Palavras-chave
Insuficiência Cardíaca; Peptídeos Natriuréticos; Ultrassom
Keywords
Heart Failure; Natriuretic Peptides; Ultrasound
Palavras-chave
Insuficiência Cardíaca; Peptídeos Natriuréticos; Ultrassom
Keywords
Heart Failure; Natriuretic Peptides; Ultrasound
O diagnóstico de insuficiência cardíaca (IC) permanece desafiador em pacientes com múltiplas comorbidades, particularmente quando há sobreposição com doenças pulmonares, obesidade ou apresentações clínicas atípicas. Nesse contexto, a integração de ferramentas diagnósticas complementares, como o NT-proBNP e o escore de ultrassonografia de excesso venoso (VExUS, do inglês venous excess ultrasound), permite uma avaliação mais precoce e acurada da congestão, reduzindo efeitos adversos e favorecendo a implementação oportuna da terapia médica direcionada por diretrizes.1
O manejo da IC descompensada torna-se ainda mais complexo diante da retenção hídrica subclínica — condição frequentemente subestimada, mas associada a maiores taxas de readmissão hospitalar e risco de mortalidade comparável ao observado em pacientes com edema clinicamente evidente.2,3 Nesses cenários, o VExUS consolida-se como uma ferramenta central no armamentário diagnóstico e terapêutico, seja na diferenciação da etiologia da dispneia, seja na condução de pacientes com congestão franca e síndrome cardiorrenal, ao permitir o direcionamento da diurese de forma mais segura e individualizada, minimizando o risco de lesão renal.4
Evidências crescentes sustentam esse papel. Anastasiou et al.5 demonstraram que o escore VExUS supera outros marcadores isolados de congestão — como o diâmetro da veia cava inferior — na predição de mortalidade intra-hospitalar, reforçando seu valor prognóstico. Ademais, um ensaio clínico randomizado mostrou que a diurese guiada pelo VExUS duplicou a probabilidade de alcançar euvolemia em apenas 2 dias quando comparada ao cuidado padrão,6 consolidando o ultrassom à beira do leito não apenas como ferramenta diagnóstica, mas como uma extensão natural do exame físico contemporâneo.
Os peptídeos natriuréticos, especialmente o BNP e o NT-proBNP, têm papel bem estabelecido desde o início dos anos 2000. Valores dentro da normalidade apresentam sensibilidade superior a 90% para exclusão do diagnóstico de IC, enquanto níveis elevados associam-se de forma consistente a piores desfechos cardiovasculares e maior mortalidade.7 A integração de biomarcadores e avaliação ultrassonográfica da congestão assume, portanto, relevância estratégica ao agregar objetividade à estratificação de risco e permitir decisões clínicas mais precoces e fundamentadas.
Não obstante, disparidades regionais e a necessidade de treinamento específico em VExUS ainda representam desafios à ampla disseminação dessa tecnologia. Em contrapartida, o NT-proBNP configura-se como um biomarcador amplamente disponível, financeiramente viável no Sistema Único de Saúde (SUS) e de interpretação relativamente simples. Apesar disso, permanecem escassos os estudos que correlacionam diretamente os níveis de NT-proBNP com os escores do VExUS, lacuna que limita uma abordagem verdadeiramente integrada da congestão.
O estudo de Flores et al.8 destaca-se como um dos pioneiros ao correlacionar níveis de NT-proBNP com o escore VExUS nas primeiras 24 horas de internação por IC descompensada. A amostra, composta majoritariamente por idosos (idade mediana de 79 anos) e com proporção feminina superior a 45%, reflete uma população frequentemente sub-representada em estudos clínicos. Observou-se que pacientes com congestão venosa moderada a grave (VExUS 2–3) apresentaram medianas de NT-proBNP entre 5.430 e 13.200 pg/mL, sugerindo que valores acima de 5.430 pg/mL, em idosos, associam-se a congestão sistêmica significativa e demandam atenção clínica imediata.
Estudos futuros que estratifiquem esses achados por faixa etária, sexo e comorbidades específicas — como doença renal crônica, cardiopatias congênitas, hipertensão pulmonar e doença valvar — são necessários para refinar ainda mais essa abordagem. Em um cenário no qual decisões precoces impactam diretamente a morbimortalidade e a qualidade de vida dos pacientes com IC, integrar biomarcadores e imagem funcional não é apenas uma inovação diagnóstica, mas um imperativo clínico.
Na IC, identificar a congestão antes de sua expressão clínica não é apenas antecipar o diagnóstico — é intervir no momento em que ainda é possível alterar o desfecho.
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8 Flores MP, Souza AC, Carvalho MVSF, Morel RV, Cavalcante LRS, Barroso ND, et al. Correlação Entre o Venous Excess Ultrasound e os Níveis de Fragmento N-terminal do Pró-Peptídeo Natriurético Tipo B em Pacientes Com Insuficiência Cardíaca Agudamente Descompensada. Arq Bras Cardiol: Imagem Cardiovasc. 2026;39(1):e20260018. doi: 10.36660/abcimg.20260018.
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