aplicação de ETICS nas fachadas.
De maneira paralela, como forma de ampliar o panorama das manifestações patológicas relacionadas com umidade e ao mesmo tempo comparar com os danos encontrados nas edificações analisadas nos laudos técnicos periciais, a Figura 9 apresenta os principais elementos em que foram encontrados problemas patológicos na França entre os anos 1995 e 2024.
Pela Figura 9 se percebe que os danos relacionados com a presença de água podem ser considerados constantes, não sendo específicos de um determinado país. Problemas oriundos de tubulações de água/esgoto internas, janelas externas, terraços, coberturas e fachadas, também se destacam como os mais recorrentes na França, embora os percentuais sejam distintos dos encontrados na análise dos laudos periciais para o Norte de Portugal, em que os destaques foram as infiltrações (paredes e lajes) e as condensações internas. Contudo, os dados franceses indicam que projetos com deficiências, aliado a contratempos no processo de execução e escassez de manutenção preventiva, também facilitam na ocorrência desses tipos de danos, contribuindo na consideração de que a umidade é um dos mais relevantes problemas da construção civil.
4 Considerações finais
Artigos científicos tendo como base relatórios de perícia técnica não são considerados comuns, principalmente pelo teor que agregam, ou seja, descrição minuciosa do que foi examinado, processo metodológico utilizado e a respectiva análise técnica. Os laudos técnicos periciais utilizados neste trabalho tiveram como premissa a análise das manifestações patológicas observadas nas edificações, identificando causas que se encontravam na origem do deficiente comportamento, além de preconizar recomendações voltadas aos trabalhos de recuperação dos danos verificados. Contudo, foi possível estabelecer uma contribuição relevante à temática umidade em edificações, em que diante das condições empregadas puderam ser tiradas as seguintes ponderações:
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edificações residenciais e públicas apresentaram a maioria dos problemas relacionados a umidade, com 56% e 18% respectivamente, seguido das edificações comerciais (12%), residências unifamiliares (10%) e as industriais (3%);
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paredes duplas apresentaram aproximadamente três vezes mais anomalias (51%) quando comparadas as paredes simples (16%), enquanto as lajes tiveram 33% dos danos, independente dos materiais de construção empregados e da composição do sistema;
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o sistema que mais apresentou manifestações patológicas foi a alvenaria de bloco cerâmico nas paredes duplas (81%), nas paredes simples foi o sistema constituído de rocha (granito e calcário) com 60%, enquanto nas lajes foi o sistema de concreto pré-moldado (tetos) com 61%;
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as três vertentes analisadas (paredes duplas, paredes simples e lajes) foram em sua maioria acometidas pelas manchas de umidade (55%; 45%; 60%), degradação do revestimento (26%; 35%; 24%) e eflorescências (9%; 10%; 7%), indicando serem os danos mais comumente encontrados nas edificações do Norte de Portugal;
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as técnicas de reparo apresentadas para as três vertentes analisadas, em muitos casos, tratam de solução complexa em que as dificuldades de execução devem ser devidamente equacionadas por meio da execução de pormenores à escala conveniente; e
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a umidade nas edificações se torna a principal porta de entrada para o surgimento de distintas manifestações patológicas, que acarretam prejuízos estéticos, de saúde e financeiro aos envolvidos.
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FREITAS, V. P. de; FIORITI, C. F. Manifestações patológicas relacionadas à umidade em edificações do norte de Portugal: relato de casos entre 1990 e 2023. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 26, e153356, jan./dez. 2026. ISSN 1678-8621 Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. http://dx.doi.org/10.1590/s1678-86212026000100998
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Declaração de Disponibilidade de Dados
Pela natureza do trabalho, os dados de pesquisa não estão disponíveis.
Referências
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Editor:
Marcelo Henrique Farias de Medeiros e Eduardo Pereira










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Fonte: adaptado de SYCODES (2025).
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