Open-access Saúde Digital – Ferramenta de Empoderamento e Igualdade de Gênero?

Palavras-chave
Tecnologias Digitais; Saúde Digital; FemTech

Keywords
Digital Technology; Digital Health; FemTech

Palavras-chave
Tecnologias Digitais; Saúde Digital; FemTech

Keywords
Digital Technology; Digital Health; FemTech

Nos últimos anos, o avanço das tecnologias digitais (TD) revolucionou diversos setores, e a saúde não é uma exceção. Ferramentas digitais como aplicativos de monitoramento, plataformas de telemedicina e até o uso de wearables permitem que indivíduos sejam protagonistas do seu autocuidado.1

Para as mulheres, essas inovações tecnológicas oferecem um potencial particularmente transformador, contribuindo para a superação de barreiras históricas no acesso aos cuidados de saúde, agora na palma da mão, e para promoção da sua saúde e prevenção do agravamento de doenças. O recente relatório da Organização Mundial da Saúde destaca que estas ferramentas podem melhorar as informações essenciais e o acesso a serviços vitais de saúde, e apoiar a saúde materna, promovendo assim a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres na gestão da sua saúde, especialmente em regiões onde o acesso pode ser limitado devido a barreiras socioeconômicas ou culturais.2

A crescente digitalização da assistência médica apresenta uma oportunidade única para preencher essas lacunas, com o desenvolvimento de ferramentas digitais adaptadas às necessidades das mulheres, denominadas de "FemTech" (female technology). No entanto, embora tenham um potencial de preencher várias lacunas no que tange tanto os determinantes sociais em saúde, quanto a prevenção primária e secundária,1 melhorando a autogestão em saúde, encontramos barreiras significativas para sua implementação, especialmente pelos fatores socioeconômicos, e o desafio do letramento digital para a plena adoção da saúde digital (SD) com mobilidade.2

O mercado de FemTech mostrou crescimento significativo nos últimos anos. Em 2019, a indústria gerou aproximadamente 820 milhões de dólares em receita global e atraiu 592 milhões de dólares em investimentos. As projeções indicam que o mercado pode alcançar US$ 1,1 bilhão em 2024, refletindo um crescente interesse em atender as demandas femininas.3

No contexto da saúde feminina, as TD vão além de facilitar o acesso a serviços médicos. São ferramentas que oferecem oportunidades ímpares de empoderamento, bem como do estabelecimento de redes de apoio no cuidado e orientação em saúde, inclusive com outros países. Aumentam a autonomia das mulheres, melhorando sua capacidade de tomada de decisão, facilitando práticas de autocuidado e sistemas de automonitoramento personalizados, incluindo o acesso facilitado a programas de triagem, mudanças de estilo de vida e maior envolvimento no domínio de saúde pessoal. Assim, permitem que a mulher tome decisões mais conscientes sobre saúde, desde o planejamento familiar até a gestão de condições crônicas, passando pelo gerenciamento emocional e financeiro.2

A SD também tem o potencial de mitigar desigualdades regionais e socioeconômicas que historicamente impactam negativamente a saúde das mulheres. No Brasil, onde uma significativa parcela da população enfrenta dificuldades no acesso a cuidados de saúde, as ferramentas digitais se destacam como soluções eficazes e de relativo baixo custo pelo acesso por dispositivos móveis já utilizados em diferentes classes sociais. Exemplos disso são o atendimento médico ou multiprofissional remoto e oriundo de grandes instituições de ensino e serviço de excelência dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, especialmente relevantes em áreas remotas ou marginalizadas, onde podem facilitar o acesso a cuidados de saúde essenciais, como consultas pré-natais e controle de doenças crônicas.4 Ademais, as ferramentas como a incorporação da Inteligência Artificial (IA) nos processos, os prontuários eletrônicos e o rastreio digital de dados de saúde permitem que os sistemas de saúde identifiquem padrões populacionais e implementem intervenções mais eficazes e direcionadas, com foco na equidade de gênero.

O uso de TD mostrou grande inovação na prevenção e diagnóstico precoce de doenças que afetam particularmente as mulheres, como o câncer de mama e de colo do útero. Ferramentas de IA e Machine Learning são capazes de analisar grandes volumes de dados para identificar sinais precoces de doenças, com uma precisão cada vez maior.5 Adicionalmente, os aplicativos de meditação, plataformas de suporte psicológico e ferramentas de mindfulness são cada vez mais acessíveis, ajudando mulheres a lidarem com o estresse, ansiedade, depressão e questões relacionadas ao bem-estar que impactam na saúde mental e cardiovascular.

No cenário de saúde do Brasil, as TD têm um papel crucial na expansão do acesso e na melhoria da qualidade da atenção primária à saúde da mulher. Se integradas aos serviços básicos de saúde, podem ajudar a superar desafios estruturais e promover a equidade no cuidado em diferentes especialidades médicas. Algumas evidências sugerem que as consultas mais direcionadas ao problema da mulher melhoram a promoção da saúde, a capacitação do paciente para o automonitoramento, a qualidade da manutenção de registro, além de ser um facilitador de diagnósticos mais precisos.6

Embora as TD ofereçam inúmeras oportunidades, a privacidade, a segurança e a confidencialidade dos dados das usuárias devem ser garantidas de acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados, de forma a proteger informações sensíveis.7-9

Outro ponto a se considerar são as barreiras na implementação relacionadas à parte estrutural (a Estratégia de Governo Digital está em franca implementação e o Programa SUS Digital Brasil teve a adesão de 100% dos municípios), falta de capacitação profissional (letramento digital do profissionais e trabalhadores do SUS), falta de integração entre sistemas de saúde (em processo de implementação pela Rede Nacional de Dados em Saúde do SUS), custo operacional, e as barreiras relacionadas aos próprios pacientes (baixa educação em saúde, desigualdade socioeconômica, resistência cultural e social, falta de conhecimento claro sobre os benefícios da SD e letramento digital). Consolidar o processo de implementação como uma etapa sequencial e contínua da gestão de tecnologias é uma ação necessária para transpor essas barreiras.10

No horizonte da SD, tecnologias emergentes como a realidade aumentada e a realidade virtual têm potencial para mudar a forma como as mulheres interagem com os cuidados de saúde. Essas ferramentas podem ser usadas, por exemplo, para simulações de procedimentos médicos, treinamentos em saúde sexual e reprodutiva, ou até mesmo como suporte terapêutico em tratamentos de saúde mental.1,2

Desse modo, as TD apresentam um enorme potencial para revolucionar a saúde da mulher, promovendo acesso, equidade de gênero e empoderamento. A Figura 1 destaca o impacto potencial do mercado "FemTech", com suas vantagens e desafios. No entanto, para que as TD atinjam seu potencial pleno na saúde da mulher, é necessário coordenar esforços que envolvam academia, governo, instituições de saúde, profissionais e população em geral 11 para vencer as barreiras culturais, de infraestrutura e de educação digital, permitindo acesso a todas as mulheres, independente de sua localização geográfica ou condição socioeconômica.

Figura 1
FemTech e seu impacto potencial na saúde da mulher.12,13

Na Figura 2 mostramos os gaps relacionados à atenção primária no Brasil e propomos uma solução digital que pode impactar positivamente na saúde cardiovascular da mulher.

Figura 2
Proposta de solução digital para a saúde cardiovascular feminina no Brasil;14 CV: cardiovascular; DCV: doenças cardiovasculares.

Acreditamos que o futuro da saúde da mulher é digital, e o Brasil tem potencial para liderar essa transformação.

Referências

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  • 13 FemTechs Brasil. Estatísticas [Internet]. São Paulo: FemTechs Brasil; 2024 [cited 2024 Oct 29]. Available from: https://www.femtechsbrasil.com.br/
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    05 Nov 2024
  • Revisado
    06 Nov 2024
  • Aceito
    06 Nov 2024
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