Open-access Da Artéria Coronária ao Rim: Redefinindo os Objetivos da Intervenção Coronária Percutânea Otimizada por Imagem Intracoronária

Palavras-chave
Ultrassom Intracoronário; Angioplastia Complexa; Nefropatia Induzida pelo Contraste

Keywords
Intracoronary Ultrasound; Complex Angioplasty; Contrast-Induced Nephropathy

Palavras-chave
Ultrassom Intracoronário; Angioplastia Complexa; Nefropatia Induzida pelo Contraste

Keywords
Intracoronary Ultrasound; Complex Angioplasty; Contrast-Induced Nephropathy

A nefropatia associada ao contraste tem sido tratada há muito tempo como uma situação aceitável na cardiologia intervencionista — uma complicação reconhecida, mas raramente priorizada. Por décadas, a área conviveu com a realidade incômoda de que um procedimento cardíaco tecnicamente impecável pode deixar o paciente com uma função mensuravelmente pior em outro órgão — o rim — às vezes de forma permanente. Atualmente, com o diabetes, a hipertensão e a doença renal crônica (DRC) atingindo níveis "pandêmicos", essa resignação não é mais defensável. O determinante modificável mais direto dessa lesão — o volume de contraste — agora pode ser controlado, e o ultrassom intravascular (IVUS) está no centro dessa solução.1

A utilização do IVUS em intervenções coronárias complexas está bem estabelecida. Ele redefine a forma como dimensionamos stents, avaliamos a expansão e identificamos subexpansão, má aposição, dissecções de borda e carga residual de placa.2 Mas seu valor vai além dos aspectos técnicos da complexidade da lesão: nas mãos certas e com intenção deliberada, o IVUS transforma o mesmo procedimento em um procedimento substancialmente mais conservador para os rins. A ferramenta que otimiza a angioplastia coronária pode, simultaneamente, proteger os rins — desde que optemos por utilizá-la dessa forma.

A base de evidências que sustenta essa dupla função amadureceu consideravelmente. O uso rotineiro de IVUS para guiar angioplastias coronárias é consistentemente empregado para reduzir eventos clínicos em cenários de alta complexidade — doença da Tronco da artéria coronária esquerda, bifurcações, lesões longas, oclusões totais crônicas e síndromes coronárias agudas.3,4 Dados paralelos de estudos de redução de volume de contraste confirmam que o volume de contraste pode ser drasticamente reduzido sem comprometer os resultados intervencionistas, mesmo em pacientes com insuficiência renal significativa.5 Enquanto isso, as consequências da lesão renal associada ao contraste não são mais meramente bioquímicas: elas se traduzem em maior mortalidade, hospitalizações mais frequentes, maior necessidade de terapia de substituição renal e custos substanciais — mesmo quando as elevações de creatinina parecem modestas.68 A implicação lógica é difícil de ignorar: continuar expondo pacientes de alto risco a grandes volumes de contraste, quando técnicas de redução do contraste estão disponíveis — e quando a IVUS pode amplificar substancialmente essas reduções — vai além de uma mera escolha técnica e se torna uma questão de responsabilidade profissional. Notavelmente, dados do mundo real do registro DISTRACTION demonstram que essa estratégia é viável como uma abordagem padrão para todos os pacientes — incluindo pacientes com IAMCSSST, choque cardiogênico e DRC — atingindo uma taxa de lesão renal aguda associada ao contraste (LRA-AC) de 1,1% em 4.328 procedimentos consecutivos, mesmo sem orientação IVUS obrigatória devido a restrições do sistema público de saúde.9,10

A experiência de centros que realizam intervenção coronária percutânea com contraste mínimo ou nulo em pacientes com DRC avançada confirma a viabilidade dessa abordagem. Os fios-guia podem ser posicionados, as lesões preparadas e os stents implantados e otimizados sob fluoroscopia e imagem intracoronária, com o contraste sendo usado apenas seletivamente — ou omitido completamente — sem comprometer a segurança ou a eficácia.1,7,8 Não há atalhos. É necessário domínio avançado do IVUS, planejamento pré-procedimento rigoroso, uma equipe coordenada, protocolos explícitos de conservação de contraste e uma verdadeira mudança cultural na concepção do procedimento desde o início. Metas predefinidas de volume de contraste, registro sistemático das taxas de depuração de contraste/creatinina, disciplina na limitação das angiografias e uso criterioso do mapeamento dinâmico são partes da infraestrutura operacional necessária.

As diretrizes internacionais de revascularização já recomendam o IVUS em cenários de maior complexidade e reconhecem seu impacto nos desfechos clínicos.9 Documentos de consenso mais recentes enfatizam estratégias estruturadas para prevenir a lesão renal associada ao contraste, incluindo a limitação do volume de contraste, protocolos de hidratação, seleção do agente de contraste e uso seletivo de imagens intracoronárias.9 No Brasil, as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia têm incorporado progressivamente essa perspectiva, porém ainda persiste uma lacuna entre as recomendações e a prática clínica rotineira.

Os autores do artigo "Intervenção Coronária Percutânea com Volume de Contraste Ultrabaixo versus Intervenção Coronária Percutânea Convencional em Pacientes com Insuficiência Renal Pré-Existente: Uma Revisão Sistemática e Metanálise de Desfechos Clínicos"11 devem ser parabenizados pelo artigo publicado nesta edição da ABC. Sua contribuição é extremamente bem executada, meticulosamente escrita e transmite a mensagem clara de que a intervenção coronária percutânea com ultrabaixo contraste é "segura, viável e associada a uma redução estatisticamente significativa da lesão renal aguda induzida por contraste". No entanto, essa estimativa deve ser interpretada com cautela, dada a substancial heterogeneidade entre os estudos (I² = 96,7%), o que limita a interpretabilidade de qualquer tamanho de efeito agrupado. Essa descoberta, contudo, precisa ser contextualizada. A LRA-AC é um critério de avaliação substituto. Desfechos clínicos relevantes, como mortalidade, necessidade de diálise e eventos cardiovasculares adversos maiores (MACE), não atingiram significância estatística, com intervalos de confiança muito amplos para permitir quaisquer conclusões. Além disso, o desfecho composto de MACE não foi decomposto em seus componentes individuais, o que impede a identificação de qual elemento, se houver, impulsiona a tendência observada. Ademais, a metarregressão que relata R² = 100% com seis estudos (quatro graus de liberdade residuais) representa um artefato matemático, e não uma descoberta explicativa robusta. Essas limitações são intrínsecas e esperadas em uma área onde as evidências randomizadas ainda são escassas.

E a mensagem chega em um momento relevante: reforça caminhos concretos e viáveis para uma cardiologia intervencionista que leva a sério o risco renal sem abrir mão da qualidade técnica.

O desafio que temos pela frente não é apenas clínico, mas também estrutural: traduzir o conhecimento em compromisso institucional, tornar a lesão renal associada ao contraste um alvo explícito de prevenção em todos os laboratórios de cateterismo e defender políticas que promovam esses objetivos. Tecnologias ao alcance de todo o sistema de saúde.

  • Minieditorial referente ao artigo:
    Intervenção Coronária Percutânea com Volume de Contraste Ultrabaixo versus Intervenção Coronária Percutânea Convencional em Pacientes com Insuficiência Renal Pré-Existente: Uma Revisão Sistemática e Metanálise de Desfechos Clínicos

Referências

  • 1 Mariani J Jr, Guedes C, Soares P, Zalc S, Campos CM, Lopes AC, et al. Intravascular Ultrasound Guidance to Minimize the Use of Iodine Contrast in Percutaneous Coronary Intervention: The MOZART Randomized Controlled Trial. JACC Cardiovasc Interv. 2014;7(11):1287-93. doi: 10.1016/j.jcin.2014.05.024.
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  • 4 Zhang J, Gao X, Kan J, Ge Z, Han L, Lu S, et al. Intravascular Ultrasound versus Angiography-Guided Drug-Eluting Stent Implantation: The ULTIMATE Trial. J Am Coll Cardiol. 2018;72(24):3126-37. doi: 10.1016/j.jacc.2018.09.013.
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  • 6 Tsai TT, Patel UD, Chang TI, Kennedy KF, Masoudi FA, Matheny ME, et al. Contemporary Incidence, Predictors, and Outcomes of Acute Kidney Injury in Patients Undergoing Percutaneous Coronary Interventions: Insights from the NCDR Cath-PCI Registry. JACC Cardiovasc Interv. 2014;7(1):1-9. doi: 10.1016/j.jcin.2013.06.016.
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  • 9 SCAI Expert Consensus Statement on preventing contrast-associated acute kidney injury. Catheter Cardiovasc Interv. 2021;98(2):E1-E18.
  • 10 Oliveira MD, Caixeta A. Ultra-Low Contrast Strategy for Routine Coronary Procedures via Distal Transradial Access: Real-World Experience with Consecutive All-Comers Patients from the DISTRACTION Registry. J Invasive Cardiol. 2025;37(4). doi: 10.25270/jic/24.00276.
    » https://doi.org/10.25270/jic/24.00276
  • 11 Oliveira MD, Suruagy-Motta RFO, Silva LD, Santos KDA, Caixeta A. Ultra-Low Contrast versus Conventional Percutaneous Coronary Intervention for Patients with Baseline Renal Impairment: A Systematic Review and Meta-Analysis of Clinical Outcomes. Arq Bras Cardiol. 2026; 123(4):e20250660. DOI: https://doi.org/10.36660/abc.20250660i
    » https://doi.org/10.36660/abc.20250660i

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Abr 2026
  • Revisado
    29 Abr 2026
  • Aceito
    29 Abr 2026
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