Tabagismo; Tabagismo Passivo; Hipertensão Arterial
Smoking; Passive Smoking; Arterial Hypertension
Tabagismo; Tabagismo Passivo; Hipertensão Arterial
Smoking; Passive Smoking; Arterial Hypertension
O tabagismo e a hipertensão arterial são fatores de risco reconhecidos para o desenvolvimento de doença cardiovascular. Por isso, esforços têm sido feitos no esclarecimento sobre seus potenciais malefícios bem como sobre os benefícios resultantes do seu controle junto à população em geral.
O tabagismo passivo tem recebido menos atenção quanto ao seu papel nocivo. Inicialmente, a atenção voltava-se para a irritação de rino e nasofaringe e, somente mais recentemente, a problemas relacionados ao pulmão1 e a doenças cardiovasculares.2
A proibição do tabagismo em locais públicos corroborou para a redução tanto do próprio tabagismo passivo como do tabagismo ativo. O Brasil se posiciona como um dos países mais bem-sucedidos nessa campanha. A frequência estimada de tabagismo no país varia entre 4% e 14,5%, com média de 9,1% para fumantes ativos, e 6,9% para fumantes passivos em ambiente domiciliar e 5,4% em ambiente de trabalho (segundo VIGITEL, 2021), apesar de leve aumento em 2023.3 No entanto, essas taxas ainda permanecem indesejavelmente elevadas.
Processos inflamatórios persistem por algum tempo após cessação do tabagismo, e a arteriosclerose parece ser permanente, mesmo após a sua interrupção.4 Dada a prevalência da hipertensão arterial estimada em 26,3%, sua interação com tabagismo assume grande relevância como fator potencializador de tais lesões. Embora se saiba que o tabagismo ativo se correlaciona com maiores taxas de hipertensão arterial, apesar de estudos recentes,2,5 tais informações não existem ou são escassas em relação ao tabagismo passivo.
No estudo publicado nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia os autores utilizaram um grande banco de dados colhido por entrevista telefônica (VIGITEL), com amostras de todas as capitais brasileiras e no Distrito Federal. As amostras foram ajustadas quanto a fatores de confusão como sexo, idade, cor da pele, escolaridade, estado civil e região. Os resultados apontaram para uma associação entre tabagismo passivo e presença de hipertensão arterial numa magnitude semelhante à do tabagismo ativo de mais de um maço de cigarro ao dia.6
Em ex-tabagistas que permanecem com o tabagismo passivo, ou mesmo sem esse, há uma associação ainda mais forte com a hipertensão arterial. Uma curiosidade é a menor associação de hipertensão arterial com o tabagismo leve, de menos que um maço de cigarro por dia, sugerindo um efeito até protetor, talvez até como um amenizador do estresse.7 A literatura mostra achados conflitantes sobre esta relação de tabagismo leve com hipertensão arterial.
Após a cessação do tabagismo, o aumento de peso concomitante ao aumento da pressão arterial pode explicar uma aparente proteção do hábito de fumar,8 ou em alguns casos, mascarando-se uma hipertensão arterial. Contudo, no tabagismo ativo, mesmo que leve, há a inalação de ar circundante onde se encontram os elementos que determinam os males do tabagismo passivo. Os autores desse trabalho devem ser parabenizados pela construção de um conhecimento como o da significativa associação do tabagismo passivo com hipertensão arterial.
No entanto, a natureza da coleta de dados poderia em princípio apresentar alguns senões. Os dados foram obtidos a partir de informação voluntária dada pelos participantes por telefone, sem a possibilidade de verificação ou de medida objetiva da exposição. Não foram avaliados, por exemplo, marcadores como cotinina e carbohemoglobina, e outros, no sangue, na urina ou na saliva. A grande amostra populacional ameniza até certo ponto essa questão.
Assim, o estudo reforça uma importante associação do tabagismo passivo com a hipertensão arterial. Esse dado é particularmente importante para o momento em que o mundo se vê cercado de propaganda enganosa que procura estimular outras formas de tabagismo com provável igual malefício ao do uso do cigarro.9
Referências
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1 Mochizuki A, Shiraishi K, Honda T, Higashiyama RI, Sunami K, Matsuda M, et al. Passive Smoking-Induced Mutagenesis as a Promoter of Lung Carcinogenesis. J Thorac Oncol. 2024;19(7):984-94. doi: 10.1016/j.jtho.2024.02.006.
» https://doi.org/10.1016/j.jtho.2024.02.006 -
2 DiGiacomo SI, Jazayeri MA, Barua RS, Ambrose JA. Environmental Tobacco Smoke and Cardiovascular Disease. Int J Environ Res Public Health. 2018;16(1):96. doi: 10.3390/ijerph16010096.
» https://doi.org/10.3390/ijerph16010096 - 3 Brasil. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico: Estimativas sobre Frequência e Distribuição Sociodemográfica de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas nas Capitais dos 26 Estados Brasileiros e no Distrito Federal em 2023. Brasília: Ministério da Saúde; 2023.
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4 Yao Z, Tasdighi E, Dardari ZA, Jha KK, Osuji N, Rajan T, et al. Association between Cigarette Smoking and Subclinical Markers of Cardiovascular Harm. J Am Coll Cardiol. 2025;85(10):1018-34. doi: 10.1016/j.jacc.2024.12.032.
» https://doi.org/10.1016/j.jacc.2024.12.032 -
5 Yarlioglues M, Kaya MG, Ardic I, Calapkorur B, Dogdu O, Akpek M, et al. Acute Effects of Passive Smoking on Blood Pressure and Heart Rate in Healthy Females. Blood Press Monit. 2010;15(5):251-6. doi: 10.1097/MBP.0b013e32833e439f.
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6 Mattos VGW, Moraes GI, Azevedo LW, Mandeco JO, Saes-Silva E, Silva CN, et al. Association between Passive Smoking and Hypertension: A Panel Study with 621.506 Adults from Brazil. Arq Bras Cardiol. 2025; 122(6):e20250024. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20250024
» https://doi.org/10.36660/abc.20250024 -
7 Richards JM, Stipelman BA, Bornovalova MA, Daughters SB, Sinha R, Lejuez CW. Biological Mechanisms Underlying the Relationship between Stress and Smoking: State of the Science and Directions for Future Work. Biol Psychol. 2011;88(1):1-12. doi: 10.1016/j.biopsycho.2011.06.009.
» https://doi.org/10.1016/j.biopsycho.2011.06.009 -
8 Lee DH, Ha MH, Kim JR, Jacobs DR Jr. Effects of Smoking Cessation on Changes in Blood Pressure and Incidence of Hypertension: A 4-Year Follow-Up Study. Hypertension. 2001;37(2):194-8. doi: 10.1161/01.hyp.37.2.194.
» https://doi.org/10.1161/01.hyp.37.2.194 -
9 Dimitriadis K, Narkiewicz K, Leontsinis I, Konstantinidis D, Mihas C, Andrikou I, et al. Acute Effects of Electronic and Tobacco Cigarette Smoking on Sympathetic Nerve Activity and Blood Pressure in Humans. Int J Environ Res Public Health. 2022;19(6):3237. doi: 10.3390/ijerph19063237.
» https://doi.org/10.3390/ijerph19063237
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Minieditorial referente ao artigo:
Associação entre Tabagismo Passivo e Hipertensão: Um Estudo de Painel com 621.506 Adultos do Brasil
