Open-access Custos do Tratamento Clínico de Pacientes com Insuficiência Cardíaca Avançada na América Latina

Resumo

Fundamento  A carga financeira enfrentada por pacientes com insuficiência cardíaca (IC) avançada, que não são elegíveis para transplante cardíaco ou não têm acesso à terapia avançada com dispositivos de assistência ventricular esquerda (DAVEs) ainda não foi descrito na América Latina.

Objetivo  Realizar um estudo de microcustos em pacientes que, embora elegíveis para terapia com DAVE, não tiveram acesso ao procedimento.

Métodos  Avaliamos os custos diretos do cuidado em uma coorte de pacientes com IC avançada tratados em um hospital público brasileiro, que eram candidatos à terapia com DAVE (e inelegíveis para transplante), mas não tiveram acesso ao dispositivo. Foi realizada uma análise de custos em nível individual desde o momento em que a necessidade de DAVE foi identificada até o óbito ou o fim do acompanhamento. O custo total por paciente foi calculado utilizando a metodologia de custeio baseado em atividades com base no tempo (time-driven activity-based costing) e expresso em dólares internacionais (Int$). Os pacientes foram estratificados por gravidade da doença e mortalidade por todas as causas para avaliar a variabilidade dos custos.

Resultados  Figura 2

Conclusões  Este estudo evidencia o impacto financeiro associado ao manejo clínico contínuo da IC avançada em pacientes que, de outra forma, seriam elegíveis para terapia com DAVE. Esses achados fornecem subsídios para avaliar a relação custo-efetividade de intervenções com dispositivos de suporte à vida em populações selecionadas com IC avançada.

Palavras-chave
Custos e Análise de Custo; Insuficiência Cardíaca; América Latina

Figura Central
: Custos do Tratamento Clínico de Pacientes com Insuficiência Cardíaca Avançada na América Latina


Abstract

Background  The financial burden faced by patients with advanced heart failure (HF) who are ineligible for heart transplantation or lack have access to advanced therapy with left ventricular assist devices (LVADs) has not been described in Latin American.

Objective  To conduct a microcosting study in patients who were otherwise eligible for LVAD therapy who did not have access to it.

Methods  We evaluated the direct costs of care in a cohort of advanced HF patients treated at a Brazilian public hospital who were candidates for LVAD therapy (and ineligible for transplantation) but lacked access to the procedure. A patient-level cost analysis was performed from the time LVAD need was identified until death or end of follow-up. The total cost per patient was calculated using the time-driven activity-based costing methodology and expressed in international dollars (Int$). Patients were stratified by disease severity and all-cause mortality to assess cost variability.

Results  Figure 2

Conclusions  This study highlights the financial burden associated with ongoing medical management of advanced HF in patients who would otherwise be eligible for LVAD therapy. These findings provide a basis for evaluating the cost-effectiveness of device-based, life-saving interventions in selected advanced HF populations.

Keywords
Costs and Cost Analysis; Heart Failure; Latin America

Central Illustration:
The Cost of Medical Management in Advanced Heart Failure: A Latin American Perspective


Introdução

A insuficiência cardíaca (IC) avançada, uma fase da doença caracterizada pela resistência às terapias farmacológicas e não farmacológicas tradicionais, está associada à alta morbidade e mortalidade, além de maior utilização de recursos de saúde e custos elevados tanto para os indivíduos quanto para a sociedade.1 À medida que as populações envelhecem e se beneficiam de terapias aprimoradas para doenças cardiovasculares de início precoce, a prevalência de IC avançada continua a aumentar, resultando em um impacto social significativo e perda de produtividade.2

Embora o transplante cardíaco seja atualmente uma terapia estabelecida para a IC avançada, um número substancial de indivíduos é inelegível devido a comorbidades ou outros fatores.3 Para esses pacientes, um dispositivo de assistência ventricular esquerda (DAVE) durável funciona como uma terapia que prolonga a vida; caso contrário, eles são frequentemente relegados aos cuidados paliativos.4 Nos Estados Unidos, 27298 DAVEs de longo prazo foram implantados entre 2010 e 2019; somente em 2019, o número de implantes de DAVE quase igualou o número de transplantes cardíacos realizados no país, com a maioria dos casos classificados como terapia de destino para pacientes considerados inelegíveis ao transplante.5,6 Na Europa, aproximadamente 500 indivíduos por ano receberam um DAVE nos últimos 10 anos, e esse número continua a crescer devido à escassez de órgãos doadores.7

Os desfechos para pacientes com DAVE de longo prazo melhoraram substancialmente ao longo do tempo, em grande parte devido à melhor seleção de pacientes, ao aprimoramento do manejo clínico e à introdução da bomba HeartMate 3 (Abbott, EUA), totalmente levitada magneticamente. A sobrevida mediana agora ultrapassa cinco anos, especialmente entre pacientes inelegíveis para transplante.8-10 No entanto, os DAVEs não estão disponíveis na maioria dos países de baixa e média renda devido a preocupações com a relação custo-efetividade. No Brasil, o DAVE HeartMate 3 é acessível apenas por meio de seguros privados ou iniciativas de pesquisa filantrópicas.11 O custo do cuidado de pacientes com IC avançada que não têm acesso à terapia com DAVE permanece amplamente desconhecido, apesar de sua potencial relevância para a avaliação da custo-efetividade dessas intervenções.

A utilização de recursos de saúde e o custo do cuidado para pacientes com IC avançada tratados sem possibilidade de resgate por meio de DAVE ou transplante podem representar um ônus financeiro que não é prontamente reconhecido por indivíduos, sistemas de saúde, pagadores e governos. Em casos selecionados, o uso criterioso da terapia com DAVE como destino final pode se mostrar custo-efetivo.11,12 Portanto, o presente estudo, conduzido dentro do sistema público de saúde brasileiro, tem como objetivo avaliar os custos longitudinais do manejo médico da IC avançada em pacientes que poderiam ter sido elegíveis para a terapia com DAVE como destino, mas que não tiveram acesso ao procedimento.

Métodos

Realizamos um estudo de microcustos (um método de estimativa financeira que inclui o uso de recursos e o custo unitário) para avaliar os custos diretos de uma coorte de pacientes com IC avançada, sob a perspectiva de um hospital universitário público, em um centro regional de referência para terapias avançadas de IC. A amostra foi composta por pacientes com IC avançada que não eram elegíveis para transplante cardíaco, mas elegíveis para receber um DAVE como indicação de terapia de destino.13

População

Definimos uma coorte de pacientes adultos consecutivos com IC em estágio avançado que atendiam aos critérios de elegibilidade para implantação de DAVE como terapia de destino, mas que não puderam receber esse tratamento em nossa instituição entre janeiro de 2015 e maio de 2023. A IC avançada foi definida por meio de avaliação clínica, incorporando carga de sintomas, parâmetros prognósticos objetivos e intervenções terapêuticas (como terapia inotrópica), conforme descrito pelas sociedades europeias e norte-americanas de cardiologia e resumido por Truby e Rogers.14 Os critérios de exclusão incluíram pacientes que foram submetidos a transplante cardíaco ou implantação de DAVE, aqueles com cobertura por plano de saúde privado e aqueles acompanhados principalmente em outras instituições.

As razões clínicas para inelegibilidade ao transplante foram idade avançada, hipertensão pulmonar grave, obesidade, tabagismo ativo, fragilidade e outras comorbidades. Nosso programa segue as diretrizes da International Society for Heart and Lung Transplantation quanto às contraindicações para o transplante.15,16 A hipertensão pulmonar grave foi definida como resistência vascular pulmonar superior a 3 unidades Wood, não responsiva ao teste com vasodilatadores. O fluxograma dos pacientes elegíveis para terapia com DAVE de longo prazo e selecionados para inclusão na análise de custos está na Figura 1.

Figura 1
– Fluxograma de pacientes elegíveis para terapia com dispositivo de assistência ventricular esquerda (DAVE) de longo prazo no centro de referência selecionado para análise de custo.

O período de coleta de dados para cada paciente começou quando a equipe clínica considerou a indicação de terapia avançada (cardíaco ou DAVE) ou na admissão hospitalar para aqueles que já estavam internados nessa data. O intervalo de aquisição de custos foi registrado no óbito, no final do acompanhamento do estudo em 30 de junho de 2023 ou na alta hospitalar para os pacientes internados nessa data. As fontes de dados incluíram resumos eletrônicos de alta, notas de evolução, registros de consultas ambulatoriais e formulários de avaliação para transplante cardíaco/DAVE. A análise de custos em nível individual incluiu todos os atendimentos hospitalares, incluindo consultas, exames diagnósticos, procedimentos e internações.

Dados de custo

Os componentes de custo para a análise geral foram obtidos utilizando a metodologia de custeio baseado em atividades com base no tempo.17 Nessa abordagem, o consumo de recursos é medido com base no ciclo de cuidados ao paciente, considerando tanto o custo unitário da prestação do serviço quanto o tempo necessário para realizar cada transação ou atividade. Os dados de custo relacionados a pessoal, infraestrutura, procedimentos e exames diagnósticos (incluindo imagem) foram extraídos dos registros administrativos do hospital, seguindo a metodologia utilizada em estudos anteriores focados em procedimentos específicos e serviços prestados a pacientes com IC avançada (Tabela 1).

Tabela 1
– Fontes de informação dos componentes de custo com valores atualizados para o ano de 2023

Os custos com medicamentos foram obtidos a partir de dados de consumo em nível individual de pacientes, extraídos do sistema administrativo institucional. Os custos dos procedimentos incluíram materiais, honorários profissionais e infraestrutura. Foram realizadas entrevistas para estimar o tempo médio que os profissionais de saúde dedicaram a cada procedimento, consulta, atendimento ambulatorial e cuidados em hospital-dia. Os custos das unidades hospitalares — como enfermarias, Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e laboratório de cateterismo — englobaram depreciação, energia, materiais administrativos, salários profissionais e outras despesas. Para os salários profissionais, foi calculada a alocação exata de pessoal para cada unidade, incluindo a área da UTI especificamente destinada a pacientes cardiológicos, que possui uma estrutura de pessoal diferenciada. O custo fixo direto médio mensal de cada unidade foi calculado e dividido pela capacidade mensal de atendimento da respectiva unidade. Por exemplo, para a UTI, a capacidade foi determinada com base no número de leitos disponíveis: 45 leitos operando 24 horas por dia, durante 30 dias, totalizando 32.400 horas. O custo diário médio foi calculado dividindo-se o custo total atribuído à unidade pelo número de leitos e dias úteis. Os custos de internação foram então determinados multiplicando o tempo que cada paciente permaneceu em determinada unidade pelo respectivo custo por unidade de tempo.

Os componentes de custo foram calculados e agregados para determinar o custo total por paciente. As análises descritivas de custo incluíram média, DP, mediana e intervalo interquartil. Os pacientes foram estratificados por variáveis clínicas – especificamente, pela gravidade da doença conforme os perfis INTERMACS (Registro Interagências para Suporte Circulatório Mecânico) — e pelo desfecho de mortalidade, com o objetivo de estimar a variabilidade dos custos. Além disso, foi calculado o custo anual estimado por paciente para representar o impacto econômico esperado anual dessa condição clínica para os prestadores de serviços de saúde. Como a coorte do estudo incluiu pacientes com diferentes períodos de acompanhamento, o custo total por paciente foi dividido pelo número de meses de seguimento e, em seguida, multiplicado por 12. É importante considerar esse ajuste ao aplicar os dados em modelos econômicos futuros. Todos os valores foram atualizados para o ano de 2023 utilizando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acumulado desde a data original de obtenção dos dados (para os custos extraídos de artigos científicos). Esses valores são apresentados em dólares internacionais (Int$) para refletir a paridade do poder de compra, com base no fator de conversão do Banco Mundial disponível em https://data.worldbank.org/indicator/PA.NUS.PPP (acesso em 29 de março de 2024). Como referência, Int$ 1.000 equivale a US$ 1.000 e R$ 2.580. As comparações entre os perfis INTERMACS > 3 e INTERMACS ≤ 3, bem como entre os desfechos (vivo vs. óbito), foram realizadas utilizando o teste t de Student. Todas as análises foram realizadas utilizando o Microsoft® Excel para Mac.

Aspectos éticos

O protocolo de pesquisa foi aprovado pelo Comitê Institucional de Pesquisa e Ética, e o consentimento informado foi dispensado devido à natureza retrospectiva do estudo. Todos os pesquisadores assinaram um termo de confidencialidade para acessar os dados individuais. O estudo foi conduzido de forma independente e com total autonomia pelos autores, sem qualquer interferência do patrocinador.

Resultados

Os critérios de inclusão e exclusão foram atendidos em 20 pacientes consecutivos com IC avançada. A idade média foi de 51 anos, e 90% eram do sexo masculino. A Tabela 2 apresenta as características demográficas e clínicas da coorte do estudo. No momento da inclusão, três quartos dos pacientes estavam hospitalizados, e quase metade apresentava status INTERMACS ≤ 3 — que representa graus de estabilidade sob terapia inotrópica, variando do menos (1) ao mais (3) estável — quando um DAVE como terapia de destino foi considerado, mas não pôde ser implantado. Na inclusão do estudo, a proporção de pacientes em terapia medicamentosa guiada por diretrizes para IC era relativamente baixa, principalmente devido à baixa tolerabilidade. Os inibidores de SGLT2 não estavam amplamente acessíveis no Brasil para tratamento da IC antes de 2022, o que resultou em baixas taxas de uso; além disso, sua utilidade na IC avançada permanece incerta, já que esses pacientes geralmente não foram incluídos nos principais estudos clínicos.18

Tabela 2
– Características demográficas e clínicas do da coorte do estudo

A principal contraindicação para a inelegibilidade ao transplante cardíaco foi a hipertensão pulmonar, seguida pelas comorbidades. A sobrevida global foi de 40% ao final de uma mediana de 15 meses (mínimo de quatro, máximo de 36) de seguimento; onze pacientes evoluíram para óbito devido à falência progressiva da bomba, e um por morte súbita. As características clínicas de gravidade dos pacientes individuais e as informações sobre utilização de recursos estão descritas na Tabela 3.

Tabela 3
– Características clínicas de gravidade e dados de utilização de recursos por paciente

Análise de custo

O custo médio por paciente foi de Int$ 120 457 (DP 78 029), o que representa um custo mensal médio de Int$ 8030. A Tabela 4 descreve a composição dos custos por paciente incluído no estudo, e a Figura 2 apresenta a proporção dessa composição. Os pacientes permaneceram, em média, 31 dias (DP 30) em UTIs e 53 dias (DP 47) em unidades não intensivas, entre a data da indicação do DAVE e o final do seguimento do estudo. As internações representaram mais de dois terços do custo total (56% em terapia intensiva e 16% em cuidados não intensivos). Medicamentos dispensados exclusivamente durante a internação corresponderam a 3% do custo médio total.

Tabela 4
– Descrição dos componentes de custo, custo total, e custo anual por paciente

O procedimento cardíaco mais frequente entre os pacientes estudados foi a cateterização do coração direito (CCD), realizada em 18 pacientes, com custo médio de Int$ 2.045 (DP 1.921). Outros procedimentos cardíacos invasivos e não invasivos incluíram hemodiálise, hemocomponentes, biópsias endomiocárdicas, implantação de cardiodesfibrilador implantável e/ou terapia de ressincronização cardíaca, reparo mitral transcateter borda a borda, inserção de cateter venoso central de inserção periférica, angioplastia coronariana, cardioversão elétrica externa e implantação de balão intra-aórtico. Nenhum dos pacientes do estudo recebeu dispositivo temporário de suporte circulatório mecânico além do balão intra-aórtico, uma vez que não eram elegíveis para transplante e a ponte para DAVE não era possível.

De forma geral, os pacientes com IC avançada apresentaram alta utilização de recursos de saúde e grande variabilidade nos custos, com mais pacientes registrando custos totais acima do percentil 75 da amostra total, e menos pacientes com valores abaixo do percentil 25. As Figuras 3A e 3B ilustram a variabilidade individual dos custos totais e o total de dias de internação em enfermaria ou UTI por paciente. Os pacientes permaneceram hospitalizados durante aproximadamente 30% do período do estudo (variação de 0 a 100%). O tamanho reduzido da amostra não permitiu comparações estatísticas entre pacientes com diferentes padrões de consumo de recursos.

Os custos totais médios por paciente foram analisados com base no perfil INTERMACS (INTERMACS ≤ 3 vs. > 3) no momento da indicação de DAVE, estendendo-se até o óbito ou a conclusão do estudo durante o período de acompanhamento (Figura 4). De modo geral, os pacientes em pior condição clínica (INTERMACS ≤ 3) apresentaram custos aproximadamente 70% superiores aos daqueles em melhor estado clínico (p = 0,036). Por outro lado, os pacientes que faleceram durante o acompanhamento registraram custos totais semelhantes aos daqueles que permaneceram vivos até o final do estudo (p = 0,399). As maiores despesas com hospitalizações, procedimentos e exames foram os principais responsáveis pela variabilidade de custos entre os grupos de status INTERMACS. A mortalidade foi equivalente, com seis óbitos em cada um dos dois grupos INTERMACS. Pacientes com INTERMACS ≤ 3 permaneceram em média 112 dias (DP 53) hospitalizados, enquanto aqueles com INTERMACS > 3 permaneceram em média 62 dias (DP 52).

Figura 4
– Custo médio estimado por paciente de acordo com o status INTERMACS e desfecho.

Discussão

Este estudo relata os custos médicos diretos enfrentados por pacientes com IC avançada que não têm acesso a terapias avançadas (transplante cardíaco ou DAVE) no contexto do sistema público de saúde brasileiro. Entre os pacientes com doença grave, com alta mortalidade, o custo médio do tratamento foi elevado, alcançando Int$ 120 457 ao longo de 15 meses de acompanhamento. A Figura Central resume os principais achados.

As análises de custo assistencial em pacientes com IC avançada tratados clinicamente e que não são elegíveis para terapias de prolongamento da vida permanecem limitadas. Russo et al.,19 em 2008, avaliaram o braço de tratamento clínico do estudo Randomized Evaluation of Mechanical Assistance for the Treatment of Congestive Heart Failure e constataram que o custo médio do cuidado nos dois últimos anos de vida foi de USD$ 156 169, sendo 50,5% (USD$ 78.880,39) incorridos nos últimos seis meses.19 Nossos dados contemporâneos confirmam que o manejo clínico dessa população vulnerável continua caro, especialmente entre aqueles com maior gravidade clínica no momento em que a terapia com DAVE é considerada. Os custos assistenciais e a utilização de recursos de saúde aumentam entre os pacientes que evoluem para óbito, apesar do menor tempo de vida. Isso sugere que uma estratégia potencial para redução de custos pode envolver uma identificação mais precoce de pacientes com curso clínico pior. A falta de encaminhamento oportuno para terapias avançadas continua sendo um desafio, mas, conforme indica nossa análise de custos, pode representar uma oportunidade importante para intervenção.10,20

Os custos observados associados à IC avançada diferem substancialmente daqueles observados em pacientes com IC crônica e estável. Um estudo anterior que utilizou técnicas de microcustos para avaliar as despesas ambulatoriais constatou que o custo anual para pacientes na classe funcional I da New York Heart Association (NYHA) foi de Int$ 510, enquanto aqueles nas classes III/IV da NYHA apresentaram um custo de Int$ 1.334 por ano.21 Como o esperado, pacientes com doença mais grave demandaram mais recursos, com até 74% dos custos atribuídos a exames e procedimentos diagnósticos. Esses achados reforçam a necessidade de identificação precoce de pacientes de alto risco e sugerem que uma atenção maior à relação custo-efetividade das terapias avançadas pode ser necessária. Tais insights podem contribuir para políticas mais eficientes de alocação de recursos em sistemas de saúde públicos.

Além dos custos diretos relacionados ao tratamento da IC avançada, os custos indiretos também são relevantes, mas permanecem pouco quantificados na maioria dos cenários. A literatura sugere que os custos indiretos possam representar até 40% do custo total do manejo da doença.22,23 Como nosso estudo avaliou apenas os custos diretos com saúde, incluindo medicamentos, devemos ter cautela ao interpretar os dados apresentados. Ainda assim, é provável que nossas estimativas subestimem o real impacto social. Avaliações abrangentes do impacto econômico da IC sobre o sistema de saúde devem considerar fatores como perda de produtividade dos pacientes e/ou familiares, necessidade de cuidadores, aquisição de medicamentos e transporte para visitas frequentes a unidades de saúde para consultas e exames diagnósticos. Infelizmente, os custos indiretos são capturados de forma inadequada pelos sistemas eletrônicos de saúde e bases de dados administrativas atualmente disponíveis no Brasil. Portanto, nossos achados provavelmente subestimam o custo total associado ao manejo médico da IC avançada.

Nossas descobertas destacam a importância de realizar estudos de custo-efetividade para opções de tratamento destinadas à recuperação de pacientes com IC avançada. Estudos anteriores que avaliaram os dispositivos de assistência ventricular esquerda sugeriram uma relação custo-efetividade desfavorável; no entanto, essas análises estão agora desatualizadas, pois foram baseadas em sistemas considerados obsoletos.24 Com os avanços na tecnologia dos DAVEs e melhorias na gestão médica, observou-se uma redução significativa nas hospitalizações e na utilização geral de recursos de saúde.25,26

Uma análise recente realizada no Reino Unido utilizando o dispositivo HeartMate 3, em terapia de destino, demonstrou limiares de custo-efetividade significativos para os pagadores públicos. Este estudo relatou uma razão incremental de custo-efetividade de £47 361 por ano de vida ajustado pela qualidade (QALY) ganho, em comparação com a terapia médica otimizada, com razões ainda mais favoráveis observadas entre pacientes mais graves (INTERMACS < 3).16 Esperamos que estudos como o nosso possam contribuir com dados valiosos para futuras análises de custo-efetividade ou custo-utilidade baseadas em evidências do mundo real.

Uma limitação importante do nosso estudo está na sua concentração exclusiva nos custos diretos da assistência à saúde, com atenção limitada aos custos indiretos (conforme discutido anteriormente). Embora as hospitalizações tenham sido o principal fator financeiro para os pacientes incluídos nesta análise, outros custos diretos — como a administração de medicamentos em ambiente ambulatorial — não foram considerados. Além disso, os custos hospitalares diretos foram obtidos a partir de um único centro público localizado no sul do Brasil, e a estrutura financeira dessa instituição específica influenciou as estimativas de custo por unidade utilizadas em nossa análise.

Não conseguimos abordar as possíveis variações de custo entre diferentes sistemas hospitalares, a utilização individual de recursos e as alocações de custos entre os sistemas de pagamento público e privado. Este relatório representa uma referência do mundo real sobre os custos associados ao tratamento de pacientes com IC avançada que seriam elegíveis para terapia com DAVE. Esses pacientes frequentemente apresentam uma trajetória clínica heterogênea e dinâmica, com comorbidades que impactam significativamente o prognóstico e a evolução clínica.

Para padronizar o período do estudo, utilizamos o momento da indicação para terapias avançadas como ponto de referência. No entanto, muitos desses pacientes podem ter sido encaminhados tardiamente, uma vez que não foram considerados candidatos ao transplante cardíaco. É importante destacar que este é um estudo gerador de hipóteses, com uma amostra limitada, o que deve ser levado em consideração ao interpretar e aplicar os resultados. De modo geral, acreditamos que os custos reais do cuidado com a IC avançada podem ter sido subestimados.

Conclusão

Este estudo apresenta uma avaliação abrangente dos custos diretos de saúde associados a pacientes com IC que são candidatos à terapia com DAVE como tratamento definitivo, mas que não conseguem receber essa intervenção que salva vidas. Nossos achados estabelecem as bases para futuras análises econômicas voltadas à avaliação de tecnologias de saúde existentes e emergentes para IC avançada, com o objetivo final de orientar modelos de cuidado eficazes e financeiramente sustentáveis.

Figura 2
– Proporções dos componentes dos custos para a coorte de pacientes; UTI: unidade de terapia intensiva. Outros procedimentos incluem hemodiálise, transfusão de hemocomponentes, biópsias endomiocárdicas, implante de cardiodesfibrilador implantável e/ou terapia de ressincronização cardíaca, reparo mitral transcateter borda a borda, inserção de cateter venoso central periférico, angioplastia coronariana, cardioversão elétrica externa e implantação de balão intra-aórtico.

Figura 3
– A) Dispersão gráfica do custo total por paciente. B) Proporção de dias de internação por paciente durante o período do estudo. Percentual de dias que os pacientes permaneceram em leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e não UTI durante o acompanhamento.

Agradecimentos

Agradecemos sinceramente o apoio do Departamento Financeiro do Hospital de Clínicas de Porto Alegre na viabilização do acesso aos dados financeiros.

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  • Vinculação acadêmica:
    Este artigo é parte de tese de doutorado de Livia Adams Goldraich pelo Programa de pós-graduação em Cardiologia e Ciência Cardiovascular da UFRGS.
  • Aprovação ética e consentimento informado:
    Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre sob o número de protocolo 2019-0500. Todos os procedimentos envolvidos nesse estudo estão de acordo com a Declaração de Helsinki de 1975, atualizada em 2013.
  • Uso de Inteligência Artificial:
    Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento deste trabalho.
  • Disponibilidade de Dados:
    Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
  • Fontes de financiamento:
    Este estudo foi financiado pela Abbott Laboratories por meio de uma colaboração de pesquisa com a Fundação Médica do Rio Grande do Sul. O patrocinador não teve envolvimento na coleta de dados, nas estratégias de análise ou nas decisões relacionadas à publicação.

Editado por

  • Editor responsável pela revisão:
    Natália Olivetti

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    Nov 2025

Histórico

  • Recebido
    07 Dez 2024
  • Revisado
    24 Abr 2025
  • Aceito
    28 Jul 2025
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