Open-access É tempo de atualizar o nome do diabetes mellitus tipo 2?

CARTAS AO EDITOR

É tempo de atualizar o nome do diabetes mellitus tipo 2?

Sandra R.G. Ferreira

Departamento de Medicina Preventiva, Universidade Federal de São Paulo, SP

Endereço para correspondência

A IDENTIFICAÇÃO DE UMA CONDIÇÃO patológica na qual a "carne dos membros se derretia em urina" ocorreu há mais de 1.700 anos (Aretaeus, 300 DC) (1). A evolução do conhecimento científico sobre esta condição levou à denominação de diabetes mellitus há centenas de anos atrás (Willis, 1674) (1). À semelhança de outras ciências, a progressão do conhecimento sobre diabetes tem ocorrido em progressão geométrica. Com toda razão, a Associação Americana de Diabetes, em 1997 (2), preferiu definir o diabetes mellitus como um grupo de doenças nas quais a hiperglicemia – decorrente da falta de produção e/ou da ação insulínica – pode ter etiopatogenia distinta. E mais, um mesmo indivíduo pode ter "dois diabetes" se tiver o infortúnio de apresentar condições genético-ambientais para o tipo 2 e sofrer um processo de agressão auto-imune das suas células beta.

Os experts em diabetologia têm progressivamente reduzido os valores diagnósticos do diabetes e, por precaução, também criaram a condição "pré-diabética", consciente de que a atual verdade sobre os valores de corte poderá mudar a curto prazo. A mesma conduta também tem sido adotada pelos especialistas em hipertensão arterial e dislipidemia. Será coincidência?

A associação entre os três distúrbios – dos níveis glicêmicos, pressóricos e lipídicos – "incomoda" a sociedade médica há muito tempo e Reaven, em 1988 (3), estabeleceu tal elo, que é a resistência de tecidos à ação da insulina. Este hormônio definitivamente deixou de ser popular apenas entre os endocrinologistas. Por outro lado, estes passaram a se interessar por células e processos biológicos antes aparentemente desconectados da prática endocrinológica, como por exemplo, o endotélio e a inflamação subclínica. Muito foi aprendido sobre os mecanismos que relacionam a célula adiposa visceral, as adipocitocinas, a resistência à insulina, inflamação e a disfunção endotelial.

Identificar o paciente como de risco, quando da elevação da glicemia, não seria muito tarde? Não raramente o paciente que sofre um evento cardiovascular já apresentava tal seqüência de anormalidades, mas ainda com uma glicemia abaixo de 100mg/dl.

Por meio desta análise, superficial embora verdadeira, é razoável questionar se é tempo de se modificar o nome da doença diabetes mellitus tipo 2, uma vez que, muitos anos antes de "adocicar" o sangue, o organismo deste paciente já vem sofrendo uma demonstrável cascata de eventos patológicos.

Endoteliopatia metabólica seria mais apropriado?

REFERÊNCIAS

1. Williams G, Pickup JC. História do diabetes. In: Manual de Diabetes, 2a edição. Williams G, Pickup JC, editors. Oxford:Blackwell Science; 2001.

2. The Expert Committee on the Diagnosis and Classification of Diabetes Mellitus (ECDCDM). Report of the ECDCDM. Diabetes Care 1997;20:1183-97.

3. Reaven GM. Role of insulin resistance in human disease. Diabetes 1988;37:1595-607.

Recebido em 21/06/04

Revisado em 31/08/04

Aceito em 04/10/04

  • Endereço para correspondência
    Sandra Roberta Gouvea Ferreira
    Professora Livre-Docente,
    Departamento de Medicina Preventiva
    Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
    Rua Botucatu, 740
    04023-062 São Paulo, SP
    Fax: (11) 5549-5159
    E-mail:
  • Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      12 Set 2005
    • Data do Fascículo
      Abr 2005
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