Open-access A Poluição por Partículas Finas é um Fator de Risco Importante para Doenças Cardiovasculares

Palavras-chave
Poluição do Ar; Material Particulado; Doenças Cardiovasculares

Keywords
Air Pollution; Particulate Matter; Cardiovascular Diseases

Palavras-chave
Poluição do Ar; Material Particulado; Doenças Cardiovasculares

Keywords
Air Pollution; Particulate Matter; Cardiovascular Diseases

Nesta edição, Moura et al.1 constataram que a região metropolitana do Rio de Janeiro, RJ, BR, apresenta níveis de poluição atmosférica extremamente elevados e que houve correlação direta entre a poluição atmosférica por MP2,5 (material particulado de 2,5 μm) e maior incidência de doenças cardiovasculares (DCV), especialmente em indivíduos de baixa condição socioeconômica e idosos.

Desde que o Estudo de Framingham enumerou os chamados fatores de risco tradicionais – hipertensão, colesterol LDL alto, colesterol HDL baixo, diabetes, tabagismo, obesidade, estilo de vida sedentário e sexo masculino – um número crescente de fatores de risco tem sido continuamente adicionado a essa lista.2

O conceito de aterosclerose como uma doença inflamatória crônica1 associou todos os fatores de risco ao seu início, crescimento e complicações, como síndrome coronariana crônica e aguda, acidente vascular cerebral e doença vascular periférica.

Tudo começa com a ativação ou inflamação endotelial, resultando na produção e exposição de moléculas de adesão (selectinas, integrinas), molécula de adesão intercelular-1 (ICAM-1) e molécula de adesão plaquetária-endotelial-1 (PECAM-1). Isso é seguido pela migração de monócitos e linfócitos para o espaço subintimal, promovendo a produção de citocinas e quimiocinas, fatores de crescimento e metaloproteinases da matriz (MMPs), além da migração de células musculares lisas vasculares. O processo culmina no crescimento da lesão e em complicações trombóticas por ruptura ou erosão.

Como a poluição do ar medida por MP2,5 é inserida neste cenário?

As MP (partículas sintéticas) são uma mistura complexa de partículas sólidas e matéria gasosa inaladas, com composição variável, desde fontes naturais, como incêndios florestais e tempestades de areia, até fontes antropogênicas, como a combustão de combustíveis fósseis, o transporte e os processos industriais.

As partículas mais perigosas são as de 2,5 micrômetros, pois podem atingir os pulmões, entrar na circulação sanguínea sistêmica e desencadear um processo inflamatório sistêmico.3

O relatório Global Burden of Disease 2019 colocou a poluição do ar na quarta posição de risco para mortalidade por todas as causas, superada apenas por hipertensão, tabagismo e riscos alimentares. Acima de hiperglicemia de jejum, alto índice de massa corporal, colesterol LDL elevado e disfunção renal.4

Uma metanálise de 11 estudos de coorte europeus mostrou um aumento de 13% nos eventos de síndrome coronariana aguda com um aumento de 5 μg/m3 na exposição média anual estimada a MP2,5 e um aumento de 12% nos eventos de síndrome coronariana aguda com um aumento de 10 μg/m3 na exposição média anual estimada a MP10.5

Mesmo a exposição de curto prazo a MP também está associada a uma maior incidência de infarto agudo do miocárdio (IAM), principalmente IAM com supradesnivelamento do segmento ST, e mortalidade relacionada, particularmente em pacientes idosos com doença arterial coronariana preexistente e fatores de risco significativos para DCV.6

Um estudo recente revelou que a razão de risco para todos os eventos cerebrovasculares foi 2,14 vezes maior ao comparar os quartis superior e inferior de MP2,5.7

Além de ser um fator de risco cardiovascular direto, o MP2,5 também é um marcador de outros poluentes atmosféricos, como ozônio, monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e chumbo. Todos estão relacionados à inflamação sistêmica, ao estresse oxidativo e à disfunção endotelial, podendo levar à aterosclerose.

Além do potencial aterosclerótico, as MP2,5 atuam sobre os fatores de risco tradicionais, aumentando seu poder aterogênico.

A qualidade do ar em ambientes internos e externos, incluindo o ar no local de trabalho, é um problema de saúde pública, e medidas rigorosas devem ser tomadas para seu controle, visando uma melhor assistência e contribuindo para uma abordagem mais completa da saúde.

  • Minieditorial referente ao artigo:
    Impacto da Poluição do Ar por MP2,5 na Mortalidade por Doenças do Aparelho Circulatório nos Bairros do Município do Rio de Janeiro (2000-2019)

Referências

  • 1 Moura PH, Carvalho LDG, Godoy PH. Impact of PM2.5 Air Pollution on Mortality from Circulatory System Diseases in the Neighborhoods of the City of Rio de Janeiro (2000-2019). Arq Bras Cardiol. 2026; 123(1):e20250459. doi: 10.36660/abc.20250459.
    » https://doi.org/10.36660/abc.20250459
  • 2 Ross R. Atherosclerosis--An Inflammatory Disease. N Engl J Med. 1999;340(2):115-26. doi: 10.1056/NEJM199901143400207.
    » https://doi.org/10.1056/NEJM199901143400207
  • 3 Bevan GH, Al-Kindi SG, Brook RD, Münzel T, Rajagopalan S. Ambient Air Pollution and Atherosclerosis: Insights Into Dose, Time, and Mechanisms. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2021;41(2):628-37. doi: 10.1161/ATVBAHA.120.315219.
    » https://doi.org/10.1161/ATVBAHA.120.315219
  • 4 GBD 2019 Risk Factors Collaborators. Global Burden of 87 Risk Factors in 204 Countries and Territories, 1990-2019: A Systematic Analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet. 2020;396(10258):1223-49. doi: 10.1016/S0140-6736(20)30752-2.
    » https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)30752-2
  • 5 Cesaroni G, Forastiere F, Stafoggia M, Andersen ZJ, Badaloni C, Beelen R, et al. Long Term Exposure to Ambient Air Pollution and Incidence of Acute Coronary Events: Prospective Cohort Study and Meta-Analysis in 11 European cohorts from the ESCAPE Project. BMJ. 2014;348:f7412. doi: 10.1136/bmj.f7412.
    » https://doi.org/10.1136/bmj.f7412
  • 6 Cai X, Li Z, Scott EM, Li X, Tang M. Short-Term Effects of Atmospheric Particulate matter on Myocardial Infarction: A Cumulative Meta-Analysis. Environ Sci Pollut Res Int. 2016;23(7):6139-48. doi: 10.1007/s11356-016-6186-3.
    » https://doi.org/10.1007/s11356-016-6186-3
  • 7 Bo Y, Zhu Y, Zhang X, Chang H, Zhang J, Lao XQ, et al. Spatiotemporal Trends of Stroke Burden Attributable to Ambient PM2.5 in 204 Countries and Territories, 1990-2019: A Global Analysis. Neurology. 2023;101(7):e764-e776. doi: 10.1212/WNL.0000000000207503.
    » https://doi.org/10.1212/WNL.0000000000207503

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    Jan 2026

Histórico

  • Recebido
    04 Jan 2026
  • Revisado
    06 Jan 2026
  • Aceito
    06 Jan 2026
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