Espiritualidade; Religião e Medicina; Pressão Arterial; Hemodinâmica; Endotélio/fisiologia; Valores Sociais; Valor da Vida; Qualidade de Vida
Spirituality; Religion and Medicine; Blood Pressure; Hemodynamic; Endothelium/physiology; Social Values; Value of Life; Quality of Life
Espiritualidade; Religião e Medicina; Pressão Arterial; Hemodinâmica; Endotélio/fisiologia; Valores Sociais; Valor da Vida; Qualidade de Vida
Spirituality; Religion and Medicine; Blood Pressure; Hemodynamic; Endothelium/physiology; Social Values; Value of Life; Quality of Life
“ Science is not only compatible with spirituality; it is a profound source of spirituality. ”
Carl Sagan
Introdução
Espiritualidade 1 e religiosidade (E/R) são aspectos culturais presentes desde os primórdios da existência humana. Vistas por muito tempo como opostas à ciência, apenas recentemente, E/R ganharam relevância no âmbito da saúde. 1
As definições de E/R estão em evolução constante, de acordo com as necessidades de adequação a novos conhecimentos. Religião tem sido relacionada, contemporaneamente, com aspectos organizacionais, institucionais e dogmáticos, ou seja, o contato com a deidade acontece por meio de formatos pré-determinados e específicos para cada segmento religioso. 2 Espiritualidade, termo mais amplo, engloba a busca pelo bem-estar pessoal, psicológico, espiritual e nas relações pessoais. Para o Departamento de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (DEMCA) da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), “espiritualidade é um conjunto de valores morais, mentais e emocionais que norteiam pensamentos, comportamentos e atitudes nas circunstâncias da vida de relacionamento intra e interpessoal”. 3
A hipertensão arterial (HA) é doença de elevada prevalência e principal fator de risco para outras doenças cardiovasculares, 4 o que a torna a principal causa direta e indireta de mortalidade em todo o planeta. 5 Por ser uma doença multifatorial, seu tratamento contempla medidas farmacológicas e não farmacológicas, 6 que incluem medidas voltadas para o bem-estar físico e mental. 7 , 8
Práticas que busquem o bem-estar espiritual, aliadas ou não à religiosidade, tem sido relacionadas ao bom controle de muitas doenças, 9 além de redução de mortalidade em diversas situações. 10 Existem evidências da associação entre E/R e desfechos positivos em cardiologia, tais como Doença Arterial Coronariana (DAC), 11 Insuficiência Cardíaca (IC) 12 e HA. 13 , 14
Estudos sobre E/R são ainda incipientes, e a maioria observacionais. Em conjunto, E/R foram associadas a melhores hábitos de vida (menos sedentarismo, etilismo ou tabagismo), 15 menores valores pressóricos, menor risco de HA 16 e melhor adesão terapêutica. 17 Bem-estar espiritual isoladamente pode ser um fator cardioprotetor, por estar relacionado a menores níveis de pressão arterial (PA), glicemia, triglicérides e LDL colesterol. 18 Por outro lado, um estudo observou maior probabilidade de HA associada à maior frequência de orações, mas menor probabilidade de HA associada a variáveis de propósito e perdão. 19
Diante disso, torna-se relevante avaliar o efeito de uma intervenção voltada para o bem-estar espiritual no controle pressórico e de outros parâmetros hemodinâmicos. Este artigo descreve o método de um ensaio clínico para avaliar uma intervenção em espiritualidade sobre a PA periférica e central (PAC), parâmetros de rigidez arterial e função endotelial, em hipertensos estágios 1 e 2 de baixo ou moderado risco cardiovascular antes e após 12 semanas de seguimento dentro de cada grupo (controle [GC] e intervenção [GI]) e entre os grupos.
Métodos
Tipo e local do estudo
Ensaio clínico randomizado de não inferioridade cuja coleta de dados será realizada na Liga de Hipertensão Arterial da Universidade Federal de Goiás (UFG) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O protocolo será devidamente cadastrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC).
População, amostra e amostragem
A população do estudo será composta por adultos hipertensos (estágio 1 ou 2) com risco cardiovascular baixo e moderado, em uso estável de medicação anti-hipertensiva há mais de trinta dias, avaliada por medidas pressóricas da última consulta.
A amostra foi calculada utilizando o OpenEpi. Foi considerada uma pressão arterial sistólica (PAS) no GI de 130,9 ± 9,2 e no GC de 135,81 ± 9,3 mmHg, 20 com intervalo de confiança de 95% e poder de teste de 80% com 54 participantes em cada grupo.
Serão excluídos hipertensos estágio 3 [PAS ≥ 180 mmHg e/ou PA Diastólica (PAD) ≥ 110 mmHg].
Após a inclusão, serão retirados aqueles que se recusarem a realizar qualquer procedimento e/ou apresentarem elevação pressórica durante o seguimento que impossibilite manter a conduta proposta sem alteração da medicação.
Recrutamento e randomização dos pacientes do estudo
As equipes envolvidas se reunirão para apresentação, discussão do projeto e treinamento para execução rigorosa do protocolo e uniformização na abordagem aos pacientes, com vistas a garantir rigor metodológico.
Os pacientes serão selecionados pelo último registro da PA em prontuário, verificando o estágio de HA e o risco cardiovascular em que se encontram e serão convidados a participarem no estudo por meio de ligação telefônica. Aqueles que aceitarem participar, serão chamados para a visita inicial.
Visita inicial (V0)
Os participantes serão randomizados no site www.randomizer. org para um dos dois grupos.
Todos receberão orientações relacionadas a hábitos de vida saudáveis e serão submetidos à anamnese, exame clínico e entrevista para preenchimento de quatro questionários: Durel, 21 , 22 predisposição ao perdão, 23 escala de gratidão 24 e escala de bem-estar espiritual. 25 Todo processo será feito por pesquisadores previamente treinados, que utilizarão um roteiro padronizado, de forma a uniformizar a consulta e as orientações.
Além disso, será aferida PA casual por método oscilométrico com aparelho Dyna- MAPA AOP (Cardios, Brasil), que fornece valores de PA periférica e central (PAC), velocidade de onda de pulso (VOP) obtida por algoritmo e equação matemática ARC SOLVER e expressa em metros/segundo, e Augmentation Index corrigido para 75% da frequência cardíaca (AIx). 26 , 27 PA periférica será obtida conforme recomendação da Diretriz Brasileira de HA 2020. 8
A Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) será executada com aparelho Dyna-MAPA (Cardios, Brasil), seguindo as recomendações da mais recente Diretriz Brasileira de MAPA. 28 A dilatação fluxo-mediada (DFM) será realizada em aparelho de ultrassom de alta resolução automatizado e com braço robótico para a precisa localização e medida da artéria braquial (UNEX EF 38G), de acordo com a técnica de Celermajer et al., 29 preconizada pela International Brachial Artery Reactivity Task Force. 30 , 31 A DFM é o atual padrão ouro para avaliar função endotelial; o endotélio saudável apresenta FMD > 10%, e valores abaixo a esse são preditivos de maior risco cardiovascular. 32
Visita intermediária (V1)
A V1 ocorrerá seis semanas após V0 por ligação telefônica para todos, com o intuito de avaliar o bem-estar individual e estimular o seguimento ativo na realização da intervenção para aqueles do GI, esclarecendo a importância da execução diária da atividade proposta e o questionamento sobre possíveis fatores que possam limitar o acesso ou a compreensão. Pacientes com níveis pressóricos acima de 180/110 mmHg ou com sintomas como dor precordial ou cefaleia intensa terão consultas presenciais agendadas.
Visita final (V2)
A V2 será feita para ambos os grupos ao final do treinamento proposto, com janela aceitável de ± três dias. Todos serão submetidos aos mesmos procedimentos de V0.
Grupo intervenção
A intervenção terá início na manhã seguinte à finalização de V0, com duração de 12 semanas. Esse tempo de seguimento foi utilizado em estudos com intervenções não medicamentosas em hipertensos, e demonstrou ser suficiente para obter mudanças nos valores pressóricos. 33 , 34 A intervenção consistirá em uma sequência de vídeos previamente gravados, mensagens, tarefas curtas relacionadas ao tema do vídeo e dias de folga ( Tabela 1 ). Serão abordados assuntos ligados à espiritualidade, como perdão, gratidão, otimismo, propósito de vida e bem-estar espiritual. O conteúdo será disponibilizado diariamente em um aplicativo para smartphone, que registrará as atividades realizadas por cada participante.
Serão considerados participantes com adesão satisfatória à intervenção aqueles que realizarem pelo menos 75% das tarefas propostas.
Grupo controle
O GC será acompanhado nos serviços dentro da mesma periodicidade definida para o GI. Se observamos resultados superiores no GI, o GC receberá o mesmo tratamento após a conclusão do estudo.
Análise dos dados
Os dados coletados serão analisados com a utilização do Software Stata 14.0. As variáveis qualitativas serão apresentadas com média e desvio padrão e as quantitativas com média e desvio padrão ou mediana e intervalo interquartil.
A distribuição dos dados das variáveis será verificada quanto à normalidade com o teste de Kolmogorov Smirnov. Serão aplicados testes de acordo com a normalidade dos dados para a avaliação entre os grupos (intervenção e controle) e intra-grupo (antes e depois) para cada um deles. Se o caso, será realizada a análise “intention-to-treat”, e somente com pacientes que completaram o protocolo do estudo.
O desfecho primário do estudo será a pressão arterial sistólica periférica e os desfechos secundários serão: a PASc, a VOP, a PAS média e a DFM.
Aspectos éticos
O projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da UFG.
Conclusão
Esta pesquisa buscará compreender o efeito de uma intervenção do estímulo e treinamento para a busca do bem-estar espiritual por meio da propensão ao perdão, otimismo, gratidão e propósito de vida no comportamento da pressão arterial.
O estudo poderá impactar positivamente a prática clínica ao trazer embasamento para uma abordagem não farmacológica para o tratamento da HA além de ser, em nosso conhecimento, um dos primeiros ensaios clínicos com esse desenho.
Referências
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Vinculação acadêmicaEste artigo é parte de tese de doutorado de Maria Emília Figueiredo Teixeira pela Liga de hipertensão arterial da Universidade Federal de Goiás.
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Fontes de financiamento: O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.
