Palavras-chave
Ecocardiografia; Eletrofisiologia Cardíaca; Segurança do Paciente
Keywords
Echocardiography; Cardiac Electrophysiology; Patient Safety
Palavras-chave
Ecocardiografia; Eletrofisiologia Cardíaca; Segurança do Paciente
Keywords
Echocardiography; Cardiac Electrophysiology; Patient Safety
O Ecocardiograma Intracardíaco (ICE, do inglês intracardiac echocardiogram ) é uma técnica de imagem por ultrassom capaz de realizar visualização em tempo real e de alta qualidade das estruturas cardíacas e seus tecidos adjacentes, por meio de um cateter com transdutor introduzido diretamente nas câmaras do coração, habitualmente por via venosa transfemoral. Por permitir uma visualização direta e precisa da anatomia intracardíaca, o ICE tem sido cada vez mais usado para guiar intervenções estruturais e ablações por cateter de arritmias cardíacas, além de permitir a detecção imediata de complicações intraoperatórias.1
As investigações clínicas iniciais se deram na década de 1960 com a avaliação de defeitos do septo interatrial; desde então, o ICE evoluiu consideravelmente.2A introdução do transdutor phased-array , a adição da funcionalidade de Doppler colorido e o avanço dos sistemas de manipulação permitiram sua ampla aplicação clínica. A versão mais moderna do ICE phased-array conta com sensor de posição na ponta do cateter, possibilitando sua integração em tempo real com sistemas de mapeamento eletroanatômico tridimensional utilizados nas ablações complexas. A capacidade de movimentar o cateter com precisão, aliada à versatilidade de posicionamento, faz do ICE uma ferramenta valiosa para navegação anatômica e monitoramento em tempo real durante intervenções complexas.3
Inicialmente, o ICE foi utilizado para guiar o fechamento percutâneo de defeitos do septo interatrial, sendo uma alternativa ao Ecocardiograma Transesofágico (ETE), com imagem comparável e melhor tolerabilidade.1Atualmente, o ICE é a modalidade de imagem preferida em diversos procedimentos de eletrofisiologia, pois dispensa anestesia geral e permite que o próprio operador seja responsável pela imagem, otimizando tempo e recursos.4
Na eletrofisiologia, o ICE tornou-se ferramenta de extrema importância. Na ablação de fibrilação atrial, o ICE guia a punção transeptal com segurança e visualiza em tempo real a anatomia do átrio esquerdo, veias pulmonares, apêndice atrial e estruturas adjacentes, como o esôfago e as artérias pulmonares, permitindo delimitação precisa da área de ablação e evitando complicações térmicas. Em ablações de taquiarritmias atriais, como flutter atrial atípico, o ICE contribui para identificar estruturas anatômicas complexas e trajetos de reentrada, e guiar o posicionamento dos cateteres ao redor de cicatrizes ou zonas críticas.5
Nas arritmias ventriculares, o ICE é cada vez mais empregado. Na ablação de extrassístoles ou taquicardias oriundas da via de saída do ventrículo direito, o ICE permite posicionamento anatômico preciso entre o trato de saída e as estruturas adjacentes. Nas arritmias originadas da via de saída do ventrículo esquerdo e do summit do ventrículo esquerdo, o ICE auxilia na orientação de abordagens transeptais ou retroaórticas, melhorando a eficácia e segurança do procedimento. Seu papel é ainda mais importante nas arritmias das cúspides coronarianas, pois permite uma visualização clara do contato dos cateteres com a cúspide, o seio de Valsalva e óstio das artérias coronarianas. Nos casos de arritmias originadas nos músculos papilares, o ICE é particularmente importante, por permitir a visualização direta dessas estruturas móveis e o contato do cateter com o alvo de forma contínua, o que é difícil usando apenas o mapeamento eletroanatômico, permitindo procedimentos mais eficazes. Na taquicardia ventricular cicatricial, o ICE complementa o mapeamento eletroanatômico ao evidenciar áreas de adelgaçamento miocárdico, aneurismas e paredes acinéticas, bem como áreas de fibrose relacionadas ao substrato arritmogênico, além de monitorar em tempo real a estabilidade do cateter durante a ablação.6
Outro destaque é o uso do ICE no fechamento do apêndice atrial esquerdo, pois além da punção transeptal, proporciona visualização da anatomia do apêndice, avaliação do diâmetro e orientação da liberação do dispositivo, com redução do uso de contraste iodado e de fluoroscopia. Em muitos centros, o ICE tem substituído o ETE neste cenário, permitindo que o procedimento seja realizado com sedação consciente. Esse cenário é particularmente útil ao realizar conjuntamente a ablação de fibrilação atrial e o fechamento do apêndice atrial esquerdo.7
Na cardiologia intervencionista, o ICE tem ganhado espaço, principalmente com o desenvolvimento do ICE 3D, atuando como complemento valioso e até mesmo alternativo ao ETE em alguns cenários. Em adultos, destaca-se sua aplicação no fechamento percutâneo de comunicação interatrial e forame oval patente, onde a imagem é superior, além de permitir realização do procedimento com sedação consciente. O ICE apresenta resultados iniciais promissores no reparo transcateter da valva mitral e, mais recentemente, tem sido estudado seu uso em procedimentos percutâneos da valva tricúspide e no fechamento de leaks paravalvares. No implante transcateter de válvula aórtica, a fluoroscopia é o método de imagem padrão, mas em casos mais complexos, o ICE 3D pode agregar e ser uma alternativa ao ETE.8
No tratamento percutâneo das cardiopatias congênitas, o ICE vem sendo explorado em outras intervenções estruturais além do fechamento comunicação interatrial, incluindo intervenções em comunicação interventricular, persistência de canal arterial e valvopatia pulmonar. Sua utilização reduz a exposição à radiação e a necessidade de anestesia geral prolongada, trazendo benefícios relevantes ao paciente pediátrico ou adulto com cardiopatia congênita.1 , 9
O ICE é uma alternativa segura para identificar trombos no apêndice atrial esquerdo, melhora significativamente a segurança dos procedimentos ao reduzir complicações como tamponamento cardíaco, trombose e estenose das veias pulmonares.10A realização de ablações com exposição mínima ou mesmo sem utilização de radiação é uma realidade, sendo especialmente relevante nos pacientes jovens e nas gestantes, além de ter impacto significativo na redução dos riscos ocupacionais da equipe médica.1 , 10 , 11
Além disso, a implementação do ICE na prática diária é possível após uma pequena curva de aprendizado, permitindo sua implementação rapidamente e sem impactar na segurança ou eficácia do procedimento.12
Apesar dos avanços, o custo ainda representa uma barreira a disseminação universal do ICE, sobretudo pelo uso de cateteres descartáveis de alto preço. Contudo, considerando a redução do tempo de sala, menores complicações e menor necessidade de anestesia geral, o custo total do procedimento pode ser comparável ao do ETE.1 , 13
Tecnologias emergentes, como o ICE tridimensional em tempo real, já estão sendo aplicadas e prometem elevar ainda mais a precisão das intervenções.8Espera-se para breve a miniaturização dos cateteres, melhoria na resolução das imagens e integração com algoritmos de inteligência artificial para segmentação automática e identificação de estruturas.1 , 9
O ICE representa uma das principais inovações em imagem cardiovascular para a prática intervencionista contemporânea. Sua utilização crescente é impulsionada pela capacidade de combinar qualidade de imagem, segurança e eficiência, sendo uma ferramenta fundamental para procedimentos de alta complexidade na eletrofisiologia e na cardiologia estrutural com impacto positivo na segurança e eficácia dos procedimentos.
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